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Cinema à Quinta

Babam Ve Oglum (2005), em Inglês "My father and my son" foi a nossa escolha na semana passada. É realmente um prazer encontrar de vez em quando um filme que é uma ode ao Cinema. Cagan Irmak é um excelente contador de histórias e a visão tripartida dos protagonistas complementa-se na perfeição, mesmo que por vezes antagónicas, enriquecendo a imagem de uma família simples, modesta, genuína. Quando as amarguras da vida ditam o caminho e obrigam Sadik, o filho pródigo, a voltar à casa paterna, os valores da família e os sentimentos escondidos levam o pai a aceitar a volta daquele.

Sadik recomenda ao filho Deniz o que dizer e como se comportar diante de Huseyin, o avô. Curiosamente, ou não, Deniz age de maneira natural e não segue as indicações de seu pai, cativando de maneira imediata o avô que se rende ao espírito do neto.
Completam o quadro da vida de Sadik a sua mãe, uma força da natureza e elemento de união da família; a sua tia, irmã da mãe, mulher solteira de grande personalidade, em constante litígio com o cunhado; o seu irmão, figura forte contrastada por uma personalidade frágil e sensível; por fim a sua ex-namorada que deixou na aldeia, quando abandonou o futuro de engenheiro agrónomo idealizado pelo pai, tornando-se um activista político e mais tarde jornalista de esquerda na capital.

O filme está cheio de momentos deliciosos, como quando Irmak nos mostra a mente fantasiosa de Deniz que, inocente, distingue o bem e o mal como heróis em luta contra os vilãos que acabam sempre derrotados. Ou a lição de vida que o avô recebe da sua cunhada, vista como uma mulher "snob" e rabugenta, contudo simpática. A misteriosa porta do celeiro, fechada à chave e proibida por Huseyin. A cena hilariante do miúdo à janela. Finalmente o drama que nos enche de emoção.

A não perder!

Sessões à Quinta!

Mou gaan dou III: Jung gik mou gaan de Wai-keung Lau e Siu Fai Mak

Já antes aqui falamos desta trilogia. Apenas cumprimos o "calendário" ao acabá-la, com o (apropriado) terceiro tomo.

Não temos mais nada a dizer. Vá, basta irem ao outro post, OK?

Cinema à Quinta


“United 93” foi a escolha da nossa sessão de há duas semanas. 11 de Setembro de 2001 presente como se fosse ontem, à laia de documentário reconstrutivo do único avião que não atingiu o alvo previsto.

Trata-se da possível sequência de acontecimentos que levou os passageiros daquele voo a insurgirem-se contra os terroristas, a meu ver, mais pelo instinto da sobrevivência do que pelo sacrifício eventual doutras pessoas.
Do drama vivido em três cenários (o avião, as salas de controlo – civil e militar, e a televisão para todo o mundo) dá a imagem pungente da incapacidade e debilidade de toda uma nação, da nação mais bem armada do mundo, perante uma mão cheia de fanáticos e outra de dinheiro.

Uma oportunidade para pensarmos nos extremismos que proliferam em todo o mundo, talvez mesmo mais nos EUA do que em qualquer outra parte. E claro, nos seus efeitos eventuais.

Sessões à Quinta!

Aurora de F.W. Murnau

Há destes filmes! Daqueles que já não se julgam. Daqueles que parece pura perda de tempo afirmar-se ser bom ou não.
Eu vou já sossegar toda a gente a esse respeito. “Sunrise: a Song of Two Humans” é uma obra-prima do cinema. Pelo menos para mim, é! Aliás, vou ser mesmo mais contundente. “Sunrise” é Arte numa das suas mais sublimes interpretações.

Dito isto, que mais posso comentar acerca deste filme? Tanto e tanta coisa que as palavras atropelam-se nos dedos. Vamos começar por alguns aspectos da mitologia que circunda a feitura deste filme.

Murnau era um cineasta alemão, um dos fundadores do expressionismo alemão, corrente artística do início do século XX, sendo à data da feitura deste Aurora já famoso por filmes tão emblemáticos como sejam “Nosferatu” (o primeiro filme de terror da historia do cinema), “Fausto”, entre tantos outros. Convidado pelo patrão da Fox para expressar a sua arte nos EUA, Murnau teve algo sem precedentes na 7ª Arte na América, tão inédito que viria a se tornar parte mitologia. Murnau pôde operar sem limites de orçamento e sem a interferência dos produtores. O que em mãos menores poderia ser um desastre, com este realizador moldou-se numa sinfonia em imagens, um pedaço de Belo extraído da natureza sem desculpas.



A história é desarmantemente simples. Um homem do campo, casado, envolve-se com uma bela mulher da cidade. Ela, sibilante, hipnotizadora, convence-o a ver-se livre da mulher para que possam gozar a sua mútua companhia sem atropelos. Não revelo nada de especial ao dizer que ele não consegue levar a bom porto (neste caso, mau) a sua tenebrosa intenção e o que vem a seguir é... pura e simplesmente... sublime. O casal viaja até a cidade e, paulatinamente, recuperam algo que, afinal, sempre existiu: um amor incondicional.

Como podem ver, não existe nada de extraordinário no enredo que, neste caso, não tem quase qualquer importância. Os sentimentos, expressos pelo actores e pela excepcional câmara de Murnau, transcendem-no de tal forma que se tornam o alfa e o ómega da história. Nada é mais importante. Nada mais pungente do que ver o peso que é levantado das costas arqueadas do marido, dos seus olhos negros que recuperam o brilho, da pesada tristeza que dá lugar ao júbilo do amor. A emoção é de tal modo universal que é imediatamente reconhecida, mas sem lugares comuns, sem formas feias e banais. O lirismo e a poesia são inquestionáveis.

Nada é deixado ao acaso: as formas das letras entre cenas (para quem não sabe, este filme é mudo); a caracterização dos personagens; os cenários. Mas feito sem estrutura seca e matemática. Brilha e pulsa com a vida da história que, tal como diz (e muito bem) o subtítulo, não é mais que a canção entre dois humanos.

O que já não é por acaso é que o “Cahiers do Cinema” tenha uma vez dito que este se tratava do “filme mais belo do mundo”. É provável que sim.

Sessões de Quinta e O Bom de ser português. Tomo segundo.

Mou gaan dou II (“Os Infiltrados II”)



A escolha desta semana há muito que era adiada. Por nenhuma razão em particular. No meio de tantas escolhas para as nossas sessões, esta iria acontecer mais tarde ou mais cedo. Todos já tínhamos visto o primeiro “Infiltrados”, acho que por volta de 2004, quando passou no Quarteto na sua versão original legendada. O meu fascínio pela cinematografia oriental uma vez mais me arrastou para uma sessão que, mais tarde, não me viria a arrepender de modo algum. “Infiltrados” era uma obra-prima. Um filme narrativamente irrepreensível e sobre o qual tinha ficado com a leve impressão que bebia inspiração a fontes tão dispares como a literatura Noir, a tragédia clássica e os universos da máfia e dos gangsters.

Passam-se os anos e um dia deparei-me com o mesmo filme numa conhecida loja de aluguer e decidi, sem prestar particular atenção, trazê-lo. Não passei dos primeiros minutos. O filme era dobrado em inglês. A blasfémia!

Só recentemente tive o prazer de revê-lo na fabulosa caixa que saiu em 2007 e que incluía todos os filmes da trilogia. Desta vez, na língua original, sem dobragem. Já há alguns meses que tinha se reavivado a tentação de o ver outra vez, virtude do “remake” de Martin Scorcese, “The Departed”, vencedor de Óscares. Tinha a leve impressão que o “remake” nem de longe nem de perto se equiparava à versão original. E após rever o primeiro filme da trilogia, dei razão a mim mesmo. Desculpem os que adoram o filme de Scorcese e o próprio Scorcese. “The Departed” é um filme normal. Bom, mas normal. “Infiltrados” é genial.

“Infiltrados II” é mais do mesmo. O que quer dizer que é excelente. Estamos agora todos curiosos aqui no "Eu cá...Acho que acho!" para ver o III.

Todos os personagens do primeiro filme voltam: o policia chefe; o rei do crime em Hong Kong; os dois infiltrados. E a temática continua a mesma. O dever, a lealdade para com as diferentes famílias que os levam a confrontos nada díspares daqueles focados no “Hamlet” da TV, “Os Sopranos” (Até que enfim! Finalmente consegui colocar uma referência à minha série de TV favorita). Os personagens movem-se numa teia enredada pelo destino e, por mais que se debatam, de um modo ou de outro, o seu final já se encontra desenhado desde o inicio. A inexorável e implacável caminhada está já traçada, sem apelo nem agravo, até o inicio do primeiro filme. Nada resta senão deixar os dominós caírem. E o que poderia ser minado de enfado, torna-se num exercício genial e num prazer em ver.

Esta dimensão trágica torna-se numa das maiores forças deste filme e, provavelmente, de toda a trilogia. E por isso ergue-se a um patamar que, para mim pelo menos, não foi possível atingir com “The Departed” de Scorcese.

Adiamos o nosso “eu cá...acho que acho” final para o número III. Mas, se 2 em 3 acertarem, já não é uma média nada má.

"Ladri di Biciclette"


Na última sessão, voltámos ao cinema italiano. Fomos directos ao pós-guerra e ao neo-realismo. Foi a noite do "Ladrões de Bicicletas" de Vittorio De Sica (1948). Tempos difíceis, aqueles!



O bom de ser português. Tomo primeiro.

“Fa yeung nin wa” (“In the Mood for Love”) de Wong Kar Wai e
Yukiguni (“Terra de neve”) de Yasunari Kawabata



Não me perguntem quando começou o meu fascínio pelo mundo oriental. Talvez tivesse sido com “In the mood for Love” mas, muito sinceramente, acho que não. Talvez tenha sido apenas a consciência desse fascínio que se cristalizou, finalmente, ao ver “In the mood for Love”. Talvez tenha começado com a Heidi, com o Conan, com o Marco da minha infância. Não sei. Mas existe! O mundo oriental, principalmente o da China, Japão e Coreia do Sul, tem uma enorme influência sobre os meus gostos e sobre as minhas descobertas.



Não sei ler, falar ou perceber japonês e mandarim (infelizmente), mas em Portugal temos a felicidade de poder ver todos os filmes de qualquer parte do mundo na sua língua original. Isso cria uma sensação de proximidade, de verosimilhança, de pureza que não acredito que a dobragem propicie. A entoação da voz, mesmo não percebendo o conteúdo, dá-nos mais informação que o conforto do língua materna. Há todo um mundo que nos é transmitido e, no caso do oriental, esse mundo é de tal modo diferente do nosso (não tenham dúvidas!) que me cria a sensação de estar a presenciar uma outra realidade.

Desenganem-se, contudo, os que acham que “In the Mood for Love” e “Terra de Neve” valem apenas pela curiosidade do ser diferente.


“In the Mood for Love” é aquele filme que, se encostado à parede, teria de dizer que é o meu favorito, se essa limitação me fôr permitida (desculpem-me “Senhor dos Anéis”, “Aurora” e “Dupla Vida de Veronique”). Em pouco mais de uma hora e meia, Kar Wai presenteia-nos com uma grande obra de arte, um elogio ao amor, um retrato discreto e sublime de duas pessoas que se apaixonam.

Mas Kar Wai não se contenta com o óbvio. O casal envolve-se porque os seus cônjuges se envolvem. Nós nunca vemos a face do marido e da mulher dos protagonistas, assim Kar Wai escolhe. Apenas ouvimos as suas vozes, suspeitamos das suas acções, até o momento da certeza. E a partir daí algo acontece. Será que o nosso casal tem um caso? Será que consumam esse caso? Tudo não passa de conjecturas, de suposições, de disse que disse. Pouco ou nada da relação carnal, do beijo revelador entre os dois é mostrado. Só sugerido. Apenas nos é revelado um mar plácido na superfície mas, suspeitamos, revolto nas profundezas (a cena que é repetida mas com dois desenlaces diferentes - pontos de vista - é extraordinária).



Tudo servido com uma fotografia genial de Christopher Doyle, colaborador assíduo de Wong Kar Wai, uma banda sonora extraordinária (Nat King Cole uma vez mais a fazer sentido), maestria na realização e montagem e um final que (penso) só poderia ser aquele.

Quem tiver a oportunidade de comprar a edição especial de DVD deste filme vai ter ainda o prazer de presenciar o nascimento e o porquê desta obra. Mais do que nunca, as cenas extras fazem sentido, não para perceber a história (para isso basta ver o filme), mas para perceber a história que poderia ter sido. Se por acaso aquelas cenas tivessem sido incluídas, o sentido da narrativa mudaria. Garanto-vos!


“Terra de Neve”, romance do nobelizado Yasunari Kawabata, é outra história de amor que acredito ser difícil na literatura oriental, onde tudo é mais carnal, voluptuoso, directo. Desta feita, conta-se-nos a história entre uma geisha e um homem casado que a visita amiúde na terra de neve, terra perdida por detrás de difíceis e demoradas viagens de comboio, como se num mundo diferente, desviado, onde as coisas se passam à sua velocidade, tomando prazer na demora dos sentimentos e dos actos.

Tudo é pensamento e reflexão, a percepção dos personagens principais mais acutilante porque o mundo passa por eles com calma. A descrição do homem vendo um reflexo na janela do comboio de uma mulher cuidando de seu homem é demorada, respira profundamente e pensa calmamente cada palavra, cada reflexão, cada momento e verdade percebida. Parece existir um tempo diferente. Um tempo onde não existe urgência. A simplicidade poética da prosa empregue por Kawabata é desarmante pela honestidade. Meditação em forma de literatura.

São estas ocasiões, estes mundos que tenho vontade de conhecer e explorar, que me fazem sentir o que é ser português.

Cinema à Quinta



Shaun é um miúdo de 12 anos com uma infância atormentada pelo facto do pai ter falecido na guerra das Falklands. Ambientado no princípio dos anos 80, num qualquer subúrbio de Inglaterra fustigado pelos problemas económicos e sociais que então proliferavam. As lutas provocadas por colegas na escola contribuem para o isolamento de Shaun. Quando por acaso se cruza com um grupo de pequenos e simpáticos skins que o são menos por ideologia e mais pela aparência "cool" de roupas pretas, botas Doc Martin e cabelo rapado, é para ele uma lufada de ar fresco. Esta sensação de pertencer a um grupo, de se sentir apoiado, de compartir experiências, em suma, de ter amigos, abriu-lhe de novo o sorriso e o gosto para a vida. Descobre novas brincadeiras, festas, uma amiga especial, enamora-se. "Jusqu'ici tout va bien".Pequenos skins têm sempre algum amigo que cresce e torna-se grande. Alguns já não se ficam pelas brincadeiras e tornam-se, por uma razão ou por outra, mais facilmente que os outros, digo eu, racistas, xenófobos, intolerantes, violentos.
Quando entra em cena este skin mais "à séria", Combo, um "amigo" do gang acabadinho de sair da prisão, Shaun tem a infelicidade de confundir os ideais deste com os do pai.Impressionante a facilidade e rapidez com que se abraçam novos valores e ideologias que se trocam amigos, deixam namoradas, muda de vida. Mais ainda para um miúdo de 12 anos sem referências e exemplos. Especialmente quando se vive numa sociedade sem valores, preocupada em trabalhar para sobreviver, sem tempo para si quanto mais para os seus.Shaun sente-se importante e feliz com o lugar de destaque com que Combo o premeia. Nesta nova posição, convicto que está a fazer um bem a si mesmo e ao país, rouba e insulta o Paquistanês dono de uma loja de conveniência ou expulsa os miúdos indianos do pátio ao mesmo tempo que se apossa da bola deles, com a naturalidade de quem ajuda a velhinha a atravessar a rua. "Jusqu'ici tout va pas très bien". Os primeiros passos titubeantes tornam-se pequenos passos seguros e quando damos por ela estamos a correr atrás de uns quantos modelos que consideramos ideais. Em que direcção, até quando? Não sabemos, não importa. Nem importa as pessoas que atropelamos pelo caminho, menos ainda se não os conhecermos. Mas quando alguém se aleija a sério, aí temos de parar e pensar. Impõe-se reequacionar valores, amizades, atitudes, comportamentos, antes de estarmos tão embrenhados e cegos para conseguir travar a tempo.
E nós como sociedade o que estamos à espera para tentar prevenir estes eventos de proliferar? Que as desigualdades sociais se acentuem? Que as políticas se limitem a leis opressivas que não resolvem nada? Que os valores se desvaneçam? Que o descontentamento se torne em algo mais violento, se manifeste da maneira mais cobarde e ignóbil em grupos que buscam pretextos para ocupar o tempo e libertar a adrenalina a desancar e provocar desordens, se materialize em tudo menos em actividades produtivas. Sim porque isso não é nem de perto nem de longe tão divertido e recompensador. E se por cima não nos acontece nada de mal a nós ou aos que nos são próximos então é continuar, cada vez mais depressa, cada vez mais violentamente, até ao limite.

Uma bola de neve que se vai tornando maior à medida que desce a montanha. Shaun não deixou a bola rolar muito e acabou por deitar ao mar o símbolo que tinha agarrado com igual rapidez. Digamos o tempo de umas férias escolares. Passados 25 anos ainda há quem desça a montanha e isso é preocupante.

This is England é um filme actual e a mensagem clara e precisa. A ver.




El Espinazo del Diablo de Guillermo del Toro


Quando se ouviu falar que Guillermo Del Toro iria provavelmente realizar “O Hobbit”, adaptação do romance homónimo de Tolkien, as coisas dividiram-se mais ou menos assim: aqueles que estavam à espera da notícia que seria feito mais um filme baseado na literatura do mesmo autor do Senhor dos Anéis (ficaram muito contentes); os que gostam do Guillermo Del Toro depois de ver filmes como “El Labirinto Del Fauno” e “Hellboy” (ficaram também muito contentes); os que não se interessam nada por estas coisas do Senhor dos Anéis e deste realizador mexicano (tanto se lhes faz como se lhes fez); os que gostam do “Senhor dos Anéis” (livro e filme) e que apreciam o trabalho de Del Toro (estes ficaram bastante contentes mesmo, do estilo “eu cá...acho que acho que isto vai ser mesmo a bombar!”). Tristemente tenho que dizer que faço parte destes últimos.

Portanto, sobre isto tenho mesmo que dizer: ainda bem que Del Toro vai realizar “O Hobbit” (bem, pode não acontecer e até o lavar dos cestos ainda é vindima mas...).

E isto tudo para fazer a introdução de “El Espinazo del Diablo”, filme superior de Del Toro e parte de uma (ainda) potencial e informal trilogia de filmes deste realizador sobre a guerra civil de Espanha (o segundo é o também genial “El Labirinto Del Fauno”, o terceiro tem o nome previsto de “3993”).

“El Espinazo del Diablo” retrata a história de um órfão da guerra que é deixado num orfanato perdido algures no nada de uma imensa planície espanhola, sendo colocado num palco onde emoções à flor da pele e um fantasma em busca de retribuição se degladiam numa narrativa plena de sentimento e nobreza.













A guerra é tratada metaforicamente, alegoricamente, os protagonistas representando mais do que aquilo que as suas personalidades à partida procurariam representar. É estranho que um realizador mexicano tenha tanto apreço por este tema e o procure representar com esta imagética sobrenatural. Mas não são algumas das melhores histórias da humanidade aquelas onde o real é levemente tocado pelo véu do outro mundo? Vejam “Hamlet”, “Ricardo III”, “Fausto”, “Cem anos de solidão”, “Odisseia”. Não querendo ter a presunção de achar que se pode colocar tudo e mais alguma coisa num mesmo patamar, parece que Del Toro representa algo de melhor nesta arte (não me estou e referir ao cinema apenas) que é recolher influências dos mais diferentes vectores da cultura humana (quer sejam eles populares, quer sejam eruditos) e regurgitá-los numa amálgama que se afirma como um universo e uma referencia em si mesma, como um estilo que (sim...por que não dizê-lo?!) entretêm e nos faz pensar. A ver!

Ah... e ele é um grande fã de BD!

La Haine



Todas as semanas estreiam 10 filmes que temos mesmo que ver. Todas as semanas são publicados 150 novos livros que temos mesmo que ler. Todas as semanas são editados 10 novos discos que temos mesmo que ouvir. Se juntarmos, a isto, o teatro, os jornais, a televisão, a internet, os blogs, os concertos, as viagens... Todas as semanas o Mundo nos bombardeia com uma quantidade de informação impossível de assimilar. E por assimilar, entenda-se o conhecer, o desfrutar e o digerir. Fico com a sensação de que, hoje, andamos a consumir (e é esta a palavra) cultura como se corrêssemos à chuva sem nos molharmos, de tão depressa que corremos.

Que palavra, que imagem, que assombro levaremos connosco de um filme?

Vem o desabafo aqui à baila, porque numa destas quintas-feiras, vimos o filme, de Mathieu Kassovitz, La Haine (O Ódio). Desde que o vi pela primeira vez, no ano da sua estreia que, trago comigo a pequena história do seu início:

"É a história de um homem que cai do 50º andar de um prédio
Enquanto cai, vai repetindo, para se acalmar: até aqui, tudo bem; até aqui tudo bem; até aqui tudo bem..."

Mas, como diz o narrador desta pequena história, "o importante não é a queda, é a aterragem! "

Tenho-me lembrado dela muitas vezes, a propósito da minha vida, da vida de outros, de Portugal e do Mundo. A queda pode ser longa e suave, mas a aterragem é inevitável.

A propósito, acabou, no dia 22 de Fevereiro, o ciclo de cinema na Cinemateca com o seguinte tema: “O lugar dos ricos e dos pobres no cinema e na arquitectura em Portugal”. Nos debates que se seguiram aos filmes, um dos assuntos mais discutidos foi o do papel do urbanismo e da arquitectura enquanto facilitadores das relações entre as pessoas.

No filme de Mathieu Kassovitz há muito mais do que urbanismo e arquitectura, mas o problema também passa por aí. Que esperamos nós que cresça nos bairros sociais cinzentos e sem humanidade? Para lá da óbvia responsabilidade dos políticos, que responsabilidades têm os urbanistas e os arquitectos que planearam estes bairros em Paris ou em Lisboa? Que responsabilidades temos nós, cidadãos, que vamos dizendo para nós próprios que, “até agora tudo bem”, porque continuamos, a poder viver as nossas vidas, sem intervirmos civicamente no desenvolvimento das nossas cidades?

La Haine, estreado em 1995, teve o mérito de alertar para o problema da violência que vai crescendo nas periferias das grandes cidades. Acontecimentos bem recentes, nos subúrbios de Paris, vieram recordar-nos que o filme continua actual e que a aterragem pode ser difícil.

Apertem os cintos!



"Tropa de Elite" - Urso de Ouro em Berlim



O filme de José Padilha (Brasil), "Tropa de Elite", começa a sua viagem oficial pelo velho continente da melhor maneira. Depois do sucesso no outro lado do oceano, acaba de ganhar o Urso de Ouro, de melhor filme, do festival de cinema de Berlim.

Sessões à Quinta


White Heat (1949) é um filme de gangsters onde o enredo nos leva, por vezes abruptamente, para direcções inesperadas mas sempre interessantes. James Cagney encarna uma personagem assaz perturbada, influenciada por uma omnipresença materna, única a sobrepôr-se à sua forte personalidade. Cody Jarret lidera o seu bando de forma implacável e violenta. A sua mente psicopática, aliada à sua inteligência fazem-no um adversário à altura de Hank Fallon, um detective à paisana, conhecido pela sua eficácia na captura de bandidos perigosos.
Incapaz de amar mais alguém no mundo aparte de si mesmo e à sua mãe, segue escrupulosamente a sua ideia de chegar ao "top of the world". Este desígnio foi conseguido, pelo menos segundo Cagney, quando não consente que outros moldem o seu destino.

Um bom enredo, bom entretenimento, com algumas boas actuações, com excelentes personagens-tipo, que serviriam talvez de base à criação de outras tantas. Estou-me a lembrar por exemplo o mais pequeno dos irmãos Dalton, da BD do Lucky Luke, o mais terrível de todos mas ao mesmo tempo o que mais se subjuga aos caprichos e ideias da mãe.

Sessões à Quinta!

Ôdishon de Takashi Miike



Os meninos de “Eu cá… Acho que acho!” fizeram esta quinta-feira um estágio de preparação para uma ida a esse festival de cinema em Portugal que mais estômagos revolta e que mais abraços provoca, vindos de incautas jovens à procura de conforto no musculado corpo da companhia masculina que ao seu lado se encontra (para júbilo de dito espécime masculino): o Fantasporto.

O filme escolhido foi “Ôdishon” (conhecido em Portugal por Anjo ou Demônio) pelo mestre de terror japonês Takashi Miike.

Foi com este filme que Takashi começou a ser notado por esse mundo fora. Ao contrário do que poderia ser esperado para quem conhece um pouco da fama deste realizador, “Ôdishon” durante boa parte do seu tempo pouco ou nada tem de terror e, mesmo quando algo acontece minimamente parecido com uma acepção estética e narrativa mais clássica deste género (carne esventrada, gritos lancinantes, fugas desesperadas), é relativamente contido (se bem que inspirou aos meninos de “Eu cá…Acho que acho” umas saídas da sala para ir vomitar para a casa de banho, corridas desesperadas pelas escadas abaixo coroadas de gritos demasiadamente femininos para conforto do emissor e saltos para a janela para apanhar o fresco ar da noite).

O filme retrata a história de um senhor, viúvo, que promove uma audição para um filme inventado. Nessas audições (apenas para mulheres) irá conhecer uma jovem (muito mais nova) por quem se sente particularmente atraído e com quem acaba por desenvolver uma relação. Até aqui tudo bem (excepto a parte do filme fictício. Vamos lá ver! Que maneira estranha de conhecer mulheres!). E, de repente, algo acontece. Alguém desaparece. E a partir daqui, o que até então parecia decorrer de forma linear, distorce-se, contorce-se, distorce-nos, arrasta-nos para lugares os quais não reconhecemos imediatamente, mesmo depois de acabar o filme.

Será “Ôdishon” um “cautionary tale”? Uma fábula, um conto, que procura alertar o receptor para comportamentos e acções que deveria ter? Um conto de moralidade?

Lançado em 1999, percorreu o circuito de festivais no mundo inteiro, ganhando alguns prémios (Fantasporto) e acabando por fazer parte das listas dos melhores filmes do ano, curiosamente em 2001 (Time e Empire).

Nós aqui achamos que achamos que, sei lá, a modos que o filme vê-se bem… ou nem por isso! Sim, pois, é isso mesmo!..

“Eu cá… acho que acho!” é agora um espaço de indecisão internacional

As of now” este nosso singelo espaço vai ter contribuições do outro lado do “pond” que é o nosso Oceano Atlântico.

Directo de EUA, um português fugido do IRS pelo facto de vender bolas de berlim na praia do Meco sem tanga e (principalmente) sem a papelada da câmara, temos o grande, tenebroso, cáustico e exuberante “bons novos tempos”.

Ele também vai participar nas nossas Sessões à Quinta! (isto da neti é demais, sem dúvida!) e vai postar assim como que uns disparates e umas opiniões de quem acha que acha mas na realidade não acha é coisa nenhuma.

A comunidade expande-se. Diversifica-se. Os disparates multiplicam-se! E isto de ter alguém dos EUA (mesmo que seja na Amareleja da Barragem de Cima lá do sítio) sempre dá prestígio à coisa!

Sessões à Quinta

"O Couraçado Potemkin"
Sergei Eisenstein
1925
75 Minutos.


Na passada quinta-feira, a noite foi de estreias. Inaugurámos, simultaneamente, o cinema mudo e o cinema russo, nas nossas sessões.

O povo é como um oceano: uma enorme energia que quando se revolta é imparável. Este parece ser o mote que, Sergei Eisenstein, quer deixar no início de "O Couraçado Potemkin", ainda antes de citar Lenin.

Em 1905, houve de facto uma revolta num couraçado da armada russa chamado Potemkin, devido às más condições a bordo. A revolta terá estado, posteriormente, na origem de violentos confrontos na cidade de Odessa. Estes acontecimentos foram vistos, pelo novo regime pós-revolução de 1917, como uma das primeiras manifestações do que veio a acontecer doze anos depois: a Revolução Russa. Os marinheiros deste navio tinham ficado para a história como exemplos de coragem e como heróis.


Estes factos são o ponto de partida para um dos mais influentes filmes de propaganda ideológica da história do cinema.

Em 1925, por encomenda do novo regime, Sergei Eisenstei realiza este filme de homenagem e de celebração desta acção revolucionária. Mas o filme é simbólico do início ao fim. Tudo é outra coisa, como sempre acontece na propaganda, mais ou menos artística: o navio que representa toda a sociedade russa e as suas classes sociais em conflito; os marinheiros que de facto são o povo; os oficiais que representam a nobreza; ou na famosa cena da escadaria de Odessa em que, o massacre dos militares contra o povo indefeso, a que nem as crianças escapam, representa a brutalidade e a crueldade do Czar. E estes são apenas alguns exemplos dos simbolismos que podemos descobrir neste filme.

A partir de um acontecimento histórico, este filme retratou e sintetizou simbolicamente o processo revolucionário, ao serviço da propaganda do regime.

É um documento histórico do ponto de vista político, mas também do ponto de vista cultural e artístico. Eisenstein foi um dos primeiros criadores da linguagem cinematográfica. Foi estudado, seguido e até copiado, por todo o Mundo. Foi original, criador, inovador e deixou técnicas e olhares novos nesta arte que, na altura, ainda dava os primeiros passos.

Para quem quiser ver o filme, ele está disponível para download aqui.

Sim... Ou melhor, não... Não há notas para este filme. Depois de confrontos violentos entre os membros deste grupo de pseudo-crítico-cinéfilos, (quer dizer... com muito tempo livre para dizer umas coisas), inspirados claramente pelo filme e pela presença, na sala, de várias classes sociais antagónicas (os bdsistas, os lírico-qualquer-coisistas e os cinéfílistas-compulsivistas), decidimos que não daremos notas a filmes anteriores a 1935. As coisa estavam a aquecer e ainda havia umas escadas para descer. Achámos (e somos bons a achar) que, para uma noite só, já chegava de massacres. O ano de 1935 foi consensual, dada a urgência de umas horas de sono.
Resta-nos informar, porque nos parece oportuno, que neste grupo existe grande mobilidade social. Como exemplo disso, pode referir-se que, durante os confrontos, alturas houve em que nenhum de nós sabia de que lado estava. Chegámos a ser um bocadinho de tudo e, até mesmo, nada de nada, em menos de 5 minutos. Como é de esperar deste tipo de pessoas, a data de 1935 pode ser revista em qualquer altura desde que isso nos seja útil.

Sessões à Quinta!


O filme da semana foi "Adeus...minha concubina", originário de Hong Kong/China e realizado por Kaige Chen.

Relata a história de dois amigos, actores numa ópera chinesa de nome "Adeus...Minha concubina", ao longo de 50 anos da história da China do século XX. Ao mesmo tempo que vemos o crescimento dos dois homens, acompanhamos, em contraponto, complemento e reflexo, a evolução politica da China entre as décadas de 20 e 70, passando dos velhos costumes milenares para a China comunista de Mao.

Sessões à Quinta!


Esta semana a escolha foi o "L'Adversaire" de Nicole Garcia, com o actor Daniel Auteil.

O filme retrata, dramaticamente, um caso real. De um homem que durante 18 anos mentiu a todos à sua volta, afirmando ser um médico na OMS, quando na realidade não trabalhava em lugar algum. Um filme impressionante pelas sensações veiculadas não só pela realização, como também pela excelente prestação de Daniel Auteil mas, e acima de tudo, por se tratar de algo que de facto ocorreu.

Filmes


Já vos tinhamos falado dos filmes que andamos a ver nas nossas sessões. Pois bem, aqui está a lista até o momento. Cliquem na imagem em cima, vejam e comentem!