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Para os papás e para as mamãs! Shakespeare para todos!



Nós aqui no “Eu cá...Acho que acho!” temos um receio. De que pensem que nós andamos aqui a alarvar umas palavras sobre uns temas apenas com o objectivo de agradar a solteirões imersos numa pilha de livros, CD’s e DVD’s, que gostam de frequentar a Cinemateca para ver filmes realizados no período vermelho do cinema da 4ª vaga do Uzebequistão (é pá... a minha vida é mesmo triste!).

Mas enganam-se! Temos objectivos superiores. Temos horizontes mais amplos.

Faz uns valentes anos (é triste até pensar quantos!) apareceu na RTP 2 uma série de desenhos animados feita sob a égide da cooperação entre ingleses e animadores russos de nome “Shakespeare Animated Tales”. A qualidade da animação, associada a um resumo bastante acessível das peças mais conhecidas e às palavras do Bardo ele mesmo, elevou esta série ao zénite das boas recordações da adolescência e infância.

A acessibilidade da narrativa das peças era um objectivo máximo dos autores, condensando o essencial em pequenas meias horas de uma animação que, por sua vez, ascendia a uma patamar de qualidade e diversidade de métodos que deixa qualquer Walt Disney da vida vermelho de raiva ou a balbuciar infantilmente num escuso recanto. A atmosfera de cada peça era transmitida por técnicas de animação completamente apropriadas e diferentes entre si, fornecendo uma paleta rica e cativante aos olhos de miúdos e, na minha muito modesta opinião, de graúdos.

As peças focadas na série são já património da humanidade: Romeu e Julieta; MacBeth; Júlio César; Hamlet ; Othello; Sonho de uma Note de Verão; Ricardo III; A Tempestade; etc... Todas (preciso mesmo dizê-lo?) obras primas. E dou graças a esta série pelo abrir de olhos que me deu. Na ganância dos parcos anos, devorei grande parte das peças deste senhor, causa-efeito desta série.

Escrevam para a RTP 2 para repor esta série, ou então façam como eu. Vão até a Amazon inglesa e comprem. Está aqui!

Caso não tenha sido suficientemente claro, além da excepcional animação, mais importante que tudo são as palavras de Shakespeare proferidas por alguns dos melhores actores que a Inglaterra tem para dar. Para lá de absolutamente essencial!

Algures na animação de MacBeth as seguintes (não resisto!) “palavras aladas” são ditas. Só por isso acho que já vale a pena!

MACBETH (depois de assassinar com as próprias mãos o rei da Escócia)

Whence is that knocking?
How is't with me, when every noise appals me?
What hands are here? ha! they pluck out mine eyes.
Will all great Neptune's ocean wash this blood
Clean from my hand? No, this my hand will rather
The multitudinous seas in incarnadine,
Making the green one red.

"Antígona" de Sófocles

Antígona vive no meio de um mito trágico familiar levado ao extremo. Filha de uma relação incestuosa involuntária entre Édipo e sua mãe Jocasta, vê dois irmãos matarem-se numa luta de poder por Tebas, na qual um deles toma partido numa conspiração contra a cidade. Creonte, tio destes, torna-se tirano de Tebas e delibera não dar sepultura ao que se insurgiu. Antígona desrespeita a ordem e sepulta o irmão, dando mostras de uma coragem, razão e determinação fora do comum, tendo em conta a pena prevista no caso de desobediência ao tirano: a morte.



Creonte
E a cidade é que vai prescrever-me o que devo ordenar?

Hémon
Vês? Falas como se fosses uma criança.

Creonte
É portanto a outro, e não a mim, que compete governar este país?

Hémon
Não há Estado algum que seja pertença de um só homem.

Creonte
Acaso não se deve entender que o Estado é de quem manda?

Hémon
Mandarias muito bem sozinho numa terra que fosse deserta.

in Antígona (vv. 734-739)


Antígona
Não foi um escravo que morreu; foi um irmão.

Creonte
... Que ia assaltar esta terra; o outro tomou armas por ela.

Antígona
Hades deseja, contudo, que o ritual seja o mesmo.

Creonte
Mas ao honesto não compete o mesmo que ao malvado.

Antígona
Quem sabe se debaixo da terra isso não é exacto.

Creonte
O inimigo jamais se tornará amigo, nem mesmo depois de morto.

Antígona
Não nasci para odiar mas sim para amar.

in Antígona (vv.517-523)

Filoctetes de Sófocles

(Sófocles, 496 a.C/406 a.C.)


Ulisses
Eu sei, meu filho, que não é da tua natureza falar assim, nem tecer armadilhas. Mas tem coragem, porque é agradável alcançar a vitória. Depois disto, se verá outra vez a nossa justiça. Agora põe-te ao meu dispor pelo curto espaço de um dia, para agires sem escrúpulos; depois, durante o resto da vida, podem considerar-te o mais honesto de todos os mortais.

Neoptólemo

Por mim, filho de Laertes, as palavras que me custa ouvir, detesto também pô-las em prática. Não está na minha natureza usar de vis artifícios - nem na minha, nem, ao que dizem, na daquele que me deu o ser. Ao contrário, estou resolvido a levar o nosso homem pela força e não pela astúcia. Dispondo apenas de um pé, não conseguirá dominar, pela força, tantos de nós. Sim, é verdade que vim para te ajudar, e receio ser considerado um traidor: contudo prefiro, senhor, falhar, agindo honestamente, a vencer, procedendo como um vilão.

Ulisses
Filho de nobre pai, também eu, quando era jovem, tinha a língua preguiçasa e pronto o braço. Hoje, com a experiência, vejo que, entre os mortais, são as palavras e não as acções que conduzem tudo.


in Filoctetes (vv. 79-99)