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Garrido e n., estas são as leituras de que mais gostei em 2015

2011, da minha autoria - para quem não sabe SAM
Ao contrário das minhas escolhas de Cinema, os livros que mais gostei de ler em 2015 não são necessariamente de 2015. Os livros acumulam-se nas prateleiras e em qualquer outro espaço vazio da casa, os meses e anos vão passando e, de vez em quando, um ou outro chama-me à atenção. 

Na lista e à semelhança do que fiz para a 7.ª Arte, não existe nenhuma ordem em especial a não ser a alfabética e não existe nenhum critério a não ser o puro prazer de ter lido o que li. 

Já sabem: podem clicar nas imagens para ler ou reler o que escrevi sobre cada um deles - existe apenas um livro que, infelizmente, não terá link porque nada escrevi sobre ele. Quando o descobrirem vão a uma loja e comprem-no porque é verdadeiramente maravilhoso. 

  


  

   


  

 

     

 

(neste link podem saber mais algumas dos livros que mais gostei mas que não achei que deveriam ficar na lista de cima)

O que vou lendo! – Aprender a Rezar na Era da Técnica de Gonçalo M. Tavares

Acredito que a Arte de Contar Histórias é uma das mais esquecidas. Porque transversal a tantas outras artes é considerada como inata e obrigatória, algo em que não pensamos quando apreciamos uma peça – quer seja um livro, um quadro, um filme, uma BD. Contudo, também acredito ser das mais difíceis, das que requerem maior talento e artifício para que seja equilibrada. E falo não apenas de narrativas lineares mas também das ditas surreais, aquelas que, aparentemente, não parecem seguir outra linha de lógica que a da labiríntica personalidade do autor.

Uma história mal contada nota-se instintivamente. Será por isso que quase nem lhe ligamos? Pensamos: “este filme é chato”; “este quadro está mal pintado”. Muitas vezes deve-se à incapacidade do autor em não saber contar uma história, tal como o faziam os nossos avós ou pais junto a uma lareira antes de dormirmos (calma, não sou assim tão velho. São apenas imagens). Gosto de pensar que esta arte está gravada no nosso código genético. Não esqueçam que foi das primeiras formas de entretenimento. Antes mesmo da palavra escrita.

Não faço ideia de qual a melhor forma de contar uma história (acredito que existam várias metodologias) mas, qualquer que ela seja, Gonçalo M. Tavares é um criador que a tem domada. Aprender a Rezar na Era da Técnica é o meu segundo livro do escritor português e tanto neste como em Jerusalém fiquei surpreso não só pela complexidade temática e conceptual das obras mas também pelos artifícios narrativos de que se socorre. Os capítulos curtos. A escrita que incide nas observações do narrador omnisciente enquanto discursa sobre situações e personagens e menos na descrição redundante do ambiente. Aliás, estas descrições são esparsas e sintéticas, numa espécie de antagonismo ao conhecido gosto de Eça pela excessivo relato do ambiente. O olhar sintético do autor pelo banal e pelo gigante roça a genialidade reservada a poucos escritores. Existe um universo particular a Tavares, um universo onde reside sozinho mas, ao mesmo tempo, munido de portugalidade. Um "ser português" que nós compreendemos tão bem. Mas desenganem-se que isso o isola do resto do mundo. Não. A universalidade da portugalidade de Tavares é total, desculpem a mistura de conceitos (a bem ver, não sou uma grande especialista nestas coisas da Literatura). Ele não fala de Portugal mas escreve como o português que é. Ou então sou eu que o imagino.

Faltam-me ler os dois restantes livros da tetralogia do Reino: Um Homem: Klaus Klump e A Máquina de Joseph Walser. Mal posso esperar.

O Retrato de Dorian Gray deu boas vindas ao século XXI

No From Hell de Alan Moore e Eddie Campbell, o famoso Jack The Ripper é assombrado por uma visão enquanto esquarteja a última vítima. Um portal abre-se defronte de si mostrando imagens do século XX, um mundo tomado pela máquina, pelo progresso e pela luz. Jack fica com a certeza que a sua nobre missão daria lugar a uma era de maravilhas, que ele havia sido a parteira de um El Dorado. O personagem principal do único romance de Oscar Wilde, o titular Dorian Gray, é um animal do mesmo feitio sem, contudo, aperceber-se de que é o arauto, o precursor, de uma maravilhosa nova época. Uma época que não se cinge ao século XX mas também a este nosso XXI.

Este é um dos mais conhecidos, elogiados e estudados livros da literatura mundial, um dos tesouros que ficarão para a eternidade. Já não é a primeira vez que neste Blog tenho a audácia de imiscuir-me pelo campo da (Alta) Literatura, mas quero sossegar todos os que me lêem: não tenho intenção de fornecer-vos qualquer tipo de visão inovadora ou prisma singular sobre um livro que vale para lá de qualquer crítica e que já foi esquartejado (lá está esta palavra outra vez) vezes sem conta e por mentes mais experientes que a minha. Este é apenas o elogio particular a um livro que, sim, deveria ter lido mais cedo na vida e cuja descoberta cabe dentro do coloquial "mais vale tarde do que nunca". É caso para se dizer que os clássicos são clássicos por alguma razão.

Não me parece que uma história com mais de 100 anos caiba dentro da definição de spoiler. O enredo é bastante conhecido: um homem, Dorian Gray, possui um quadro que envelhece no seu lugar. Mas, por vezes, a mitologia em volta de uma obra muito conhecida parece se ater a determinados pormenores e esquecer outros. Este livro é um dos casos. O detalhe base do enredo é fantástico e original o suficiente para prender a admiração mesmo de quem nunca o tenha lido. A ponto de nos esquecermos de o folhear, pensando já conhecer tudo o que há para conhecer. Acontece que, por exemplo, o quadro escondido de Dorian Gray não assimila apenas as rugas que deveriam existir na face eternamente jovem do protagonista, mas também os pecados que vai somando na sua vida, desenhando não só uma figura idosa mas também hedionda, negra e odiosa. Arte mais realista que a vida. Um personagem esquecido (pelo menos por quem eu li ou ouvi acerca do assunto) é o delicioso Lord Henry, amigo de Dorian, reflexo da exuberante personalidade do autor da obra. Ele é uma espécie de Mefistófeles para o Fausto de Dorian, ao mesmo tempo que é uma voz cáustica, satírica e jocosa dotada de aforismos morais tão falaciosos que transformam-se em tangentes da verdade (ou pelo menos uma verdade). Ele é o arquétipo do façam como eu falo e não façam o que faço. Mas porque é ele o Diabo tentador de Dorian Gray? Na sequência inicial, quando o pintor, amigo de ambos e autor do famoso quadro, mostra a obra, Lord Henry pergunta a Dorian se este não gostaria de ser eternamente jovem como aquela sua representação iria sempre ser. O protagonista reconhece-se neste desejo e enceta um pacto informal, de que gostaria de ver o quadro envelhecer no seu lugar. Momentos antes, ambos tinham tido uma conversa que espelha a actual febre pela juventude, pela imortalidade da pele esticada, a única recompensa que merece ser conseguida. A influência da cativante personalidade e opiniões de Lord Henry inebriam Dorian a tal ponto que, sem pensar, acaba por fazer um pacto mefistofélico.

O livro é contado pela prosa florida, perfumada e exuberante de Wilde, toda ela cores garridas, excessos dos sentidos e do prazer físico e carnal. É um livro que, perdoem o cliché, foi, é e será sempre actual.