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(título gentilmente inventado pelo Filipe Faria)

Quantas e quantas vezes os fãs de BD ouvem a frase "isso é coisa de miúdos"? Pode acontecer quando estamos sossegados a ler na esplanada ou quando queremos sugerir algo e convencer que BD é Arte como outra qualquer. Às vezes, até dentro dos fãs de BD, existe a eterna divisão entre os que gostam de super-heróis ou da Disney e os outros que consideram que, uma vez mais, "isso é coisa de miúdos". 

Esta é daquelas BDs que custam a engolir por muito purista e por muito intelectual da nona arte: a JLA (Liga da Justiça) de Grant Morrison e de Howard Porter (este último com algumas ajudas pelo caminho). Primeiro, são super-heróis a serem super-heróis. Personagens coloridas de um das mais perenes arquétipos da cultura pop moderna. Segundo, é um (aparente) produto dos excessos da década de 90, esse período tão mal fadado dos comics. No que a mim diz respeito, é uma das melhores sequências de histórias alguma vez escritas para super-heróis, feita sem travões, apenas com a velocidade excessiva do macro-cósmico, da fantasia impossível. Esta é daquelas BDs que, de vez em quando, volto a ler para absorver o delírio colorido dos desenhos e das palavras estudadas e milimétricas de Morrison - de preferência em original, desculpem os tradutores, porque elas são deliciosas.


Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, e agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana optamos pela miscelânea. Um pouco daqui, um pouco dali, e prova-se do que a BD é capaz.


Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana temos, por um lado, sugestões para todos os gostos e sensibilidades e, por outro, o inicio de mais uma homenagem à minha editora de BD favorita, a DC Comics, e, especificamente, à Liga da Justiça de Grant Morrison.

Uma BD aqui, outra BD ali, 31 - Liga da Justiça

Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei.  Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Este post foi possível graças ao trabalho da Lost World Comics
(cliquem no nome para irem à página de FB deles e façam as vossas encomendas)

JLA Incarnations números 1 a 7 (2001) de John Ostrander e Val Semeiks (DC Comics)

O Uma BD Aqui, Outra BD ali de hoje é um pouco diferente. Hoje decidi não fazer incursões por BDs recentes, mas antes viajar ao passado (2001-02) e falar-vos de uma mini-série que há anos andava a querer ler. Este JLA Incarnations fez parte de um período áureo do historial da Liga, quando era escrita, no título principal, pelo escocês Grant Morrison. De modo a capitalizar desse sucesso, iam saindo vários títulos paralelos, mini-séries, maxi-séries, one-shots, etc, tudo o que desse para esmifrar a carteira de fãs incautos (sim, eu sou um deles).  No meio dessa barragem de títulos, vários tinham uma qualidade bastante aceitável - recordo-me do DC 2000, por exemplo, um crossover entre a Liga e a Sociedade da Justiça. Este que aqui vos trago tinha-se-me escapado (ou a carteira esmifrado), mas graças aos fabulosos préstimos da loja Lost World Comics, e à sua capacidade de encontrar números antigos dos EUA, pude finalmente o ler. E que delícia de leitura foi esta.

Libertem o Geek! JLA de Grant Morrison e Howard Porter Deluxe Editon Vol. 1

Quando escolhem o vosso herói preferem os que fazem justiça pelas próprias mãos, os vigilantes, aqueles que não esperam pela mão da lei? Ou preferem os que inspiram à bondade, os que não nos carregam no caminho mas antes dão a mão quando tropeçamos? Estas duas perguntas não vêm com truques. Podem escolher ou uma ou outra. Podem mesmo achar que as perguntas não são estas. Até podem decidir escolher as duas - o que do ponto de vista da consistência talvez seja questionável. No que a mim diz respeito tenho preferência pelos segundos. 

Os heróis que regem-se por princípios morais elevados são considerados uni-dimensionais, aborrecidos. Para muitos não interessa ler ou ver aqueles que aparentam não possuir falhas. O meu segredo está em ter a certeza que apenas aparentam ser assim e que tentam todos os dias ser a imagem que lhes construíram à volta. Não por eles. Pelos outros. Para que a Humanidade não caia. Aqui não faço mais que parafrasear um diálogo do Super-Homem no fim da primeira história de Grant Morrison e Howard Porter, quando iniciaram um dos mais memoráveis conjunto de histórias (chamemos-lhe run) da Liga da Justiça. Run esta que é uma das minhas BD's favoritas de sempre.

A Liga da Justiça é a equipa de super-heróis por excelência. Nela estão reunidos os maiores arquétipos da mitologia: Super-Homem; Mulher-Maravilha; Batman; Flash; Lanterna Verde; Aquaman; Caçador de Marte. Contudo, em 1997 (sim, já passaram 20 anos), esta assembleia olímpica fazia décadas que não se reunia sob o mesmo título. Por esta ou por aquela razão a DC Comics tinha escolhido outras combinações de personagens para as várias iterações da Liga. Grant Morrison decidiu pôr um fim a essa dieta e sonhou grande. Iria (literalmente) brincar com os maiores, melhores e mais conhecidos brinquedos da sala de jogos da editora. Assim nasceu JLA (acrónimo para Justice League of America). Seguir-se-iam das mais inesquecíveis histórias com este emblemático panteão de semi-deuses, alienígenas, deuses-morcego, velocistas. Em cada aventura, a escala de ameaça subia a um nível que era, julgávamos nós, pobres mortais, intransponível.  Eram Marcianos Brancos, eram cientistas loucos com o poder de criar corpos e cérebros artificias tão perfeitos que simulavam vida, eram anjos (os verdadeiros, os que expulsaram-nos do paraíso) e eram vilões cujas drogas expandiam a mente para lá dos limites do universo. Tudo isto apenas neste primeiro volume, o que colecciona os primeiros oito números da revista e um especial.

Mas desenganem-se os que acham a minha admiração pelo trabalho de Morrison e Porter pouco mais que deslumbramento ao ver representadas em papel as aventuras de tão ilustre reunião de personagens. O enredo é operático, rápido, como se tudo se passasse no espaço de três segundos e as decisões fossem relógios loucamente oleados (leiam o fim do terceiro capítulo e a transição para o quarto).  Os inimigos não vivem no cinzento da ambiguidade moral, são profundamente negros e tenebrosos. As frases são tão citáveis que torna-se ridículo enumerá-las todas. As "aventuras", os "contos", são ao mesmo tempo entretenimento deliciosamente pop e reflexões sobre a natureza do herói (achavam que o primeiro parágrafo deste post era só meu?).

Este primeiro volume da Deluxe Edition (a única que vale a pena comprar e ler - é como ir ver um filme à sala de cinema) tem uma coleção deliciosa de grandes momentos que tocaram e ainda tocam todas as notas certas neste fã: Super-Homem enfrenta um anjo; uma carruagem angélica encontra o poder da Mulher-Maravilha; quatro marcianos são cilindrados pelo humano Batman; Flash enfrenta outro velocista chamado Zum; Hitman vê a Mulher-Maravilha nua e já pode morrer feliz (só lido); a gramática impecável da Mulher-Maravilha; o Super-Homem sublinha que o Batman é o homem mais perigoso da Terra; o brinde aos bons velhos tempos; etc. 

Tenho a plena noção que o trabalho de Morrison e Porter na JLA é insular, que é necessário gostar de super-heróis em geral e dos da DC em particular. Contudo, se eu não posso, neste blog, falar daquilo que, verdadeiramente, me dá prazer, então falo onde? Portanto, para quando a edição completa destes contos em português de Portugal? 

Nunca me tentem roubar as BD's.

“Did you ever want to set someone's head on fire, just to see what it looked like? Did you ever stand in the street and think to yourself, I could make that nun go blind just by giving her a kiss? Did you ever lay out plans for stitching babies and stray cats into a Perfect New Human? Did you ever stand naked surrounded by people who want your gleaming sperm, squirting frankincense, soma and testosterone from every pore? If so, then you're the bastard who stole my drugs Friday night. And I'll find you. Oh, yes.” ― Warren Ellis, Transmetropolitan, Vol. 5: Lonely City

Dr. Doom, aka Dr Destino, contra a Justice League, aka Liga da Justiça - desenho de John Byrne por comissão

(NOTA - infelizmente, isto nunca "aconteceu")


Colecção DC Levoir/SOL – 6.º Volume: Liga da Justiça e Sociedade da Justiça

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta colecção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)
Grau de acessibilidade: Difícil mas…
Sai Sexta-feira, dia 3 de Janeiro, junto com jornal SOL e custa 8,9€

Existem aqueles que olham para os super-heróis e têm a impressão de se tratar tudo do mesmo. Nada poderia estar mais longe da verdade. Podemos começar pelas substanciais diferenças entre a Marvel e a DC Comics, engano que, aliás, foi alvo de uma microscópica polêmica aquando da estreia do último filme do Batman, com um crítico de cinema de um famoso jornal a afirmar que não existe distinção significativa entre os personagens destas duas editoras. Este volume da coleção da Levoir exemplifica na perfeição uma das diferenças fundamentais entre as duas e entre a multidão de personagens que pululam os respetivos universos.

Na DC Comics os variados heróis formam uma enorme família, com relações afetivas profundas e complexas, com todos os predicados e defeitos que estas ligações acarretam. Na Marvel, essa noção de família é bastante diferente, havendo conflitos de variadas origens entre os vários personagens, diferenças filosóficas profundas que muitas vezes criam cisões e fronteiras veementemente definidas. Obviamente que, com mais de sete décadas de histórias, as fronteiras foram se esbatendo e reconstruindo diversas vezes, mas as diferenças fundamentais ressurgiam ciclicamente, muito por culpa dos diferentes autores que neles iam trabalhando. Cada nova geração de criadores trazia algo de novo e algo de velho, e as recordações de juventude impregnavam-se no enredo ou história que contavam. Geoff Johns, o escritor por detrás das histórias aqui inseridas, é apenas mais um deles, ainda que um dos mais famosos e bem-sucedidos da última década. Johns notabilizou-se por ir ao baú de antigas histórias, dos antigos personagens e das antigas sensibilidades e mesclá-los com o seu muito próprio modernismo, tendo sido responsável não só pela evolução, deste princípio de século, de variadíssimos personagens da DC (Lanterna Verde, o exemplo mais conhecido e querido de muitos fãs de BD, e já publicado nesta coleção), como de todo o universo da editora.

O trabalho que o conduziu, pela primeira vez, para a perceção dos fãs, está parcialmente incluído neste novo volume da coleção da Levoir, especificamente a relativo à Sociedade da Justiça da América. Este grupo de super-heróis é, basicamente, o mais antigo do género na BD americana, e cujas origens remontam à década de 40, quando a editora DC da altura decidiu reunir numa mesma história os seus variadíssimos personagens, obviamente com a clara perceção de que os leitores estariam particularmente interessados nestas aventuras, o que veio a revelar-se um providencial sucesso imediato. Nos fins da década de 50, após um período de seca no universo dos super-heróis que incluiu o cancelamento das histórias da Sociedade, o conceito de um grupo destes personagens seria retomado com o surgimento da Liga da Justiça, herdeira filosófica da anterior, onde se reuniam os maiores nomes da editora: Super-Homem; Batman; Mulher-Maravilha; Flash; Lanterna Verde; Aquaman; Caçador de Marte. Mas a Sociedade da Justiça regressaria (os autores que haviam apreciado as aventuras na sua juventude são sempre os culpados) em reuniões anuais com a congénere mais moderna, encontros que se repetiriam ao longo dos anos e onde a noção de família e amizade tinha tanta importância quanto a crise que eles tinham de enfrentar. Estes encontros, no unierso pós-Crise nas Terras Infinitas, seriam objeto de um hiato, mas acabariam por regressar e exatamente com a primeira história publicada neste volume da Levoir, a que lhe dá nome, Virtude e Vício. Johns, como já referi, começou a ser conhecido com a sua run na nova iteração da Sociedade da Justiça, e este é apenas mais um capítulo na sua longa experiência com estes personagens.
Acompanhar estes encontros é sempre uma delícia para os fãs de BD de super-heróis, que gostam das suas páginas recheadas de múltiplos personagens garridamente coloridos a enfrentar vilões maiores que a vida, personificações do Mal mais puro e “sublime”. Este não será o volume mais fácil de acompanhar na medida em que alude a variadíssimos eventos e personagens de histórias anteriores, mas vale a pena acompanhar pelo valor de entretenimento puro e operático. E, claro, existe sempre esta nota que coloco no final de todos estes posts.

Nota – Não partilho da opinião que tem de se saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

Colecção DC Levoir/Público – 1.º Volume: Liga da Justiça

(Prometo tentar informar aos menos conhecedores de BD acerca da acessibilidade desta colecção, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber muito mais coisas)


Grau de acessibilidade: Médio para o fácil
 
Sai amanhã, Quinta-feira, dia 11 de Julho, junto com Público e custa 4,9€

Este volume apresenta os derradeiros contos escritos pelo escocês Grant Morrison para a Liga da Justiça, culminando uma das melhores sequências de histórias da equipe de super-heróis da DC que reúne os seus maiores ícones: Super-Homem; Mulher-Maravilha; Batman, Flash; Lanterna Verde; etc. 

As duas histórias incluídas não implicam um profundo conhecimento do universo DC, isto para além de saber quem são os personagens principais, e acho que todos têm uma ideia relativamente bem concebida de quem eles são. Ainda que apareçam algumas que são certamente desconhecidas do grande público (principalmente na 2.ª história desenhada por Ed McGuiness), o acompanhamento do desenrolar do enredo não é prejudicado pelo facto.

A primeira história é o encontro entre a Liga da Justiça e os seus doppelgangers de um universo espelho. Trata-se da reinterpretação, pela deambulante imaginação de Morrison, de conceitos nascidos na década de 60.

A 2.ª história, apesar da Liga estar ausente durante parte das suas páginas, é mais um fantástico exercício de estética literária BDística típica de Morrison.

Qualquer uma das histórias tem desenhos de dois dos mais nobres representantes da 9.ª Arte: Frank Quitely - que tem inúmeras colaborações com Morrison; Ed McGuiness - conhecido por um estilo que só consigo descrever como manga cartoonesco operático.

Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

Marvel vs DC - artigo Maxim

Malta, ora cá está o artigo da semana no site da Maxim. Podem lê-lo aqui.

E não se esqueçam de clicar nas etiquetas deste post e ler mais um pouco do que tenho escrito sobre estas coisinhas de que gosto tanto.



Como é que a casa do Super-Homem chegou a isto?

Foi recentemente anunciado pela DC Comics, parte da dupla sagrada de editoras gigantes dos EUA (a outra é a Marvel), que um dos seus mais emblemáticos escritores iria abandonar um dos títulos que o fez famoso. O autor é Geoff Johns e o título é o Lanterna Verde (no original, Green Lantern). Era natural este anúncio, já que Johns escrevia a série desde Dezembro de 2004, tendo sido responsável pela maior revolução criativa que este personagem tinha visto nos seus 70 anos de vida. Johns fez o mesmo que Frank Miller fez com o Demolidor. Tornou-o seu.

Acaba aqui uma era desta editora norte-americana de BD. Um fim anunciado há já algum tempo. O fim da DC Comics virada para a obra de autor no seu universo mainstream de super-heróis. Durante duas décadas foi possível produzir obras finitas, fechadas e idiossincráticas no sempre hermético mundo dos homens de collants. Foi possível a excepção e o excepcional, a experimentação, o puro gozo de tentar um novo prisma, uma nova visão, testar as águas, nem sempre com sucesso mas sempre com personalidade.

Recuemos para 1986, considerado por muitos como o melhor ano da BD americana (comics) muito por culpa de duas obras lançadas por esta editora que, à altura, estava nos estertores da morte. Resolveu esquecer o método antigo de fazer as coisas e tentou o novo, o imprevisível, o adulto, o singular. Se, por um lado, as obras The Dark Knight Returns de Frank Miller e Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons foram responsáveis por uma das maiores revoluções nos comics até à data, por outro, a DC decidiu, pela segunda vez na sua história, fazer um reboot no seu universo dos super-heróis, recomeçando quase tudo do zero (não foi bem assim, mas isso é conversa para outra altura). O efeito-dominó destas duas mudanças de paradigma foi tão imprevisível como explosivamente criativo.

Ao abrir as portas à reinvenção e ao trabalho autoral a DC permitiu o aparecimento de obras que, até hoje, são consideradas únicas de talento e inventividade.

Existiram, por um lado, as firmemente inseridas no universo e continuidade dos super-heróis (nota - continuidade é a consistência de histórias e características dos vários personagens e eventos num mesmo universo fictício). Entre 1988 e 1990 pôde ler-se Animal Man de Grant Morrison, em que o escritor escocês consegue imprimir num conceito aparentemente ridículo (um homem que emula os poderes de todos os animais) reflexões meta-textuais sobre a BD e outras sobre ecologia e messianismo (este usando o Coiote do desenho animado do Bip-Bip). Fizeram-se incursões no campo da comédia, em que Keith Giffen e J.M. de Matteis decidiram usar o nome do maior grupo de super-heróis da DC, a Liga da Justiça, em situações verdadeiramente hilárias, provando que a fórmula não se resume a seres ultra-musculados à porrada uns aos outros enquanto o destino de uma dama indefesa pende na balança (ou um gato, pode também ser de um gato, que existe sempre um preso no topo de uma árvore pronto a ser salvo). Por falar na Liga da Justiça e em Grant Morrison, não podemos esquecer a JLA deste escritor e do desenhista Howard Porter, uma ópera em vários actos envolvendo os maiores super-heróis do planeta. E, na sequência, a JSA de Geoff Johns, em que o legado e a herança histórica desempenhavam um brilhante papel. Tal como no Flash de Mark Waid e outra vez no de Geoff Johns. Ou o Young Justice de Peter David e Todd Nauck, protagonizada pelos parceiros adolescentes dos mais importantes super-heróis. E a lista continua. Todos estes autores usaram as muitas ferramentas típicas dos super-heróis e construíram universos e histórias que representam até hoje uma herança digna e maciça.

Existiram também as obras finitas que, ainda que inseridas na referida continuidade, pouco ou nada deviam a ela, existindo à sua margem sem a perturbar ou sem serem perturbadas. Starman de James Robinson (escritor) e Tony C. Harris e Peter Snejberg (desenhistas) abraçava o legado histórico das mais de cinco décadas do universo da DC e expandia-o, não tanto pelos personagens e eventos mas pela sua visão, estilo e alma. Uma obra pessoal em que os super-heróis são o estilo e não a forma. Neste campo existe também o ao mesmo tempo hilário e mega-violento Hitman de Garth Ennis (escritor) e John McGrea (desenhista). Ennis é conhecido por odiar todos os super-heróis, excepção feita ao maior deles todos, o Super-Homem, mas foi capaz de escrever um dos mais preciosos e esquecidos tesouros da biblioteca desta editora.

Outras obras houveram, menores por causa do tempo em que conseguiram permanecer nas bancas, mas que da mesma forma marcaram a visão desta DC. Major Bummer, Chase ou Cronos, para lembrar apenas três numa multitude de belos falhanços.

Infelizmente, esta DC não existe mais. Ocorreu algo que inverteu este caminho trilhado desde 1986. A guinada foi no sentido da interligação entre todas as BD do universo DC de super-heróis, o que, inevitavelmente, leva à castração da criatividade por via do imperativo editorial. A larga maioria das histórias estavam agora direcionadas para uma ampla visão em que tudo estava ligado a tudo, em que cada autor não pode ir para direita com medo de passar por cima do caminho do outro.
Não existe mais a DC que entregava um personagem a um autor sem compunções e sem os grilhões da continuidade (hoje em dia um monstro sagrado e cada vez mais castrador). Sem o prender a mega-eventos que arrastam tudo e mais um par de botas para uma obra megalómana que, mais vezes do que não, cede sob o seu próprio peso. Sem cegos ditames editorais que mais depressa defendem a integridade de um franchise e menos as histórias que o construíram ao longo de 7 décadas. O interessante é que desde 1986 que estas mega-sagas são recorrentes, mas raramente tão omnipresentes como as mais recentes.


Claro que existem excepções, como sempre, mas cada vez mais raras (lembro-me de uma, a Mulher-Maravilha de Brian Azzarello e Cliff Chang). Assim sendo, espero pelo dia em que possa algures dizer que este post não tem mais validade. Até lá… continuo a escolher aquilo e aqueles que leio.

Banda Desenhada. Porque vale a pena ler e ler e ler...

JLA de Grant Morrison e Howard Porter

Uma estrela do mar do tamanho de um continente que deseja ardentemente roubar os sonhos de crianças para construir um império.

Descendentes do século 853 que viajaram até o nosso presente onde esperam convencer-nos a participar em jogos celebrativos da nossa herança.

Um Sol Tirano e o homem imortal reunem-se sob a madrugada de um planeta vermelho e planeia o fim de dois séculos.

Um Deus déspota que vê o paraíso como um tempo e um espaço onde todos são cegos, surdos e mudos a tudo, excepto à Sua palavra.

Uma arma todo poderosa do universo que existiu antes do nosso.

Um anjo que segue a herança rebelde do Lucífer Estrela-da-Manhã.

Está convencido? As histórias atraem? Se sim, JLA (acrónimo de Justice League of América) é para si. Mas mais particularmente a JLA do mago escocês louco que é Grant Morrison e da tinta titânica de Howard Porter.

Esta JLA é como se um filme blockbuster injectado de drogas psicotrópicas saísse a cada 6 meses. É como se Shakespeare e Spielberg desejassem ter um filho juntos. É como o relato mesmerizado de um repórter que ousou escrever de perto – tão de perto – as batalhas de DEUSES.

E os Deuses em causa são dos maiores ícones da BD americana e da editora DC: Super-Homem; Batman; Mulher-Maravilha; Flash; Lanterna Verde; Aquaman; Martian Manhunter.

É como se Mozart, Beatles, Ali Farka Touré, Alpha, U2 e os Radiohead se juntassem para escrever o concerto de aniversário de Deus. É como se Homero, Shakespeare, Proust, Joyce, Saramago e Cervantes partilhassem a escrita do livro verdadeiro. É como se Camões, Pessoa e Andrade escrevessem o hiper-poema. É assim que se deve ver a aliança destes mega-seres, destas estátuas clássicas de perfeição humana, desta máquina oleada de defesa do puro.

Durou pouco mais que 40 capítulos e está tudo coleccionado. Procurem-nos na Amazon ou na loja mais próxima que venda BD. E já agora, se puderem, comprem a Deluxe Edition, ou vocês não gostam de ver os vossos filmes preferidos num ecrã gigante?