A sexualidade e erotismo sempre estiveram, de forma mais ou menos
evidente, na Banda Desenhada. Os temas e as abordagens da BD sempre foram
particularmente talhados para o público masculino, mais ainda se falarmos das
escolas Americana e Franco-Belga (excepção feita ao Mangá, a BD japonesa,
feito para o publico em geral, independentemente do sexo). Não só o imaginário
ficcional é inclinado para esse público, como também a representação da mulher
é algumas vezes redutora e alienadora. Note-se, contudo, que estas
generalizações são sempre um terreno movediço onde nos movermos, não só porque
existem autores e estilos para todas as inclinações, como não é líquido que estes
temas e abordagens não interessem ao público feminino.
Quando olhamos para a representação meramente estética de uma
quantidade apreciável de personagens femininos, mais vezes do que não eles
prefiguram inatingíveis ideais com os quais uma mulher pode ter dificuldade em
identificar-se. Por vezes, esse distanciamento estende-se à personalidade dos
personagens, mas reconheço que os casos são mais moderados (felizmente, digo
eu). Não sei se este problema é exclusivo da BD ou se também é extensível a
outras formas de Arte, mas quando olhamos para a esmagadora maioria das
heroínas de universos ficcionais como o dos super-heróis, temos dificuldade em
crer que todas as mulheres possam ser tão perfeita e anatomicamente dotadas
(muitas vezes em detrimento das leis da física). E nem vou falar dos uniformes
de algumas delas, por vezes hiperbolicamente sexualizados, misóginos se
quisermos ser maus. Mesmo em BD europeias, ainda que reconheça que aqui estas
questões sejam menos evidentes, existe um ideal físico feminino espalhado pelas
pranchas de inúmeros álbuns.
Vamos aqui ser claros, raramente existem na BD mulheres que não sejam
belíssimas.
Milo Manara e Adam Warren são dois autores de BD, o
primeiro italiano e que dispensa apresentações, o segundo norte-americano, com
estilos completamente diferentes mas donos de obras que estão num lado muito
interessante desta discussão acerca do erotismo e da representação da mulher na
BD.
Adam Warren já anda nestas andanças há alguns anos mas recentemente notabilizou-se por uma série publicada pela editora independente Dark Horse de nome Empowered. Warren desenha num estilo devedor aos Mangás de quem é assumidamente fã, e nos sete volumes já publicados desta série o autor escolhe um distanciamento irónico e de comédia face às situações subliminarmente (e ás vezes não tanto assim) eróticas que acabam por fornecer uma dimensão menos séria e muito divertida. A heroína, Emp, é uma inocente mas nada virginal detentora de um uniforme (muito) coleante que, supostamente, lhe fornece extraordinários poderes. São raras as vezes em que consegue ser uma super-heroína já que, quando o uniforme se rasga (e isso acontece muitas e muitas vezes), ela perde todos os poderes e acaba impreterível e sensualmente amarrada por diversos vilões. Emp, por outro lado, tem todos os atributos físicos dignos de uma super-heroína, torneada, belíssima, é dotada de uma sexualidade aberta e espontânea (o namorado que o diga), mas temperada por uma baixíssima auto-estima (quer face aos atributos físicos, quer ao desempenho como defensora do bem). O interessante é que Adam Warren, ao logo desta série, vai desconstruindo alguns do estereótipos associados a super-heroínas, a início assumindo-os desavergonhadamente, mas depois e aos poucos, destruindo-os com uma acutilância alicerçada no desenvolvimento dos personagens, sem nunca perder uma sensibilidade pop claramente assumida.
As mulheres de Manara são bastante conhecidas. Altas, cabelo
ondulado ou encaracolado, esguias, não particularmente voluptuosas, sempre
sensuais, são uma verdadeira marca registada na carreira do autor (que dura
desde 1969). Aqui o ideal feminino atinge o estatuto autoral, já que a mesma
mulher repete-se no desenho de Manara, quer olhemos para trabalho mais
erótico ou pornográfico (O Clic, Perfume do Invisível, para citar
dois exemplos), quer leiamos obras de outro qualquer género (Verão Índio e
El Gaúcho, ambas com o também lendário Hugo Pratt). Nas variadas
colaborações que fez com outros autores, Manara imprime sempre a
sua muito particular visão, mesmo quando os escritores não escolhem histórias mais
bem talhadas para o seu desenho e sensibilidade, tendo trabalhado com nomes
sonantes de fora e de dentro da arte da BD, como sejam Frederico Fellini
e Pedro Almodóvar ou Neil Gaiman e Alejandro Jodorowsky.
Em relação a este último, foi recentemente editada em Portugal pela ASA a mais
recente colaboração entre estes dois gigantes da BD na forma da tetralogia Bórgia,
que relata a muito particular perspectiva dos autores acerca desta lendária
família papal. Já todos a conhecemos da História, as suas relações filiais e
incestuosas, a subida sanguinária ao poder, as intrigas musculadas e
verrinosas, a destruição de vidas no caminho da ascensão ao papado, mas nas
mãos e delirante imaginação destes senhores, para usar um eufemismo, a coisa
derrapa e, no final da curva, temos a visão aterradora e aberrante de um
operático acidente. Todos os sentimentos e eventos já de si exacerbados são
colocados num prisma ainda mais negro, mais deturpado, misturados com uma carga
sexual fortíssima e não aconselhável a menores de 30 anos. Os Bórgia de Jodorowsky
e Manara não fitam a Besta no fundo do abismo, eles próprios são a Besta
a olhar fixamente para as inocentes vítimas da História. Aqui tudo é horror,
pecado e sexo.
De facto, estes são dois homens e duas obras em lados francamente
opostos mas, ainda assim, dignos representantes de diferentes abordagens ao
erotismo e sexualidade na BD, que se acompanham não tanto pelo lado voyeurista
mas pela visão e maestria. A ler e ver com olhos descomplexados.
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