Rapidinhas de BD - Autumnlands vol. 1, Tooth & Claw e Undertaker vol. 1: Le Mangeur D'Or



Em conversa com um dono de uma loja de Banda Desenhada em Lisboa consolidei uma certeza que tinha há alguns anos: o eterno estigma que a BD tem, o de ser infanto juvenil, perpetua-se. Eu sei que esta afirmação não é uma novidade para ninguém, mas existe um efeito pernicioso em particular do qual queria falar. Mesmo para os que estão interessados em entrar neste mundo, o medo de perguntar por algo que outros vêem como "inferior" barra o ímpeto de experimentar. Não tenhamos duvidas: isto é uma questão de cultura, de falta dela e, por conseguinte, de ignorância. Sabemos todos da dificuldade que é entrar no mundo da BD, também pela quantidade de oferta e pela aparência de insularidade que a Arte carrega consigo. Essa aparência é, contudo, isso mesmo, porque a oferta é de tal forma variada que existe algo para cada leitor, independentemente do gosto. Vejam o exemplo destas duas BD: uma um conto de Alta Fantasia com animais antropomorfizados; outra, um simples western.

Autumnlands foi uma muito agradável surpresa. Conheço bem o escritor Kurt Busiek pelo seu trabalho na Marvel, na DC e no excelente título Astro City. Contudo, aqui o autor envereda por um caminho a que não estamos habituados. Calcorreamos paisagens e cidades de um mundo místico imaginário, populado por animais antropomorfizados, onde a Magia, o equivalente à electricidade na nossa civilização, encontra-se em risco de esgotar-se e arrastar este universo para o caos. Um conjunto de místicos juntam-se numa derradeira busca para encontrar a salvação. Como já o disse variadíssimas vezes, muitas são as vezes em que a originalidade da premissa (ou falta dela) não é importante. Interessa mais a habilidade dos artistas em entretecer palavras com palavras e palavras com desenhos de modo a construir algo verdadeiramente seu e único. Parece ser o caso deste Autumnlands. Busiek mistura mundos imaginários com religião, intriga palaciana com salvadores predestinados, para criar um enredo entusiasmante e, em todas as esquinas, cheio de mistérios. Este primeiro volume é uma grande vitória. E, já agora, a arte de Benjamin Dewey é de babar (a Image continua a dar AS cartas que interessam na BD dos EUA).

Xavier Dorison e Ralph Meyer, por seu lado, enveredam num estilo que (sempre achei curioso) tem bastante sucesso por terras gaulesas: o western. Esta BD vem com o rótulo de "a melhor do estilo depois de Blueberry". Como nunca li este último não posso comentar (tenho em casa quase todos prontinhos para o fazer mas a prioridade passa antes por Thorgal e por Valérian - westerns não são bem a minha praia). Achei a leitura deste Undertaker escorreita e interessante. Acompanhamos um pistoleiro cangalheiro anti-herói muito ao estilo de vários outros westerns estado-unidenses, um homem marcado por um passado sombrio, tão rápido na pistola quanto no sarcasmo. Até aqui nada de novo mas o enredo que impele à acção do protagonista, envolvendo obviamente um cadáver e o transporte de uma fortuna em ouro, embeleza a narrativa e agarra. O desenho lembra Giraud mas com  uma distribuição das vinhetas mais moderna. Em suma, um bom entretenimento. 

Música é o fogo.

"I'll walk the line, I'll be just fine
I'll be right back on time
The fire is coming, but we'll outrun it
We'll never be undone."

FOALS - A Knife In The Ocean



O meu MOTELx! - The Hallow, Extinction, I Am Here e Knock Knock parte II

Os Cautionary Tales são avisos à navegação. Faróis que permitem virar mais à esquerda ou mais à direita, impedindo o distraído de embater-se contra terra ou rochedos. Muitas são as vezes em que podem ser confundidos com contos morais já que são munidos de uma lição paternalista. Na maior parte das vezes são certeiros ou, pelo menos, fazem-nos pensar se um caminho particularmente duvidoso será o melhor. Como por exemplo, raptar uma criança de uma prostituta a viver uma vida de miséria com o intuito de a educar "melhor". Ou, sendo casado, aceitar fazer sexo com duas mulheres de pouco mais de 20 anos após receber uma visita inesperada de ambas no meio de uma noite chuvosa - isto na própria casa do casal e num fim-de-semana em que mulher e filhos estão longe. Estas são, respectivamente, as premissas de I Am Here e de Knock Knock, o primeiro do realizador Anders Morgenthaler e o segundo de Eli Roth, um velho conhecido dos filmes de terror e de quem viu Detahproof  e Inglorious Basterds de Tarantino.

Uma das características de alguns Cautionary Tales é que acabam mal para um ou mais protagonistas e estes dois filmes não constituem excepção à regra, ou também não estivéssemos a falar de filmes de "terror" - será um pouco esticar a corda incluir ambos nesta categoria mas estamos a falar do MOTELx... No caso de I Am Here este "acabar mal" é um pouco mais cinzento, ou seja, não só não é claro que "acabe mal" como a lição a ser aprendida cai numa área moralmente ambígua. Esta ambiguidade é, contudo, muito pouco explorada, porque um dos lados da "questão" é retratado de forma negra e seca, inclinando a narrativa e a opinião dos menos avisados para um dos lados da "discussão". Nesse aspecto, I Am Here falha, ainda que nos ofereça uma Km Basinger numa forma há muito esquecida e uma realização competente e por vezes inspirada. 


Knock Knock, contudo, não oferece qualquer tipo de ambiguidade moral , ou melhor, Eli Roth parece estar claramente de um dos lados da questão - obviamente não vou revelar qual porque constitui uma das surpresas do filme. A controvérsia abordada é tão antiga quanto existem homens e mulheres e tão antiga quanto a instituição casamento, aqui entendida no seu sentido mais lato, o do compromisso amoroso entre dois seres. Por vezes, a abordagem de Roth é um pouco carnavalesca e até simplista mas as questões que levanta e a que responde (talvez esteja aqui o maior erro do realizador) são tão "primordiais" que, provavelmente, exigem este tipo de abordagem. Como é comum a muitos realizadores de certa inclinação (mais comercial) ficam-se pela rama da questão mas, neste caso, resulta particularmente bem e a coda de todo o enredo é, a meu ver, bem conseguida - o que constitui, em si, um triunfo. Cheira-me a uma possível sequela nem que seja para responder ao mistério de onde vêm aquelas duas mulheres. É esperar para ver e, quem sabe, saber de que lado está a opinião de Roth (e, já agora, a nossa). Bem vistas as coisas, Knock Knock é uma Force Majeure em versão light

O meu MOTELx! - The Hallow, Extinction, I Am Here e Knock Knock parte I

Os quatro filmes que completaram o meu MOTELx provam que dentro do cinema de terror existem diferentes tipos de linguagens e abordagens. The Hollow e Extinction recorrem ao clássico horror primordial que esconde-se na floresta (literalmente, no caso do primeiro), aos barulhos e fugazes movimentos que amedrontam o ser humano desde que temos inteligência para temer a natureza. Por seu lado, I Am Here e Knock Knock levam-nos para um tipo de terror mundano, realista, ambos funcionando no âmbito da estética do ditado "cuidado com que desejas que pode concretizar-se."

Hoje escrevo sobre os dois primeiros.


The Hallow leva-nos para uma das culturas mais ligadas ao horror, a irlandesa. Aquando da aculturação por parte da igreja católica e, mais tarde, com o inexorável avanço da máquina, os antigos e mitológicos habitantes da ilha esmeralda tiveram de regredir para espaços cada vez mais exíguos, para florestas cada vez menores. Os irlandeses não se esqueceram dos antigos tributos e dos antigos perigos e continuam a honrar estes velhos terrores. Este filme é sobre aqueles que não conhecem esta herança tenebrosa e aventuram-se, desrespeitosamente, e disruptam as fronteiras.  Cinematograficamente, não sendo um triunfo inovador é, contudo, um pedaço bem conseguido de entretenimento que nos agarra e entretém durante quase duas horas. 


O mesmo se passa com Extinction. O filme aborda um velho tema, o de uma terra pós-apocaliptica, destruída por uma praga de monstros a meio caminho entre zombies e vampiros. Nove anos depois da hecatombe, a história centra-se em apenas três personagens, dois amigos desavindos e a filha de um deles, nascida neste mundo desolado pela praga e pelo gelo. Um bom filme de terror (ou qualquer outra narrativa, a bem dizer) centra-se menos nos mecanismos fantásticos mas antes na influência destes nos comportamentos de determinadas personalidades. É nesta análise do ser humano quando confrontado com situações de limite que muitos destes filmes perdem a sua vertente mais hermética e conseguem ganhar espaço e relevância. Nesta arte vale apenas a capacidade do escritor e do realizador desenharem personalidades convincentes e mais ou menos universais. Extinction é uma pequena vitória nesta frente.

Saudades dos Outros: Thomas Struth.

Monte El Capitán, Parque Nacional Yosemite.



Da série Retratos de Família.




Da série Fotografia de Ruas.





Thomas Struth – Isto é catálogo ou fotografia?

Thomas Struth é um fotógrafo de origem alemã, metódico na abordagem e clínico de espírito. O seu trabalho funciona como o de um catalogador, sistemicamente à procura de mais aquele elemento, de mais aquele pormenor, de mais aquela variação de um mesmo tema. Lá vai ele, munido da sua câmara, provavelmente daquelas que, do fundo do lugar-comum, assumimos que os fotógrafos do tempo da nossa avó tinham, as de fole (tecnicamente chamada de grande formato que, note-se, ainda existem e são francamente boas). De seguida, pacientemente, monta o pesado equipamento, provavelmente também flashes em quantidade, fotómetros, etc., e espera pelo momento fotográfico, por muitos conhecido como bressoniano, aquele pedaço de luz e sombra, aquele milionésimo de segundo que retrata de forma perene, assumida, subjetivamente objectiva, a realidade que o senhor fotógrafo estava “à espera”. É assim que imagino este senhor a trabalhar.

O trabalho de Struth aparenta ser de catalogação, mas nada poderia estar mais longe da verdade. Aquilo que parece milimétrico é, na realidade, caótico. Aquilo que parece desenhado a régua e esquadro é, na realidade, um esboço. Este alemão residente de Dusseldorf, Berlim e Nova Iorque (segundo a wikipédia, e nós sabemos o quanto nela podemos confiar), tão depressa coloca a sua objetiva de frente de uma família chinesa, como desloca-se para as ruas de Lima ou paras florestas da Austrália. Perde o seu tempo, por exemplo, a observar pessoas num museu, enquanto se demoram num quadro, numa escultura. Por vezes coloca a câmara apontada para a obra, de outras escolhe apontar para os observadores, enquanto estes as examinam de forma cuidadosa ou fugaz. Que faz Thomas Struth? Observa? Regista? Dá uma opinião? É óbvio que é um pouco de tudo e, quem sabe, um nada de tudo.

Quem teve o prazer de ver a recente exposição deste autor em Serralves, teve a sorte de verificar de perto, nas impressões escolhidas e tocadas pelo artista, a qualidade da mão de Struth. Fiquei particularmente maravilhado com as impressionantes fotografias de várias famílias do mundo. Havia famílias alemãs, americanas, chinesas, japonesas, reunidas e expostas de frente para a câmara. O método era particularmente interessante. Struth permitia que as famílias escolhessem não só o local da casa em que queriam ser fotografadas, como também a posição relativa de cada um em relação aos outros membros e em relação ao fotograma. Sem esforço, as características de uma família italiana tornam-se diferentes das de uma em Lima ou em Shanghai. A posição relativa dos anciões do grupo, a quantidade de membros da família, o somatório de idades, os objetos que os circundam, a seriedade ou leveza com que olham diretamente para a câmara. Todos estes elementos que, no clique destreinado de qualquer um de nós não se conjugariam em muito mais que um fotograma entre milhares, no paciente olhar de Thomas revelam-nos tanto quanto a subjetividade com que, pacientemente, Renoir ou Picasso pintaram os seus quadros. Olhar para as famílias de Struth é similar a olhar para outros fotógrafos catalogadores, como os compatriotas Bernd and Hilla Becher, na sua série de tanques de armazenamento de gás.

As ruas e as fachadas de edifícios deste autor também elas são como as famílias, pacientemente observadas e registadas, sublinhando similaridades e diferenças no aparente olhar cirúrgico, milimetricamente colocado, cuidadosamente estudado. Mas nada é o que parece e, garanto-vos, não está apenas no olhar do observador, ou seja, em nós que folheamos um livro ou demoramo-nos numa das suas exposições. Está também na escolha do autor. Através da repetição de uma fotografia similar mas em diferentes pontos do planeta, sempre a apontar para um mesmo ponto de fuga, somos confrontados com uma opinião do artista, qualquer que ela seja, e com a nossa própria, num diálogo que não é mais que o profundo reflexo do que somos. 

Contudo, em última análise, o fotógrafo regressa à natureza, através da difícil arte de captar a imagem de uma floresta, por exemplo, ou de um monte conhecido como El Capitan, situado no Yosemite na Califórnia. Em relação aos fotogramas de natureza pura, sem intervenção humana, Struth escolhe, para uma série deles, o nome de Paraíso. Uma banalidade, não? Será mesmo assim ou, no meio de tanta família, rua e edifício, de frias paisagens e mecanismos industriais, Struth não prefere o conforto do berço? Ou será que é apenas mais um elemento desse imenso catálogo que é o seu universo?

(Quem estiver interessado neste artista pode adquirir o catálogo Thomas Struth Photographs 1978-2010)




BD é o comboio de regresso.

"Alec Holland - I'm just a ghost made of flowers.
Electric Messenger - You woke from a reality into a dream. It's time to return."
Swamp Thing, número 142, escrito por Grant Morrison e Mark Millar.

Imagens de Ekho Monde Miroir, desenhos de Alessandro Barbucci.










Música é questões.

"We thought that we had the answers
It was the questions we had wrong."
11 O'clock tick tock, U2

GoGo Penguin - Hopopono


Kamaloka



O que vou lendo! - As mulheres na Image - Velvet vol. 2, Lazarus vol. 3 e Ody-C vol. 1


A BD dos EUA é conhecida por ser a província do sexo masculino. Nunca percebi porque os criadores não se aventuravam mais. Seria medo do desconhecido? Não que não existissem mulheres como personagens, muito pelo contrário. Eram muitas e, geralmente, o interesse amoroso dos protagonistas. Existiam, sem dúvida, as super-heroínas mas, excepto por alguns exemplos, a sua presença (já para não falar de notoriedade) era a excepção e não a regra. Com o passar das décadas, a guerra foi sendo vencida batalha a batalha, criador a criador, até que, hoje em dia, não só vemos cada vez mais personagens femininas que não são estereótipos , como (dizem) que o número de leitoras está a aumentar e, finalmente, são em muito maior número os títulos por elas protagonizados. 

As editoras têm aderido a esta guerra e a Image, uma das mais interessantes e originais do panorama dos Comics, não é excepção. Falemos, por exemplo, destas três séries, todas de temáticas bem diferentes: Velvet centra-se no mundo da espionagem datada da década de 70; Lazarus lança-se num futuro pós-apocalíptico governado por famílias poderosas; Ody-C é uma reinterpretação da Odisseia de Homero, mas no espaço sideral e tendo como protagonistas apenas mulheres. Todas abraçam com naturalidade as protagonistas, sem agenda ou militantismo, apenas com a graciosidade da qualidade da história e do enredo.

Já falei neste blog das duas primeiras (vejam aqui e aqui) mas nunca é demais reiterar a qualidade de ambas. Os criadores envolvidos ficaram bastante conhecidos por trabalhos na Marvel e DC e decidiram-se pelo salto para a produção independente, escolhendo a Image. Os tiques e gostos que os haviam transformado como escolha natural para certos personagens nas duas grandes editoras são reaproveitados para a criação de personagens e histórias suas e adaptadas ao talento de todos. Brubaker e Epting já tinham conseguido uma simbiose na exploração do tema de espionagem no Capitão América. Com Velvet voltam a integrar o gosto do primeiro por estas narrativas e os desenhos do segundo, que não deixando de estar adaptado à atmosfera noir requerida, são também realistas o suficiente para não afastar os leitores pelo excesso de estética. Por seu lado, Lazarus de Rucka e Lark, tende para a prosa militarista e directa do primeiro, à qual se adapta o traço de Lark, realista, virtuoso, sem excessos e com fluidez narrativa. As histórias de ambas as séries continuam fortes, quer em termos de valor de entretenimento, quer de reflexão. Provas de que é possível  produzir nos EUA mais BD do que apenas super-heróis.

Finalmente, o OVNI que é Ody-C de Fraction, escritor, e Ward, desenhador. O último já tinha tido uma colaboração muito interessante em Infinite Vacation e com Matt Fraction, conhecido por uma prosa rebuscada e, por vezes, surreal, volta a enveredar pelo caminho do estranho. O estilo de Ody-C não é exactamente uma estética que me agrade, mas a reinterpretação que faz da Odisseia  acaba por ser um mote de entrada que é recompensador para quem conhece, mesmo que superficialmente, esse livro fundador. Ulisses (ou Odisseu) é um mulher, tal como os tripulantes, tal como os deuses do Olimpo. É um livro com o qual não me identifiquei particularmente mas que, acredito, apele ao gosto de muitos já que o trabalho dos dois criadores é diferente e apelativo. Acredito que deva ser lido.

Música é "estou a ficar velho!".

"But honestly I'd rather be
Somewhere with my people
We can kick it and just listen to
Some music with a message, like we usually do
And we'll discuss our big dreams
How we plan to take over the planet
So pardon my manners
I hope you'll understand that I'll be here."

Here de Alessia Cara (com sample da canção Glory Box dos Portishead)



Exposição de Fotografia a três: Desvio.

Caros leitores deste blog. 

É com algum prazer que eu, junto com dois amigos, vos convido para uma pequena exposição de fotografia a ter lugar na Galeria Guilherme Cossoul, situada na Avenida D. Carlos I, n.º61, 2.º Andar, e com abertura a partir das 20h30 do próximo dia 18. Vamos ter expostas umas quantas fotos nossas. Se não puderem aparecer logo na Sexta, deem um salto a partir de Sábado, dia 19, e até 30 de Setembro, entre as 14h e as 19h. Nós agradecemos.

Texto introdutório (pelos fotógrafos).

Uma exposição a três. Três vezes repetição. Juntamos um quarto, uma leitura possível. Vemo-nos nas fotografias dos outros. Sentimos nostalgia dos lugares a que nunca fomos. Percorremos milhares de quilómetros ou encontramo-nos na fronteira da nossa cidade. Há o que procura respostas. O que não procura nada. O que apenas quer observar com mais atenção. E no final encontramos sempre ligações. Podia ser a memória de um conto, o início de uma BD, a repetição de um filme que não vimos. Os cenários a fazer lembrar a invenção de Morel. A floresta onde não existem caminhos definidos. Uma Alice ou uma Ariadne, feliz no seu abandono.

Os fotógrafos agradecem ao Sr. Teste ter aceitado desenhar um mapa possível deste Desvio.

Fotógrafos: Adriana Correia Oliveira, Gastão Fiadeiro e José Branco.

Letícia de Melo
Curadoria



Música é hesitação.

"I never know how to treat you
You think I love you but it ain't true
I'm walking away now
One step forward and back two."

"Hang you from the Heavens" dos Dead Weather mas antes: Jack White demonstrando as suas habilidades de baterista.



O meu MOTELx 2015 - Goddess of Love, Roar e Scherzo Diabolico



O género do terror na 7.ª Arte é geralmente associado a monstros, sangue, tripas, zombies e outras estéticas que tais. Contudo, como bem prova este MOTELx (já aqui falei das edições de 2013 e 2014), o festival de terror de cinema de Lisboa, nem sempre temos de ver um ser humano a ser esquartejado ou perseguido por uma abominação da natureza para que tenhamos algo que nos faz arrepiar e contorcer na cadeira. Por acaso do destino, três dos primeiros filmes que vi na edição deste ano estiveram perto deste sub-género, mais amplo e menos definido. Em alguns houve sangue, sim, em outros existiram assassinatos, também, mas os monstros não eram o Diabo mas antes criaturas muito humanos (em todos os casos).

Goddess of Love de Jon Knautz é um thriller sobre uma doença. Venus é uma mulher com um grave problema mental, que faz a sua vida normalmente, oscilando entre a reclusão numa casa decorada de forma sui generis e uma profissão de dançarina exótica. Numa das suas exibições conhece um homem por quem prontamente se apaixona de forma profunda, espelhando mais a sua carência emocional e menos uma perdição romântica. O filme depressa oscila entre a exploração da demência da jovem mulher e esparsos episódios que (aí sim) envolvem mortes e sangue. Não sendo uma exploração particularmente original da doença (por vezes é até carnavalesca), acaba por ser interessante, desviando-se aqui e acolá de alguns tiques narrativos mas, ainda assim, sem particular genialidade. Vale, muitas vezes, pela interpretação de Alexis Kendra, a titular deusa do amor e menos pelos atributos do realizador. Só não havia necessidade era de fazer "mal" a um pequeno gato.

Por falar em felinos, aconteceu neste MOTELx 2015 o objecto estranho que é Roar de Noel Marshall, conhecido por ser o produtor de um dos maiores filmes de terror de sempre, O Exorcista. Roar vale não tanto pela história em si mas pela novela da produção e pelo facto de justificar ou não o epíteto de ser "o filme mais perigoso de sempre". Porquê? A película tem como actores principais uma impressionante quantidade de felinos de grande porte, sem qualquer tipo de treino "oficial", a contracenarem com outros, mas estes humanos  - e estamos a falar de Tippi Hedren, do maravilhoso Pássaros do mestre Hitchcock, ou de Melanie Griffith no início de carreira. Já não bastava a Hedren ter tido uma carreira marcada pelos maus tratos psicológicos do realizador de Psycho como é perseguida por leões, tigres, pumas, leopardos, todos em convívio (na maior parte das vezes) pacífico. Estes grande felinos vivem e são criados por Marshall, que interpreta o pai da família, numa mescla perfeita entre serem os animais que são e uma convivência brincalhona com os humanos. Em suma, estamos a falar de gatos gigantes e, quem vive com esses animais, sabe que gostam de brincar, ronronar, aninhar-se no colo e arranhar. E se uma arranho de gato pode aleijar imaginem o de um leão. Daí o título de filme mais perigoso de sempre, já que nenhum dos animais foi ferido mas 70 dos membros da equipa não podem dizer o mesmo. Vale não só pela estranheza do objecto mas, principalmente, por poder ver-se estes belíssimos animais com comportamentos que raramente lhes atribuímos.

Finalmente, Scherzo Diabolico do realizador Adrián García Bogliano, acaba por ser, dos três, o mais similar à clássica narrativa de terror, ainda que sem o elemento do sobrenatural e antes com uma situação bem humana. Um pai de família esforça-se no seu trabalho mas sem a recompensa monetária proporcional. É pressionado pela mulher para que as horas longas materializem-se em dinheiro. Enceta então um plano que envolverá o seu patrão e que, de uma forma ou de outra, redundará numa espiral de violência e tragédia. Dos filmes que vi até agora é aquele que mais fortemente se alicerça no enredo, no clássico "o que vai acontecer de seguida"   mas com um forte pendor sociológico e antropológico por espelhar uma realidade muito actual do Mexico (de onde este filme é originário). No final, na minha opinião, o realizador pende a narrativa para escolhas um pouco deslocadas da estética optada, quase que a transformando em humor, mas de uma forma geral é um filme recompensador.


Wytches de Scott Snyder e Jock

São muitos os estudiosos da arte de contar histórias, dos enredos que regem a narrativa. Há quem diga que o número mágico são sete, que ocorrem apenas sete tipos de história na História das Artes narrativas. Vamos acreditar nestes mestres escolásticos: existe um número limitado de conflitos que são explorados nos livros que lemos, nos filmes que vemos, nas pinturas que observamos. O que as diferencia não é, portanto, a originalidade do enredo mas a forma como esse enredo é abordado pela personalidade do(s) autore(s). O prisma. O ponto de vista.

Uma realidade dos dias de hoje é que graças à propagação da democracia no mundo ocidental, ao desenvolvimento económico, a produção e consequente procura de Arte é esmagadora. Existem milhares de livros, milhões de músicas a serem produzidas diariamente. Associemos a isso o advento da Internet nos últimos 20 anos e temos a receita para o crescimento exponencial da oferta.  A concorrência é extrema e a originalidade necessária para um autor destacar-se é cada vez maior (pressupondo que esta é a única razão para que um autor se destaque).

Muitas são as vezes em que esta busca de originalidade "obriga" a sucessivas iterações sobre um mesmo tema ou um mesmo arquétipo, na desesperante procura de algo novo. Veja-se a moda dos vampiros de há uns anos atrás. A versão original de Bram Stoker foi diluindo-se em sucessivas versões mais brandas, de sexualidade que oscilava entre o soft porn e o erotismo juvenil (não há nada de mal com isto, sublinhe-se). Em resposta, outros autores tentam o regresso à versão original da história, na maior parte das vezes mais crua (quem nunca leu sobre o facto de a Disney diluir as versões originais dos contos de fada não sabe o que perde). É o caso de Scott Snyder que não só fez regressar uma versão aterrorizante das bruxas, devolvendo o nome maldito de que gozaram durante séculos, como o fez socorrendo-se do próprio passado, fornecendo a esta história um cunho pessoal.

Não irei focar-me sobre o enredo deste Wytches, esperando que as poucas palavras que escrevo aticem a vossa curiosidade. Snyder é muito conhecido pelo actual trabalho em Batman mas entrou na BD dos EUA pelas mãos do mestre da Literatura de Terror, Stephen King, com a obra American Vampire. Wytches, publicada pela que acho ser a melhor editora de BD  das terras do Tio Sam, a Image, é uma nova exploração nesse género, desta feita com o desenhador Jock. O complemento entre os dois é feliz mas, para mim, a apreciação do género do Terror na BD é sempre algo particularmente limitado. São raros os casos em que me causam o mesmo impacto que no Cinema, onde tenho mais contacto com este tipo de narrativa. Mas Wytches não deixa de ser um triunfo interessante (mas não genial) da 9.ª Arte, feito com as melhores ferramentas de dois excelentes artistas. A arte de Jock, quase sempre um esboço mal definido, funciona particularmente bem para o argumento, ao tornar as ameaças difusas e quase psicológicas.

Em suma, fico à espera (ainda que não totalmente entusiasmado) pelo segundo volume.

BD é conselho para a vida.

"With great power, there must also come great responsibility." - narração de Amazing Fantasy , volume um, número 15, escrita por Stan Lee (primeira aparição de Peter Parker / Homem-Aranha)

Desenhos de Homem-Aranha por Erik Larsen (com uma ajuda de Todd McFarlane no último).





Bande des Filles de Céline Sciamma (Bando de Raparigas)

Os filmes de Céline Sciamma não costumam ser fáceis. Recusam-se a refugiar-se em arquétipos delicodoces da adolescência. Assim o foi com os dois filmes que vi da realizadora francesa. Primeiro a Naissance des Pieuvres, que relatava o despertar sexual de jovens de 15 anos - e onde revelava-se o talento de Adèle Haenel, que venceu o César deste ano com Les Combattants. Segundo, este Bando de Raparigas (não vi Tomboy), uma análise crua da realidade de quatro raparigas nos subúrbios de Paris. 

Esta é a história de quatro raparigas sistematicamente empurradas para as franjas, para o esquecimento, não só por um mundo que as relega para segundo plano, que não encontra soluções para as proteger, que não lhes dá as mesmas chances que a outras, mas também por aqueles que as deveriam aconchegar: os seus congéneres; a sua família. Apoiam-se umas nas outras e também na frenética busca de pequenos (enormes) prazeres da vida, prazeres que sabem que  lhes serão negados na vida adulta. Há quase que uma tentativa de Fast Foward, de suplantação da passagem do tempo, para que sintam hoje aquilo que sabem que não sentirão amanhã. Esta tragédia, porque é mesmo disso que se trata e não no sentido teatral do mesmo, é tanto maior quanto é precedida de um "por favor, salve-me", palavras que a protagonista (há uma rapariga que Céline acompanha mais) profere a um tutor de quem nunca vemos a cara. Bastava mais uma oportunidade? Ou, como diz a história, não terá já tido todas as chances? Respondo com uma pergunta: como é possível uma rapariga de 16 anos já ter todas as soluções esgotadas? A jovem acha que não. Ela tentará, até o último fôlego, a vitória como pessoa, primeiro, mas também e de forma tão importante, como mulher. Porque este é também uma realidade onde o homem é um predador voraz, alguém que procura, de forma mais ou menos subtil, a suplantação da fêmea. Essa mensagem é claramente sublinhada logo ao início. Várias raparigas voltam de um treino de futebol americano. À medida que o grupo esvazia-se, acompanhamos a protagonista até ao ponto em que está sozinha. À volta, nas sombras de pontos elevados, os "machos" aguardam, mandam piropos. A atmosfera de medo é palpável.

Céline não filma estas raparigas de forma desapaixonada. Acompanha-as não só com uma cinematografia doce e uma banda sonora delicada, como entra na sua intimidade, nos seus rituais de adolescente, dos tais enormes prazeres que procuram no dia a dia: no lip-sync da música do momento; nas idas às lojas de roupa; nas trocas de beijos com os namorados. Esse virtuosismo faz deste filme uma experiência corajosa e realista e um dos momentos mais interessantes do cinema. 

É curioso o título inglês deste filme ser Girlhood, nma espécie de referência a Boyhood de Linklater. Pouco ou nada têm a ver um com o outro - apenas uma observação e não um julgamento de valor.

Música é vôo.

"The ones that govern me
Ain't the ones that can power me
It's the sun and moon
that's turning me
If I get high it's burning me
You can kill my privacy
But you can't kill that love in me."

GENER8ION + M.I.A. - The New International Sound Pt. II



BD é nostalgia e progresso.

"You see, I like to remember the past because those were better times than now. I mean, I'd rather live in the past than today, wouldn't you? These days... y-you just never know who's going to die... and who's going to live." - palavras do Pirata Psíquico no final de Crise nas Terras Infinitas, número 12, escritas por Marv Wolfman.

Imagens de Les Mondes D'Aldebaran de Leo.