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Uma BD aqui, outra BD ali, 15

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Immortal Men número 1 de James Tynion IV, Jim Lee e Ryan Benjamin (DC Comics)

Depois da mini-série Dark Nights: Metal, a DC Comics decidiu apostar num conceito inovador. As duas grandes editoras dos EUA têm sofrido, de algumas décadas a esta parte, de um grave problema: raramente apostam em novas criações. Devido à política de direitos exercidos sobre conceitos que habitam os universos partilhados de super-heróis, muitos autores não têm vantagem em fornecer boas ideias, quando não são eles a lucrar com elas. Depois de exemplos como Siegel e Shuster, os criadores do Super-Homem, ou de Jack Kirby, uma das mentes que originou a BD nos EUA, é normal que os seus herdeiros artísticos refugiem o melhor da imaginação no domínio do privado. 

Esperemos que algo se tenha modificado neste contexto para que tantas novas personagens aparecessem na DC - ainda que exista algo de estranhamente familiar nelas. Já falei aqui do The Terrifics, ou aqui de Damage. Ambos são homenagens mal disfarçadas ao Quarteto Fantástico e Hulk, respectivamente, e estes Immortal Men, ainda que tangencialmente, fazem lembrar os X-Men (estes também já eram inspirados na Doom Patrol da DC, portanto "ladrão que rouba a ladrão"...). Ainda assim, o conceito por detrás deste grupo aborda ideias já antigas intrínsecas à DC, como o Immortal Man, o Vandal Savage, etc., mas com uma maior abrangência tentacular na História Secreta do Universo. Tynion cria novas ideias e novas personagens e alicerça-as numa luta que dura há milénios no interstício escondido do mundo. O resultado é divertido q.b., ainda que denso, dificultando um pouco o entretenimento. Teremos de esperar pelos números que se seguem mas, do que aqui é mostrado, e tendo em consideração o trabalho do escritor na revista Detective Comics, estou disposto a dar o benefício da dúvida.

Um dos selling points desta nova leva de revistas pós-Dark Nights:Metal era a aposta nos desenhistas. Seriam o centro das atenções. A eles seria seria dada carta de alforria para descarrilar a imaginação. Neste Immortal Men a tarefa cabe ao lendário Jim Lee. Acontece que ele desenha apenas parte do título, partilhando muitas páginas com Ryan Benjamin, que não tem o mesmo talento. Depois de tanto alarido, parece que as promessas da DC caíram em saco roto, o que, infelizmente, não fornece muita confiança no produto e no seu futuro. Provavelmente, será melhor confiar no escritor, já que estes artistas não são, de todo, Jack Kirby.

Captain America número 700 de Mark Waid e Chris Samnee (Marvel)

Infelizmente, está a chegar ao fim a terceira leva de histórias do escritor Mark Waid para o Capitão.  As duas primeiras têm já quase 20 anos e eram, na opinião deste fã, do melhor que foi produzido para o Sentinela da Liberdade. Waid tem inclinação para escrever super-heróis à moda antiga, não só porque é um uber-geek com talento, mas também porque possui um optimismo vincado e militante (leiam o seu Kingdom Come, por exemplo). Os seus homens de collants são bastiões de bondade e de verdade, constantemente na luta pelo que é Bom e Belo - percebem porque escrevi super-heróis à antiga?

Esta terceira tentativa não é diferente. 

Waid recorre a um dos mais antigos e usados clichés da BD: o distópico futuro alternativo (inaugurado no essencial X-Men: Days of Future Past dos lendários Claremont e Byrne). Sobre este faz uma pequena modificação, usada para analisar a personalidade daquela que é repetida e injustamente considerada como a personagem mais canastrona da Marvel (muito à semelhança do que acham ser o Super-Homem). A história segue à velocidade de um Tintin de Hergé, com rapidez de acção e determinação no enredo, não desviando-se do propósito que é seu desde o início: descrever quem é o Capitão América.

Auxiliado pela linha clássica e clara de Samnee, temos em mãos uma saga que poderá vir a figurar no melhor que já foi feito sobre a personagem e que ficará bem na prateleira numa edição Deluxe. Aliás, declaro minha esta previsão e este pedido: façam um filme desta história, quem sabe até um último hino de Chris Evans, se convencido a ficar ou se sobreviver à Infinity War - que estreia nos cinemas no próximo dia 25 de Abri.

Captain America: Civil War dos Irmãos Russo (Capitão América: Guerra Civil)

(sem spoilers)


A pessoa que foi ver comigo este novo filme da mega-saga do universo cinematográfico da Marvel disse-me algo que (confesso, com vergonha) não me ocorreu depois de ter saído da sala: o confronto entre os heróis é consequência da mesma razão que a do filme Batman V Superman (ou vice-versa). Quer um, quer outro pergunta-se do papel da violência dos super-heróis na vida dos habitantes da Terra, das consequências materiais e emocionais daqueles que partilham com eles estes mundos ficcionais. Obviamente, optam por caminhos bem diferentes na análise da reacção dos heróis, mas estas "coincidências" não deixam de ser curiosas. Parece que as mitologias e histórias de super-heróis chegaram a um tal ponto de reconhecimento mainstream que podem ser meta-textuais sem que ninguém sinta-se ostracizado - ou isso ou não sabem ser originais.

Mas vamos ao que interessa. Valeu a pena? Sim, valeu e muito. No que a mim diz respeito, este é um filme de puro e delicioso entretenimento, cheio de acção, drama super-heróistico, humor ao estilo Marvel, etc. Foi também lugar da introdução de dois novos personagens neste universo cinematográfico, o Pantera Negra e o muito aguardado Homem-Aranha, que acabam também por ser duas das maiores vitórias do filme, pelo casting perfeito, pelos diálogos, pela acção. Como fã da Marvel e de Banda Desenhada, dificilmente encontrei algo com que ficar insatisfeito. Apenas tenho dois reparos a fazer: um deles não é tanto um reparo mas uma advertência e outro, sim, assumo-o como uma leve crítica. Primeiro, este filme é capaz de ser um pouco excessivo para com os que não estão familiarizados com o universo de super-heróis da Marvel - e falo dos que não lêem BD. Segundo, a realização: o lado autoral do Cinema, a assinatura de realizador, é completamente inexistente, aliás como para todos os da chancela da Disney/Marvel. As produtoras não querem mexer numa fórmula que tem dado tantos e tão agradáveis resultados financeiros. Mas depois de ver cada filme Disney/Marvel fica a sensação de ter visto o mesmo desde 2007, o ano do primeiro Homem de Ferro, isto apesar dos diferentes realizadores. A cor é a mesma, a iluminação é a mesma, os enquadramentos (se calhar) são sempre os mesmos. Contudo, e sublinho, nada disso retira prazer às duas horas e meia. Puro entretenimento.

A adaptação do material original é uma das grandes forças dos filmes da Disney/Marvel. Existe e continua a existir um equilíbrio saudável entre respeito e sentido prático no que à 7.ª Arte diz respeito. O Capitão América continua a ser um personagem por quem nutro um carinho especial (muito mais do que pelo Homem de Ferro), pelo seu inabalável sentido democrático e de liberdade. Mas, neste filme, há algo que salta ainda mais à vista: a teimosia da ideologia e a lealdade para com os amigos. Estas características são, aliás, o grande motor da narrativa, não só pelos inimigos que cria como também pelas alianças que forja. Para mim, é sempre delicioso ver um personagem tão resolutamente bondoso neste mundo cheio de cinismo e hipocrisia (deve ser também por isso que gosto tanto do Homem-Aranha, do Super-Homem e da Mulher-Maravilha). Se existe algo com o qual me identifico é esta - o que os cínicos chamariam - naiveté , mas que prefiro descrever como optimismo e crença na bondade (sem perder de vista onde escondem-se as sombras do mundo). Precisamos de pessoas assim no mundo real. 

Resumindo, um belíssimo filme de entretenimento à boa maneira da fórmula Disney/Marvel. Quem gosta, continua a gostar. Eu adorei.

BD é salada russa.

Crossovers de personagens da Marvel e da DC Comics que poderiam ter acontecido mas, infelizmente, ainda não aconteceram. 

Desenhos de John Byrne.

Mulher-Maravilha original e Capitão América.


Batman e Asa Nocturna vs Capitão América, Demolidor e Punho de Ferro.


Super-Homem e Batman vs Homem-Aranha e Wolverine


Liga da Justiça (espécie de versão da década de 70) vs Galactus.


Quem lê BD tem a cabeça na lua.

"- This isn't earth.
- How can you be sure?
- Because the moon looks wrong...the wrong color.
- Oh, that? No, that isn't the moon. It's the whole of creation, seen from the outside. In fact, this is why I brought you here. I'd like you to help me decide what to do with it." - Mike Carey, Lucifer volume 10 - Morningstar

Vários trabalhos por comissão de John Byrne.

Thanos vs Vingadores

Ultron vs Vingadores

Super-Homem vs Quarteto Fantástico vs Dr. Destino

Encontro entre personagens Marvel e DC das décadas de 40 e 70.

Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 14.º Volume: Thor e Capitão América

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Difícil mas...

Sai hoje, Quinta-feira, dia 9 de Outubro, junto com Público e custa 8,9€

O que começou e acabou tem de continuar. Essa é uma das filosofias da eterna telenovela dos super-heróis da Marvel e da DC Comics. A semana passada, esta maravilhosa coleção da Levoir publicou o último capítulo da saga que Brian Michael Bendis, escritor, fez para os seus Novos Vingadores. O que se lhe seguiu foi uma mini-Era Heróica, na qual os grande nomes desta equipa regressam: Thor; Capitão América; Homem de Ferro. Aventuras com sabor a outras épocas voltaram a agraciar as páginas de uma nova revista dos Vingadores (tout court) e, porque tinha de ser, os Novos Vingadores continuaram, mas apenas como equipa satélite.

No ano em que saíram os dois primeiros filmes de Thor e Capitão América, 2011, foi aquele em que a Marvel decide centrar o seu evento anual nestes dois personagens: Fear Itself, que é coleccionado neste volume sob o título A Essência do Medo. À semelhança de outras sagas anuais como Guerra Civil ou Invasão Secreta  (ambas publicadas pela Levoir), nesta também se reúnem a maior parte dos personagens da editora de super-heróis, apenas desta vez em volta de enredos e eventos que tocam mais directamente com o Deus do Trovão e o Sentinela da Liberdade: chama-se a isto mercantilismo. A história principal envolve dois temíveis vilões: uma a herdeira espiritual e genética do maior inimigo do Capitão América, o Caveira Vermelha; o outro, parte do passado negro dos Asgardianos, povo de Thor, e do seu pai, Odin, o Todo-Poderoso. 

Escrita pelo imaginativo Matt Fraction e desenhada pelo excelente Stuart Immonnen, é uma saga envolvente e divertida ainda que sofra de alguns dos males (há muito tempo) típicos destas grandes aventuras transversais: essa mesma transversalidade. Muitos dos enredos não começam ou terminam no livro principal, muitos dos autores preferem transportá-los para as revistas individuais de cada personagem.  Ao mesmo tempo, são histórias que, por mais que os artistas se esforcem, estão alicerçadas em várias décadas de continuidade, sendo muitas vezes necessário um conhecimento enciclopédico para apreciar o que se passa (ou não, tendo em conta a nota que coloco sempre no final de cada um destes posts). Por outro lado, estas sagas nunca acabam (verdadeiramente) na última página, mas esse é o preço a pagar pela "eterna telenovela" de que vos falei no primeiro parágrafo. E, muito sinceramente, esse é parte do charme da coisa.

Nota – Não partilho da opinião que tem de se saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

O que vou Lendo! - Velvet vol. 1 de Ed Brubaker e Steve Epting

A equipa de Ed Brubaker, escritor, e Steve Epting, desenhista, foi bastante aplaudida pelo trabalho que fizeram no Capitão América. Recentemente, a editora Levoir, junto com o jornal o Público, abriu a sua coleção da Marvel de 2014 com dois volumes que compilavam a primeira história destes criadores no personagem, O Soldado de Inverno. Seria tão bem recebida que inspirou o argumento do mais recente filme do Sentinela da Liberdade. Na BD, a colaboração entre os dois acabaria de uma forma bastante dramática, nomeadamente com a mediática morte do Capitão. 

Os anos passaram e a reunião entre estes dois talentosos senhores parecia fadada a não acontecer mais. Eis que surge o convite da editora independente Image, actualmente o reduto de algumas das mais interessantes obras da 9.ª Arte nos EUA, e decidem avançar com um projecto totalmente detido por ambos. Brubaker não é novo nas andanças da publicação independente, tendo já produzido maravilhosas peças como Fatale e Criminal, mas Epting até o momento era conhecido por décadas de trabalho em personagens da Marvel. 

Velvet conta-nos a história de uma agente secreta em meia-idade envolvida em conspirações tipicamente "James Bondianas". Todas as roupagens da espionagem pura e dura, de agentes duplos, triplos e outras iterações, de situações que envolvem traições e de traições em cima dessas mesmas traições,  tudo está presente neste Velvet, orquestrado na perfeição pelas habilidosas palavras do contido Brubaker e pelo ambiente soturno de Epting. Ambos oferecem um tour-de-force em como fazer uma história contendo todos  os lugares comuns das grandes obras de espionagem mas reinventados e reimaginados por talentos superiores. 

O facto de escolherem um época de ouro para este tipo de conto, o início da década de 70, é um dos golpes de génio da série. Ao afastarem-se da tecnologia Orweliana que parece ser lugar comum nos dias de hoje, ao escolherem uma época onde tudo é ainda materializado, oferece a história e personagem a situações que vão muito ao encontro do imaginário que construímos. O Cinema, a arte por excelência onde este tipo de histórias mais chegaram ao publico comum (no qual me incluo), geralmente afasta-se do passado para este tipo de tema. A BD, tal como a Prosa, pode e muitas vezes escolhe outros caminhos, preferindo a familiaridade e, por conseguinte, um ambiente idealizado que ajuda à projeção.  Velvet é isso: familiar e perigoso. Uma pitada de retro num cozinhado de ingredientes desconhecidos. 

O suspense e o mistério, essenciais ao tema da espionagem e contra-espionagem, são geridos de forma parcimoniosa e nunca gratuita, respirando através do desenvolvimento das variadas personalidades que formam o quadro da série. A escolha de uma mulher em meia-idade como personagem principal  funciona bem como premissa em Velvet, afastando-se, assim, de um conjunto de lugares-comuns geralmente associados a uma literatura mais escapista. Contudo, a identificação torna-se também imediata e fácil, porque abre espaço para fraquezas e forças que não estão muitas vezes presentes nestes universos. Além disso, poderá atrair um público alvo geralmente dissociado da BD. 

Uma aposta mais do que ganha, primeiro dos autores e depois da Image.

Colecção Marvel Levoir/Público – 1.º Volume: Capitão América, Soldado de Inverno

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Razoável

Sai Quinta-Feira, dia 10 de Julho, junto com jornal Público e custa 4,90€


Não sou o primeiro nem serei o último a dizer que os últimos anos têm sido maravilhosos para a publicação de BD estrangeira em português do nosso Portugal. Especialmente a de super-heróis. Logo no seu início, este ano de 2014 foi testemunha de um marco: o regresso das publicações mensais pela Panini com os personagens da Marvel. Agora, a editora que começou tudo, a Levoir, associada ao jornal Público, volta a dar ar da sua graça, depois de um ano de 2013 exclusivamente dedicado à DC Comics, a distinta concorrente da Marvel.

Este regresso só poderia ser feito com o primeiro personagem a ter um filme lançado no corrente ano: o Capitão América. E, já agora, com a publicação da história que inspirou esta última obra cinematográfica: O Soldado do Inverno da dupla Ed Brubaker, na escrita, e Steve Epting, no desenho. Não são difíceis os elogios que se podem dar a esta obra. Foi um dos grandes marcos na carreira literária do personagem, que nem sempre se pautou por obras de importância significativa no panorama da BD americana. Teve alguns altos com as duplas Roger Stern/John Byrne e J.M. deMatteis/Mike Zeck na década de 80, Jack Kirby na de 70 e, claro, com o regresso à Marvel na década de 60 (não convém esquecer que o personagem remonta à década de 40). Contudo, fora estes pequenos picos, foi sempre um personagem que funcionava particularmente melhor como membro dos Vingadores, pela sua personalidade e presença, ou como fonte de inspiração para outros. Provavelmente será o meu ponto de vista que tolda esta análise, mas o facto de ser europeu a analisar um claro símbolo estado-unidense não a facilita de forma alguma. Ainda assim, na altura, os rasgados elogios que eram tecidos à tentativa de Brubaker/Epting  foram suficientes para que desse uma chance às histórias. O tempo não se deu por perdido e os capítulos que são colecionados nestes dois primeiros volumes desta coleção da Levoir constituem-se como um dos pontos altos da carreira quer do Capitão América, quer dos dois autores. 

Epting seria o principal desenhista durante dois anos da saga que Brubaker tinha orquestrada, saga esta que se esticaria para um total de sete anos. O estilo do escritor deveria muito ao ambiente típico dos thrillers de espionagem da década de 70, envolvendo espiões russos e conspirações transcontinentais. Tudo, claro, no palco maior que a vida dos super-heróis, com vilões tenebrosos como o absurdamente terrível Caveira Vermelha, eterno arquinimigo do sentinela da liberdade e resquício de uma época negra da história da humanidade, o Nazismo. Este Soldado do Inverno é exactamente isto tudo, uma incursão empolgante pelos meandros da espionagem e contra-espionagem típica deste imaginário.  Imperdível!


Rapidinhas de BD – Epic Collection Captain America vol. 9 e Orc Stain vol. 1

Epic Collection Captain America vol. 9


Este vem direitinho de uma caixa cheia de nostalgia e não podia ser mais apropriado, já que a semana passada estreou o segundo filme com o herói titular. Para os fãs da Editora Abril, muitos das histórias contidas neste 9.º volume da Epic Collection do Capitão América sabem a quiosques antigos e cheiram a páginas pequenas. Aquelas dos livros em formatinho da Abril e, melhor, da revista do Capitão América, uma das primeiras a que tivemos acesso nos idos da década de 80. As histórias aqui reproduzidas são um misto do melhor que há com este personagem com outras menos memoráveis. As escritas por Roger Stern e desenhadas por John Byrne são um dos apogeus no longo historial do personagem, tanto que foram incluídas no único volume do Capitão publicado recentemente pela Levoir/Público. Se lerem estas e as mais recentes da dupla Brubaker/Epting (que deram origem à historia deste segundo filme mas que não estão incluídas neste Epic), sabem quase tudo o que há para saber do paladino da liberdade. Incluído está ainda o início da sequência de histórias de J.M.deMatteis (escritor) e Mike Zeck (desenhista), outros dos pontos altos dos idos da Abril. Existe aqui muito bom material para os fãs e não só, uma bela maneira de, em meras 500 páginas, ter uma excelente amostra para nos prepararmos para o filme em exibição.

(PS – Acabei de o receber e ainda não li, mas a memória é bastante viva para certas recordações de infância)

Orc Stain vol. 1 de James Stokoe



A primeira coisa que salta à vista neste volume é o incrivelmente detalhado desenho de Stokoe, uma mistura de cartoon e Geoff Darrow, o insano desenhista de Shaolin Cowboy. Os painéis (sim, é quase disso que falamos) são preenchidos ao milímetro com personagens e cenários, numa construção de mundo vertiginosa e (quase) dolorosa para os olhos. É fácil perdermo-nos na minucia das páginas. Contudo, graças à arte do autor isso é algo que raramente acontece. A narrativa é clara, escorreita e cheia de ação, ao mesmo tempo que nos vai preenchendo a tapeçaria deste mundo de Espada & Magia onde os Orcs são os personagens principais (ao contrário do Senhor dos Anéis). Não sendo um primeiro volume genial, não deixa de pelo menos aguçar o palato para o segundo volume. É algo a revisitar e mais uma prova de que a Image é umas das mais interessantes e ecléticas editoras americanas, digna seguidora do trabalho da mítica Vertigo quando ainda “controlada” por Karen Berger.

Captain America: Winter Soldier de Joe Russo e Anthony Russo (Capitão América: O Soldado do Inverno)

Eu gostava de poder dizer que adorei este filme. Infelizmente, não o posso. Justiça seja feita, também não posso afirmar que não atingiu totalmente as (elevadas) expectativas. Que estava tudo mal. Que não entreteu. Não é, de todo, verdade. Teve momentos bastante bons, entreteve, mas faltou, acima de tudo, alguma contenção por parte de quem escreveu a história.

Para quem entende destas coisas da BD, sabe que o titulo do filme vem do início de uma das mais elogiadas fases do herói, escrita por Ed Brubaker e desenhada por Steve Epting. O conjunto de histórias pelas quais estes dois autores ficariam conhecidos e que culminaram na muito mediática morte do personagem titular, iniciou-se exatamente com um volume chamado The Winter Soldier.  Ora é aqui que a coisa começa mal. Apesar de um ou outro pormenor ser fiel ao original, em muitos outros distancia-se. Antes que os que não são fãs comecem a pensar “Lá estão os cromos da BD!”, a minha critica não tem nada a ver com o afastamento em relação à obra. Nota-se o amor que é já apanágio de todos os filmes que vêm da Marvel. O mal vem de tentarem colocar histórias a mais, ficando um todo demasiadamente “ocupado”. Existem demasiadas coisas a acontecer, sem que muitos pormenores sejam devidamente explorados com calma e descontração. A meu ver, a história que dá titulo ao filme acaba por ser uma nota de pé de página. Tudo o resto que acontece é bastante mais importante – e obviamente que não o vou revelar aqui. Este excesso de bagagem acaba por prejudicar o filme, que fica sem um centro profundamente definido. Mesmo a mensagem central (segurança vs. liberdade) desaparece no meio da pirotecnia (sim, os efeitos especiais são abundantes... talvez demais), da grandiloquência e, uma vez mais, da história demasiadamente ocupada.

Ainda assim, existem momentos fortes no filme. Não apenas daqueles dedicados aos fãs, mas também para todos os restantes. Aparecem vários personagens da mitologia do Capitão América que são sempre deliciosos de ver na tela gigante. A Viúva Negra de Scarlett Johansson merece urgentemente um filme. A energia supranatural física do Capitão é muito bem explorada, mostrando claramente tratar-se de um ser num apogeu desconcertante para o comum dos mortais.


Em suma, um filme que entretém mas não deslumbra. Não como, para mim, aconteceu com o Thor e os Vingadores. 

O que vou lendo! – Avengers Endless Wartime de Warren Ellis e Mike McKone


Ninguém pode culpar a Marvel e a DC por não tentar trazer mais leitores para os seus complicados universos de super-heróis. Pode passar por começar tudo do 0, fazer inúmeras tentativas de reinterpretações das diferentes mitologias, criação de universos paralelos, etc. Ou então pode-se tentar fazer algo como este Avengers Endless Wartime que funciona, ao mesmo tempo, como uma espécie de sequela do conhecido filme e como uma “simplificação” dos Vingadores. E resulta!
Avengers Endless Wartime é a primeira de uma nova linha de “Original Graphic Novels” que a Marvel irá publicar e que irão minar o enorme catálogo de personagens à sua disposição, com certeza os mais reconhecíveis pelo grande público, geralmente aqueles que têm sido passados para o grande ecrã, convida grandes nomes criativos e fornece um livro que poderá ser melhor apreciado pela enorme maioria das pessoas (note-se que não é a primeira vez que isto acontece). O tempo dirá se resulta comercialmente! 
Warren Ellis, o escritor, e Mike McKone, o desenhista, não são meninos imberbes nestas coisas da BD, principalmente se falarmos do primeiro, um dos maiores nomes da 9.ª Arte, tendo já sido responsável por não só grandes obras mas também por algumas pequenas “revoluções”. Os fãs da BD sabem do que falo mas os outros poderão querer dar uma olhada a algumas coisas com o nome deste senhor como escritor. Recomendamos Authority, Planetary e Nextwave. Ora, Ellis tem sido um homem não só com uma voz singular no panorama mas também como alguém que, reiteradamente, tenta não se repetir. Ele aprimorou a BD “grande ecrã” com o já referido Authority, ele tentou a história contada em um único capítulo nos Secret Avengers, ele conseguiu a saga meta-textual por excelência com Planetary (note-se que estas adjetivações são meras reduções do que estas fantásticas obras têm para oferecer). Portanto, é apropriado dar a Warren Ellis a oportunidade de dar o pontapé de saída a esta nova série de graphic novels (um termo que não aprecio por aí além, mas um dia discutimos isso). E as coisas resultam maravilhosamente!
Os personagens dos Vingadores são, na sua grande maioria, os imediatamente reconhecíveis para quem viu os filmes, exceção feita à Capitã Marvel, mas desconfio que isso não será por muito tempo, tendo em consideração os vários indícios de que um filme com ela está a caminho. Temos o Capitão América, o Homem de Ferro, o Thor, a Viúva Negra, o Gavião Arqueiro, o Hulk e até o Wolverine (que, para quem não sabe, já faz parte dos Vingadores há alguns anos). O tom, também ele, é bastante similar ao filme, dando bastante importância às personalidades dos intervenientes, adicionando um toque de humor e de rivalidade que pareceu funcionar bastante bem em película. Aliás, é esta a grande surpresa deste Endless Wartime. Quem vai dedilhar as suas varias páginas à procura de uma orgia de batalhas, tire o cavalinho da chuva, porque esta é também uma cuidada reflexão sobre a psique e falhas de alguns dos mais emblemáticos membros desta impressionante coleção de super-heróis, nomeadamente os seus mais antigos. Entre as várias leituras que daqui se podem retirar, uma saltou-me à vista, a necessidade que Ellis teve de distinguir e dissecar alguns grupos de pessoas dentro do grande grupo que são os Vingadores: os “velhos” e os “novos”; os “antigos” e os “modernos”; os “honrados” e os “práticos”; mesmo os “masculinos” e os “femininos”. Tudo dignamente entretecido numa narrativa tipicamente super-heroística que, sim, tem batalhas, claro. 
Mike McKone, por seu lado, é uma grande escolha para desenhista, sendo capaz de partir os enredos de uma forma escorreita ao longo das várias páginas, ao mesmo tempo que consegue veicular as emoções necessárias nas feições dos vários personagens, tarefa que é, muitas vezes, negligenciada na BD mas que, quando um artista o consegue, percebe-se a sua necessidade e verdadeira importância. 
Uma leitura recomendável os leitores habiuté e não só!

THOR, the Dark World de Alan Taylor



Não sei se já o disse em posts anteriores do género mas este vem do coração. Não existem aqui elaboradas confabulações sobre a profundidade epistemológica e relevância artística e histórica deste filme (quer dizer, existem algumas). Existe apenas e tão somente a admiração e paixão profunda pela Arte e Personagens que acompanho desde infância e que continuo a adorar acima de todas as outras Artes e todos os outros Personagens.
 
Perdoam-me?
Adorei o filme. Não há voltas a dar. Esta é uma opinião de íntimo: adorei o filme e quero voltar a vê-lo muitas vezes.
Não é segredo para ninguém que a Marvel continua a fazer crescer o seu universo cinematográfico, transportando para a tela do cinema o conceito de continuidade que tem feito as delícias dos fãs da BD mas que, muitas vezes, funciona em detrimento da conquista de novos apreciadores do género. Thor, The Dark World está claramente dentro da mega-história que tem vindo a ser construída desde o primeiro Homem de Ferro sem, contudo, ser um peso demasiado grande para a apreciação do enredo deste filme em particular. Claro que ajuda se tiverem visto o que aconteceu antes, principalmente os Vingadores.
A escala cósmica a mitológica que é a marca de água do Thor cresce neste 2.º filme o que é, obviamente, apropriado. As ameaças vêm desde antes do nascimento do nosso Universo, do tempo de trevas que antecedeu o nascimento da Luz, convocando terrores da dimensão que apenas um deus como este personagem poderia confrontar. Os cenários são mais grandiloquentes, megalómanos, titânicos. Contudo, não é apenas na escala universal que os filmes da Marvel e deste em particular se jogam. No amago da história está um conto de família, do pai Odin, mãe Frigga e dos dois meio-irmãos, Thor e Loki. É aliás nesta relação de amor-ódio fraternal que se joga uma boa parte do coração do filme, com os dois atores e exibirem uma qualidade e domínio impar dos seus personagens - Loki é particularmente bom e tem os melhores diálogos. Também Natalie Portman não passa despercebida, tendo bastante mais carne para mastigar num filme que poderia ser apenas um festival de testosterona. Não só tem uma presença bastante ativa no enredo como faz parte importante e, arrisco-me a dizer, tão determinante quanto Thor, na resolução do conflito. Os diálogos e situações cheias de humor continuam e ajudam a cimentar a dimensão humana, que é o cerne de verdade na escala cosmogónica em que se movimentam estes deuses.
Ocorrem alguns apontamentos negativos no enredo que, apesar de não prejudicarem o desfrute do filme e que têm a ver com duas coincidências, são um pouco difíceis de engolir - claro que não as vou aqui revelar.
Acontece uma homenagem bastante sentida e merecida a um dos maiores arquitetos do Thor, o enorme Jack Kirby, o rei da BD americana, desenhista que na década de 60 (junto com o Stan Lee) criou o universo do personagem. O encontro entre magia e tecnologia vem dele, um eterno fascinado com a teoria “os deuses eram astronautas”, teoria que repetiu atá à exaustão e de forma artística consistente durante toda a sua vida (Thor, Novos Deuses, Eternos, etc.). Já agora, um pequeno apontamento para os fãs (e um spoilerzinho): a raça de extraterrestres que apareceu na primeira de todas as histórias do Thor na Marvel faz uma perninha.
Finalmente, os filmes da Marvel não estão completos sem as obrigatórias cenas pós-créditos e este não tem apenas uma, mas sim duas. A segunda é um fim apropriado para este segundo filme do Thor. A primeira faz ponte para dois filmes que se seguem: Guardians of the Galaxy, a sair em 2014; Avengers 3 (sim, leram bem, o terceiro – sem data marcada - e não o segundo, que sai em 2015), aquele que será o final do percurso iniciado com o primeiro Homem de Ferro. Os fãs de BD vão perceber logo (depois expliquem aos outros pobres desgraçados).

Coleção Levoir / Público


Foi com alguma pena que hoje levantei da minha banca do costume (que saudades tinha eu de dizer isto!) o último livro da coleção Heróis Marvel da Levoir/Publico. O título foi o Guerra Civil, que coleciona a – nos idos de 2006 - muito mediática história do confronto filosófico entre dois Vingadores, o ideólogo Capitão América e o futurista Homem de Ferro. A escolha para fim desta coleção parece-me bastante certa, por todas as razões apontadas no excelente prefácio (como foram todos os desta coleção) escrito por José Hartvig de Freitas, mas também pelas palavras de Tony Stark no fim do conto: “Ah, mas o melhor ainda está para vir, minha cara... prometo-lhe isso!”. O meu lado poético tem a enorme esperança que este não seja o fim mas o princípio de publicações regulares por parte da Levoir – eu, pelo menos, contribuí para isso. O português de Portugal merece-o!

Já aqui neste Blog fiz referencia a um dos títulos publicados, X-Men - a Saga da Fênix Negra, mas não foi, decididamente, o único merecedor de elogios, como irão poder concluir lendo os posts que publicarei ao longo dos próximos tempos. Todos o foram! Alguns, logicamente, gostei mais, mas tenho de endereçar os meus mais sinceros parabéns aos senhores da Levoir e do Público pelo trabalho bem feito, pelas (excelentes) traduções e, acima de tudo, pelo portfólio de histórias escolhido. E agora que ainda temos uns poucos dias antes do Natal, existe algo para oferecer a quem você acha que acha que merece uma prenda deste calibre. Tente lhe oferecer, por exemplo, este Guerra Civil que saiu Quinta-feira, dia 20. Ou o livro dos X-Men que mencionei. Ou o Dinastia M. Ou o extraordinário Demolidor Renascido. Ou vão á FNAC do Chiado onde têm disponíveis todos os títulos da anterior coleção. Juro que vale mesmo a pena!