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Uma BD aqui, outra BD ali, 29 - Quarteto Fantástico

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei.  Não são nem melhor nem pior que outras coisas.


Fantastic Four (2018) número 5 ou Fantastic Four (1961) número 650 de Dan Slott, Mike Allred, Adam Hughes e Aaron Kuder (Marvel)

Tenho um segredo para vos contar: eu adoro o Quarteto Fantástico. Quase que arrisco a dizer que é a minha equipa favorita de super-heróis. Quem me conhece e lê este Blog, sabe da minha forte inclinação para a DC. Mas o que não sabem é que comecei a ler BD graças ao Homem-Aranha e as personagens da Marvel foram, durante muitos anos, companheiros fiéis e favoritos. Um desses foi o Quarteto Fantástico, que conheci, pela primeira vez, na aventura onde conhecem os Inumanos, criada pelos eternos Stan Lee e Jack Kirby

Uma BD aqui, outra BD ali, 20

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Justice League: No Justice números 1 a 4 de vários (DC Comics) e Amazing Spider-Man número 800 de vários (Marvel)


Os leitores de BD debatem-se com a questão do que é mais importante: a escrita ou o desenho. É uma variação do que é melhor para a pizza: a massa ou o que vai para cima dela. Este debate leva a situações interessantes, como o facto de na França o nome do desenhador aparecer primeiro que o do escritor e nos EUA ser o contrário.

Uma BD aqui, outra BD ali, 16

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Amazing Spider-Man número 799 de Dan Slott e Stuart Immonen (Marvel)

O caminho inexorável para mais um histórico número do Homem-Aranha continua. Dan Slott, que escreve a personagem há 10 anos, está na recta final deste seu canto do cisne, Go Down Swinging. Neste (e a partir de aqui há spoilers), Peter Parker enfrenta o seu maior adversário, Norman Osborn, o Duende Verde. Esta é uma inimizade antiga, que já deu fruto a enormes tragédias, a maior das quais a morte de uma das namoradas do herói. O conflito tem sido explorado até às últimas consequências, ou assim o pensávamos.  Slott concebeu uma nova perspectiva ao aumentar o já significativo nível de ameaça que Osborn representa. O escritor fundiu-o a um outro vilão, o alienígena Carnage, um parasita de forma viscosa e tendências (ultra) psicopatas. Assim nasceu Red Goblin, cem vezes mais louco que o Duende Verde e 1000 vezes mais mortífero. Uma máquina de matar sem remorsos e perto do imbatível.

O nível de perigo foi apropriadamente aumentado para níveis ridículos. O vilão é invencível e maníaco, sabe a identidade secreta do nosso herói e a combinação destes dois factos só pode significar uma gigantesca dor de cabeça para o Homem-Aranha, que terá de fazer das tripas coração para salvar os seus e a própria pele. 

Como já o disse nesta rubrica, Slott está a recuperar de um certo e determinado arrufo que havia provocado com alguns fãs. O Homem-Aranha de Go Down Swinging é O Homem-Aranha. Colocado numa situação desesperada, Peter Parker evoca todas os seus recursos, não só como super-herói mas também como cientista e indivíduo. Ao mesmo tempo, o vilão, mais poderoso fisicamente, é uma espada de Damocles prestes a cair no mundo pessoal do herói, evocando tragédias passadas e preparando os leitores para uma possível nova. Sinceramente, não se deveria pedir muito mais de uma história do Aranhiço.

Action Comics número 1000 de vários (DC Comics)

Oitenta. É este o número de anos que acumularam-se desde que o Super-Homem viu, pela primeira vez, a luz do dia em 1938. É ele o arquétipo-base de todo um estilo literário. É ele o molde do qual nasceram todos os outros. Até o Batman

Ontem, a revista que o viu nascer atingiu o histórico número 1000, a primeira de toda a BD americana a chegar a esse histórico marco. Um momento tão importante teria de ser aproveitado de forma exemplar e única. Foram vários os artistas convidados para criar pequenas homenagens ao maior de todos os super-heróis. Todos trouxeram o melhor das suas habilidades para produzir pequenos elogios ao Homem de Aço. Como não poderia deixar de ser, o produto final depende da inspiração e do talento.

Tom King destaca-se. O escritor de títulos lendários como Batman, Mr. Miracle ou Vision consegue, uma vez mais, retirar da cartola um sentido e emocional elogio, desta vez ao Super-Homem. Coloca-o no futuro longínquo, nos últimos dias da Terra, para que deseje um último adeus a quem deu-lhe tudo o que ele é. King percebe, nestas simples cinco páginas tudo o que faz esta personagem: um homem, apenas um homem, com os poderes de um deus. 

Outros conseguem obras também relevantes, como a já costumeira parelha Tomasi/Gleason, que transportam o nosso herói para múltiplas evoluções de si mesmo. Ou Scott Snyder e Rafael Albuquerque, que escolhem focar-se na inimizade com Lex Luthor, o seu maior adversário. Também Paul Dini e o maravilhoso José Luis Garcia-Lopez fazem uma homenagem através de um outro dos vilões históricos do Super, ao ponto de parecer estarmos a ler uma história escrita por Alan Moore. Meltzer e Cassaday são parcimoniosos, e abordam os incríveis poderes desta personagem maior que a vida. 

Muitos outros juntaram-se à festa, mas, antes de terminar, terei de destacar a inauguração da sequência de histórias de Brian Michael Bendis, que aqui é acompanhado por Jim Lee no desenho. Bendis é quem escreverá o Homem de Aço no futuro próximo e a DC tem feito bastante questão de o publicitar aos quatro ventos. É ainda cedo para qualquer julgamento, nem que seja porque muito pouco é esclarecido. A descompressão e diálogos típicos do escritor estão lá e, claro, uma revelação bombástica (que de bombástico tem muito pouco porque já tinha sido revelada na net). Os fãs do Super-Homem querem que continue a ser o que ele foi neste últimos 80 anos. Seja bem-vindo Sr. Bendis e que nos dê o que de melhor o Homem de Aço é capaz. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 14

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Action Comics número 999 de Dan Jurgens e Will Conrad (DC Comics)

Às portas do histórico número 1000 da mais antiga revista de super-heróis do mundo, aquela onde, em 1938, nasceu a mais importante personagem desse estilo, Dan Jurgens, também ele um histórico escritor e desenhista do Homem de Aço, oferece-nos uma coda para a sua segunda sequência de histórias com o Super-Homem. Ainda haverá um especial, mas este número tem um sabor diferente, um sabor a fim.

Jurgens é conhecido mais pelo seu trabalho que pelo nome. No número 75 da versão da revista do Super da altura (1992), foi o responsável pela mediática morte do maior de todos os super-heróis - fez capa do jornal O Público, entre outros. Bastou isso para entrar no panteão dos grandes que trabalharam no Homem de Aço. Regressou recentemente (em 2016) e parecia voltar a algumas velhas histórias e conceitos da sequência de histórias da década de 90. E se havia algumas dúvidas, este número 999 dissipou-as a todas.

O autor escreve uma carta de adeus disfarçada de enredo gordo: um vilão que ajudou a criar encontra um tipo de redenção; Lois Lane confronta-se filosoficamente com o pai; e o Super-Homem prova porque ser bondoso nunca deveria sair de moda. Não é um prodígio de escrita (Jurgens nunca almejou a essas alturas), mas funciona como uma forma elegante de despedir-se de uma personagem cuja História ajudou a escrever. Esta sequência teve muitos altos e baixos e, de uma forma geral, nunca excedeu o mediano. Contudo, o número 999 é surpreendentemente bom e um tributo elegante à verdadeira mensagem do Homem de Aço.

Amazing Spider-Man número 798 de Dan Slott e Stuart Immonen (Marvel)


A frase "just when I thought I was out... they pull me back in" é apropriada. A mais recente fase de Slott no Aranha não era do meu agrado (depois de 10 anos consecutivos a escrevê-lo). Peter era um homem de negócios de sucesso, o seu uniforme um prodígio tecnológico. Em suma, uma versão do Homem de Ferro. Não era o Trepador com que cresci, o de Lee/Ditko, de Lee/Romita, de Wein/Andru. Um Peter com problemas de dinheiro, cujo uniforme por vezes tresandava ou tinha de ser remendado. Os vilões eram mais que antagonistas, eram ameaças à sua vida pessoal, aos seus amigos, às suas namoradas (uma delas morre nas mãos do seu pior adversário, o Duende Verde). A vida de super-herói do Homem-Aranha era o oposto de glamorosa. No piadas que usava para lidar com os temíveis inimigos escondia-se um sofrimento e uma tragédia prestes a acontecer. A vida de Peter parecia estar sempre a um segundo de descambar numa irremediável hecatombe. E quando esta acontecia (e aconteceu várias vezes) a força dos seus princípios e do seu carácter impulsionavam-no a lutar mais um segundo com aquela réstia de força que afinal ainda tinha. Peter era o homem comum que sobrevive a tudo. Essa é e sempre será a verdadeira força do Homem-Aranha, provavelmente a melhor criação da Marvel.

Slott estava a guardar esta última saga para o final. É verdade que já tinha dado provas de que sabia lidar com a personagem mas, no que a mim diz respeito, parou de o fazer antes do Dr. Octopus tomar conta do corpo do Aranhiço (não que tenha sido uma fase que desgoste totalmente). O escritor escolhe focar o confronto entre Peter e o seu maior inimigo, Norman Osborn, o Duende Verde, que, nesta história, foi transformado numa ameaça ainda maior. Provavelmente a maior parte de vós já sabe do que se trata, mas não irei aqui estragar a surpresa a quem não navega sofregamente pelos sites de fãs de comics. A ideia por detrás desta ameaça é particularmente criativa e cria a expectativa de um confronto aterrador (a revelação da dita ameaça deixa o herói sem palavras, ou melhor, com umas poucas mas coloridas). Ao mesmo tempo, paira sobre a sua família e amigos um manto de tragédia. Digamos que deveremos esperar o pior do histórico número 800. Como já perceberam é assim que, para este vosso fã, se escreve uma história do Homem-Aranha.

Uma BD aqui, outra BD ali, 12

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Amazing Spider-Man número 797 de Dan Slott e Stuart Immonen (Marvel)

(com spoilers de números anteriores)

É por causa do Homem-Aranha que estou aqui. É por causa dele que escrevo sobre BD. É por causa dele que amo BD. 

Começou há quase 40 anos e não parou desde então. O meu apego à personagem é grande e é sempre com um peso no coração (que não deveria existir porque estamos a falar de alguém que não é real) que vejo quando os autores o desviam da essência do que eu acho que é uma história do Trepador de Paredes. Eu acompanhei a histórica sequência do escritor Dan Slott desde o seu começo, há 10 anos atrás. Parei quando decidiu transformar Peter Parker num CEO de sucesso, dono de uma empresa multinacional. Se calhar não deveria ter abandonado, mas tentei regressar pelo menos uma vez e as narrativas não me entusiasmaram (no fundo era só isso e existem tantas outras onde gastar dinheiro). Entretanto, aproxima-se o fim do trabalho de Slott no Aranha - irá acontecer no número 800 da revista Amazing Spider-Man (que leio desde o 157, versão portuguesa). Soube que Peter Parker já não era um CEO, que voltou a ter problemas de dinheiro e que o seu pior inimigo, Norman Osborn, fundiu-se com o maior psicopata da galeria de vilões do herói: Carnage. O meu interesse foi espicaçado para esta última grande celebração de Slott chamada Go Down Swinging, composta por quatro partes e que aparenta ser um clássico instantâneo.

Slott toca na perfeição todas as notas que escrevem uma boa história do Homem-Aranha. Uma ameaça, pessoal, tenebrosa e poderosa, espera nas sombras para cair sobre o seu mundo e sobre as pessoas que ama. Essa ameaça é Norman Orborn e Carnage, juntos numa entidade chamada Red Goblin. Sabemos que alguém poderá morrer no final destes quatro capítulos e a tensão desse medo é palpável. Sabemos que a resiliência de Peter Parker o ajudará, mas a tragédia é sempre uma constante espada de Damocles sobre a sua cabeça. Que mais é que o mundo colocará no seu caminho, depois de já tanta desgraça? Será que poderemos esperar por um pequeno, minúsculo, final feliz? Neste momento, é impossível saber. Apesar de as histórias de super-heróis serem conhecidas pela morte não ser definitiva, ainda assim somos arrastados pela tensão.

É com antecipação que leio esta última história de Slott (ou penúltima, já que haverá ainda uma no número 801). É com antecipação que quero que seja uma merecedora coda.

Savage Dragon número 232 de Erik Larsen (Image)

Provavelmente, um dia, Savage Dragon (SD) será a mais longa sequência de histórias de BD escritas e desenhadas de forma ininterrupta pelo mesmo autor. Esse título (penso) cabe a Dave Sim com o seu Cerebus, que durou 300 números.  SD não pretende atingir os níveis de intelectualismo (ou pedantismo, por vezes confundem-se) que esta última obra independente assumiu querer. Larsen deseja apenas uma BD entretida, hiperbólica, com muitas mamas, sexo, acção super-heroísta escabrosa e twists a torto e a direito. O estilo é o mesmo desde a primeira página do primeiro número da mini-série original e, fora um decréscimo de detalhe no desenho, assim tem sido há mais de 25 anos.

Um dos pormenores interessantes é que 25 anos no nosso mundo são também 25 anos na BD. As personagens envelheceram, casaram, tiveram filhos. Os filhos casaram e tiveram eles também filhos. No meio disso tudo existem os vilões e, ao contrário do que é costumeiro nos super-heróis, a morte tem o péssimo hábito de ser definitiva. Existe o "perigo real" de o leitor afeiçoar-se a uma personagem que Larsen, num assomo de fúria, mata no segundo a seguir - literalmente, já que a velocidade, crueza e surpresa dos acontecimentos é uma das marcas do seu SD. Convém vir preparado com um desfibrilador.

Neste número 232 continuamos a oscilar entre cenas da vida conjugal do filho do Dragon original, ele próprio com mulher e três filhos a viver em Toronto, uma dimensão paralela onde acompanhamos a mãe deste filho, agora uma vilã, e mais uns enredos paralelos. Tudo feito com a assinatura narrativa que descrevi acima. Tudo feito de forma divertida, descontraída e de leitura rápida (talvez rápida demais, isto será melhor em TPB). Em suma, uns cinco minutos bem passados ao custo de 3,99 dólares (pouco menos de 5€ numa loja portuguesa). A história acaba com dois twists interessantes que só fazem desejar pelo próximo mês. A ver onde isto vai dar!

Uma BD aqui, outra BD ali, 8

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Doomsday Clock número 3 de Geoff Johns e Gary Frank (DC Comics)

A BD que todos esperam, quer sejam dos que a odeiam ou a adoram, tem um terceiro capítulo. Geoff Johns e Gary Frank continuam a explorar a incursão do mundo dos Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons no universo de super-heróis da DC Comics. Esta história é, ao mesmo tempo, a continuação oficial desta lendária BD da década de 80 e um comentário à sua influência nos trinta anos que se lhe seguiram na 9.ª Arte dos EUA. Os escritores e editores absorveram a mensagem de desespero e pessimismo dos Watchmen e verteram-na de forma sôfrega nas histórias de super-heróis, sem perceber que este livro era um produto da época e, acima de tudo, da personalidade dos autores. Geoff Johns quer comentar esta influência mas também o actual zeitgeist nos EUA, com a eleição de Trump e a confluência de factores que o levaram à presidência. Paralelamente, não deixa de estar profundamente imerso no universo dos homens de collants da DC, procura avançar esta mitologia e corrigir erros de percurso. É uma tarefa difícil que, até este terceiro capítulo, está a conseguir suplantar. 

Desenganem-se se acham que acho que DClock está ao mesmo nível de Watchmen. Apesar de ser a sua continuação, o propósito e autores são outros. As comparações são completamente inevitáveis e não totalmente injustas. Mas, ao mesmo tempo, é contraproducente fazerem-nas. Neste novo capítulo, o enredo avança e, acima de tudo, as personagens são analisadas à lupa, quer na interacção com o enredo, quer umas com as outras. É possível ter a sensação que estamos a ler uma obra com intenções de entretenimento mas também de comentário sério ao mundo. Johns e Frank decidiram adoptar um calendário bimensal a partir do número quatro e não parece mal. Eles estão a jogar num outro campeonato e é na leitura de todas as páginas da obra que a sua prestação será julgada.


Amazing Spider-Man número 794 de Dan Slott e Stuart Immonen (Marvel)

Dan Slott escreve o Homem-Aranha há 10 anos e está, finalmente, a chegar ao fim. Começa aqui a próxima saga catastrófica na vida do trepador de paredes. As consequências serão sentidas nos próximos meses e nos anos que se seguirão - ou então o próximo escritor irá esquecê-las mal pegue nas rédeas. Quer se goste ou não trabalho de Slott a sua influência no passado e futuro da personagem é relevante. Faço parte da equipa que gostou do seu trabalho até determinado ponto e abandonou-o quando achava que tinha excedido as boas-vindas. A mais recente fase do Peter Parker dono de uma multinacional tecnológica desmotivou-me - para mim ele tem que ter sempre problemas de dinheiro. Não o lia há algum tempo e fiquei surpreendido que, entretanto, Peter perdeu a fortuna e voltou aos dias de mendicidade. Acabou-se o uniforme versão Homem-de-Ferro e irá agora ser envolvido num enredo que trará de volta inimigos de longa data. 

A ideia-twist da última página parece interessante e apenas os próximos meses dirão se será muito mais que isso. Por enquanto, estou agarrado para ler os próximos capítulos. O Homem-Aranha foi a personagem que introduziu-me à BD. O apego emocional ao passado da personagem é muito grande - o trabalho de Lee/Ditko, Lee/Romita, Kane, Andru, Conway, Wein, etc, são referências da 9.ª Arte. Apesar de saber que é impossível regressar a esses primeiros tempos, em cada nova saga da vida de Peter Parker, espero sempre, estupidamente, por momentos nostálgicos. Vamos ver se Slott consegue acabar em alta uma sequência de histórias que já ia longa de mais. 

Panini Portugal - Homem-Aranha Superior # 1

Quando nos EUA, há cerca de um ano e meio, foi revelado o nome de uma nova revista mensal para o Homem-Aranha, o mistério adensou-se e preocupou os vários fãs do já cinquentenário super-herói. Acontece que os fiéis seguidores do aracnídeo têm algumas razões para se preocuparem. Ao longo dos últimas cinco décadas eles têm sido francamente postos à prova. 

O Homem-Aranha é provavelmente o mais famoso personagem da editora Marvel, e com muita razão. Peter Parker, o alter-ego do personagem, não tinha particulares vantagens em ser super-herói, o que, à altura, era uma considerável revolução no modo como se viam estes tipos de conceitos. Ser um "fazedor do bem" trazia consigo não um conjunto de benesses, mas antes dificuldades e tragédias. Peter Parker era um adolescente, órfão de pai e mãe, a viver com uma tia idosa e recorrentemente doente. Além disso, tinha problemas de dinheiro, de namoradas e era mal-tratado pelos colegas de liceu. Portanto, enfrentar o vilão du jour acabava por ser uma benesse para o seu difícil dia-a-dia.

Esta maravilhosa matriz, tão facilmente identificável pelo público alvo desta BD e, veio a revelar-se, pelo mundo inteiro em geral, acabaria por ser a maior vantagem e o maior detrimento do personagem. Mudar, nem que seja um átomo, disrruptava a essência e afastava Peter Parker daquilo que o faz tão famoso no mundo da literatura. Ainda assim, e à revelia de algum bom-senso, a editora mudou várias vezes o personagem, por vezes de tal forma que se viu obrigada a desfazer o que havia feito, tal a reacção extremada de muitos fãs. Peter Parker casou-se e, num acto de Deus (neste caso do Diabo), deixou de ser casado. A sua muito querida Tia May morre e, de repente, afinal não tinha falecido, mas antes sido afastada da vida do sobrinho pelas maquinações de um vilão. No princípio da década de 90, veio a descobrir-se que o Homem-Aranha dos últimos 15 anos era um clone. Mais tarde, após vários anos da infame Saga do Clone, a editora voltou atrás. Isto apenas para mencionar as mais polarizadoras.

Podem perceber o receio dos apreciadores do Aranhiço, quando o seu querido personagem estava no limiar de uma outra (prometia a editora) enorme mudança: a vinda do Homem-Aranha Superior. Nem a competente imaginação do escritor Dan Slott, convicto adorador do personagem e já um provado tecedor de grandes estórias para Peter Parker, sossegou os fãs. Quer antes, quer depois da revelação de quem estava por detrás da máscara.  

Os fãs do nosso Português vão poder apreciar e tirar as suas próprias conclusões  a partir da próxima quarta-feira, dia 19 de Fevereiro. Eu, que acompanho o original, já sei onde isto vai dar e, muito sinceramente, apreciei muito o percurso que Dan Slott desenhou, construindo uma run que, ao contrário do que seria de esperar,  não foi outra Saga do Clone