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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana temos sugestões para todos os gostos e sensibilidades e, no fundo, para quem só gosta de ler um bom livro.

Alan Moore: O feiticeiro da BD


Alan Moore é um bruxo, autor e criador inglês, conhecido por obras que revolucionaram a BD, que criaram um antes e um depois (não me enganei, ele é mesmo bruxo). O escritor entrou na BD americana em 1983 pela porta da editora DC Comics e especificamente pelo título de terror Swamp Thing, na altura moribundo. O autor já possuía uma carreira profícua do outro lado do Atlântico, trabalhando para revistas de BD inglesas como a Warrior e a 2000 AD, ou em personagens como Captain Britain (da Marvel), Judge Dread e Miracleman. É nesta última que o génio de Moore começa a ascender ao Olimpo. É com Miracleman que a profunda modificação que afectará ao arquétipo do super-herói se inicia - há quem diga (sou um deles) que já é de tal forma sólida que pouco mais é acrescentado nas obras posteriores. Em Portugal, irá em breve ser publicada na íntegra num fabuloso e único volume pela editora G.Floy (é mais do que essencial... é Histórico). 

Na revista Warrior publicaria V For Vendetta (editado recentemente na colecção Novelas Gráficas II), uma análise Orwelliana do Reino Unido da era Thatcher que ajudaria a cimentar a sua reputação internacional como autor. Esta obra é considerada como um dos grandes momentos de Moore, conseguindo trazê-lo para a esfera do literário e capaz de agradar mesmo a aqueles não familiarizados com a narrativa da BD.


A entrada de Moore nos EUA é um testamento à sua capacidade de escrita e um digno percursor do que viria a acontecer. Seguindo o que já havia conseguido em Miracleman, em apenas 22 páginas da revista Swamp Thing consegue, de forma sucinta, tornar o personagem seu, reestruturando a essência do mesmo, anunciar um estilo idiossincrático de escrita e, em perfeita sintonia com o desenhista John Totleben (com quem tinha trabalhado em, sim, Miracleman), criar uma história de terror que foi muito para lá da intenção, inscrevendo-se no cânone como um relato que consegue tirar verdadeiro partido do género. Alan Moore tornou-se tão associado à personagem que, até hoje, os criadores que o sucederam ou lhe seguiram as pegadas ou, ao tentar superá-las, falharam redondamente. Se por acaso tivesse decidido ficar-se por aqui, já teria contribuído o suficiente para o avanço da arte, mas o que se lhe seguiu superou em muito as expectativas.

Tendo em consideração o sucesso e talento de Moore, a DC não só deu-lhe oportunidade para escrever alguns dos personagens mais sonantes da sua galeria ficcional (Super-Homem, por exemplo), como também deu carta-branca para recriar outras recém-adquiridos à falida editora Charlton. Essa recriação iria resultar na mais importante BD produzida na década de 80 e provavelmente aquela que mais reconhecimento açambarcou fora deste meio: Watchmen. Em 12 capítulos e junto com o desenhista Dave Gibbons, o autor cria uma narrativa multifacetada, onde não só reflecte sobre o papel dos super-heróis num professo “mundo real”, como também consegue projectar parte das ambições, medos e ansiedades do mundo da altura na tapeçaria que ambicionou tecer. Mas a metáfora não se limita ao tempo em que saiu (1986) nem tampouco ao universo hermético dos super-heróis. A reflexão estende-se ao panorama geopolítico e é alicerçada na psique e desejo humanos. Formalmente, Watchmen assenta numa perfeita simetria (existe mesmo um capítulo assim chamado), técnica e formato construídos de maneira excepcional e inédita na BD americana. A revista Time elegeu-a como umas das 100 obras maiores do século XX e foi recentemente lançada pela editora Levoir.


Moore ainda produziria mais uma marcante obra para a DC, Batman the Killing Joke, onde reinterpreta a loucura e a relação do herói com o seu maior inimigo, o Joker, mas diferenças criativas com os patrões da editora acabariam por ditar o fim da relação que, de futuro, seria sempre crispada. Aliás, um apanágio deste autor é a sua difícil ligação com a vertente económico-financeira do mundo editorial que, a seu ver, canibaliza a criação em função do lucro imediato, um desrespeito que sentiu na pele vezes sem conta, não só pelo lado da BD (a DC, por exemplo, decidiu recentemente criar prequelas dos Watchmen, em contracorrente com a opinião de Moore), como também nas adaptações cinematográficas que algumas das suas obras sofreram (sofrer é uma palavra mais que apropriada). 

As duas décadas que se seguiram fizeram a anterior parecer como uma pequena introdução ao trabalho do autor/criador/bruxo. Em 1993, Moore afirma-se como um mágico cerimonial, seguindo, entre outros, os preceitos da Cabala e do ocultista Aleister Crowley, e esta viragem na vida criadora do autor levou-o para a produção de obras cada vez mais geniais, algumas verdadeiramente reveladoras. Deste poço de criatividade sairiam importantes pedaços de literatura gráfica como From Hell (onde obstinadamente recria a mitologia de Jack o Estripador), a pornografia artística de Lost Girls (aqui relatando as aventuras sexuais de conhecidos personagens de contos de fada) ou League of Extrordinary Gentlemen (em que Moore reinterpreta alguns famosos personagens da literatura como membros de uma equipa governamental de super seres e que tem sido publicada em Portugal pela Devir).



No meio de obras pessoais ainda tem tempo para produzir outras mainstream, especificamente a criação de um universo de super-heróis para a editora Wildstorm. Entre várias destacamos duas: Top 10 e Promethea. Enquanto a primeira está virada para o puro entretenimento, misturando super-heróis e a série de TV Balada de Hill Street, a segunda é uma viagem metafísica e filosófica, onde verte todas as suas inclinações cabalísticas e esotéricas numa obra de 32 capítulos (pelos vistos um número místico), magistralmente desenhada e pintada por J. H. Williams III. 

Como referido, algumas das obras deste autor foram passadas para cinema, com graus de sucesso e qualidade subjectivos para nós, espectadores, mas todas excomungadas pelo seu criador que, inclusive, recusou-se a receber qualquer recompensa financeira ou a ver o nome inscrito nos créditos. Foram elas Watchmen, V for Vendeta (escrita nos anos ingleses de Moore), From Hell e League of Extrordinary Gentlemen. Objectivamente, nenhuma passou perto da genialidade da escrita de Moore ou da arte onde foram originalmente produzidas, mas From Hell e League of Extrordinary Gentlemen, especificamente, ficam para a história como tendo sido violações à intenção e espírito das obras que, muito sinceramente, nem se deram ao trabalho de emular.

Muito mais há a dizer acerca deste autor e esta pequena nota não pretende ser nada mais do que isso. Futuramente, iremos aqui dissecar e apresentar melhor algumas das mais importantes obras de Alan Moore. Até lá, façam-se um favor e não vejam o filme Watchmen, leiam a BD. 

Miracleman - Olympus de Alan Moore e John Totleben

Esta semana, um actor com fortes credenciais geek, Simon Pegg, veio criticar a excesso de infantilização do Cinema, com os seus super-heróis e os seus franchises (leiam o artigo que é francamente interessante e, apesar de estar a falar um pouco contra mim, cheio de verdades). De facto, existe um apelo forte às gerações das décadas de 70 e 80 para recuperar a sensação dos brinquedos e dos livros que nos davam prazer na infância, uma busca hedonista de um período para sempre mais feliz (?). Um período com o qual, para muitos, é impossível competir. Não deveria, vou ser claro. Como para outros que partilham comigo o amor à Banda Desenhada e a tantas outras coisas que nos são caras, esse amor não deveria ofuscar a busca por narrativas complementares diferentes, que nos fazem sair do cobertor confortável. Deveremos defender sempre a nossa dama, claro, mas não às expensas de outras buscas.

Ora, esta procura da reprodução de quando éramos putos não é de todo descabida. Bem vistas as coisas, é qualquer coisa como uma droga que activa os centros de prazer certos, uma injecção de dopamina. Mas não tenhamos dúvidas que é muito difícil atingir este Nirvana, este El Dorado, este cobertor maternal. Que conjugação caótica de elementos e circunstâncias têm de ser conseguidos para aqui chegar? Que acaso e azar tem de ser orquestrado? Eu digo-vos o que tem sido para mim: Miracleman de Alan Moore. Que prazer imenso, que hedonismo puro, que abandono emocional e intelectual.  E, ainda por cima, vindo de um livro publicado há mais de 30 anos, cuja lenda já me tinha chegado aos ouvidos mas com a qual ainda não tinha tido o prazer de contactar. 

É possível que eu não consiga recomendar suficientemente bem este livro. É tão bom que dói. Principalmente pela intrínseca qualidade e talento de todos os envolvidos mas também por ser possível ver a BD dos 30 anos que se seguiram. Alan Moore e John Totleben seguiriam para Swamp Thing depois disto e, finalmente, percebo porquê. Percebo a idolatria de tantos em relação à obra que termina com este terceiro volume. Isto é um regresso à infância temperado pela maturidade, se é possível conciliar tanta coisa inconciliável.

Miracleman, the Red King Syndrome de Alan Moore, Alan Davis e Chuck Austen

Leiam aqui o post sobre o volume anterior de Miracleman.

É costume julgar obras de arte com os olhos subjectivos do tempo que passou entre o seu aparecimento e os dias do presente - qualquer que ele seja. Para amenizarmos o julgamento e a passagem dos anos muitas são as vezes em que dizemos "envelheceu bem". Miracleman é daquelas obras em que esta expressão não se aplica e (calma) não pelas razões que poderiam pensar. É sacrilégio afirmar que este livro "envelheceu". Pura e simplesmente parece que foi publicado hoje, ou melhor, amanhã. Em qualquer futuro da BD que possam imaginar.

Se sentirem-se mais confortáveis, podemos colocar-nos no papel de historiadores. Todos os "tiques" de linguagem "madura" na BD estado-unidense que viriam depois estão nesta obra sublinhados a negrito. Alan Moore, o escritor que não quer que o seu nome apareça nos créditos destas republicações da Marvel, é um dos grandes arquitectos dos últimos 30 anos dos Comics e Miracleman é o tiro da partida (eu procuro não esquecer que Will Eisner, Jim Steranko e Neil Gaiman também têm algo a dizer quanto a isto). Dificilmente encontrarão uma execução mais conseguida na arte de cada página  - posso conceder que os capítulos de Chuck Austen estejam abaixo da craveira de Gary Leach e Alan Davis, os outros dois desenhadores dos dois primeiros volumes. A qualidade é tanto mais impressionante quanto temos em consideração que estas histórias apareceram originalmente em capítulos de oito páginas na revista Warrior. A capacidade de síntese sem síntese de Moore é louvável. Cada capítulo de oito páginas é de tal forma executado, cada página tão bem estudada, que parece estarmos presente a uma sinfonia de duas horas.

Quanto à história propriamente dita, Moore continua a desconstrução do personagem principal e do seu universo, analisando cinicamente, com a sensibilidade pós-anos 70, as inclinações da mitologia dos super-heróis. Contudo, os mais desconfiados que não pensem estarmos defronte de apenas uma análise meta-textual do super-herói. Essa leitura existe e é ainda mais relevante  nos dias de hoje, com o fenómeno que estão a criar no Cinema e na cultura Pop. Mas Miracleman é mais forte e duradouro que essa contextualização temporal. Ou melhor, porque também se aplica e é relevante aos olhos dos dias de hoje transforma-se em algo ainda maior.

É impossível escapar à relevância mas, acima de tudo, à qualidade indiscutível desta  obra superior da BD. Como referido no primeiro parágrafo, não existe envelhecimento, apenas a cristalização atemporal. Miracleman poderia ser publicado hoje ou amanhã e ser melhor que 99% do que está disponível para leitura. Sim, para mim, é assim tão bom.

Miracleman, A Dream of Flying de Alan Moore, Garry Leach e Alan Davis

Em relação a este livro não me vou poupar a elogios. 

Nunca tinha tido o prazer de ler esta obra. Não tinha tido sorte ou a persistência para encontrar algo que (diziam-me) ser muito difícil de encontrar. Todos os fãs conhecem os impedimentos legais que impossibilitaram que fosse compilada mais cedo. Os que não conhecem também não interessa conhecer. O que interessa é irem já a uma loja de BD em Portugal ou a uma qualquer loja online e comprarem este primeiro volume daquela que será a primeira coleção completa de Miracleman. Garanto-vos que não só têm história de BD nas vossas mãos, como algo de qualidade impar.

Já tinha lido e relido milhares de opiniões acerca da revolução que esta obra terá representado na BD, principalmente a de língua inglesa. Mas, para mim, essas opiniões não passavam disso mesmo. Agora, depois de ter lido apenas o primeiro volume, posso dizer que concordo. Miracleman foi publicado pela primeira vez numa revista de antologia inglesa de nome Warrior nos inícios da década de 80 e, à altura, era o ressurgir de um velho personagem da década de 50 que fazia parte integrante do imaginário dos agora adultos ingleses. O personagem tem uma história conturbada. Nos idos do pós-Grande Guerra eram publicadas no Reino Unido as aventuras do Capitão Marvel, um super-herói americano com poderes muito semelhantes ao Super-Homem, excepto pelo facto do seu alter-ego ser um miúdo pré-adolescente de nome Billy Batson, que quando gritava a palavra Shazam se transformava no poderoso super-herói - ou seja, num seu eu adulto. Exatamente pelas semelhanças com o Super-Homem a revista seria cancelada nos EUA e, claro, também no Reino Unido. Não querendo perder o dinheiro que advinha de vendas bastantes apreciáveis, os ingleses criaram um personagem, Marvelman, que basicamente era uma versão britânica do Capitão Marvel, com algumas modificações na origem (agora mais cientifica e menos mística), no uniforme e na palavra que gritava: Kimota (atomik ao contrário).  O personagem seria um enorme sucesso durante uns poucos anos, até ao momento em que foi permitido importar revistas originais dos super-heróis americanos, da Marvel e DC, e o Marvelman acabaria por cair no esquecimento. Isto até a década de 80, quando um editor com boas recordações resolve entregar o personagem às mãos do génio louco que já era Alan Moore - sim, o responsável pelos Watchmen, Swamp Thing e o "amadurecimento" da BD americana.

Acontece que estes dois trabalhos do autor já estavam presentes, de uma forma ou outra, neste brilhante Miracleman. Por um lado, a desconstrução do arquétipo do super-herói que o criador depois aperfeiçoou nos Watchmen. Moore agarra em toda a mitologia que faz funcionar este personagem em particular e os super-heróis de uma forma geral, e torce-a, vira-a de cabeça para baixo, parte-a aos bocados, espalha-a em cima da mesa e volta a montá-la - mas com uma forma completamente diferente. Analisa cada pormenor com clareza de espírito mas sem (nunca) perder o deslumbramento pela arte. Por outro lado, reinventa o personagem de uma forma que tornar-se-ia banal nos tempos que se seguiriam: o molde "tudo o que conhecem acerca do personagem e universo estava errado". Ele voltaria a fazer isso - com resultados igualmente maravilhosos - no seu Swamp Thing, mas é aqui que aperfeiçoa a técnica, torna-a natural.  Nada é  forçado na escrita de Moore. Mesmo com seis a oito páginas por cada capitulo (não esquecer que era uma revista de antologia), o escritor consegue algo que parece tão difícil nos dias de hoje: fluidez. Nada parece forçado ou rápido demais. Depois existem as suas capacidades como tecedor de palavras. Numa fase em que a BD parece se resumir aos diálogos entre personagens (ao estilo do cinema e que o próprio Moore já utiliza), aqui há espaço para texto descritivo, refletido, filosófico e poético. O que se passa no quadradinho é complementado pelo texto e não descrito pelo mesmo. A prosa ao serviço do desenho. 

E por falar em desenho? Que dizer do trabalho de Leach e Davis que estão a par da fabulosa escrita e imaginação de Moore. Uma imaginação frenética, profunda e intemporal. Tudo o que aqui se lê não tem sabor de velho, tem de contemporâneo. Isso porque para aqueles que têm o prazer de acompanhar esta Arte há tanto anos irão reconhecer em Miracleman uma revolução.  Um passo que se deu em frente e cujas pegadas estão de tal forma desenhadas em pedra que é impossível não as seguir. 

Obrigado Marvel e Neil Gaiman por nos terem devolvido Miracleman. Por este coleção, pelas novas cores que nos entregam traços velhos e palavras intemporais

PS - Não sei se repararam mas, entre as décadas de 50 e 80, o personagem mudou de nome Marvel para Miracle. Um outro problema de direitos de autor sobre a palavra Marvel (adivinhem de quem) obrigou à mudança.