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O que vou Lendo! - Sex Criminals vol. 2 e 3 de Matt Fraction e Chip Zdarsky


Será que existem histórias que só conseguem ser apreciadas num único tipo de Arte? Alan Moore, por exemplo, acha que sim. O famoso e opinativo escritor de Banda Desenhada é bastante vocal a respeito disso. Para Moore, os Watchmen ou V de Vingança foram feitos para serem lidos em formato de BD e não para qualquer outro meio. Por isso, recusou que o seu nome fosse mencionado no genérico dos filmes e não recebeu qualquer recompensa financeira pelo mesmos. Não sei se Moore tem razão (gostei dos dois filmes e das duas obras, apesar de serem algo muito diferente) mas que existem conceitos e narrativas que parecem melhor talhadas para certas formas de expressão artística disso tenho poucas dúvidas. Por exemplo, quando li a deliciosa descrição do processo de decisão neurótico e deprimido de Anna Karenina antes do seu suicídio tive a certeza que aquele momento fazia todo o sentido ali (claro que o talento de Tolstoy a isso também ajudou). Mais tarde, o filme mais recente a adaptar este gigantesco romance ficou, infelizmente, a universos de distância.

Sex Criminals de Matt Fraction e Chip Zdarsky é um desses produtos que parecem nascer para crescer na Banda Desenhada (muito também como Saga de Vaughan e Staples). A premissa é tão deliciosamente ridícula que apenas a idiossincrasia dos autores e da narrativa da BD poderiam carregá-la. Existe um mundo onde certas pessoas têm a capacidade de parar o tempo quando atingem o orgasmo. Sim, leram bem. Posso imaginar os autores perdidos em stream of consciousness e, num momento de epifania, debitar esta ideia para fora. Quem é que se lembra disso? Mais, como é que transforma-se este conceito numa narrativa coerente, interessante e entretida? A resposta está no trabalho de Fraction e Zdarsky em Sex Criminals (cujo primeiro volume saiu pela editora Devir em Portugal).

A história cresce em enredo para lá deste conceito, entrando, primeiro, na obrigatória história de amor e depois segue para o casal que decide-se por uma vida de crime assim  que descobrem as potencialidades do seu poder (aliás, como não poderia deixar de ser tendo em consideração o título da obra). Após estas desventuras amoroso-criminais, o mundo dos que têm-o-poder-de-parar-o-tempo-assim-que-têm-um-orgasmo permite-se crescer e começar a explorar outros com as mesmas habilidades, organizações obscuras que agem no limite da ditadura policial, entre outras deliciosas evoluções. Quando se vêem cansados do vai e vem de exposições e narrativas estrambólicas, Fraction e Zdarsky chegam a invadir a sua própria história, quebrar a quarta parede, e falam com o leitor, muitas vezes ridicularizando-se a si mesmos. Isto num misto da stream of consciousness de que falei e de improviso enfadado. 

Esta obra não só parece particularmente talhada para ser de BD como é um produto perfeito da personalidade de Fraction e Zdarsky que estão como peixe na água num mundo sexualmente estranho e deliciosamente excitante. 

O que vou lendo! - As mulheres na Image - Velvet vol. 2, Lazarus vol. 3 e Ody-C vol. 1


A BD dos EUA é conhecida por ser a província do sexo masculino. Nunca percebi porque os criadores não se aventuravam mais. Seria medo do desconhecido? Não que não existissem mulheres como personagens, muito pelo contrário. Eram muitas e, geralmente, o interesse amoroso dos protagonistas. Existiam, sem dúvida, as super-heroínas mas, excepto por alguns exemplos, a sua presença (já para não falar de notoriedade) era a excepção e não a regra. Com o passar das décadas, a guerra foi sendo vencida batalha a batalha, criador a criador, até que, hoje em dia, não só vemos cada vez mais personagens femininas que não são estereótipos , como (dizem) que o número de leitoras está a aumentar e, finalmente, são em muito maior número os títulos por elas protagonizados. 

As editoras têm aderido a esta guerra e a Image, uma das mais interessantes e originais do panorama dos Comics, não é excepção. Falemos, por exemplo, destas três séries, todas de temáticas bem diferentes: Velvet centra-se no mundo da espionagem datada da década de 70; Lazarus lança-se num futuro pós-apocalíptico governado por famílias poderosas; Ody-C é uma reinterpretação da Odisseia de Homero, mas no espaço sideral e tendo como protagonistas apenas mulheres. Todas abraçam com naturalidade as protagonistas, sem agenda ou militantismo, apenas com a graciosidade da qualidade da história e do enredo.

Já falei neste blog das duas primeiras (vejam aqui e aqui) mas nunca é demais reiterar a qualidade de ambas. Os criadores envolvidos ficaram bastante conhecidos por trabalhos na Marvel e DC e decidiram-se pelo salto para a produção independente, escolhendo a Image. Os tiques e gostos que os haviam transformado como escolha natural para certos personagens nas duas grandes editoras são reaproveitados para a criação de personagens e histórias suas e adaptadas ao talento de todos. Brubaker e Epting já tinham conseguido uma simbiose na exploração do tema de espionagem no Capitão América. Com Velvet voltam a integrar o gosto do primeiro por estas narrativas e os desenhos do segundo, que não deixando de estar adaptado à atmosfera noir requerida, são também realistas o suficiente para não afastar os leitores pelo excesso de estética. Por seu lado, Lazarus de Rucka e Lark, tende para a prosa militarista e directa do primeiro, à qual se adapta o traço de Lark, realista, virtuoso, sem excessos e com fluidez narrativa. As histórias de ambas as séries continuam fortes, quer em termos de valor de entretenimento, quer de reflexão. Provas de que é possível  produzir nos EUA mais BD do que apenas super-heróis.

Finalmente, o OVNI que é Ody-C de Fraction, escritor, e Ward, desenhador. O último já tinha tido uma colaboração muito interessante em Infinite Vacation e com Matt Fraction, conhecido por uma prosa rebuscada e, por vezes, surreal, volta a enveredar pelo caminho do estranho. O estilo de Ody-C não é exactamente uma estética que me agrade, mas a reinterpretação que faz da Odisseia  acaba por ser um mote de entrada que é recompensador para quem conhece, mesmo que superficialmente, esse livro fundador. Ulisses (ou Odisseu) é um mulher, tal como os tripulantes, tal como os deuses do Olimpo. É um livro com o qual não me identifiquei particularmente mas que, acredito, apele ao gosto de muitos já que o trabalho dos dois criadores é diferente e apelativo. Acredito que deva ser lido.

O que vou lendo! – East of West vol. 4, Sex Criminals vol. 2 e The Wicked + The Divine vol. 2



Para quem lê Banda Desenhada dos EUA é hoje impossível escapar ao peso da Image, a editora independente que tem, paulatinamente, começado a dar cartas. Apesar de haver iniciado a sua actividade nos princípios da década de 90, em pleno boom da BD, demorou quase duas décadas a mudar a agulha, desfocando-se do negócio controlado pela Marvel e DC, o dos super-heróis, e preferindo o trabalho de autor. Nos últimos anos, inaugurou uma relação com os criadores que modificaria não só a sua actividade e o seu catálogo, como também o modo como toda a 9.ª Arte dos EUA ver-se-ia. Obviamente que o sucesso dos filmes e séries de TV ao estilo BD (como The Walking Dead, por exemplo, que pertence à Image), com todas as compartidas financeiras daí advidas, estimulou uma nova aproximação, mas não só. Por um lado, os criadores estão a ficar cansados que as suas histórias, por mais bem recompensadas que sejam, não fiquem como propriedade intelectual sua. Exemplos como o de Jack Kirby ou dos criadores do Super-Homem foram rastilho para uma posição menos inocente. Por outro lado, a narrativa dos super-heróis, querida a muitos, sem dúvida, começa a ser vista como não sendo a única capaz de atrair a atenção do público. Assim, movimentos que já existiam há décadas consolidaram-se recentemente e adquiriram uma dimensão nunca conhecida nos EUA. E a Image é um dos maiores porta-estandartes deste novo paradigma.

Qualquer uma das três BD’s de que falo neste post é não só exemplo da “filosofia Image” como da qualidade e idiossincrasia dos autores envolvidos. Apesar de muitos criadores dos EUA ainda terem alguma dificuldade em sair da arena da Fantasia e mesmo de alusão tangente ao super-herói, as três obras conseguem abordagens e temáticas tão díspares quanto o são as personalidades dos autores. East of West de Jonathan Hickman e Nick Dragotta continua, junto com a famosa Saga de Vaughan e Staples, a ser uma das maiores e mais relevantes publicações da Image, não só por ter sido das primeiras desta nova cara da editora como também por se haver destacado em qualidade e diferença. Hickman desenhou uma Terra cuja história é bastante diferente da nossa, numa mistura de Mad Max com o relato bíblico do Apocalipse. Um dos fortes não é só o enredo mas a épica linguagem de Hickman. Os seus personagens não debitam apenas palavras mas frases de impacto shakespeariano, infinitamente citáveis (já aqui o fiz). Esta é daquelas obras que apenas podia ser feita em BD, pela escala operática, pelos diálogos grandiloquentes e pelas situações maiores que vida.

Não que The Wicked + The Divine de Kieron Gillen e Jamie McKelvie fique atrás de East of West em escala e “citabilidade” (também já o fiz aqui). Mas ao contrário da primeira, a obra de Gillen e McKelvie vem de um lugar mais reconhecível, de uma geografia mais próxima. Enquanto East of West é deliciosamente estranho, The Wicked + The Divine faz lembrar coisas como Sandman, se escrito para os “millenials”. Apesar dos deuses que reencarnam em corpos de adolescentes de 16 anos para morreram daqui a dois, a leitura é feita pelos olhos deste início de século XXI, numa cultura de ausência de privacidade, de distância dos pais, de fama e atração pelo abismo do glamour. Contudo, a análise de Gillen vai mais longe do que no simples destilar do zeigeist e dos trejeitos da adolescência “milenar”. Eles são analisados mas também são protagonistas. Os autores não se limitam a ser observadores ao estilo National Geographic, antes participam e escalpelizam, virando a sua capacidade de análise para o interior e exterior da história. Isto porque qualquer narrativa digna desse nome não deve cingir-se ao singular mas também explorar o plural sob a lupa do microscópico.

Finalmente, o OVNI que é Sex Criminals de Matt Fraction e Chip Zdarsky. A premissa se não sabem, deveriam: existem pessoas que, quando atingem o orgasmo, param o tempo. Literalmente. Sim, o conceito é estranho, kitsh e, para sensibilidades mais ténues, a roçar o mau gosto. Uma espécie de Filme de série Z (ou XXX, se quiserem). Mas Fraction e Zdarsky não descansam nos louros do impacto inicial. Sabem que não basta um “alto conceito” para conduzir a narrativa. Sem perder um átomo da beleza e da provocação (estamos a falar dos EUA, um país com uma relação curiosa – aos olhos de um europeu - com o sexo e violência), conduzem a história não só para uma análise das complexas personalidades dos dois protagonistas, como para os problemas da sexualidade, numa óptica adulta, desenvolvida e robusta (se podem considerar robusta esta análise pop da questão). Este segundo volume afasta-se um pouco da questão fantástica e foca-se na complexidade ética e moral das situações e personagens, ganhado em peso e corpo.


Três livros, três vitórias da Image. A continuar assim, a Marvel e a DC que se ponham em bicos de pés porque têm um concorrente à séria.

Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 20.º Volume: Vingadores e X-Men parte II

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas…

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 20 de Novembro, junto com Público e custa 8,9€


Quando os heróis já enfrentaram por diversas vezes os seus habituais inimigos fica difícil inovar. Ao mesmo tempo, uma das histórias com quase tanta barba quanto a do aparecimento do super-herói é a do confronto entre dois ou mais super-heróis. Quantas e quantas vezes o Super-Homem encontrava-se com, por exemplo, o Capitão Marvel (não sabem quem é? Para o efeito, não interessa), e a primeira reação de ambos era a de desentendimento, seguida do confronto e, só depois, da junção para enfrentar o verdadeiro problema, geralmente um super-vilão. Existe um lado muito atraente para os fãs em ver personagens que são geralmente aliados a lutarem um contra o outro. Não só ajuda a responder à juvenil pergunta de “quem é o mais forte?” como possui uma carga dramática verdadeiramente cativante.

A editora Marvel, nos últimos 10 anos, tem levado este confronto para um lado inesperado, não se cingido aos eventuais desentendimentos mas indo mais longe, para o lado das diferenças filosóficas entre heróis. Este rol de encontros começou com Dinastia M, onde os Vingadores estavam de um lado diferente do dos X-Men. Continuou, desta vez só com os Vingadores, com a Guerra Civil (ambas estas histórias foram publicadas pela Levoir) e com as consequências da mesma – e que, ao que parece, serão adaptadas no terceiro filme do Capitão América, já que a base da titular guerra era a do confronto entre o Sentinela da Liberdade e o seu colega Vingador, o Homem de Ferro. Alguns anos e muitas histórias e sagas depois, eis que surge um confronto paradoxal mas esperado entre duas das maiores equipas da Marvel. Esta é a história que imediatamente antecede as publicadas nas revistas mensais da Panini Portugal, nomeadamente as dos Vingadores e dos X-Men, e funciona como importante complemento para perceber o ponto onde se encontra, principalmente, a equipa de mutantes.

São vários os escritores e desenhistas que trabalharam nesta saga, que sofre de vários defeitos, ainda que tenha importantes virtudes. Algo pelo qual não tenho particular afinidade é exatamente o facto de ser trabalhada por vários autores que, ainda que detentores de enorme talento, acabam por contribuir para um todo incoerente – cheira ao trabalho de encomenda que na realidade é. Por outro lado, é o culminar de uma multitude de outras histórias vindas de outros volumes (como Dinastia M), obrigando a um enciclopédico conhecimento dos meandros em que estes estes personagens se movimentaram na última década. Não que isso não deva funcionar como detrimento, como aliás sempre digo no final de cada um destes posts. Por outro lado, as vantagens residem nas mesmas características que são também defeitos. Não só estamos defronte do trabalho de alguns dos mais interessantes escritores e desenhistas de BD de super-heróis, como muita da magia da mitologia dos personagens reside no conturbado historial que os rodeia. Em suma, uma maneira curiosa de culminar esta coleção da Marvel de 2014: não com um Fim mas sim com um Continua…

Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.


Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 19.º Volume: Vingadores e X-Men parte I

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas…

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 13 de Novembro, junto com Público e custa 8,9€


Quando os heróis já enfrentaram por diversas vezes os seus habituais inimigos fica difícil inovar. Ao mesmo tempo, uma das histórias com quase tanta barba quanto a do aparecimento do super-herói é a do confronto entre dois ou mais super-heróis. Quantas e quantas vezes o Super-Homem encontrava-se com, por exemplo, o Capitão Marvel (não sabem quem é? Para o efeito, não interessa), e a primeira reação de ambos era a de desentendimento, seguida do confronto e, só depois, da junção para enfrentar o verdadeiro problema, geralmente um super-vilão. Existe um lado muito atraente para os fãs em ver personagens que são geralmente aliados a lutarem um contra o outro. Não só ajuda a responder à juvenil pergunta de “quem é o mais forte?” como possui uma carga dramática verdadeiramente cativante.

A editora Marvel, nos últimos 10 anos, tem levado este confronto para um lado inesperado, não se cingido aos eventuais desentendimentos mas indo mais longe, para o lado das diferenças filosóficas entre heróis. Este rol de encontros começou com Dinastia M, onde os Vingadores estavam de um lado diferente do dos X-Men. Continuou, desta vez só com os Vingadores, com a Guerra Civil (ambas estas histórias foram publicadas pela Levoir) e com as consequências da mesma – e que, ao que parece, serão adaptadas no terceiro filme do Capitão América, já que a base da titular guerra era a do confronto entre o Sentinela da Liberdade e o seu colega Vingador, o Homem de Ferro. Alguns anos e muitas histórias e sagas depois, eis que surge um confronto paradoxal mas esperado entre duas das maiores equipas da Marvel. Esta é a história que imediatamente antecede as publicadas nas revistas mensais da Panini Portugal, nomeadamente as dos Vingadores e dos X-Men, e funciona como importante complemento para perceber o ponto onde se encontra, principalmente, a equipa de mutantes.

São vários os escritores e desenhistas que trabalharam nesta saga, que sofre de vários defeitos, ainda que tenha importantes virtudes. Algo pelo qual não tenho particular afinidade é exatamente o facto de ser trabalhada por vários autores que, ainda que detentores de enorme talento, acabam por contribuir para um todo incoerente – cheira ao trabalho de encomenda que na realidade é. Por outro lado, é o culminar de uma multitude de outras histórias vindas de outros volumes (como Dinastia M), obrigando a um enciclopédico conhecimento dos meandros em que estes estes personagens se movimentaram na última década. Não que isso não deva funcionar como detrimento, como aliás sempre digo no final de cada um destes posts. Por outro lado, as vantagens residem nas mesmas características que são também defeitos. Não só estamos defronte do trabalho de alguns dos mais interessantes escritores e desenhistas de BD de super-heróis, como muita da magia da mitologia dos personagens reside no conturbado historial que os rodeia. Em suma, uma maneira curiosa de culminar esta coleção da Marvel de 2014: não com um Fim mas sim com um Continua…


Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 14.º Volume: Thor e Capitão América

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas...

Sai hoje, Quinta-feira, dia 9 de Outubro, junto com Público e custa 8,9€

O que começou e acabou tem de continuar. Essa é uma das filosofias da eterna telenovela dos super-heróis da Marvel e da DC Comics. A semana passada, esta maravilhosa coleção da Levoir publicou o último capítulo da saga que Brian Michael Bendis, escritor, fez para os seus Novos Vingadores. O que se lhe seguiu foi uma mini-Era Heróica, na qual os grande nomes desta equipa regressam: Thor; Capitão América; Homem de Ferro. Aventuras com sabor a outras épocas voltaram a agraciar as páginas de uma nova revista dos Vingadores (tout court) e, porque tinha de ser, os Novos Vingadores continuaram, mas apenas como equipa satélite.

No ano em que saíram os dois primeiros filmes de Thor e Capitão América, 2011, foi aquele em que a Marvel decide centrar o seu evento anual nestes dois personagens: Fear Itself, que é coleccionado neste volume sob o título A Essência do Medo. À semelhança de outras sagas anuais como Guerra Civil ou Invasão Secreta  (ambas publicadas pela Levoir), nesta também se reúnem a maior parte dos personagens da editora de super-heróis, apenas desta vez em volta de enredos e eventos que tocam mais directamente com o Deus do Trovão e o Sentinela da Liberdade: chama-se a isto mercantilismo. A história principal envolve dois temíveis vilões: uma a herdeira espiritual e genética do maior inimigo do Capitão América, o Caveira Vermelha; o outro, parte do passado negro dos Asgardianos, povo de Thor, e do seu pai, Odin, o Todo-Poderoso

Escrita pelo imaginativo Matt Fraction e desenhada pelo excelente Stuart Immonnen, é uma saga envolvente e divertida ainda que sofra de alguns dos males (há muito tempo) típicos destas grandes aventuras transversais: essa mesma transversalidade. Muitos dos enredos não começam ou terminam no livro principal, muitos dos autores preferem transportá-los para as revistas individuais de cada personagem.  Ao mesmo tempo, são histórias que, por mais que os artistas se esforcem, estão alicerçadas em várias décadas de continuidade, sendo muitas vezes necessário um conhecimento enciclopédico para apreciar o que se passa (ou não, tendo em conta a nota que coloco sempre no final de cada um destes posts). Por outro lado, estas sagas nunca acabam (verdadeiramente) na última página, mas esse é o preço a pagar pela "eterna telenovela" de que vos falei no primeiro parágrafo. E, muito sinceramente, esse é parte do charme da coisa.

Nota – Não partilho da opinião que tem de se saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

O que vou Lendo! - Sex Criminals de Matt Fraction e Chip Zdarsky

Como vos dizer o que quer que seja acerca deste singular livro sem estragar um átomo de surpresa? Já várias vezes vos disse neste blog que, para mim, parte imprescindível do prazer de apreciar qualquer história, independentemente da forma, reside na descoberta. Eu já leio BD há tantos anos que, muitas vezes, apenas sei de um autor ou personagem e imediatamente salto para a leitura sem querer saber muito mais pormenores. Assim foi com este excepcional Sex Criminals. Conhecia o trabalho de Matt Fraction. Conhecia a recente produção da editora Image. Sabia que a probabilidade de isto ser algo bom era elevada. Desta vez acertei - como, aliás, tenho acertado muito no que respeita a esta editora.

Não vos vou, como disse, revelar nada do enredo. Posso, ainda assim, vos revelar que envolve sexo e criminosos. Ah... e acho que não cometo nenhum spoiler se disser que também envolve a passagem do tempo, ou melhor, a ausência de passagem. Curiosos? Deveriam estar! Que é que estes três coisas têm em comum? Como é que Matt Fraction consegue construir o que quer que seja usando estas três palavras? 

Há medida que ia lendo apercebi-me que, quando tentasse explicar o conceito base desta BD, seria difícil não considerá-lo, quer para mim quer para quem eu tentasse "vendê-la", como kitsh, argumento de série B ou mesmo Z. Havia um lado de lixo na premissa. Mas lixo que, executado da forma soberba como o é pela dupla de autores, acaba por ser divertido, humano e emocionante. Este é daqueles conceitos que muito dificilmente imaginamos a nascer de outra arte que não a BD, tal o despropósito. E ainda bem, porque prova o quanto ela é suprema. Desligada de qualquer grilhão realista, e assumindo-se como tal, consegue aceitar o ridículo como ele é e, nas mãos de dois artífices superiores, ser algo verdadeiramente bom.  Divertido e complexo.

Perceberam que gostei da BD, não? Verdadeiramente, apenas posso continuar a insistir nos rasgados elogios à editora que atrai e arrisca, mesmo com autores provados como Fraction, mas deixa-os brincar à vontade e correr riscos deste nível. O futuro parece brilhante, não só para Sex Criminals, como para a Image.

O que vou lendo! - Hawkeye volumes 1 e 2 de Matt Fraction (escritor) e David Aja (desenhista)


My life as Weapon e Little Hits colecionam os primeiros números da mais recente tentativa da Marvel em dar um título solo ao seu Robin Hood de serviço. Na esteira do filme dos Vingadores, onde o personagem teve relativa relevância, a editora decidiu dar oportunidade a um dos melhores escritores de serviço, Matt Fraction, para dar vida a um dos mais antigos personagens do seu cardápio (já vem da década de 60), o eterno vingador inconformado e rebelde conhecido em Portugal como o Gavião Arqueiro.


Os dois criadores (Fraction e Aja) já no passado haviam trabalhado num personagem estilo “da rua”, o Punho de Ferro, com resultados bastante similares em qualidade, ainda que o produto final seja dispare. 

No contexto da BD de super-heróis (por muitos apelidada de mainstream) estes dois volumes representam uma lufada de ar fresco face ao panorama disponível, ao fazer escolhas narrativas bastante estimulantes. Não só Fraction engendra enredos francamente diferentes (chega a haver um capítulo inteiro visto da perspectiva de um cão e, já agora, bastante bom), como Aja, nos desenhos, escolhe o caminho oposto das páginas vistosas, preferindo partir a ação em pequenos quadradinhos e trazendo a escala para o humano e o psicológico, possibilitando trocas de diálogos, olhares e gestos entre os diferentes personagens. Em suma, a violência típica de super-heróis é preterida face ao relacional. Nada de novo mas francamente bem conseguido. 

Um dos outros heróis deste Hawkeye é o colorista Matt Hollingsworth, que consegue um fantástico trabalho que completa uma BD francamente boa, uma BD que aproveita muitas das potencialidades da arte e procura explorar novas soluções para histórias que, de outra forma, não sairiam do lugar-comum. Esta obra consegue prevalecer em águas já trilhadas por autores como Frank Miller, mas recorrendo-se de outros instrumentos (o humor é bastante bem-vindo nesta série), que completam um todo fácil de ler e fresco. Bastante recomendável.

O que vou lendo! - The Invincible Iron Man de Matt Fraction e Salvador Larroca

Foi recentemente publicada a última colecção do conjunto de 12 volumes que encadernam em formato capa dura a história que Matt Fraction, escritor, e Salvador Larroca, desenhista, talharam para Tony Stark, o conhecido Homem de Ferro (Iron Man, no original). Começaram a parceria no mesmo ano do lançamento do primeiro filme (2008), que à data trouxe reconhecimento mainstream a este desconhecido personagem da Marvel. Graças a uma excelente prestação de Robert Downey Jr, aos obrigatórios efeitos especiais ao serviço de uma história escorreita e, claro, ao charme deste personagem criado na década de 60, a Marvel iniciou uma carreira cinematográfica que tem dados frutos não só ao nível da qualidade mas também das finanças.
Nesse mesmo ano foi então relançada a revista deste personagem, entregando-o a um escritor que se havia destacado na produção independente com títulos pós-modernistas como Casanova (actualmente a sair pela chancela também da Marvel) e Salvador Larroca, nada novo nestas andanças. O que saiu desta colaboração foi um Tony Stark ao mesmo tempo verdadeiro à sua essência mas também moderno, vanguardista, como convém a um homem que é a mistura de Steve Jobs elevado à enésima potência com George Clooney, o arquétipo do playboy suave, acessível e incrivelmente charmoso. O Homem de Ferro de Fraction é um futurista, um homem que talha, pela inteligência e engenho, como vamos ler, como vamos navegar na net, conduzir, poupar energia. Literalmente, cria o futuro. E graças à linha de Larroca, a tecnologia usada é cristalina, limpa, asseada, acabada de sair da fábrica, como num anúncio filmado na Côte D’Azur. Em contraponto, os adversários são temíveis e implacáveis, como convêm sê-lo neste mundo de altos riscos e altos ganhos. E não se limitam ao vilão do costume, muito pelo contrário. Aqui os inimigos são corporativos, altos gestores em concorrência cerrada. Não há superpoderes que possam valer, apenas a inteligência, o savoir faire, o trompe l'oeil, a disputa de vontades nas esferas da finança e intriga empresarial. Um mundo onde um CEO como Tony Stark movimenta-se como veludo.
Não sendo o maior fã do personagem que existe, depois de alguns anos sem o ler regressei com este trabalho. No passado li as mais emblemáticas histórias na vida do personagem (as de Michelinie, Byrne, Busiek e Ellis, nomes reconhecidos pelos leitores ardentes de BD), mas nunca me senti particularmente identificado pelas qualidades e personalidade de Tony Stark. Mas, graças ao filme e a esta série, ganhou uma vida nova, percebi tratar-se de um personagem incrivelmente bem talhado para este século XXI, o da internet, o da informação à velocidade da luz, das grandes corporações, das inovações tecnológicas que nos mudam o modo de vida. E Fraction e Larroca fazem uso e usufruto dessa adaptabilidade, tendo-me obrigado a lê-los do princípio ao fim. E aí reside também uma outra vantagem deste trabalho, a possibilidade que nos oferece de ler uma única história, com algumas das obrigatórias interrupções inerentes ao universo compartilhado dos super-heróis mas ainda assim descomplicada e com alto nível de entretenimento e de reflexão. Assim deu gosto de ler o Homem de Ferro.