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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, e agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana optamos pela miscelânea. Um pouco daqui, um pouco dali, e prova-se do que a BD é capaz.

Rapidinhas de BD - Black Hammer vol. 1; Empowered vol. 10; A Última Nota

Black Hammer vol. 1: Secret Origins de Jeff Lemire e Dave Stewart (Dark Horse)

Jeff Lemire é conhecido pelo ecletismo das suas escolhas para histórias na BD. Pode fazer incursões em super-heróis, como o seu maravilhoso, menosprezado e esquecido Superboy, ou entrar por territórios mais pessoais e independentes, como nos deliciosos Sweet Tooth ou The Nobody. Black Hammer situa-se a meio destes dois, uma viagem às recordações doces deste autor enquanto lia as aventuras dos homens de collants, mas também uma perspectiva idiossincrática que evoca visões mais sérias. Tudo se passa anos após uma batalha apocalíptica de super-heróis arquetípicos contra uma Deus do Mal. Depois dessa batalha o grupo é misteriosamente exilado para um mundo paralelo, e afastados das lides de defesa da justiça. Os vários membros da equipa adaptam-se o melhor que podem, uns bem e outros menos bem. É nesse equilíbrio da adaptação que Lemire explora as várias vidas das personagens. Não só elas são adaptações assumidas de arquétipos conhecidos (Super-Homem; Shazam; Monstro do Pântano; etc.), como as suas histórias funcionam como reflexões de enredos dessas mesmas personagens. O escritor consegue um perfeito equilíbrio entre o elogio/pastiche/cópia, a homenagem e a inovação, conseguindo dar algo de novo e algo de velho ao mesmo tempo. Esperemos que o segundo volume permaneça neste nível de qualidade.

Empowered vol. 10 de Adam Warren (Dark Horse)

Para quem lê este blog não será segredo que a BD Empowered de Adam Warren tem em mim um assumido fã. Já escrevi algo sobre ela (leiam aqui) e um dos artigos mais lidos da história do Acho que Acho foi (curiosamente) O Sexo na BD. Este volume 10 é mais do mesmo mas o mesmo é mesmo bom. A nossa heroína continua com problemas de auto-confiança, ainda que um dos enredos desta nova história tenha a ver com (spoiler) o ingresso numa equipa análoga à Liga da Justiça/Vingadores deste universo. Continua a tendência softcore, bondage e "all around titilating" que são as aventuras da voluptuosa e sensual personagem, toda ela um comentário à hipersexualização das mulheres na BD, mas assumindo (ironicamente ou não) esse comentário, devolvendo-nos uma exploração excitante que agarra o leitor. Outra das marcas de Warren são os diálogos entretidos, naturais e que oscilam entre uma oralidade assumida e uma verborreia intelectual e aliterativa cativante (até eu já me entrei pela hiper-adjectivação das frases). Empowered é uma mistura deliciosa entre guilty-pleasure e uma análise intelectual da BD. Não sei o que é na realidade, mas sei que adoro. 

A Última Nota de André Mateus e Filipe Duarte (Escorpião Azul)

A editora Escorpião Azul tem explorado a edição de autores portugueses desconhecidos. O ano passado deram-nos uma aventura deliciosa no Caderno da Tangerina de Rita Alfaiate, com um equilíbrio bastante interessante entre história e desenho. Recentemente, fui nova e agradavelmente surpreendido com este A Última Nota, uma exploração curiosa do mundo da música e de como nascem as lendas neste meio. A história acompanha dois amigos de infância, a aventura que têm com uma amada em comum e, anos depois, as consequências desse amor. Um deles transformou-se num ícone pop internacional, mas que procura a legitimação artística sonhada pelos músicos. Nesse demanda, irá reencontrar o amigo e reacender velhas memórias. A obra apresenta um enredo bastante interessante e entretido, com algumas reviravoltas que cativam o leitor. O desenho, apesar de conseguir algum breakdown da história fluído, apresenta falhas de técnica, sendo o elo fraco desta BD. Ainda assim, porque faço parte da escola história primeiro/imagem depois, A Última Nota revelou-se uma surpresa e uma delícia. 

O que vou lendo! - Empowered vol. 9 de Adam Warren

Não é com vergonha que admito que um dos artigos mais lidos deste Blog é um que, de forma desenvergonhada e mercantilista, intitulei de Sexo na BD (vá lá, leiam-no para engrossar ainda mais as estatísticas). Como podem atestar pela sua leitura, escolhi os trabalhos do eterno Manara e de Adam Warren para embelezar o conteúdo do dito post (inicialmente feito para o site da revista Maxim). Já lá vão uns anos desde que o escritor/desenhista começou o trabalho em Empowered e, passados nove volumes, esta continua a ser uma das obras mais sexy e divertidas do mercado estado-unidense de BD. O estilo do desenho é assumidamente Mangá mas a estrutura de página e de vinheta é ocidental, com uma escrita fortemente alicerçada na inventividade da verborreia (e ela é deliciosamente metralhada e regurgitada a 1000 km/h), na excentricidade da personalidade, no design dos muitos personagens e, uma vez mais, no ambiente assumidamente erótico e soft porn. Graças a deus!

Desde já faço um aviso à navegação: não tentem entrar em Empowered  por qualquer outro volume que não seja o primeiro, porque esta é uma história que desenvolve-se desde o início, de forma rocambolesca e intrincada. É verdade que o que mais me atrai para a leitura não é o enredo (que também é empolgante) mas antes o que descrevi no final do parágrafo anterior. Contudo, é justo avisar-vos desde já: tem de existir um forte investimento (monetário e de tempo) para ler Empowered.  É inacreditável que Warren continue, após nove volumes e alguns anos, sem revelar importantes mistérios que rodeiam a personagem principal, a perpetuadamente insegura Emp. Inacreditável porque eu não poderia importar-me menos com isso. Aliás, quero mais que continue ad infinitum e (não) ad nauseum a "fazer render o peixe", a "encanar a perna à rã", porque o que interessa são os hilariantes personagens e o paleio nonstop (sim, sei que já o disse). Este volume foca-se especialmente na heroína e no enredo mais recorrente de Empowered: a perpétua "habilidade" em ser capturada e amarrada por vilões; a pretensa inépcia em ser uma super-heroína capaz. Warren inventa um "super-poder" verdadeiramente impressionante para Emp, continuando a lenta caminhada da jovem rapariga que a levará, certamente, ao cume da vitória. Nesta história é a caminhada que interessa e não o fim (previsível?). Nesta história, Empowered poderá ter mais do que um significado: o nome da heroína, certo, mas, acima de tudo, a busca de força para dar mais importância ao que se sabe de si mesmo e menos ao que os outros pensam de nós. Uma espécie de "empoderamento". Ser, ao mesmo tempo, uma BD sexy é apenas um bónus. 

Revista Say Something - artigo do Acho que Acho

No final do ano passado a revista online Say Something lançou um desafio aos bloggers. Enviem o post de que mais gostaram ou que mais sucesso teve no ano de 2014 e eles escolheriam três desses artigos. 

Aqui no Acho que Acho, meio armados ao pingarelho, quisemos tentar e acabamos por ter sorte. Cheira-nos que a malta da Say fez a escolha depois de uma barrigada de filhoses no Natal. É sabido que fritos a mais provocam alucinações. 

O artigo que enviamos é um dos nossos mais famosos. A razão desse sucesso é-nos completamente alheia. A bem ver, fala de sexo na BD, uma combinação de temas que interessam apenas a um selecto número de intelectuais cujos pais lhes leram Proust no berço. Se quiserem reler o post cliquem aqui.

Quanto à extraordinária revista da Say Something, achamos que não vos custa nada lê-la - bem vistas as coisas, de vez em quando param por este nosso Blog. Basta irem por este link

Finalmente, um pouco mais a sério. Obrigado a todos os que leram o artigo e obrigado ao pessoal da Say pela escolha. Sinceramente, não achamos que merecemos. Quer dizer, só um poucochinho. 


Rapidinhas de BD – Empowered vol. 8; Powers Bureau vol. 1

Empowered vol. 8 de Adam Warren


Já aqui falei desta BD em mais do que uma ocasião. Inclusive, foi também tema de um muito popular artigo sobre o sexo na BD (mas porque raios é este o artigo mais lido do meu Blog?). Todos os elogios que dedico ao trabalho do escritor/desenhista Adam Warren com a sua Emp (a protagonista) são pequenos. Não se trata de uma BD que estimula (ui… a escolha das palavras) a mente, mas entretém para lá do necessário. Cada volume é forte no enredo e nos impressionantes desenhos, estes uma mistura de mangá e comics.

Já que dedico tantas palavras a Empowered achei que desta vez deveria tecer dedicados elogios aos diálogos, um dos fortes desta obra. Cada personagem é obviamente apetrechado com a sua própria voz, mas é na cadência dos termos, na sua escolha, no fraseamento, que reside a genialidade do trabalho de Warren, um pleno planeador de pungentes partilhas de personalidade pela palavra - sim, a aliteração é bastante usada, de forma bastante humorística (veja-se o delicioso e verboso deus cósmico aprisionado num cinto pousado na mesa de café da nossa heroína). Todos os personagens falam muito e de forma musical, sublinhada, viva, ainda que uma forma mais dramática da vida. Eles gritam, eles excitam-se (em muitos sentidos da palavra), eles discutem. Adam Warren perde muitas páginas a deliciar-se com a construção da sua peça de teatro pós-moderna e em forma de narrativa gráfica. Tudo servido junto com corpos e situações muito sexy.

A história deste volume encerra uma viagem ao inferno em nome do amor o que, bem vistas as coisas, parece não ter muito a ver com o quadro humorístico e sexual que pintei.

Powers Bureau vol. 1 de Brian Michael Bendis e Michael Oeming



Hoje decidi dedicar-me aos mestres do diálogo na BD e Brian Michael Bendis é, sem dúvida, um dos grandes. Desde que ficou “mundialmente” conhecido pelo trabalho que fez nos Vingadores dos meados da primeira década do século XXI, fase que durou sete anos, que este escritor tem sido chamado pela Marvel para uma variedade de projetos. Além dos Vingadores já colocou os dedos no Demolidor (numa run apenas inferior à do lendário Frank Miller, o criador de 300 e Sin City), na Mulher-Aranha, nos X-Men, nos Guardiões da Galáxia, no Ultimate Homem-Aranha, etc. Possui uma peculiar forma de tratar a estrutura da história, focando-se mais na personalidade e diálogos dos personagens e muito menos no enredo. Foi, desde cedo, considerado um dos mestres da descompressão narrativa (Bendis demora várias páginas para contar o que outros, por vezes, contavam em apenas um quadradinho). Ler uma história de Bendis é como assistir a um filme de Tarantino.

Contudo, este autor distinguiu-se primeiro no trabalho autoral independente, com obras como Torso e este Powers, originalmente da editora Image. Powers mistura super-heróis com literatura noir, centrando-se nas desventuras de dois polícias que tem como especial incumbência a investigação de crimes relacionados com a comunidade super-heroística. Sempre com o desenhista Oeming, Bendis constrói um mundo negro, onde os heróis estão longe de ser luzes de bondade e salvação.


Este primeiro volume de Bureau transfere o cenário da pequena escala de uma única cidade para o palco nacional e internacional. Os dois protagonistas são agora agentes federais do FBI incumbidos de monitorar as atividades dos super-seres a uma escala mais condizente com o que associamos a estas criaturas mega-poderosas. A parelha de autores continua em cima de forma e fica apenas o dissabor de, devido aos muitos projetos que o escritor tem, esta série não sair com mais regularidade.


Sexo na BD - Manara e Warren



A sexualidade e erotismo sempre estiveram, de forma mais ou menos evidente, na Banda Desenhada. Os temas e as abordagens da BD sempre foram particularmente talhados para o público masculino, mais ainda se falarmos das escolas Americana e Franco-Belga (excepção feita ao Mangá, a BD japonesa, feito para o publico em geral, independentemente do sexo). Não só o imaginário ficcional é inclinado para esse público, como também a representação da mulher é algumas vezes redutora e alienadora. Note-se, contudo, que estas generalizações são sempre um terreno movediço onde nos movermos, não só porque existem autores e estilos para todas as inclinações, como não é líquido que estes temas e abordagens não interessem ao público feminino.

Quando olhamos para a representação meramente estética de uma quantidade apreciável de personagens femininos, mais vezes do que não eles prefiguram inatingíveis ideais com os quais uma mulher pode ter dificuldade em identificar-se. Por vezes, esse distanciamento estende-se à personalidade dos personagens, mas reconheço que os casos são mais moderados (felizmente, digo eu). Não sei se este problema é exclusivo da BD ou se também é extensível a outras formas de Arte, mas quando olhamos para a esmagadora maioria das heroínas de universos ficcionais como o dos super-heróis, temos dificuldade em crer que todas as mulheres possam ser tão perfeita e anatomicamente dotadas (muitas vezes em detrimento das leis da física). E nem vou falar dos uniformes de algumas delas, por vezes hiperbolicamente sexualizados, misóginos se quisermos ser maus. Mesmo em BD europeias, ainda que reconheça que aqui estas questões sejam menos evidentes, existe um ideal físico feminino espalhado pelas pranchas de inúmeros álbuns.

Vamos aqui ser claros, raramente existem na BD mulheres que não sejam belíssimas.



 Milo Manara e Adam Warren são dois autores de BD, o primeiro italiano e que dispensa apresentações, o segundo norte-americano, com estilos completamente diferentes mas donos de obras que estão num lado muito interessante desta discussão acerca do erotismo e da representação da mulher na BD.



Adam Warren já anda nestas andanças há alguns anos mas recentemente notabilizou-se por uma série publicada pela editora independente Dark Horse de nome Empowered. Warren desenha num estilo devedor aos Mangás de quem é assumidamente fã, e nos sete volumes já publicados desta série o autor escolhe um distanciamento irónico e de comédia face às situações subliminarmente (e ás vezes não tanto assim) eróticas que acabam por fornecer uma dimensão menos séria e muito divertida. A heroína, Emp, é uma inocente mas nada virginal detentora de um uniforme (muito) coleante que, supostamente, lhe fornece extraordinários poderes. São raras as vezes em que consegue ser uma super-heroína já que, quando o uniforme se rasga (e isso acontece muitas e muitas vezes), ela perde todos os poderes e acaba impreterível e sensualmente amarrada por diversos vilões. Emp, por outro lado, tem todos os atributos físicos dignos de uma super-heroína, torneada, belíssima, é dotada de uma sexualidade aberta e espontânea (o namorado que o diga), mas temperada por uma baixíssima auto-estima (quer face aos atributos físicos, quer ao desempenho como defensora do bem). O interessante é que Adam Warren, ao logo desta série, vai desconstruindo alguns do estereótipos associados a super-heroínas, a início assumindo-os desavergonhadamente, mas depois e aos poucos, destruindo-os com uma acutilância alicerçada no desenvolvimento dos personagens, sem nunca perder uma sensibilidade pop claramente assumida.



As mulheres de Manara são bastante conhecidas. Altas, cabelo ondulado ou encaracolado, esguias, não particularmente voluptuosas, sempre sensuais, são uma verdadeira marca registada na carreira do autor (que dura desde 1969). Aqui o ideal feminino atinge o estatuto autoral, já que a mesma mulher repete-se no desenho de Manara, quer olhemos para trabalho mais erótico ou pornográfico (O Clic, Perfume do Invisível, para citar dois exemplos), quer leiamos obras de outro qualquer género (Verão Índio e El Gaúcho, ambas com o também lendário Hugo Pratt). Nas variadas colaborações que fez com outros autores, Manara imprime sempre a sua muito particular visão, mesmo quando os escritores não escolhem histórias mais bem talhadas para o seu desenho e sensibilidade, tendo trabalhado com nomes sonantes de fora e de dentro da arte da BD, como sejam Frederico Fellini e Pedro Almodóvar ou Neil Gaiman e Alejandro Jodorowsky. Em relação a este último, foi recentemente editada em Portugal pela ASA a mais recente colaboração entre estes dois gigantes da BD na forma da tetralogia Bórgia, que relata a muito particular perspectiva dos autores acerca desta lendária família papal. Já todos a conhecemos da História, as suas relações filiais e incestuosas, a subida sanguinária ao poder, as intrigas musculadas e verrinosas, a destruição de vidas no caminho da ascensão ao papado, mas nas mãos e delirante imaginação destes senhores, para usar um eufemismo, a coisa derrapa e, no final da curva, temos a visão aterradora e aberrante de um operático acidente. Todos os sentimentos e eventos já de si exacerbados são colocados num prisma ainda mais negro, mais deturpado, misturados com uma carga sexual fortíssima e não aconselhável a menores de 30 anos. Os Bórgia de Jodorowsky e Manara não fitam a Besta no fundo do abismo, eles próprios são a Besta a olhar fixamente para as inocentes vítimas da História. Aqui tudo é horror, pecado e sexo.


De facto, estes são dois homens e duas obras em lados francamente opostos mas, ainda assim, dignos representantes de diferentes abordagens ao erotismo e sexualidade na BD, que se acompanham não tanto pelo lado voyeurista mas pela visão e maestria. A ler e ver com olhos descomplexados.