A editora Image tem conseguido uma revolução silenciosa ao longo dos últimos anos. Captou alguns dos maiores nomes da BD das Terras do Tio Sam e produzido obras incontornáveis. Não só isso, mas dentro das suas fileiras consta um dos maiores cultos da cultura pop dos últimos anos: The Walking Dead. Graças à reputação criada, nomes geralmente associados à Marvel ou à DC têm gravitado para a Image. É o caso de Jason Aaron e R. M. Guéra com Os Malditos vol. 1: Antes do Dilúvio e Brian Azzarello e Eduardo Risso em Moonshine vol. 1: Sangue e Whiskey, ambos publicados pela editora portuguesa G Floy. Estas duplas são conhecidas de outros vôos, nomeadamente da publicação, pelo selo da emblemática e lendária Vertigo, de Scalped e 100 Bullets, respectivamente.
Mostrar mensagens com a etiqueta Jason Aaron. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jason Aaron. Mostrar todas as mensagens
Uma BD aqui, outra BD ali, 17
Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.
Avengers (2018) número 1 (ou 691) de Jason Aaron e Ed McGuiness (Marvel)
Jason Aaron tem construído a sua fama de forma calma e decidida. Deu-se a conhecer com o excelente Scalped da DC/Vertigo e foi invertendo para os super-heróis sem descurar a veia mais "independente". Na Marvel, continuou com uma inclinação que oscilava entre o humorístico soft de Wolverine & The X-Men, o másculo do Wolverine ou o divino cósmico do Thor. Este último abriu-lhe as portas do universo mais mainstream dos super-heróis da editora e, especificamente, o dos Vingadores, que estreia a escrever neste primeiro número de uma nova versão da revista da equipa.
Ed McGuiness é o desenhista que mistura influências mangá, cartoonescas e épicas e que tão bem lhe serviram no Deadpool, no Hulk ou no Super-Homem. É capaz de desenhar a "grandiloquência colossal" de forma divertida e entusiasmante, com um traço carnavalesco e hiperbólico tão bem adaptado à ópera cósmica que (também) são os super-heróis e, especificamente, os Vingadores da Marvel.
Ora, estes dois talentos começaram a trabalhar na mais famosa equipa da BD. O resultado só poderia ser o esperado: bom, muito bom. Escolhem seguir o caminho do cósmico e do divino, sendo diferente de outros autores como Bendis (que preferia os seus Vingadores mais terra-a-terra) e parecido ao de Jonathan Hickman. Por outro lado, não se esquecem que estão numa revista da Marvel, em que as personagens principais podem não dar-se particularmente bem, como é ilustrado na conversa da trindade que são o Capitão América, o Thor e o Homem de Ferro. Estes são três amigos com marcadas diferenças de opinião (exacerbadas, é verdade, nos últimos 20 anos) e que, ainda assim, encontram suficientes pontos em comum para juntarem-se e enfrentar perigos e adversários cuja escala é impensável para a maior parte dos colegas de profissão. Sim, os Vingadores são a Liga da Justiça da Marvel.
Aaron e McGuiness conseguem, ao mesmo tempo, transmitir a enormidade da ameaça e a dinâmica entre as personalidades. O que poderia perder-se no cósmico incompreensível é antes alicerçado pela familiaridade de quem se parece connosco e com os nossos amigos. Esta capacidade é equilibrada pelos textos e diálogos do primeiro e pela destreza do desenho maior-que-a-vida-mas-cartoonesco do segundo. Nos dias de hoje, em que, infelizmente, o desenhista raramente consegue aguentar mais que seis números seguidos, há que aproveitar esta oportunidade e nos deliciarmos num espectáculo ainda maior que o que aparece nas salas de cinema.
Rapidinhas de BD - Astro City vol. 14 e Thor By Jason Aaron & Russell Dauterman Vol. 2
A parceira de Kurt Busiek, Brent Anderson e Alex Ross na série Astro City dura há 20 anos, sem sinais de abrandar na qualidade e produtividade. Começaram na editora Image e na label de Jim Lee, a Wildstorm, mas desde então passaram para a DC Comics, quando esta adquiriu a primeira. Ultimamente têm sido publicados debaixo do selo da lendária Vertigo, ainda que a temática e a abordagem nada tenham a ver com a inclinação sobrenatural e com o terror sofisticado que classificaram esta durante mais de duas décadas.
Astro City é um mundo de super-heróis inteiramente concebido pelos autores, com o propósito de comentário meta-textual ao original da Marvel e da DC. Por outro lado, procuram a perspectiva do man on the street, do comum mortal, ainda que essa visão seja menos presente nos volumes mais recentes. Agora também procuram outros pontos de vista, desde vilões a seres extra-terrestres, passando, claro, pelos heróis propriamente ditos. Interessa aos autores a visão sobre eventos que são lugar comum na mitologia dos super-heróis. Kurt Busiek, o escritor, é um assumido geek destes universos e faz bom uso dessa inclinação, ao explorar de forma inventiva cada pormenor que passaria de outra forma despercebido nas histórias das duas grandes.
Neste 14.º volume não abranda este olhar clínico e inventivo, ao focar-se em seres que ajudam um ditador extra-dimensional na batalha contra análogos do Quarteto Fantástico, num casal de ex-vilões, agora com uma relação mais saudável com a Lei, e no também análogo do Super-Homem - esta última como comemoração dos 20 anos de publicação. Todas estas histórias enriquecem de forma independente a rica tapeçaria deste mundo criado do zero, que continua a ser uma das mais cativantes visitas a universos de fantasia.
Entretanto, os autores já noticiaram a desistência da publicação mensal clássica para focarem-se em livros de contagem de páginas mais extensas ao estilo europeu.
A Marvel, do ponto de vista criativo, não anda a ter os seus melhores dias. Ainda assim, existem equipas que seguem a nobre tradição de clássicos como Lee/Kirby, Lee/Ditko, Claremont/Byrne, Simonson, etc. Jason Aaron no Thor é uma delas. Primeiro trabalhou com Esad Ribic e agora com Russell Dauterman, para produzir aquela que considero a mais interessante publicação mensal desta editora. Parece que a Marvel sabe disso e tem lançado estas edições formato grande a que chama Deluxe e que coleccionam, em média, cerca de 12 números da revista mensal. Valem a pena o preço e a (longa) espera entre volumes. É neste formato que as aventuras mitológicas da agora versão feminina do Deus do Trovão devem ser apreciadas. Num palco cósmico de grandiosidade épica.
Aaron mistura o mundo empresarial do mundo real com a mitologia Viking para criar ameaças ao mesmo tempo credíveis e fantasiosas. Concebe diálogos ricos que desenvolvem as personalidades dos protagonistas e que avançam a narrativa de forma sempre entretida. Constrói personalidades que vão para lá dos estereótipos e da bidimensionalidade a que estávamos habituados ao longo de décadas no Thor da Marvel (não sempre, claro, mas de forma recorrente). Acima de tudo, cria uma leitura que não conseguimos largar de tão entusiasmante que é. O único defeito que aponto é a velocidade com que queremos ler já o próximo volume - e nem noticia de para quando o seu lançamento.
Entretanto, a G.Floy publicou o volume que se segue ao lançado há uns anos pela Panini (infelizmente, os portugueses nunca verão a conclusão do Chacinador de Deuses) e a Goody irá, em breve, começar a fase da Thor versão feminina.
Entretanto, a G.Floy publicou o volume que se segue ao lançado há uns anos pela Panini (infelizmente, os portugueses nunca verão a conclusão do Chacinador de Deuses) e a Goody irá, em breve, começar a fase da Thor versão feminina.
Rapidinhas de BD - Autumnlands vol.2, The Goddamned vol. 1 e Paper Girls vol. 2
Depois do primeiro volume ser uma das mais interessantes leituras de 2015, eis que finalmente nos chega o segundo Autumnlands de Kurt Busiek e Benjamin Dewey. Continuamos neste estranho mundo ao melhor estilo Tolkienesco mas com personagens antropomorfizados.
Este volume continua a centrar-se num dos seus habitantes, meio homem, meio canídeo, enquanto acompanha, em estilo viagem de demanda, o profetizado salvador humano. Busiek e Dewey conseguem manter-nos interessados, com um promissor world-building, personagens cativantes e mais do que uma surpresa, agora que começamos a embrenhar-nos nos segredos por detrás deste mundo de Fantasia. O que os autores têm reservado para os leitores não é uma narrativa fracturante e inédita, mas antes um valor seguro de diversão que é um verdadeiro page-turner. Se o primeiro volume foi uma surpresa, este segundo é a confirmação.
A parelha artística que nos deu o fabuloso Scalped da Vertigo regressa com The Goddamned, Before the Flood. Contudo, Jason Aaron e r.m.Guéra escolhem um tema bem diferente da história, ao estilo Sopranos, de nativos norte-americanos, o tema da sua anterior colaboração. Aqui entramos pelo terreno bíblico e acompanhamos a narrativa do primeiro filho caído, o criador do assassinato, Caim. Num mundo selvagem e violento que faz a Ciméria de Conan, o Bárbaro parecer uma Ilha dos Amores, o protagonista irá ter de se defrontar com outro personagem bíblico de renome, Noé, e descobrir a melhor forma de atingir o seu maior desejo: morrer. Amaldiçoado com a imortalidade, este Caim lembra a interpretação que Saramago também faz do mesmo, com mais sangue e vísceras mas com o mesmo desdém e ódio pelo Deus que o condenou a esta morte em vida.
Se o primeiro volume desta colaboração entre Brian K. Vaughan e Cliff Chang, Paper Girls, não foi bem aquilo que estava à espera, este segundo mais do que recupera essa meia-decepção inicial. Como alguém já referiu, isto é a série de TV Stranger Things mas sem o delicodoce da nostalgia.
É sobre as recordações mal lembradas da década de 80 mas com um toque de cinismo pós-modernista. É sobre viagens no tempo, correcções temporais, raparigas cheias de "tomates" e entretenimento inconfessável. São versões de personagens que vêem do presente, do passado e de futuros que se espera alterar. É cheio de surpresas e de violência inesperada e trágica, tão típicas de Vaughan.
A editora Image continua a dar-nos algumas das mais interessantes BD's do panorama mundial desta arte e estas três são excelentes exemplos disso mesmo. Longa vida a Image.
O que vou lendo! - Thor, The God of Thunder vol. 1 por Jason Aaron, Esad Ribic e Butch Guice
Este post é um pouco preguiçoso. Já aqui falei dos 11 capítulos que formam esta compilação de capa dura e maior formato. Contudo, a qualidade da história que o escritor Jason Aaron começou a contar exactamente nestas páginas justifica (a meu ver) uma segunda visita. A visão que tem para Thor ainda não foi totalmente descortinada, e até essa descoberta teremos sempre de refrear se não o entusiasmo pelo menos o juízo final. Se tomarmos apenas como exemplo estes primeiros capítulos poderemos ter em mãos uma das mais emblemáticas sagas do Deus do Trovão. Ou, se calhar, sou só eu. O tempo o dirá. Assim sendo, se tiveram paciência reponho abaixo os dois posts que escrevi sobre estes tais 11 capítulos, antes coleccionados em dois livros e agora compilados num único. É que ler neste maior formato é como ver um filme (qualquer filme, não só os de "acção") num ecrã gigante. Sabe a repasto e não a uma ida ao centro comercial.
Primeira parte
De vez em quando gosto de pensar que existem dois tipos de leitores no que respeita a BD de super-heróis: os que gostam do Super-Homem e os que inclinam-se para o Batman. Uns preferem seres maiores que a vida, dotados de poderes divinos, envolvidos em situações onde, permanentemente, o destino da realidade é posto em causa - estes são os do Super-Homem. Os de outra qualidade preferem heróis realistas, que poderiam existir no nosso mundo e que, diariamente, travam uma luta desesperada e trágica contra o cinza do crime nas cidades - estas são as do Batman. Antes de continuar, os fãs de BD que me perdoem a excessiva compartimentalização. Obviamente que a apreciação da arte não passa por este preto e branco excessivo. Mas, ainda assim, existe aqui algo de verdade.
No que me toca, sempre pendi mais para o lado do Super-Homem e o Thor, livro e personagem que me trouxeram a este post, tende claramente para o lado cósmico do arquétipo do super-herói. Neste sentido, este primeiro volume do trabalho de Jason Aaron e Esad Ribic é um soberbo exemplar da capacidade que a BD tem em superar os limites da Prosa e do Cinema e contar uma história verdadeiramente cósmica em escala, linguagem e alcance. O enredo atravessa o tempo e o espaço, focando-se em três épocas da vida do Deus do Trovão enquanto este confronta um ser demoníaco e hiper-poderoso cujo objectivo é claro no título do livro: exterminar todos os panteões de deuses do universo. Ênfase em universo. Pela primeira vez (pelo menos tanto quanto é do meu conhecimento) aparecem nas páginas do personagem outros panteões que não apenas os terrenos. Aaron delicia-se em criar múltiplos deuses, espalhados pelos cantos do cosmo e alvo da adoração de uma multitude de povos alienígenas. Para completar o quadro, a linguagem tipicamente visceral que costuma aplicar aos seus diálogos e exposições é aplicada a longos momentos de exploração cosmogónica. Existe prazer nesta descoberta, particularmente deliciosa para quem o lê, tendo em consideração outras obras mais "urbanas" que caracterizaram anteriores explorações do autor (portanto, estilo Batman): Wolverine e Punisher, por exemplo. A aproximação rude que Aaron faz aos personagens, que geralmente são duros e másculos, aplica-se na perfeição a Thor, que podemos ver como o guerreiro definitivo. De facto, existe no personagem e no autor uma salutar combinação, como se ambos tivessem destinados em se encontrar. Visceralidade misturada com Divindade, à boa maneira do povo que adorava Thor, os Vikings.
Segunda parte
Godbomb completa, de forma verdadeiramente épica, os eventos que começaram nos primeiros capítulos. A batalha final de três versões do Deus do Trovão, uma do passado, outra do presente e uma do longínquo futuro, contra o "Chacinador de Deuses", desenrola-se no palco mais que apropriado para estas mitologias: o cósmico. Toda a grandiloqüência de combates maiores que a vida, toda a fúria tonitruante, todo o poder titânico, foi concentrado pelas palavras de Aaron e pela arte de Ribic em onze capítulos que, muito sinceramente, já vigoram (no que a mim diz respeito) nos melhores contos de Thor.
Muito raramente uma voz poderia colar tão bem com as palavras e ações de um personagem. Aaron é perfeito para Thor e para o seu universo, misturando masculinidade, belicismo medieval, orgias, bebedeiras e combates, num cozinhado de puro entretenimento. Ao mesmo tempo, mistura uns pós de reflexão suave que constroem um conto que vai para além dos limites do filme-pipoca. Ribic, por seu lado, com desenho limpo e cenários mitológicos, é a escolha acertada para o escritor e personagem.
Agora que já se prepara o terceiro filme protagonizado por Thor, inspirado na lenda Viking de Ragnarok, o crepúsculo dos deuses, tenho uma sugestão a fazer. Quando estiverem a pensar no quarto filme das aventuras do Deus do Trovão na 7.ª Arte, não vão muito mais longe que estes primeiros onze capítulos do trabalho de Jason Aaron. Tudo é perfeito para o cinema: uma história direta e pouco alicerçada na complicada continuidade do personagem; cenários maiores que a vida; combates épicos; um vilão tenebroso. Não mudem as palavras, não medem quase nada. Não vale a pena. Aaron e Ribic já fizeram o trabalho mais difícil. É só copiar e não estragar.
O que vou lendo! - Thor, the God of Thunder - Godbomb por Jason Aaron e Esad Ribic
Leiam neste link um post sobre os primeiros capítulos desta história.
Infelizmente, a editora Panini Portugal ficou-se pela publicação dos primeiros cinco capítulos do trabalho de Aaron, escritor, e Ribic, desenhador, em Thor, o Deus do Trovão - versão Marvel. Os portugueses só poderam ver parte da impressionante saga que ambos teceram para um personagem já com 50 anos de publicações (isto se descontarmos os vários séculos de história e mitologia). Godbomb completa, de forma verdadeiramente épica, os eventos que começaram naqueles primeiros capítulos (publicados nos números 6 a 11, volume de 2013, da revista original do personagem). A batalha final de três versões do Deus do Trovão, uma do passado, outra do presente e uma do longínquo futuro, contra o "Chacinador de Deuses", desenrola-se no palco mais que apropriado para estas mitologias: o cósmico. Toda a grandiloqüência de combates maiores que a vida, toda a fúria tonitruante, todo o poder titânico, foi concentrado pelas palavras de Aaron e pela arte de Ribic em onze capítulos que, muito sinceramente, já vigoram (no que a mim diz respeito) nos melhores contos de Thor.
Muito raramente uma voz poderia colar tão bem com as palavras e ações de um personagem. Aaron é perfeito para Thor e para o seu universo, misturando masculinidade, belicismo medieval, orgias, bebedeiras e combates, num cozinhado de puro entretenimento. Ao mesmo tempo, mistura uns pós de reflexão suave que constroem um conto que vai para além dos limites do filme-pipoca. Ribic, por seu lado, com desenho limpo e cenários mitológicos, é a escolha acertada para o escritor e personagem.
Agora que já se prepara o terceiro filme protagonizado por Thor, inspirado na lenda Viking de Ragnarok, o crepúsculo dos deuses, tenho uma sugestão a fazer. Quando estiverem a pensar no quarto filme das aventuras do Deus do Trovão na 7.ª Arte, não vão muito mais longe que estes primeiros onze capítulos do trabalho de Jason Aaron. Tudo é perfeito para o cinema: uma história direta e pouco alicerçada na complicada continuidade do personagem; cenários maiores que a vida; combates épicos; um vilão tenebroso. Não mudem as palavras, não medem quase nada. Não vale a pena. Aaron e Ribic já fizeram o trabalho mais difícil. É só copiar e não estragar.
Rapidinhas de BD - Southern Bastards vol. 1 e This One Summer
Southern Bastards: Here Was a Man de Jason Aaron e Jason Latour
É inevitável. A editora Image continua a atrair os nomes mais talentosos da 9.ª Arte. Mudaram de agulha e deslocam-se de forma segura pela linha autoral, dando não só total liberdade artística aos criadores como controlo financeiro sobre o seu trabalho. Jason Aaron e Jason Latour, que se notabilizaram a trabalhar para as duas grandes, Marvel e DC, são dos mais recentes exploradores no cada vez maior mercado independente liderado pela Image. O primeiro, escritor, ficou bastante conhecido pela sua obra-prima, Scalped, publicada pela Vertigo da DC. O segundo adquiriu alguma notoriedade por continuar o trabalho do primeiro na BD Wolverine & the X-Men. Acontece que os dois têm mais algo em comum do que apenas o amor pelo mutante de garras retrateis: o Sul dos EUA.
Ambos são naturais dessa região, como afirmam na introdução deste volume, e nutrem uma relação de amor/ódio pela "mitologia" que permeiam aquelas áreas do enorme país que é os EUA. O cheiro, a atmosfera, a rudeza dos homens, o discurso curto e grosso - há quem o diga franco, outros bruto. Todas estas características fazem parte da lembrança que escrevem neste primeiro volume de Southern Bastards. Um primeiro volume que relata o regresso de um filho pródigo a um implacável Sul, onde a violência física é temperada pelos fortes sabores da gastronomia local.
Aaron e Latour tecem um conto realista mas imbuído de discretos apontamentos fantásticos que carregam a história para lá da esfera meramente documental, para a afirmar como intemporal e (quase) sem geografia. Sim, porque este é um conto do Sul dos EUA e não do Alentejo.
This One Summer de Jillian Tamaki e Mariko Tamaki
This One Summer transborda de recordações. Só que estas não são de costeletas picantes e violência. Cada quadradinho, cada sequência desta BD independente canadiana cheira, sabe e sente a nostalgia, a memórias de infância e adolescência. As autoras não se coíbem de minar todas as pequenas sensações que guardaram e vertê-las para a folha de papel, num registo muito semelhante a Craig Thompson, o extraordinário autor de Blankets e Habibi (mesmo no desenho). Mas enquanto Thompson tinha um registo robusto, preenchido, cada página uma perfeita sintonia entre desenho, ideia e texto, este This One Summer não me satisfez da mesma forma.
O livro veio com elevadas recomendações, tendo encabeçado todas as listas das melhores BD de 2014. A estética que ia espreitando fazia-me lembrar leituras alegres (o já mencionado Blankets). A expectativa era alta mas, infelizmente, saiu defraudada. Imagino que a história e a forma tenham muito a dizer a muitos mas a mim não me tocou quase de forma alguma. Talvez por distanciamento face à experiência, reconheço. Contudo, ao analisar de forma mais fria, deparo-me com um esforço que, do ponto de vista do desenho, é quase irrepreensível, mas do ponto de vista narrativo é ténue. O conto é descomprimido ao ponto do sumo ser quase inexistente. O silêncio pode ser uma arma poderosa quando contamos algo mas, no caso de This One Summer, pareceu-me reflectir a falta do que dizer em todas as páginas que se propôs para escrever (e são muitas). As mesmas ideias (memória) são repetidas de formas diferentes mas, na essência, e no meu ponto de vista, com pouco acréscimo.
Apesar destas minhas reservas, aconselho a leitura a outros sentimentos mais em sintonia com o destas duas excelentes autoras. De certeza que irão ver coisas que me passaram ao lado.
Ambos são naturais dessa região, como afirmam na introdução deste volume, e nutrem uma relação de amor/ódio pela "mitologia" que permeiam aquelas áreas do enorme país que é os EUA. O cheiro, a atmosfera, a rudeza dos homens, o discurso curto e grosso - há quem o diga franco, outros bruto. Todas estas características fazem parte da lembrança que escrevem neste primeiro volume de Southern Bastards. Um primeiro volume que relata o regresso de um filho pródigo a um implacável Sul, onde a violência física é temperada pelos fortes sabores da gastronomia local.
Aaron e Latour tecem um conto realista mas imbuído de discretos apontamentos fantásticos que carregam a história para lá da esfera meramente documental, para a afirmar como intemporal e (quase) sem geografia. Sim, porque este é um conto do Sul dos EUA e não do Alentejo.
This One Summer de Jillian Tamaki e Mariko Tamaki
This One Summer transborda de recordações. Só que estas não são de costeletas picantes e violência. Cada quadradinho, cada sequência desta BD independente canadiana cheira, sabe e sente a nostalgia, a memórias de infância e adolescência. As autoras não se coíbem de minar todas as pequenas sensações que guardaram e vertê-las para a folha de papel, num registo muito semelhante a Craig Thompson, o extraordinário autor de Blankets e Habibi (mesmo no desenho). Mas enquanto Thompson tinha um registo robusto, preenchido, cada página uma perfeita sintonia entre desenho, ideia e texto, este This One Summer não me satisfez da mesma forma.
O livro veio com elevadas recomendações, tendo encabeçado todas as listas das melhores BD de 2014. A estética que ia espreitando fazia-me lembrar leituras alegres (o já mencionado Blankets). A expectativa era alta mas, infelizmente, saiu defraudada. Imagino que a história e a forma tenham muito a dizer a muitos mas a mim não me tocou quase de forma alguma. Talvez por distanciamento face à experiência, reconheço. Contudo, ao analisar de forma mais fria, deparo-me com um esforço que, do ponto de vista do desenho, é quase irrepreensível, mas do ponto de vista narrativo é ténue. O conto é descomprimido ao ponto do sumo ser quase inexistente. O silêncio pode ser uma arma poderosa quando contamos algo mas, no caso de This One Summer, pareceu-me reflectir a falta do que dizer em todas as páginas que se propôs para escrever (e são muitas). As mesmas ideias (memória) são repetidas de formas diferentes mas, na essência, e no meu ponto de vista, com pouco acréscimo.
Apesar destas minhas reservas, aconselho a leitura a outros sentimentos mais em sintonia com o destas duas excelentes autoras. De certeza que irão ver coisas que me passaram ao lado.
Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 20.º Volume: Vingadores e X-Men parte II
(Prometo informar os menos conhecedores acerca da
acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber
mais coisas)
Grau de acessibilidade: Difícil mas…
Sai
amanhã, Quinta-feira, dia 20 de Novembro, junto com Público e custa 8,9€
Quando os heróis já enfrentaram por diversas
vezes os seus habituais inimigos fica difícil inovar. Ao mesmo tempo, uma das
histórias com quase tanta barba quanto a do aparecimento do super-herói é a do
confronto entre dois ou mais super-heróis. Quantas e quantas vezes o Super-Homem encontrava-se com, por
exemplo, o Capitão Marvel (não sabem
quem é? Para o efeito, não interessa), e a primeira reação de ambos era a de
desentendimento, seguida do confronto e, só depois, da junção para enfrentar o
verdadeiro problema, geralmente um super-vilão. Existe um lado muito atraente
para os fãs em ver personagens que são geralmente aliados a lutarem um contra o
outro. Não só ajuda a responder à juvenil pergunta de “quem é o mais forte?”
como possui uma carga dramática verdadeiramente cativante.
A editora Marvel,
nos últimos 10 anos, tem levado este confronto para um lado inesperado, não se
cingido aos eventuais desentendimentos mas indo mais longe, para o lado das
diferenças filosóficas entre heróis. Este rol de encontros começou com Dinastia M, onde os Vingadores estavam de um lado diferente do dos X-Men. Continuou, desta vez só com os Vingadores, com a Guerra
Civil (ambas estas histórias foram publicadas pela Levoir) e com as consequências da mesma – e que, ao que parece,
serão adaptadas no terceiro filme do Capitão
América, já que a base da titular guerra
era a do confronto entre o Sentinela
da Liberdade e o seu colega Vingador,
o Homem de Ferro. Alguns anos e
muitas histórias e sagas depois, eis que surge um confronto paradoxal mas
esperado entre duas das maiores equipas da Marvel.
Esta é a história que imediatamente antecede as publicadas nas revistas mensais
da Panini Portugal, nomeadamente as
dos Vingadores e dos X-Men, e funciona como importante
complemento para perceber o ponto onde se encontra, principalmente, a equipa de
mutantes.
São vários os escritores e desenhistas que
trabalharam nesta saga, que sofre de vários defeitos, ainda que tenha
importantes virtudes. Algo pelo qual não tenho particular afinidade é
exatamente o facto de ser trabalhada por vários autores que, ainda que
detentores de enorme talento, acabam por contribuir para um todo incoerente –
cheira ao trabalho de encomenda que na realidade é. Por outro lado, é o
culminar de uma multitude de outras histórias vindas de outros volumes (como Dinastia M), obrigando a um
enciclopédico conhecimento dos meandros em que estes estes personagens se
movimentaram na última década. Não que isso não deva funcionar como detrimento,
como aliás sempre digo no final de cada um destes posts. Por outro lado, as vantagens residem nas mesmas
características que são também defeitos. Não só estamos defronte do trabalho de
alguns dos mais interessantes escritores e desenhistas de BD de super-heróis,
como muita da magia da mitologia dos personagens reside no conturbado historial
que os rodeia. Em suma, uma maneira curiosa de culminar esta coleção da Marvel de 2014: não com um Fim mas sim
com um Continua…
Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo
para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na
descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que
não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.
Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 19.º Volume: Vingadores e X-Men parte I
(Prometo informar os menos conhecedores acerca da
acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber
mais coisas)
Grau de acessibilidade: Difícil mas…
Sai
amanhã, Quinta-feira, dia 13 de Novembro, junto com Público e custa 8,9€
Quando os heróis já enfrentaram por diversas
vezes os seus habituais inimigos fica difícil inovar. Ao mesmo tempo, uma das
histórias com quase tanta barba quanto a do aparecimento do super-herói é a do
confronto entre dois ou mais super-heróis. Quantas e quantas vezes o Super-Homem encontrava-se com, por
exemplo, o Capitão Marvel (não sabem
quem é? Para o efeito, não interessa), e a primeira reação de ambos era a de
desentendimento, seguida do confronto e, só depois, da junção para enfrentar o
verdadeiro problema, geralmente um super-vilão. Existe um lado muito atraente
para os fãs em ver personagens que são geralmente aliados a lutarem um contra o
outro. Não só ajuda a responder à juvenil pergunta de “quem é o mais forte?”
como possui uma carga dramática verdadeiramente cativante.
A editora Marvel,
nos últimos 10 anos, tem levado este confronto para um lado inesperado, não se
cingido aos eventuais desentendimentos mas indo mais longe, para o lado das
diferenças filosóficas entre heróis. Este rol de encontros começou com Dinastia M, onde os Vingadores estavam de um lado diferente do dos X-Men. Continuou, desta vez só com os Vingadores, com a Guerra
Civil (ambas estas histórias foram publicadas pela Levoir) e com as consequências da mesma – e que, ao que parece,
serão adaptadas no terceiro filme do Capitão
América, já que a base da titular guerra
era a do confronto entre o Sentinela
da Liberdade e o seu colega Vingador,
o Homem de Ferro. Alguns anos e
muitas histórias e sagas depois, eis que surge um confronto paradoxal mas
esperado entre duas das maiores equipas da Marvel.
Esta é a história que imediatamente antecede as publicadas nas revistas mensais
da Panini Portugal, nomeadamente as
dos Vingadores e dos X-Men, e funciona como importante
complemento para perceber o ponto onde se encontra, principalmente, a equipa de
mutantes.
São vários os escritores e desenhistas que
trabalharam nesta saga, que sofre de vários defeitos, ainda que tenha
importantes virtudes. Algo pelo qual não tenho particular afinidade é
exatamente o facto de ser trabalhada por vários autores que, ainda que
detentores de enorme talento, acabam por contribuir para um todo incoerente –
cheira ao trabalho de encomenda que na realidade é. Por outro lado, é o
culminar de uma multitude de outras histórias vindas de outros volumes (como Dinastia M), obrigando a um
enciclopédico conhecimento dos meandros em que estes estes personagens se
movimentaram na última década. Não que isso não deva funcionar como detrimento,
como aliás sempre digo no final de cada um destes posts. Por outro lado, as vantagens residem nas mesmas
características que são também defeitos. Não só estamos defronte do trabalho de
alguns dos mais interessantes escritores e desenhistas de BD de super-heróis,
como muita da magia da mitologia dos personagens reside no conturbado historial
que os rodeia. Em suma, uma maneira curiosa de culminar esta coleção da Marvel de 2014: não com um Fim mas sim
com um Continua…
Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo
para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na
descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que
não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.
Panini Portugal - Thor, o Chacinador de Deuses # 1
De vez em quando gosto de pensar que existem dois tipos de leitores no que respeita a BD de super-heróis: os que gostam do Super-Homem e os que inclinam-se para o Batman. Uns preferem seres maiores que a vida, dotados de poderes divinos, envolvidos em situações onde, permanentemente, o destino da realidade é posto em causa - estes são os do Super-Homem. Os de outra qualidade preferem heróis realistas, que poderiam existir no nosso mundo e que, diariamente, travam uma luta desesperada e trágica contra o cinza do crime nas cidades - estas são as do Batman. Antes de continuar, os fãs de BD que me perdoem a excessiva compartimentalização. Obviamente que a apreciação da arte não passa por este preto e branco excessivo. Mas, ainda assim, existe aqui algo de verdade.
No que me toca, sempre pendi mais para o lado do Super-Homem e o Thor, livro e personagem que me trouxeram a este post, tende claramente para o lado cósmico do arquétipo do super-herói. Neste sentido, este primeiro volume do trabalho de Jason Aaron e Esad Ribic é um soberbo exemplar da capacidade que a BD tem em superar os limites da Prosa e do Cinema e contar uma história verdadeiramente cósmica em escala, linguagem e alcance. O enredo atravessa o tempo e o espaço, focando três épocas da vida do Deus do Trovão enquanto este confronta um ser demoníaco e hiper-poderoso cujo objectivo é claro no título do livro: exterminar todos os panteões de deuses do universo. Ênfase em universo. Pela primeira vez (pelo menos tanto quanto é do meu conhecimento) aparecem nas páginas do personagem outros panteões que não apenas os terrenos. Aaron delicia-se em criar múltiplos deuses, espalhados pelos cantos do cosmo e alvo da adoração de uma multitude de povos alienígenas. Para completar o quadro, a linguagem tipicamente visceral que costuma aplicar aos seus diálogos e exposições é aplicada a longos momentos de exploração cosmogónica. Existe prazer nesta descoberta, particularmente deliciosa para quem o lê, tendo em consideração outras obras mais "urbanas" que caracterizaram anteriores explorações do autor (portanto, estilo Batman): Wolverine e Punisher, por exemplo. A aproximação rude que Aaron faz aos personagens, que geralmente são duros e másculos, aplica-se na perfeição a Thor, que podemos ver como o guerreiro definitivo. De facto, existe no personagem e no autor uma salutar combinação, como se ambos tivessem destinados em se encontrar. Visceralidade misturada com Divindade, à boa maneira do povo que adorava Thor, os Vikings.
No que respeita ao trabalho da Panini e do tradutor Felipe Faria, só posso dedicar os mais sinceros elogios pelo excelente trabalho. Os últimos anos e Portugal têm sido alvos de um enorme profissionalismo no que respeita à publicação de BD em geral e americana em particular. Quase que fico com pena de não existir uma edição em formato maior e com capa dura para que a escala cósmica do conto e a belíssima tradução possam ser adorados com ainda maior entusiasmo. São trabalhos destes que dão gosto ler e comprar. Muito recomendável, quer para os adoradores do lado do Super-Homem, quer para os do Batman.
Subscrever:
Mensagens (Atom)












.jpg)
