Mostrar mensagens com a etiqueta Watchmen. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Watchmen. Mostrar todas as mensagens

Uma BD aqui, outra BD ali, 18

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Doomsday Clock número 5 de Geoff Johns e Gary Frank (DC Comics)

Doomsday Clock pretende ser a continuação dos Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons. Ainda não chegamos a metade dos 12 números planeados e qualquer tipo de julgamento é apressado.

Uma BD aqui, outra BD ali, 2

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Doomsday Clock número 2 de Geoff Johns e Gary Frank (DC Comics)

Esta é daquelas BDs onde os apreciadores dividem-se. Escrita por Geoff Johns e desenhada por Gary Frank, é uma assumida sequela da "maior BD de sempre", os Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons. Este tipo de genealogia leva a que seja necessária uma enorme coragem - ou um gigantesco ego -  para prosseguir com a intenção. DClock vem também na senda do conceito-chapéu do universo de super-heróis da DC, DC Rebirth, iniciado em 2016 pelo próprio Johns e que tem como intenção reabilitar a esperança e a luminosidade dos homens de collants da editora. Assim sendo, esta mini-série de 12 números junta o universo distópico e realista dos Watchmen com a fantasia dos super-heróis DC, procurando uma análise de ambos à luz de cada um deles. Se os Watchmen eram uma reflexão, entre outras, sobre o que significa o conceito de super-herói, usando, para isso, arquétipos baseados no Super-Homem, no Batman, na Mulher-Maravilha, este DClock junta a matéria prima original com os análogos para uma análise meta-textual de ambos. Vou ser claro, Geoff Johns e Gary Frank não são Moore e Gibbons e esta mini-série não parece querer trilhar a mesma complexidade temática. Não é também - e de todo - só entretenimento, seguindo uma via mais reflectida e filosófica que espelha as preocupações dos autores. Por outro lado, Johns parece querer tecer uma complexa tapeçaria para o Universo DC, o que se pode depreender pelas quatro páginas de texto de noticias que fecham este segundo capítulo. É uma ambição interessante e cativante que, se der os frutos certos, poderá transformar este DClock numa obra seminal. A qualidade global desta história será difícil de avaliar antes da última página, o que acontecerá apenas daqui a dez meses, mas estamos num excelente começo. Até lá, mal posso esperar por cada novo número do que espero ser uma obra que, não sendo os Watchmen, fique, pelo menos, na sua sombra - o que não é um mau lugar onde se estar.

Hawkman Found número 1 de Jeff Lemire e Brian Hitch (DC Comics)

Não sei qual a razão porque gosto tanto do Hawkman. Será por causa de uma BD que li há muitos anos, The Shadow War of Hawkman, ou da sequência de histórias de Geoff Johns? Exista algo na mitologia da personagem que me atrai. O arqueólogo-guerreiro, o super-herói com asas ao estilo Conan, a história de dois amantes destinados a morrerem e ressuscitarem eternamente. Eu acho que acho que isto é material de primeira para um grande filme. E para uma fabulosa BD. Fiquei com pena que Johns tivesse abandonado a sua história a meio e adorava que James Robinson (do maravilhoso Starman) o escreve-se (com Rags Morales a regressar ao desenho do herói). É daquelas personagens que a DC possui no seu catálogo e que é repetidamente mal aproveitada - leia-se, mal escrita. Pode ser que seja desta. Hawkman é peça central da saga Dark Nights - Metal, de Scott Snyder e Greg Cappulo, e este especial procura dar algumas respostas (spoiler) à última página do número quatro dessa série. Infelizmente, apesar de bem executado pelos autores, respostas não são muitas. Não é de estranhar. Snyder já repetiu que toda a história está contida nas páginas da sua série (o que me parece muito bem). Apesar de ser um número apenas razoável mas bem feito, fica a esperança de que Hawkman venha a ver melhores dias, nas mãos de autores capazes de o levar às alturas (pois, estava mesmo a pedi-las) que ele merece.

Spider-Men II números 1 a 5 de Brian Michael Bendis e Sara Pichelli (Marvel)


Esperei que tivessem saído os cinco números desta mini-série para a ler de uma assentada, o que fiz em menos de trinta minutos - acho que alguns autores e editoras exageram na síntese (não que a qualidade se meça ao metro de palavras). É a sequela de uma primeira que une as duas personagens que actualmente usam o nome de Homem-Aranha no universo da Marvel: a versão que todos conhecemos e amamos, Peter Parker; e a criada  por Bendis, Miles Morales. Miles vem de uma terra paralela que, entretanto, fundiu-se com a "nossa" (sim, super-heróis é isto). Essa outra Terra fazia parte de uma linha editorial da Marvel que começou no início do século XXI chamada Ultimate e que procurava cativar novos leitores ao reiniciar a história do Homem-Aranha, dos Vingadores, dos X-Men, do zero, com novas versões e novas histórias. O trepa-paredes foi exclusivamente escrito por Bendis (sim, desde há 17 anos). A início era uma versão de Peter Parker mas, entretanto, morreu e foi substituído por Morales. As duas terras fundiram-se no evento Secret Wars e agora coexistem no mesmo universo (agora voltem a ler isto sem se rirem). Esta mini-série parece servir vários propósitos e todos ligados ao legado de Bendis na Marvel. Independentemente de se gostar ou não, este autor marcou o século XXI da editora, com histórias, conceitos e personagens que oscilaram entre o entusiasmante e o sofrível. Dois deles foram, sem dúvida, o Homem-Aranha Ultimate e o universo onde estava inserido. Antes de sair para a DC, o escritor parece querer deixar alguma arrumação na casa e uns presentes-surpresa aqui e acolá. As últimas páginas de Spider-Men II são exactamente isso. Abre portas que se julgavam fechadas e deixa o trabalho para os que quiserem aproveitar. 

De resto, é uma união de dois personagens ímpar, num confronto pessoal mas, em última análise, redundante. Muito mais interessante é o tratamento que Bendis faz aos antagonistas, dedicando-lhes um capítulo inteiro para explicar motivações, personalidades, etc. Esses, sim, são os verdadeiros heróis desta mini-série. Quem lê e gosta da mitologia da Marvel é obrigado a ler esta história. Os outros poderão encontrar interesse nos vilões mas pouco mais.

Alan Moore: O feiticeiro da BD


Alan Moore é um bruxo, autor e criador inglês, conhecido por obras que revolucionaram a BD, que criaram um antes e um depois (não me enganei, ele é mesmo bruxo). O escritor entrou na BD americana em 1983 pela porta da editora DC Comics e especificamente pelo título de terror Swamp Thing, na altura moribundo. O autor já possuía uma carreira profícua do outro lado do Atlântico, trabalhando para revistas de BD inglesas como a Warrior e a 2000 AD, ou em personagens como Captain Britain (da Marvel), Judge Dread e Miracleman. É nesta última que o génio de Moore começa a ascender ao Olimpo. É com Miracleman que a profunda modificação que afectará ao arquétipo do super-herói se inicia - há quem diga (sou um deles) que já é de tal forma sólida que pouco mais é acrescentado nas obras posteriores. Em Portugal, irá em breve ser publicada na íntegra num fabuloso e único volume pela editora G.Floy (é mais do que essencial... é Histórico). 

Na revista Warrior publicaria V For Vendetta (editado recentemente na colecção Novelas Gráficas II), uma análise Orwelliana do Reino Unido da era Thatcher que ajudaria a cimentar a sua reputação internacional como autor. Esta obra é considerada como um dos grandes momentos de Moore, conseguindo trazê-lo para a esfera do literário e capaz de agradar mesmo a aqueles não familiarizados com a narrativa da BD.


A entrada de Moore nos EUA é um testamento à sua capacidade de escrita e um digno percursor do que viria a acontecer. Seguindo o que já havia conseguido em Miracleman, em apenas 22 páginas da revista Swamp Thing consegue, de forma sucinta, tornar o personagem seu, reestruturando a essência do mesmo, anunciar um estilo idiossincrático de escrita e, em perfeita sintonia com o desenhista John Totleben (com quem tinha trabalhado em, sim, Miracleman), criar uma história de terror que foi muito para lá da intenção, inscrevendo-se no cânone como um relato que consegue tirar verdadeiro partido do género. Alan Moore tornou-se tão associado à personagem que, até hoje, os criadores que o sucederam ou lhe seguiram as pegadas ou, ao tentar superá-las, falharam redondamente. Se por acaso tivesse decidido ficar-se por aqui, já teria contribuído o suficiente para o avanço da arte, mas o que se lhe seguiu superou em muito as expectativas.

Tendo em consideração o sucesso e talento de Moore, a DC não só deu-lhe oportunidade para escrever alguns dos personagens mais sonantes da sua galeria ficcional (Super-Homem, por exemplo), como também deu carta-branca para recriar outras recém-adquiridos à falida editora Charlton. Essa recriação iria resultar na mais importante BD produzida na década de 80 e provavelmente aquela que mais reconhecimento açambarcou fora deste meio: Watchmen. Em 12 capítulos e junto com o desenhista Dave Gibbons, o autor cria uma narrativa multifacetada, onde não só reflecte sobre o papel dos super-heróis num professo “mundo real”, como também consegue projectar parte das ambições, medos e ansiedades do mundo da altura na tapeçaria que ambicionou tecer. Mas a metáfora não se limita ao tempo em que saiu (1986) nem tampouco ao universo hermético dos super-heróis. A reflexão estende-se ao panorama geopolítico e é alicerçada na psique e desejo humanos. Formalmente, Watchmen assenta numa perfeita simetria (existe mesmo um capítulo assim chamado), técnica e formato construídos de maneira excepcional e inédita na BD americana. A revista Time elegeu-a como umas das 100 obras maiores do século XX e foi recentemente lançada pela editora Levoir.


Moore ainda produziria mais uma marcante obra para a DC, Batman the Killing Joke, onde reinterpreta a loucura e a relação do herói com o seu maior inimigo, o Joker, mas diferenças criativas com os patrões da editora acabariam por ditar o fim da relação que, de futuro, seria sempre crispada. Aliás, um apanágio deste autor é a sua difícil ligação com a vertente económico-financeira do mundo editorial que, a seu ver, canibaliza a criação em função do lucro imediato, um desrespeito que sentiu na pele vezes sem conta, não só pelo lado da BD (a DC, por exemplo, decidiu recentemente criar prequelas dos Watchmen, em contracorrente com a opinião de Moore), como também nas adaptações cinematográficas que algumas das suas obras sofreram (sofrer é uma palavra mais que apropriada). 

As duas décadas que se seguiram fizeram a anterior parecer como uma pequena introdução ao trabalho do autor/criador/bruxo. Em 1993, Moore afirma-se como um mágico cerimonial, seguindo, entre outros, os preceitos da Cabala e do ocultista Aleister Crowley, e esta viragem na vida criadora do autor levou-o para a produção de obras cada vez mais geniais, algumas verdadeiramente reveladoras. Deste poço de criatividade sairiam importantes pedaços de literatura gráfica como From Hell (onde obstinadamente recria a mitologia de Jack o Estripador), a pornografia artística de Lost Girls (aqui relatando as aventuras sexuais de conhecidos personagens de contos de fada) ou League of Extrordinary Gentlemen (em que Moore reinterpreta alguns famosos personagens da literatura como membros de uma equipa governamental de super seres e que tem sido publicada em Portugal pela Devir).



No meio de obras pessoais ainda tem tempo para produzir outras mainstream, especificamente a criação de um universo de super-heróis para a editora Wildstorm. Entre várias destacamos duas: Top 10 e Promethea. Enquanto a primeira está virada para o puro entretenimento, misturando super-heróis e a série de TV Balada de Hill Street, a segunda é uma viagem metafísica e filosófica, onde verte todas as suas inclinações cabalísticas e esotéricas numa obra de 32 capítulos (pelos vistos um número místico), magistralmente desenhada e pintada por J. H. Williams III. 

Como referido, algumas das obras deste autor foram passadas para cinema, com graus de sucesso e qualidade subjectivos para nós, espectadores, mas todas excomungadas pelo seu criador que, inclusive, recusou-se a receber qualquer recompensa financeira ou a ver o nome inscrito nos créditos. Foram elas Watchmen, V for Vendeta (escrita nos anos ingleses de Moore), From Hell e League of Extrordinary Gentlemen. Objectivamente, nenhuma passou perto da genialidade da escrita de Moore ou da arte onde foram originalmente produzidas, mas From Hell e League of Extrordinary Gentlemen, especificamente, ficam para a história como tendo sido violações à intenção e espírito das obras que, muito sinceramente, nem se deram ao trabalho de emular.

Muito mais há a dizer acerca deste autor e esta pequena nota não pretende ser nada mais do que isso. Futuramente, iremos aqui dissecar e apresentar melhor algumas das mais importantes obras de Alan Moore. Até lá, façam-se um favor e não vejam o filme Watchmen, leiam a BD.