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Purity de Jonathan Franzen - Fica Bem na Prateleira!

(Um dia, alguém disse-me que tinha adquirido uma colecção de livros de lombada azul cartonada porque combinava com a decoração da sala. Os livros não são para ficar bem na prateleira. Não são para se saber o autor, o nome e a história e exibi-los como conhecimento num Concurso de TV. São para ser lidos sofregamente, com pouca ou muita velocidade mas com prazer. São para dobrar-se e vincar-se - custa-me, contudo -, são para emprestar. São. Para. Ler. 

Nesta rubrica falo mais de prosa do que outra coisa qualquer. Mas nunca se sabe se aparecerá algo diferente)



Jonathan Franzen tem um mantra que considera essencial para os escritores em Democracia: "ligar o leitor à realidade sem abdicar do princípio do prazer" (vide Ipsilon 04/09/2015). O meu lado inseguro e pedante desconfia desse prazer que existe ao ler Jonathan Franzen. Já tinha acontecido com Liberdade e repete-se com Purity. O autor é considerado uma das mais prestigiadas vozes literárias dos EUA; amante dos russos Tolstoy e Dostoievski; os seus livros são acontecimentos que pessoas tão díspares como Oprah e Obama assinalam como imperdíveis; e, mais ainda, foi eleito pela Time como uma das grandes vozes da Literatura das terras do Tio Sam.  Este currículo vale zero se não existir prazer. O que não é o caso, daí o que escrevi na primeira frase - ou será a minha educação e herança cultural judaico-cristã que invade o prazer e transforma-o em pecado? 

Não é por acaso a alusão à herança cultural quando se fala de Franzen, um homem tão profundamente americano na sua escrita, nos seus personagens, na sua Literatura, que ter como referência esse farol apenas nos pode ajudar a compreendê-lo e a melhor ler a sua prosa escorreita. Os enredos de Franzen são, regra geral, enganadoramente simples, com poucos personagens (em Purity os protagonistas são apenas cinco), cada um representando um lado de uma dicotomia, a maior parte dela de pendor político: o republicano vs o democrata; o ecológico vs o industrialista; o sagrado vs o profano; o religioso vs o ateu. Desenganem-se se acham aqui existir uma receita para a simplicidade. Os enredos são (como já o referi) tudo menos básicos e as personalidades são complexas e exploradas ao pormenor, com uma acutilância e leitura das manias e inclinações do ser humano como muitas poucas vozes o conseguem. É aqui que se nota a influência e gosto que Franzen tem pelos russos, principalmente Tolstoy. A sensibilidade e destreza na descrição de cada momento de pensamento é, ao mesmo tempo, familiar e nova. Os personagens vivem na capacidade deste autor em guiar-nos por processos de raciocínio e por personalidades que são ao mesmo tempo complexas e banais. As emoções descritas (quase) sem floreados, são um corropio que deslumbra a atenção e acelera a leitura. É impossível não ser agarrado não tanto pelo enredo (que é importante, sempre, mas parece estar em segundo plano) mas pelas personagens Purity, Andreas Wolf, Leila Helou, Tom Aberant e Anabel Laird, um quintento envolto numa rede de destino que os aproxima numa mesma história. 

Ao contrário de Correcções e de Liberdade, Franzen opta em Purity pelo desarranjo cronológico, indo atrás e à frente no tempo (lembrem-se de Tarantino em Pulp Fiction) quando quer melhor ilustrar e contextualizar algo que revelou em páginas anteriores. Nas mãos e talento de outros esta forma de narrativa poderia resultar menos clara, mas nas de JF é elucidatória, clarificando comportamentos passados e descortinando o futuro. Ao mesmo tempo, ao descobrirmos as motivações e história dos personagens pelo embrenhar, em pormenor, nos seus passados (geralmente) conjuntos, percebemos o peso da herança genética, da herança educativa, em suma, do peso dos pais e dos seus (muitos) erros.  Acaba por ser uma novela americana sem perder o código genético clássico.

Purity foi lançado em 2015 e é um espelho, tal como Liberdade já o era, apontado a este mundo moderno, pós-internet, pós-twiter, pós-verdade. Jonathan Franzen é enganadoramente americano, porque neste mundo globalizado e unido pela velocidade da Web, as suas histórias são um reflexo da complexa narrativa destes tempos a uma escala mundial.

O que vou lendo! – Aprender a Rezar na Era da Técnica de Gonçalo M. Tavares

Acredito que a Arte de Contar Histórias é uma das mais esquecidas. Porque transversal a tantas outras artes é considerada como inata e obrigatória, algo em que não pensamos quando apreciamos uma peça – quer seja um livro, um quadro, um filme, uma BD. Contudo, também acredito ser das mais difíceis, das que requerem maior talento e artifício para que seja equilibrada. E falo não apenas de narrativas lineares mas também das ditas surreais, aquelas que, aparentemente, não parecem seguir outra linha de lógica que a da labiríntica personalidade do autor.

Uma história mal contada nota-se instintivamente. Será por isso que quase nem lhe ligamos? Pensamos: “este filme é chato”; “este quadro está mal pintado”. Muitas vezes deve-se à incapacidade do autor em não saber contar uma história, tal como o faziam os nossos avós ou pais junto a uma lareira antes de dormirmos (calma, não sou assim tão velho. São apenas imagens). Gosto de pensar que esta arte está gravada no nosso código genético. Não esqueçam que foi das primeiras formas de entretenimento. Antes mesmo da palavra escrita.

Não faço ideia de qual a melhor forma de contar uma história (acredito que existam várias metodologias) mas, qualquer que ela seja, Gonçalo M. Tavares é um criador que a tem domada. Aprender a Rezar na Era da Técnica é o meu segundo livro do escritor português e tanto neste como em Jerusalém fiquei surpreso não só pela complexidade temática e conceptual das obras mas também pelos artifícios narrativos de que se socorre. Os capítulos curtos. A escrita que incide nas observações do narrador omnisciente enquanto discursa sobre situações e personagens e menos na descrição redundante do ambiente. Aliás, estas descrições são esparsas e sintéticas, numa espécie de antagonismo ao conhecido gosto de Eça pela excessivo relato do ambiente. O olhar sintético do autor pelo banal e pelo gigante roça a genialidade reservada a poucos escritores. Existe um universo particular a Tavares, um universo onde reside sozinho mas, ao mesmo tempo, munido de portugalidade. Um "ser português" que nós compreendemos tão bem. Mas desenganem-se que isso o isola do resto do mundo. Não. A universalidade da portugalidade de Tavares é total, desculpem a mistura de conceitos (a bem ver, não sou uma grande especialista nestas coisas da Literatura). Ele não fala de Portugal mas escreve como o português que é. Ou então sou eu que o imagino.

Faltam-me ler os dois restantes livros da tetralogia do Reino: Um Homem: Klaus Klump e A Máquina de Joseph Walser. Mal posso esperar.

Madame Bovary de Gustave Flaubert

A Literatura faz-nos bem e faz-nos mal. Milhares de vezes foram-nos vendidos e apregoados que os benefícios são muitos, que a cultura multiplica-se, que o saber expande-se. Como se escrevia na porta de uma loja de livros em França: "A cultura é cara? Experimentem a ignorância!". Contudo, e já que falamos nos irascíveis gauleses, a personagem titular deste mais famoso romance de Flaubert não concordará muito que a nobre Arte, a da Prosa, tenha tido tão boa influência na sua vida. Ou então, teve e ela não o soube aproveitar. 

O problema da Literatura, sabe-o bem Emma Bovary, é que nos faz sonhar realidades inantingíveis de romantismo, tempos perdidos em volúpia desmedida, olhares lânguidos de paixão. Flaubert, que chegou a dizer "Madame Bovary c'est moi!", parecia detestar a corrente literária do Romantismo e este livro, protagonizado por uma das primeiras heroínas de uma outra tendência, a do Realismo, é uma reacção cáustica e acídica aos excessos do primeiro. Emma é uma mulher que devido à condição do género acaba por condescender a um casamento que, ainda que não nascido do Amor, esperança que possa evoluir para os predicados daquele que ela vê descrito nos seus livros. Depressa começa a perceber que não se passa assim e vai, paulatinamente, evoluindo para uma mulher ressentida, amarga, fútil, que entrelaça a vontade em volta de castelos de cartas, banalidades e vaidades. A ponto de procurar a conclusão dos seus quereres em terceiros homens, envolvendo-se em casos extra-matrimoniais que, à época da publicação do romance, arrastaram Flaubert e a sua (anti)heroína pelo novelo da polémica. O enredo desemboca na tragédia, algo tão típico do Realismo, como o nossos Os Maias e o maravilhoso Anna Karénina bem o atestam. 

Emma é, antes de mais, uma mulher presa às leis e costumes da época, enclausurada na sua condição "inferior", e que se vê obrigada a perseguir em outros lugares a felicidade idealizada . Os amantes que encontra, ambos manifestações do Romantismo, um poético, sonhador, emocional, o outro sensual, viril, possante, acabam por sucumbir às realidades do sexo masculino, tal como Flaubert as destila. Resiste o Amor do marido que a idolatra e que tudo faz para que se sinta feliz (a ironia é óbvia), a ponto de, ignorante, a empurrar para os braços dos amantes. Mas Emma  está longe de ser uma vítima. Por um lado, ela claramente não está apaixonada pelo marido. Por outro, ela idealiza o Amor mas não é vista como a abusada, pelo menos do ponto de vista físico e emocional. Sim, um dos amantes a engana e, sim, um dos outros acaba por revelar-se também um beco sem saída, mas ela antes sucumbe aos seus ideais românticos, que tenta colar às relações que possui mas que, inevitavelmente, claudicam à realidade. 

A realidade invade a vida da Madame Bovary de outra forma, a financeira. Todos os excessos se pagam, monetária e emocionalmente. Flaubert critica o modo como se vive no Romantismo. Actos pagos por outrem, um vago outro, uma presença omnipresente de dinheiro (não é assim para todos os romances desta corrente, claro está). Já Tolstoy também o abordava de forma ainda mais irónica e abrangente no Anna Karénina.

Poderia estender a minha análise para lá destas incursões de senso comum mas, sinceramente, não só acho que o leitor deve ler num romance o que achar que deve ler como este post, realisticamente, já está longo demais. Leiam este ou outro livro, mas leiam. É o maior favor que fazemos a nós mesmos. 

O Retrato de Dorian Gray deu boas vindas ao século XXI

No From Hell de Alan Moore e Eddie Campbell, o famoso Jack The Ripper é assombrado por uma visão enquanto esquarteja a última vítima. Um portal abre-se defronte de si mostrando imagens do século XX, um mundo tomado pela máquina, pelo progresso e pela luz. Jack fica com a certeza que a sua nobre missão daria lugar a uma era de maravilhas, que ele havia sido a parteira de um El Dorado. O personagem principal do único romance de Oscar Wilde, o titular Dorian Gray, é um animal do mesmo feitio sem, contudo, aperceber-se de que é o arauto, o precursor, de uma maravilhosa nova época. Uma época que não se cinge ao século XX mas também a este nosso XXI.

Este é um dos mais conhecidos, elogiados e estudados livros da literatura mundial, um dos tesouros que ficarão para a eternidade. Já não é a primeira vez que neste Blog tenho a audácia de imiscuir-me pelo campo da (Alta) Literatura, mas quero sossegar todos os que me lêem: não tenho intenção de fornecer-vos qualquer tipo de visão inovadora ou prisma singular sobre um livro que vale para lá de qualquer crítica e que já foi esquartejado (lá está esta palavra outra vez) vezes sem conta e por mentes mais experientes que a minha. Este é apenas o elogio particular a um livro que, sim, deveria ter lido mais cedo na vida e cuja descoberta cabe dentro do coloquial "mais vale tarde do que nunca". É caso para se dizer que os clássicos são clássicos por alguma razão.

Não me parece que uma história com mais de 100 anos caiba dentro da definição de spoiler. O enredo é bastante conhecido: um homem, Dorian Gray, possui um quadro que envelhece no seu lugar. Mas, por vezes, a mitologia em volta de uma obra muito conhecida parece se ater a determinados pormenores e esquecer outros. Este livro é um dos casos. O detalhe base do enredo é fantástico e original o suficiente para prender a admiração mesmo de quem nunca o tenha lido. A ponto de nos esquecermos de o folhear, pensando já conhecer tudo o que há para conhecer. Acontece que, por exemplo, o quadro escondido de Dorian Gray não assimila apenas as rugas que deveriam existir na face eternamente jovem do protagonista, mas também os pecados que vai somando na sua vida, desenhando não só uma figura idosa mas também hedionda, negra e odiosa. Arte mais realista que a vida. Um personagem esquecido (pelo menos por quem eu li ou ouvi acerca do assunto) é o delicioso Lord Henry, amigo de Dorian, reflexo da exuberante personalidade do autor da obra. Ele é uma espécie de Mefistófeles para o Fausto de Dorian, ao mesmo tempo que é uma voz cáustica, satírica e jocosa dotada de aforismos morais tão falaciosos que transformam-se em tangentes da verdade (ou pelo menos uma verdade). Ele é o arquétipo do façam como eu falo e não façam o que faço. Mas porque é ele o Diabo tentador de Dorian Gray? Na sequência inicial, quando o pintor, amigo de ambos e autor do famoso quadro, mostra a obra, Lord Henry pergunta a Dorian se este não gostaria de ser eternamente jovem como aquela sua representação iria sempre ser. O protagonista reconhece-se neste desejo e enceta um pacto informal, de que gostaria de ver o quadro envelhecer no seu lugar. Momentos antes, ambos tinham tido uma conversa que espelha a actual febre pela juventude, pela imortalidade da pele esticada, a única recompensa que merece ser conseguida. A influência da cativante personalidade e opiniões de Lord Henry inebriam Dorian a tal ponto que, sem pensar, acaba por fazer um pacto mefistofélico.

O livro é contado pela prosa florida, perfumada e exuberante de Wilde, toda ela cores garridas, excessos dos sentidos e do prazer físico e carnal. É um livro que, perdoem o cliché, foi, é e será sempre actual.

Pilha de Livros de Sam

Poesia de Eugénio de Andrade pela Fundação Eugénio de Andrade

Ele agarra-nos. Na cadência das pequenas palavras e no célere dos versos. Na alvura da atmosfera, na brisa matinal que expulsa o mofo da casa de campo há muito fechada. No arrumar da casa. No mundo explicado, como se de uma inteligência arguta se tratasse. Parece que o resumo se torna mais fácil, mas tenham a certeza, não o é.

Um dos maiores poetas portugueses do século XX deixou-nos há muito pouco tempo e este grande tomo contendo as suas poesias parece pequeno demais para nos preencher o hiato que é a sua forma no mundo. Não deixem morrer a saudade das suas palavras. Leiam e releiam, como o faço neste momento.

E parece que ele adorava gatos, portanto devia ser mesmo interessante.

PROVINCIA

Meu casto
E puro amor provinciano,
Não percas tempo
Acendendo velas
No teu oratório:
Nenhum santo
Nem eu
Estamos na disposição
De fazer o milagre
Do teu casamento.

II

Cantas. E fica vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
Em redor é tudo teu;
Mas quando cessa o teu canto
O silencio é todo meu.

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

The League of Extraordinary Gentlemen, Black Dossier de Alan Moore e Kevin O’Neill pela DC Comics

Esqueçam o filme. Esse pedaço execrável de imagens ligadas umas às outras pelo movimento. Ninguém dever-se-ia dignar sequer a ver aquilo. Desculpem os que gostam, mas de facto o filme não acrescenta nada à obra na qual foi baseado. Pelo contrario, retira. E muito. Aos gritos, como aos gritos vocifera a criança retirada dos braços quentes da mãe. E que apropriada é esta metáfora. O livro, a BD, é tudo o que o filme nem sequer se esforçou ser. Inteligente. Divertido. Entretenimento para a massa cinzenta.

Um conceito tão fabuloso, daqueles que todos nós pensamos: mas porque não pensei EU nisso antes? E se todos os personagens de diferentes obras da literatura mundial vivessem todos no mesmo mundo e partilhassem aventuras? É assim que vemos juntos Wilhemina Murray do “Drácula” de Bram Stoker, Allan Quartermain do “Minas do Rei Salomão” de H. Rider Haggard's, Dr. Jeckyl e Mr. Hyde do romance homónimo de Robert Louis Stevenson, entre tanto outros. E nas mãos do mestre Alan Moore tudo isto é a soma das partes e muito, muito mais.

Este é já o terceiro volume da série. E a velocidade da argúcia e do entretenimento não desce.

O Romance do Genji de Murasaki Shikibu

Ainda que a questão esteja sempre aberta ao debate escolástico, este livro é considerado por muitos como o primeiro romance da história da humanidade. Escrito no século X, no auge do período Heian no Japão, uma época de paz sem paralelo na história da humanidade (durou 400 anos), a autora (sim, era uma mulher) atinge níveis de beleza e profundidade psicológica que só se podem considerar estratosféricos, quer a consideremos pelos níveis de hoje, quer pelos níveis da época.

Estar aqui a tecer diatribes acerca desta suprema obra prima, deste património da humanidade é eufemísticamente desapropriado. Posso então dizer que, até o momento, a obra é excepcional e que a tradução é de primeiríssima qualidade. Quando acabar prometo considerações mais elaboradas. Quero mesmo deixar isso para depois, porque existem obras de arte que são tão mais do que isso. Até lá, ficam com o nome.

Breves Coisas 5

Não é porque gritas que passas a falar a verdade.

Não é porque morres que passas a imortal.

Não é porque nasces que és vivo.

Lança-te do penhasco e vê
se o chão desaparece
debaixo de teus pés.

Talvez tenhas sorte.
Talvez voes.

de Daniel Franco

Breves Coisas 4

A pergunta do fim-do-mundo

Noutro dia soube, ao olhar para um espelho abandonado num beco da cidade, que o mundo acabaria amanhã. Não um metafórico fim-do-mundo, mas realmente o fim-do-mundo.

Soube, por uma voz sussurrante que amanhã, sem apelo nem agravo, sem ruído, o mundo chegaria ao dia do seu fim. Não me disse como, não me disse precisamente quando, apenas que o mundo amanhã acabaria.

Não sabia o que fazer, o que dizer. Ninguém acreditaria em mim. E mesmo que alguém acreditasse, em nada ia adiantar. Sem saber bem porquê, achei que perguntar a pessoas diferentes o que fariam se soubessem que o fim-do-mundo ia chegar era uma boa maneira de acabar o tempo.

Perguntei a um velho, a sua vida uma imensa estrada retorcida, entroncada, e ele respondeu: “Pesaria o que fiz e tentava remediar o mal cometido. Beberia uma garrafa de vinho com amigos.” Achei interessante e continuei.

Perguntei a uma mulher de negócios, telemóvel nas mãos, o relógio pesando no seu pulso, e ela respondeu: “Mandaria tudo pela janela e voaria até os trópicos onde faria amor com um nativo até o mundo rebentar”. Achei interessante e continuei.

Perguntei a um pássaro, pequeno como um soneto, alegre como uma melodia matinal, e ele respondeu: ”Voaria o mais alto que pudesse para encontrar o grande Pássaro Cristal no topo da nuvem santa e ali ficaria com a minha amada”. Achei interessante e continuei.

Perguntei a um poeta, inspiração na pena, palavras robustas na língua, e ele respondeu: “Escreveria o surreal e o espontâneo até que o fim chegasse”. Achei interessante e continuei.

Perguntei a um gato, ágil como um poema, da natureza um instrumento em sinfonia, e ele respondeu-me: “Caçaria ratos, espreguiçar-me-ia ao sol, dormiria na quentura do Verão”. E fiquei com o Gato até ao fim-do-mundo.

de Daniel Franco

O Bom de ser português. Tomo terceiro.

Kyoto de Yasunari Kawabata

Antes de dizer qualquer coisa deixem-me só esclarecer dois pontos.

Eu detesto críticos que acham necessário contar a história da obra de arte que estão a analisar, que acham necessário escalpelizá-la para melhor expressar a sua opinião. Não contribui para que eu, como leitor, aprecie, posteriormente, bem a história. Muitas vezes quer mesmo ditar qual a interpretação “correcta” da obra e, outras vezes e ainda mais odiosamente, quer vender o produto para uma audiência tipo. Desculpem se pareço demasiadamente verrinoso mas eu gosto da novidade muitas vezes inerente ao apreciar de qualquer que seja a obra de arte.

Dito isto, sempre me debati com a ideia que uma história alicerçada simplesmente no enredo, no “o-que-vai-acontecer-a-seguir”, não oferece muito mais do que isso mesmo. Uma história, para ser revisitada, talvez mesmo para ser considerada mais do que puro entretenimento, tem de dizer algo mais, tem que falar uma verdade (nota: eu adoro puro entretenimento, mas não só). Não é certamente o caso deste livro de Kawabata mas ainda assim não contem comigo para vos dizer qual o enredo. E eu sei que isso vai dificultar em muito esta minha recomendação.

Agora que me meti neste beco, deixem-me vos tentar incentivar a ler mais este livro de Kawabata. Se vos digo que a prosa dele é leve, uma folha de papel na calma brisa outonal, um calor reconfortante da fim da estação quente, então não vos estou, primeiro, a dar nenhuma novidade e, segundo, estou apenas a transmitir-vos a maestria do estilo narrativo deste autor japonês. Se vos digo que só o prazer de ler a calma descrição de uma árvore nas duas primeiras páginas do livro torna-se, mais tarde, num importante ponto do enredo e num mote para a compreensão do estilo e mensagem de “Kyoto”, então já começo a entrar pelos terrenos pantanosos que atrás referi. Se, finalmente, vos falo das lautas caminhadas pelas cerejeiras em flor de Kyoto, a cidade, da enumeração dos festivais deste Japão, do subtil, sussurrado e discreto universo das mulheres japonesas, então já vos falo do prazer (difícil, por vezes) de apreciar esta obra de arte.

Este é mais um delicado sopro de Kawabata. Espero que um dia o possam apreciar!

Pilha de Livros de Sam

Eu cá... acho que acho que não se lê o suficiente! Prosa, Banda Desenhada, Poesia, Teatro, em suma, a infinitude de formatos em que nos é dada a palavra escrita. Estava noutro dia mais 3 amigos (dois dos quais vocês até já devem conhecer) num belíssimo restaurante italiano, o “Mezzogiorno” (não passo a publicidade, sublinha-a mesmo) e um deles perguntou: “Que livros andam a ler?”. A pergunta não é comum nos dias que correm. É mesmo tristemente ausente das mais triviais das conversas. “Que filme é que viram?”. “Ouviram aquele álbum novo dos Rosa Choque de Porão?”. Mas livros? Pouco. Nada. O deserto.

O. Deserto.

Vai daí: Pilha de Livros.

Assim, apresento-vos o que ando a ler, ou melhor, a demorar a ler neste dias que correm.

Capitão América de Ed Brubaker, Steve Epting et tal (Omnibus)


Tenho que começar por aqui. É BD, a minha arte favorita. Encomendei directamente dos EUA a versão em formato “Omnibus”, um tijolo contendo os 25 primeiros capítulos desta saga de Brubaker. Aquela onde este primeiro volume até acaba na muita publicitada morte do Capitão América. Todos os elementos que fazem uma boa historia de espionagem, terrorismo, contra-terrorismo, heroísmo, estão aqui. Sem defraudar e sem cansar (a não ser que consideremos o peso do tijolo). Leitura divertida, descontraída e rápida. E o segundo volume promete mais e melhor do mesmo.

Kyoto de Yusanari Kawabata


Depois de “Terra de neve” tive de voltar ao universo diáfano e delicado de Kawabata, enquanto me delicia com retratos subtis das mulheres da sociedade japonesa, um mundo à parte deste nosso hoje. É a história de Geiko, uma jovem de 20 anos abandonada à nascença pelos pais e adoptada por um casal de comerciantes de Kyoto. Mas em breve Geiko encontra alguém do passado.

Na discreta e natural descrição de uma árvore na primeira página do livro, Kawabata retrata de maneira poética a temática de todo o livro, provando que para entrar neste seu universo é necessário parar em cada palavra e não a esquecer, porque tudo é uma tapeçaria cheia de propósito.

Ilíada de Homero, tradução do grego clássico por Francisco Lourenço, editado pela Livros Cotovia


Este é uma vergonha pessoal. Já li, há vários anos atrás, a versão editada pela Europa América. Comprei esta edição e há muito que estou parado na entrada do Canto III (a enumeração, no final do Canto II, nome a nome a nome, de todos os guerreiros Helénicos, desafia muito a minha paciência). Prometo retomar.

Que dizer de um livro que é nada mais nada menos que o primeiro da nossa civilização ocidental? Tudo já foi dito e redito. Apenas posso afirmar que a tradução é exemplar e há muito devida a este nosso jardim à beira mar plantado.
Leitura. Mais. Que. Essencial. É. Obrigatória (mas podem passar por cima da enumeração de todos os guerreiros gregos no final do Canto II).

Deixo-vos com as melhores palavras da editora:

“A Ilíada, primeiro livro da literatura europeia, terá surgido no século VIII a.C., no fim de uma longa tradição épica oral; extraordinário canto de sangue e lágrimas, em que os próprios deuses são feridos e os cavalos do maior herói choram, este poema de guerra em 24 cantos mantém inalterada a sua capacidade esmagadora de comover e perturbar. O título remete imediatamente para Ílio ou Ílion – Tróia – e, embora tivesse sido possível, num poema com 16.000 versos, narrar toda a guerra de Tróia, Homero isola um período de pouco mais de cinquenta dias, já na fase final das hostilidades, do qual nos descreve, em termos de acção efectivamente narrada, catorze dias. Concentra, assim, simbolicamente uma guerra de dez anos em duas semanas. Repetindo a proeza alcançada com a sua magnífica Odisseia, Frederico Lourenço oferece-nos agora a primeira tradução integral portuguesa, em verso, desta obra máxima da literatura mundial."

Terra Inferno I – La Montaigne qui Rêve de Fighera e Biagini


Acabei de comprar. O pouco que sei é do resumo na contra-capa e de dar uma olhada nas 4 ou 5 primeiras páginas. Um monstro lovecraftiano invadiu Londres em 1924, um monstro que viria a ser apropriadamente conhecido como o “Deus-Montanha”. A humanidade caiu em desarranjo, em violência, enquanto horríveis mutações a devassam e barbarizam. Dez anos mais tarde a profecia do acordar do “Deus Montanha” permanece como uma espada de Damocles sobre todos.
O resto? Eu também espero para ver.

O bom de ser português. Tomo primeiro.

“Fa yeung nin wa” (“In the Mood for Love”) de Wong Kar Wai e
Yukiguni (“Terra de neve”) de Yasunari Kawabata



Não me perguntem quando começou o meu fascínio pelo mundo oriental. Talvez tivesse sido com “In the mood for Love” mas, muito sinceramente, acho que não. Talvez tenha sido apenas a consciência desse fascínio que se cristalizou, finalmente, ao ver “In the mood for Love”. Talvez tenha começado com a Heidi, com o Conan, com o Marco da minha infância. Não sei. Mas existe! O mundo oriental, principalmente o da China, Japão e Coreia do Sul, tem uma enorme influência sobre os meus gostos e sobre as minhas descobertas.



Não sei ler, falar ou perceber japonês e mandarim (infelizmente), mas em Portugal temos a felicidade de poder ver todos os filmes de qualquer parte do mundo na sua língua original. Isso cria uma sensação de proximidade, de verosimilhança, de pureza que não acredito que a dobragem propicie. A entoação da voz, mesmo não percebendo o conteúdo, dá-nos mais informação que o conforto do língua materna. Há todo um mundo que nos é transmitido e, no caso do oriental, esse mundo é de tal modo diferente do nosso (não tenham dúvidas!) que me cria a sensação de estar a presenciar uma outra realidade.

Desenganem-se, contudo, os que acham que “In the Mood for Love” e “Terra de Neve” valem apenas pela curiosidade do ser diferente.


“In the Mood for Love” é aquele filme que, se encostado à parede, teria de dizer que é o meu favorito, se essa limitação me fôr permitida (desculpem-me “Senhor dos Anéis”, “Aurora” e “Dupla Vida de Veronique”). Em pouco mais de uma hora e meia, Kar Wai presenteia-nos com uma grande obra de arte, um elogio ao amor, um retrato discreto e sublime de duas pessoas que se apaixonam.

Mas Kar Wai não se contenta com o óbvio. O casal envolve-se porque os seus cônjuges se envolvem. Nós nunca vemos a face do marido e da mulher dos protagonistas, assim Kar Wai escolhe. Apenas ouvimos as suas vozes, suspeitamos das suas acções, até o momento da certeza. E a partir daí algo acontece. Será que o nosso casal tem um caso? Será que consumam esse caso? Tudo não passa de conjecturas, de suposições, de disse que disse. Pouco ou nada da relação carnal, do beijo revelador entre os dois é mostrado. Só sugerido. Apenas nos é revelado um mar plácido na superfície mas, suspeitamos, revolto nas profundezas (a cena que é repetida mas com dois desenlaces diferentes - pontos de vista - é extraordinária).



Tudo servido com uma fotografia genial de Christopher Doyle, colaborador assíduo de Wong Kar Wai, uma banda sonora extraordinária (Nat King Cole uma vez mais a fazer sentido), maestria na realização e montagem e um final que (penso) só poderia ser aquele.

Quem tiver a oportunidade de comprar a edição especial de DVD deste filme vai ter ainda o prazer de presenciar o nascimento e o porquê desta obra. Mais do que nunca, as cenas extras fazem sentido, não para perceber a história (para isso basta ver o filme), mas para perceber a história que poderia ter sido. Se por acaso aquelas cenas tivessem sido incluídas, o sentido da narrativa mudaria. Garanto-vos!


“Terra de Neve”, romance do nobelizado Yasunari Kawabata, é outra história de amor que acredito ser difícil na literatura oriental, onde tudo é mais carnal, voluptuoso, directo. Desta feita, conta-se-nos a história entre uma geisha e um homem casado que a visita amiúde na terra de neve, terra perdida por detrás de difíceis e demoradas viagens de comboio, como se num mundo diferente, desviado, onde as coisas se passam à sua velocidade, tomando prazer na demora dos sentimentos e dos actos.

Tudo é pensamento e reflexão, a percepção dos personagens principais mais acutilante porque o mundo passa por eles com calma. A descrição do homem vendo um reflexo na janela do comboio de uma mulher cuidando de seu homem é demorada, respira profundamente e pensa calmamente cada palavra, cada reflexão, cada momento e verdade percebida. Parece existir um tempo diferente. Um tempo onde não existe urgência. A simplicidade poética da prosa empregue por Kawabata é desarmante pela honestidade. Meditação em forma de literatura.

São estas ocasiões, estes mundos que tenho vontade de conhecer e explorar, que me fazem sentir o que é ser português.

Poemas à Margem


Mãe - que adormente este viver dorido.
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas até o fio
Do meu pobre existir, meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo sítio mais sombrio...
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem - dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava,

Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe!


Sonetos de Antero de Quental in Mãe...

"Antígona" de Sófocles

Antígona vive no meio de um mito trágico familiar levado ao extremo. Filha de uma relação incestuosa involuntária entre Édipo e sua mãe Jocasta, vê dois irmãos matarem-se numa luta de poder por Tebas, na qual um deles toma partido numa conspiração contra a cidade. Creonte, tio destes, torna-se tirano de Tebas e delibera não dar sepultura ao que se insurgiu. Antígona desrespeita a ordem e sepulta o irmão, dando mostras de uma coragem, razão e determinação fora do comum, tendo em conta a pena prevista no caso de desobediência ao tirano: a morte.



Creonte
E a cidade é que vai prescrever-me o que devo ordenar?

Hémon
Vês? Falas como se fosses uma criança.

Creonte
É portanto a outro, e não a mim, que compete governar este país?

Hémon
Não há Estado algum que seja pertença de um só homem.

Creonte
Acaso não se deve entender que o Estado é de quem manda?

Hémon
Mandarias muito bem sozinho numa terra que fosse deserta.

in Antígona (vv. 734-739)


Antígona
Não foi um escravo que morreu; foi um irmão.

Creonte
... Que ia assaltar esta terra; o outro tomou armas por ela.

Antígona
Hades deseja, contudo, que o ritual seja o mesmo.

Creonte
Mas ao honesto não compete o mesmo que ao malvado.

Antígona
Quem sabe se debaixo da terra isso não é exacto.

Creonte
O inimigo jamais se tornará amigo, nem mesmo depois de morto.

Antígona
Não nasci para odiar mas sim para amar.

in Antígona (vv.517-523)