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Secret Wars (2015), números sete, oito e nove

(leiam aqui posts anteriores sobre esta série)


(contém spoilers para os números anteriores da série)

As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars oferecem uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. O seu Deus é Victor Von Doom, salvador do multiverso, Regente Supremo e ex-maior vilão dos universos desaparecidos, o Dr. Destino.

Todos os leitores de BD de super-heróis sabem-no: estas histórias nunca irão acabar. Existirá sempre uma última página que revelará uma ameaça maior, um mistério por resolver. O enredo continuará e continuará até à última folha de um livro que ainda não foi escrito e que provavelmente nunca o será. É a natureza da coisa. Os leitores de longa data já o sabem. Faz parte do contrato. E ainda bem que assim o é. Nunca esperei que este Secret Wars de Jonathan Hickman e Esad Ribic fosse ser diferente.  Em muitas e muitas formas não o é. A História do Universo da Marvel vai continuar. Contudo, existem pequenas coisas em que acaba por sê-lo. Diferente, quero eu dizer.

Um dia destes, como em muitas outras obras de BD que esticam-se pelos meses e pelos anos, terei de reler este Secret Wars. Para saber se sobrevive à minha busca de unidade. Apesar de ser pelos mesmos autores, a necessidade de capítulos mensais poderá obrigar a um certo compasso dissonante, o que acontece muitas vezes na busca de "prender" os leitores todos os meses. Será por isso que achei os capítulos sete e oito um pouco menos encorpados que anteriores, onde Hickman e Ribic perdiam-se em criatividade na cosmogonia do Universo da Marvel. Pareceram-me um pouco mais orientados para a acção e menos para as deambulações quase esotéricas do escritor. Eu sei que isso é obrigatório na literatura de super-heróis, mas estava já tão habituado à qualidade dos capítulos anteriores e fiquei mimado. Provavelmente, a decisão de criar um capítulo adicional à saga tenha sido prematura. O tempo o dirá.

O que interessa, contudo, é como as coisas acabam. Só assim poderemos saber então se valeu a pena. O nono e último capítulo acaba por ser uma curiosa surpresa. Um conto desta escala, com o destino do Real em jogo, corre sempre o risco de tornar-se obeso e operático, no pior sentido que estas palavras podem ter. Traduzindo por miúdos: afastar-se do humano. Hickman e Ribic escolhem um outro caminho. Escolhem enquadrar o conflito na mais velha rivalidade do universo Marvel: Reed Richards / Sr. Fantástico vs Victor Von Doom / Dr. Destino. Eles foram os primeiros e mais fortes antagonistas deste mundo ficcional. Uma luta de dicotomias. Um confronto ideológico e primal. É, portanto, apropriado que as últimas páginas deste Secret Wars, que pretende ser a elegia do antigo universo Marvel, contenham o derradeiro confronto entre estes dois adversários. E é também apropriado o destino (perdoem o trocadilho) escolhido para o vilão e para os heróis, o Quarteto Fantástico, equipa da qual Richards é líder e mentor. Neste sentido, Secret Wars parece funcionar bem como o fechar da cortina do universo Marvel, para aqueles que foram os primeiros a pisar o seu palco. 

A revista do Quarteto Fantástico foi a primeira e mais inovadora desta editora. Aquela que, sob o génio de Stan Lee e Jack Kirby, criou uma inteira mitologia e cosmogonia. Exibia mesmo o epíteto de "melhor BD do mundo". Ultimamente vivia apenas da glória destes tempos idos. Secret Wars, além dos propósitos mais comercias, acaba por ser um adeus a este primeiro grupo de super-heróis. Teve falhas mas foi, para mim, uma das mais bem conseguidas sagas deste estilo feita nos últimos tempos. 

Agora, a história vai continuar e continuar e continuar...

Secret Wars (2015), número seis, de Jonathan Hickman e Esad Ribic

(este post contem spoilers para os cinco primeiros números da série Secret Wars)

As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars oferecem uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. O seu Deus é Victor Von Doom, salvador do multiverso, Regente Supremo e ex-maior vilão dos universos desaparecidos, o Dr. Destino.

Esta saga estava prevista serem oito números mas foi expandida para nove, o que atesta a escala do que Hickman e Ribic querem deixar como herança. Como já o disse em artigos anteriores, a tarefa a que os autores se propõe é complicada: construir uma saga/evento/marco histórico no universo da Marvel que rivalize com a seminal Crise nas Terras Infinitas da DC Comics. O caminho não era fácil mas, até este sexto capítulo, parecem estar no caminho certo. Se no final atingir o mesmo patamar do desenrolar da história até este momento teremos uma das mais interessantes macro-narrativas que tão bem exemplificam o que de melhor a mitologia dos super-heróis tem para nos oferecer: personagens e cenários maiores que a vida; destino da realidade constantemente posto em causa; escala cosmogónica do conflito. 

Ainda assim, Hickman consegue, à boa maneira do "estilo Marvel", alicerçar o âmago da narrativa em personalidades e cisões ideológicas, fornecendo, ao mesmo tempo, uma escala humana e trágica. Isto porque, também como já referi, este é um estudo de um dos mais interessantes personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby, Victor Von Doom, Dr. Destino, o maior inimigo dos primeiros heróis da Marvel, o Quarteto Fantástico. Apesar de Doom ser, há muitos anos, o alvo de muitas histórias, este Secret Wars arrisca-se a ser o mais elevado momento da sua carreira. Hickman entretece todo um amplo conjunto de eventos e análises de modo a criar tensão com entretenimento e profundidade conceptual. Mas não é só de Doom que Secret Wars trata. É também da "família Quarteto Fantástico", dos sobreviventes dos defuntos universos, da sua luta para restaurar a ordem anterior e das intrigas palacianas para tomada do poder de Deus, perpetradas pelos piores seres que nasceram da imaginação dos inúmeros criadores da Marvel ao longo de 50 anos. E Hickman e Ribic controlam todos estes novelos de forma limpa e legível. Neste sexto número em particular, os estratagemas adensam-se e, num momento de puro "geekismo" envolvendo o Pantera Negra e Namor, a narrativa cresce em emoção e escala (os que achavam que isso não era possível não conhecem super-heróis nem o talento de Hickman). Paulatinamente, os elementos congregam-se para o fechar da cortina que espera-se verdadeiramente épico.

Até este momento, a versão de 2015 de Secret Wars é um triunfo e umas das melhores BD's do género deste ano. E, quem sabe, mesmo uma das melhores histórias que li em 2015, ponto final.

Secret Wars (2015) número cinco de Jonathan Hickman e Esad Ribic

(contém spoilers dos quatro primeiros números da minissérie)

Sou doido por uma boa Cosmogonia. Deliro com rebuscados relatos rocambolescos das múltiplas mitologias mundiais. Quanto mais empolados melhor. Quanto mais grandiloquentes melhor. Gosto das guerras entre deuses, gosto das explicações elaboradas para elucidar o mistério de quem criou o Universo (ou o Multiverso) e de como o criou. Adoro o Ainulindalë de Tolkien, adoro o Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro que coleciona, nos primeiros capítulos, diferentes Cosmogonias de diferentes culturas e adoro a intrincada explicação do nascimento do multiverso da editora de BD DC Comics (recentemente aprimorada no Multiversity e na Justice League dos escritores Grant Morrison e Geoff Johns, respectivamente).

Há algum tempo li uma entrevista de Jonathan Hickman, a mente criadora deste Secret Wars da Marvel, onde dizia que o número cinco seria um dos mais importantes momentos da história. Devido ao trabalho feito nos Vingadores, a minha expectativa em relação a uma verdadeira Cosmogonia da Marvel é elevada. Não que a editora não tenha uma, mas não recordo ter sido contada como o foi na DC. Sempre pareceu-me mais espartilhada. Teríamos de coleccionar pedaços aqui e ali. Recordo-me do relato da Eternals Saga publicada na revista do personagem Thor, mas muito centrada nesse personagem (já foi retractivamente eliminada várias vezes). Ou poder-se-ia confundir com a origem de Galactus, publicada também nas saudosas histórias do Thor por Jack Kirby e Stan Lee. Ora, estava com esperança que o número cinco pudesse ser este relato. O problema é meu, claro, mas esta expectativa diminui um pouco o prazer de o ler.

Não deixa de existir uma Cosmogonia neste quinto capítulo mas centrada no novo universo criado pelo Deus Doom (Dr. Destino). São revelados pontos importantes relativamente ao nascimento da nova realidade da Marvel mas o mais interessante é a continuada exploração da personalidade de Destino. Secret Wars de Hickman é, de forma assumida, isso. Na sequência dos trágicos acontecimentos do número quatro, ocorre um delicioso diálogo entre o herói/vilão e a sua filha adoptiva, Valeria Richards, que espelha o gigantesco ego e (no fundo) a insegurança do personagem que, sem dúvida, ditará a sua tragédia e queda. Obviamente, o enredo terá de avançar e existem algumas fraquezas na procura de equilíbrio entre o avançar da história, descortinar das personalidades e deambulações do autor. Contudo, face ao panorama passado de sagas desta envergadura na literatura de super-heróis, Secret Wars continua a ser um dos melhores exemplos. Um bastião de qualidade autoral raramente conseguido, quer do ponto de vista de Hickman, quer de Ribic, uma força da natureza muito apropriada ao épico da história.


Agora, era tão bom que antes do último capítulo tivéssemos uma Cosmogonia à séria.

Secret Wars (2015), número quatro.

(contém spoilers dos três primeiros números da minissérie)

Agora que os três primeiros números do evento de 2015 da Marvel preocuparam-se em destruir o anterior multiverso Marvel, em colocar Victor Von Doom como Deus e em descrever este admirável novo mundo, Battleworld, podemos então passar à acção. Ou, como diz a outra, a coisas sérias. Eu sou fã de combates tanto quanto qualquer outro "verdadeiro" fã de Banda Desenhada de super-heróis, principalmente quando explorados para lá do "violence-porn" que tantas e tantas vezes dissemina-se pelas artes que advêm do outro lado Atlântico. Depois dos dois números que antecederam este quarto fiquei mal habituado por Jonathan Hickman. Gostava que tivesse um pouco menos de acção e mais de exploração da personalidade, conflitos e tragédias dos principais actores no drama que se tem vindo a desenhar. Ainda assim, este é um capítulo absolutamente necessário para o avançar da trama, servido com alguns momentos choque inesperados e relevantes para o enredo. Que posso dizer? O Dr. Destino nunca deixará de ser o Dr. Destino. E, nesse sentido, não deixa de ser mais uma linha de raciocínio sobre a fascinante personalidade do maior vilão do universo Marvel.

Esta minissérie principal do evento Secret Wars é, até agora, não só um conto de repercussões cósmicas e transversais à História do universo fictício da Marvel, mas também uma calma reflexão sobre a personalidade e motivação do seu personagem principal, o Dr. Destino. Ele não é apenas o móbil mas também o enfoque. Isto revela a força da criação de Stan Lee e Jack Kirby bem como dos artistas que se lhes seguiram. Um vilão ter esta relevância deve ser a norma e não apenas a excepção, como tantos exemplos da melhor literatura mundial atestam. O adversário é muito mais que o reflexo distorcido da missão do herói, ele próprio é o espelho da Humanidade e, mais importante, um personagem único em toda a sua glória. Não é tanto apenas um arquétipo mas um indivíduo. Os artistas que têm trabalhado com o Dr. Destino têm feito, regra geral, um bom trabalho. Hickman é apenas o mais recente e, quem sabe, um dos grandes.

Neste número, o trabalho de Esad Ribic continua claramente acima da média, ainda que se note já um pouco a pressão dos prazos de entrega. Felizmente, a velocidade da minissérie irá abrandar do quinzenal para mensal, deixando mais tempo ao artista para destilar todo o seu talento para a página. Aguardo com antecipação o número que segue, já que Hickman revelou tratar-se de um dos mais importantes capítulos da macro-saga que pretende concluir com Secret Wars e que iniciou na run  dos Vingadores. Curioso que a planeada intenção de destruir o universo Marvel tenha começado como um conto dos maiores heróis deste mundo e acabado com um foco no Quarteto Fantástico e no seu maior inimigo. Hickman é o consumado planeador de muito longo prazo - não nos esqueçamos que durante muitos anos escreveu  a primeira família da Marvel.

O que vou lendo! - Thor, The God of Thunder vol. 1 por Jason Aaron, Esad Ribic e Butch Guice

Este post é um pouco preguiçoso. Já aqui falei dos 11 capítulos que formam esta compilação de capa dura e maior formato. Contudo, a qualidade da história que o escritor Jason Aaron começou a contar exactamente nestas páginas justifica (a meu ver) uma segunda visita. A visão que tem para Thor ainda não foi totalmente descortinada, e até essa descoberta teremos sempre de refrear se não o entusiasmo pelo menos o juízo final. Se tomarmos apenas como exemplo estes primeiros capítulos poderemos ter em mãos uma das mais emblemáticas sagas do Deus do Trovão. Ou, se calhar, sou só eu. O tempo o dirá. Assim sendo, se tiveram paciência reponho abaixo os dois posts que escrevi sobre estes tais 11 capítulos, antes coleccionados em dois livros e agora compilados num único. É que ler neste maior formato é como ver um filme (qualquer filme, não só os de "acção") num ecrã gigante. Sabe a repasto e não a uma ida ao centro comercial.

Primeira parte

De vez em quando gosto de pensar que existem dois tipos de leitores no que respeita a BD de super-heróis: os que gostam do Super-Homem e os que inclinam-se para o Batman. Uns preferem seres maiores que a vida, dotados de poderes divinos, envolvidos em situações onde, permanentemente, o destino da realidade é posto em causa - estes são os do Super-Homem. Os de outra qualidade preferem heróis realistas, que poderiam existir no nosso mundo e que, diariamente, travam uma luta desesperada e trágica contra o cinza do crime nas cidades - estas são as do Batman.  Antes de continuar, os fãs de BD que me perdoem a excessiva compartimentalização. Obviamente que a apreciação da arte não passa por este preto e branco excessivo. Mas, ainda assim, existe aqui algo de verdade.

No que me toca, sempre pendi mais para o lado do Super-Homem e o Thor, livro e personagem que me trouxeram a este post, tende claramente para o lado cósmico do arquétipo do super-herói. Neste sentido, este primeiro volume do trabalho de Jason Aaron e Esad Ribic é um soberbo exemplar da capacidade que a BD tem em superar os limites da Prosa e do Cinema e contar uma história verdadeiramente cósmica em escala, linguagem e alcance. O enredo atravessa o tempo e o espaço, focando-se em três épocas da vida do Deus do Trovão enquanto este confronta um ser demoníaco e hiper-poderoso cujo objectivo é claro no título do livro: exterminar todos os panteões de deuses do universo. Ênfase em universo. Pela primeira vez (pelo menos tanto quanto é do meu conhecimento) aparecem nas páginas do personagem outros panteões que não apenas os terrenos. Aaron delicia-se em criar múltiplos deuses, espalhados pelos cantos do cosmo e alvo da adoração de uma multitude de povos alienígenas. Para completar o quadro, a linguagem tipicamente  visceral que costuma aplicar aos seus diálogos e exposições é aplicada a longos momentos de exploração cosmogónica. Existe prazer nesta descoberta, particularmente deliciosa para quem o lê, tendo em consideração outras obras mais "urbanas" que caracterizaram anteriores explorações do autor (portanto, estilo Batman): Wolverine e Punisher, por exemplo. A aproximação rude que Aaron faz aos personagens, que geralmente são duros e másculos, aplica-se na perfeição a Thor, que podemos ver como o guerreiro definitivo. De facto, existe no personagem e no autor uma salutar combinação, como se ambos tivessem destinados em se encontrar. Visceralidade misturada com Divindade, à boa maneira do povo que adorava Thor, os Vikings.

Segunda parte

Godbomb completa, de forma verdadeiramente épica, os eventos que começaram nos primeiros capítulos. A batalha final de três versões do Deus do Trovão, uma do passado, outra do presente e uma do longínquo futuro, contra o "Chacinador de Deuses", desenrola-se no palco mais que apropriado para estas mitologias: o cósmico. Toda a grandiloqüência de combates maiores que a vida, toda a fúria tonitruante, todo o poder titânico, foi concentrado pelas palavras de Aaron e pela arte de Ribic em onze capítulos que, muito sinceramente, já vigoram (no que a mim diz respeito) nos melhores contos de Thor.

Muito raramente uma voz poderia colar tão bem com as palavras e ações de um personagem. Aaron é perfeito para Thor e para o seu universo, misturando masculinidade, belicismo medieval, orgias, bebedeiras e combates, num cozinhado de puro entretenimento. Ao mesmo tempo, mistura uns pós de reflexão suave que constroem um conto que vai para além dos limites do filme-pipoca. Ribic, por seu lado, com desenho limpo e cenários mitológicos, é a escolha acertada para o escritor e personagem. 

Agora que já se prepara o terceiro filme protagonizado por Thor, inspirado na lenda Viking de Ragnarok, o crepúsculo dos deuses, tenho uma sugestão a fazer. Quando estiverem a pensar no quarto filme das aventuras do Deus do Trovão na 7.ª Arte, não vão muito mais longe que estes primeiros onze capítulos do trabalho de Jason Aaron. Tudo é perfeito para o cinema: uma história direta e pouco alicerçada na complicada continuidade do personagem; cenários maiores que a vida; combates épicos; um vilão tenebroso. Não mudem as palavras, não medem quase nada. Não vale a pena. Aaron e Ribic já fizeram o trabalho mais difícil. É só copiar e não estragar. 

Secret Wars (2015) número 3

(este post contém alguns spoilers para números anteriores da série, sobre os quais já aqui escrevi)

A Marvel, tal como a conhecemos hoje, uma casa de super-heróis, começou no ano de 1961 com a revista do Quarteto Fantástico. Para quem não conhece, esta representou uma pequena mudança de paradigma, ao focar-se em quatro pessoas que eram muito mais que companheiros ocasionais de aventuras, como a Liga da Justiça da DC: eles eram uma família. Meros cinco números depois desta estreia aparecia o Dr. Destino (Dr. Doom no original),  o vilão que, com o passar dos anos, não só revelar-se-ia como o maior dos antagonistas destes heróis e um dos maiores da Marvel mas, mais importante, também como uma espécie de quinto membro da equipa, parte integrante da mitologia e da família (para quem acredita em numerologia e misticismos existem aqui sincronicidades). De facto, já na primeira década deste século XXI, Doom seria o padrinho de Valeria, o segundo filho do principal casal do Quarteto Fantástico, Reed Richards e Susan Storm. Esta pequena introdução aos personagens serve para vos situar um pouco melhor neste Secret Wars de 2015, escrita por Jonathan Hickman e desenhada por Esad Ribic. O motor da narrativa é exactamente a trágica figura de Victor Von Doom, agora literalmente Deus da realidade resultante da destruição do universo principal da Marvel no número um da série. Ou seja, quem melhor para fechar o universo anterior do que o seu maior vilão? Que melhor forma de fechar a mitologia anterior do que recorrer às figuras que abriram as suas portas em 1961? (não, aqui não existe misticismo, é mesmo intenção).

O que Hickman está a tecer neste Secret Wars é, até agora e na minha opinião, algo raramente visto na BD de super-heróis. Como mesmo os ocasionais leitores devem saber, são comuns estes eventos pancósmicos que colocam em perigo mais do que vidas, colocam em perigo a própria existência, o tecido da realidade. Mas, paradoxalmente ou, se calhar, até não, a qualidade é muitas vezes deficitária, isto para ser simpático (vejam Convergence da DC, o evento desta editora de 2015). Não é de todo o caso de Secret Wars. Repito: não é de todo o caso de Secret Wars. A qualidade da escrita é verdadeiramente acima do normal. O desenho de Ribic poderá vir a colocá-lo lado a lado com A referência destes eventos: George Pérez. Para mim, é tão bom assim. E (apontamento) estamos aqui a falar de puro entretenimento. 

O terceiro número é mais do mesmo, ou seja, uma história empolgante que desenha palcos titânicos de teatralidade cósmica, sem se esquecer das personalidades que fazem a narrativa, figuras trágicas de moralidade dúbia. Volta-se o enfoque para a figura divina de Doom, do seu companheiro mais próximo, o mais poderoso místico da Marvel, o Dr. Estranho, bem como na relação do primeiro com a sua "família": sim, o Quarteto Fantástico. Uma vez mais reitero que revelar mais será estragar a surpresa mas, pela primeira vez na história da Marvel, é revelada em toda a sua clareza a face de Doom, num dos momentos mais marcantes da narrativa mais profunda de Secret Wars, um estudo da intrigante personalidade do maior vilão da Marvel.

Hickman e Ribic parecem estar a tecer um dos mais relevantes momentos da história desta editora de super-heróis. É esperar que assim continuem.

Secret Wars (2015), a primeira e segunda semana.


Em posts anteriores falei do primeiro e segundo números do evento da Marvel em 2015, aquele que promete mudar o universo desta editora: Secret Wars, cortesia dos talentos Jonathan Hickman e Esad Ribic. Todos os anos as duas maiores produtoras de mitologias de super-heróis do mundo publicitam que o evento desse ano será aquele que, para sempre e de forma irrevogável, irá modificar a geografia cosmogónica dos seus universos. Na maior parte das vezes, essas mudanças ou não são tão radicais quanto anunciado ou as modificações são eliminadas pouco tempo depois. Contudo, e até prova em contrário, parece que este ano as coisas serão efectivamente diferentes. Muito à semelhança da única história que verdadeiramente mudou o panorama do seu universo de super-heróis, Crise nas Terras Infinitas, e no ano em que faz 30 anos, quer a DC, quer a Marvel, parecem empenhadas em homenagear este clássico de Marv Wolfman e de George Pérez. A DC escolheu fazê-lo com Convergence (do qual tenho falado extensivamente aqui). Para a Marvel parece ser Secret Wars.

(para quem não leu os dois primeiros números da minissérie principal, a partir daqui existem alguns spoilers)

As últimas páginas do primeiro número de Secret Wars, e tal como prometido pelos autores, oferece uma derradeira e devastadora cena: a destruição completa dos universos principal e Ultimate da Marvel. No lugar destes aparece um novo mundo, uma manta de retalhos constituída por eras e universos díspares, roubados do defunto multiverso. A esse mundo deu-se o nome de Battleworld. A coleção de reinos que constituem Battleworld serão o foco, ao longo dos próximos meses, de múltiplas minisséries. Cada uma delas conta uma história singular que, contudo, não deixa de fazer parte do mosaico que é a nova realidade do universo da Marvel (vejam a imagem abaixo para mais detalhes da geografia). Nas duas primeiras semanas foram já lançadas um total de 15 novas séries. A primeira impressão que posso vos oferecer é que, de uma forma geral, a qualidade é claramente superior aquela que a DC nos ofereceu em Convergence. A razão reside, acima de tudo, no talento e na liberdade que o mesmo teve para contar o seu lado desta macro-história. Uma macro-história iniciada há uns anos atrás pela mente insana de Jonathan Hickman nos Vingadores. Tudo planeado de forma exaustiva, o escritor sabia que a estrada terminava em Secret Wars. A editora e os criadores de diferentes títulos sabiam que o fim do universo Marvel estava à porta e prepararam-se para isso.

Não gosto de falar dos títulos que apreciei menos, portanto não vou dedicar muito tempo aos mesmos. Contudo, quero fazer um reparo antes de avançar. Ainda não tive oportunidade de ler Ultimate End porque estou à espera de conseguir ler os números de Miles Morales que precedem esta série. Dito isso, destaco desde já o maravilhoso primeiro número de Old Man Logan que, sem surpresas, destaca-se de forma soberba. Bendis na escrita e, principalmente, Sorrentino nos desenhos são excepcionais. A artista já tinha dado prova no Green Arrow de Jeff Lemire e aqui continua sem interrupções a entregar alguma da melhor arte na BD americana actual. Fiquei particularmente impressionado com Inferno de Dennis Hopeless e Javier Garrón, não só pela qualidade do trabalho de ambos mas também por um pequeno toque de nostalgia. Para quem anda nestas andanças da BD dos X-Men há alguns anos, é interessante regressar a este evento do passado. Tal como acontece em muitas das séries de Secret Wars, parte-se do pressuposto que o final de uma determinada história do passado da Marvel não foi o contado - uma espécie de "O que aconteceria se?...". Neste caso, os vilões venceram e os mutantes mais famosos do mundo têm que arcar com as consequências de um mundo ameaçado por demônios. Outras séries das próximas semanas seguirão o mesmo caminho mas com outros momentos da História dos X-Men e não só. Infinity Gauntlet, neste sentido, acaba por ser uma agradável surpresa. De facto, a história anda à volta das Gemas do Infinito e de Thanos, mas num mundo onde ele não é o seu supremo governante nem tampouco estamos inteiramente a par do que realmente ocorreu neste reino de Battleworld. De destacar os maravilhosos desenhos de Dustin Weaver. Outra agradável surpresa é Inhumans: Attilan Rising que, ao contrário de outras séries, escolhe o caminho da relevância (ou pelo menos assim parece) no macro-contexto de Secret Wars. Tudo é arquitectado de forma simples e sóbria, sem esquecer o puro valor de entretenimento que o evento deve ter. Também é agradável ver Garth Ennis, o famoso escritor de Preacher, a regressar à Marvel com Where Monsters Dwell, que parece oferecer um cenário ideal para o escritor: aviões da Primeira Guerra Mundial e dinossauros. Ainda que este primeiro número não tenha sido excepcional já que Ennis parece continuar a escrever os mesmos (detestáveis) personagens, não deixa de ser prosa deste escocês, que é melhor que muita outra prosa. Finalmente, destaco os esforços interessantes de Master of Kung Fu (com um dos meus mais saudosos personagens - quem não adora esta série da década de 70?), Planet Hulk e Battleword, que culminam as séries (bem visto, quase todas) de que mais gostei nestas duas primeiras semanas.

Secret Wars, apesar de aludir à primeira série-evento da Marvel, a homónima da década de 80, é também uma carta de amor de Hickman a Crise nas Terras Infinitas. Estamos defronte da filha destas duas emblemáticas histórias. Esperemos que continue no excelente caminho destas duas primeiras semanas.

(NOTA - Gostaria de ter falado do facto de Battleworld se assemelhar a Westeros das Crónicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin, mas isso fica para a próxima vez. O post já vai longo demais)




Secret Wars (2015) número 2 e Convergence, semana seis.

Será cedo demais para ter esperança? Será que posso segurar o entusiasmo depois de ter lido o segundo número de Secret Wars? Será que a Marvel, finalmente, tem a sua Crise nas Terras Infinitas? Ou seja, será que a editora do Homem-Aranha e do Quarteto Fantástico finalmente cumpre uma promessa de qualidade neste tipo de evento? O primeiro número já havia demonstrado que algo de superior a anteriores séries-grandes-e-surpreendentes-que-metem-toda-a-gente estava a ser cozinhado, mas este número dois entrega algo verdadeiramente impressionante. Os obreiros, o escritor Jonathan Hickman, o desenhista Esad Ribic e colorista Ive Svorcina, constroem um capítulo cheio de ideias loucas, desenhos maiores que a vida, visuais estonteantes, palavras épicas. Usando uma bem conhecida metáfora, agarram no baralho que foi o destruído multiverso da editora, baralham muito bem baralhado, e voltam a dar mas com combinações improváveis, conceitos inventivos (ainda que talvez não muito inovadores) e um sentido de respeito, homenagem e maravilhamento como é muito raro ainda ser visto nestes acontecimentos. Volto a dizer, se calhar é ainda cedo para tecer tantos elogios mas este segundo número é um pouco acima do normal. 

É virtualmente impossível falar de qualquer coisa do enredo sem vos estragar a surpresa, e os que leem este blog sabem como odeio estragar qualquer surpresa. Comigo foi assim. Agarrei, li e fiquei mesmerizado. Pensei: o trabalho de Hickman desde há alguns anos encaminhava-se para isto? Estou a ficar impressionado. Nestes trabalhos por encomenda, o equilíbrio entre o escritor e o desenhista é sempre algo conseguido com muito suor e lágrimas . Ainda que se conheçam e se admirem, muitas parelhas podem não funcionar, ou melhor, podem não gerar obras de excepção. Existem exemplos para um e para outro lado. Hickman e Ribic parecem ser do lado bom, do lado excelente. Espero que continuem assim.



Do lado da DC Comics, a sexta semana de Convergence continua a ser mais do mesmo, infelizmente. A minissérie principal, onde supostamente ocorrem os eventos verdadeiramente importantes, é trabalhada de forma amadora e despachada. Esta semana ganha algum interesse adicional exclusivamente para os fãs, com algumas evoluções de enredo curiosas (se bem que pouco inventivas ou inovadoras) mas nada que seja particularmente bem aproveitado pelos talentos envolvidos. Estas evoluções abrem ligações a outras histórias: à extraordinária série Multiversity de Grant Morrison e à futura Darkseid War de Geoff Johns na Liga da Justiça.  Quase que posso dizer que, tirando estas ligações e o aparecimento do "meu" Super-Homem, o sexto número de Convergence pouco teve a oferecer.

As minisséries auxiliares terminam mais uma fornada. Ao contrário do mês anterior, os números dois destas séries apresentam uma qualidade geral um pouco superior. Hama volta a oferecer uma história segura em Batman, Shadow of the Bat, justificando a sua escolha para um número que opõe Bruce Wayne e Jean Paul-Valley, os Batman da década de 90, contra Wetworks, uma criação de Whilce Portacio para a Image. O vernáculo militar e bélico cola especialmente bem com Hama, não fosse ele o escritor de GI Joe. O número dois de Green Arrow oferece algo um pouco diferente do habitual nestas minisséries de Convergence, não se cingindo à batalha du  jour, mas procurando explorar a relação familiar entre os escolhidos para o embate. É inevitável que este ocorra mas Christy Marx e o saudoso Rags Morales sobem um pouco o nível neste evento da DC. Volto a destacar o trabalho de Tieri e Mandrake (gosto tanto de Tom Mandrake) no Suicide Squad, que justificam neste capítulo o nome da série. Finalmente, as restantes oscilam entre a qualidade mediana, como Catwoman, Green Lantern/Parallax, Justice League e Superboy, e aquelas que pouco me entusiasmaram - Aquaman; Supergirl; Steel. Parece existir uma atmosfera de inevitabilidade e tragédia em muitas das histórias contadas nas minisséries desta semana, o que provavelmente ajuda a justificar o porquê de ter apreciado um pouco mais que o normal. Não há ninguém que tire o grego do meu sangue.

Convergence, a quinta semana e Secret Wars (2015) número 1



Iniciou-se esta semana o segundo e último ciclo de Convergence, a minissérie da DC Comics onde regressam os universos da editora que desapareceram em anteriores Crises, Horas Zeros, Flashpoint, etc. Como já o disse repetidas vezes, é neste regresso que reside a maior parte do interesse do evento e esta quinta semana não é excepção (ainda?). A diferença é acabar a primeira leva de minisséries auxiliares, aquelas que se centravam no universo imediatamente anterior ao actual. Foram estas as histórias cuja existência foi abruptamente terminada em 2011 com o advento de um realidade rejuvenescida. Infelizmente, a maioria das minisséries auxiliares desta semana não atingem um patamar de qualidade minimamente interessante. Delas destaco o trabalho de Rucka e Hammer em Question e de Simone e Duursema em Nightwing & Oracle. Estas funcionam (não me canso de repetir) não só porque os talentos envolvidos são francamente superiores, mas também pelo empenho emocional dos autores em acabar histórias que, por um lado, eles próprios haviam começado e, por outro, tinham um apego mais forte. As restantes oscilam entre o mediano e o verdadeiramente dispensável, destacando, do ponto de vista meramente de fã (spoiler), o nascimento do filho do casal Super-Homem / Lois Lane desta realidade. É um momento relevante que, contudo, sabe a pouco pelo facto de não ser manuseado de forma mais hábil. De uma forma geral, os autores (e a editora) aproveitam também para corrigir alguns erros de argumentos de antigas e polémicas histórias (os fãs saberão do que falo), aparentemente terraplanando o terreno para futuros desenvolvimentos que os leitores poderão apreciar.

A série principal propriamente dita, Convergence, tem um pequeno upgrade nesta semana: os desenhos de Andy Kubert. O talento deste senhor não é nada de desmerecer e consegue oferecer alguma gravidade à escrita fraca e pouco relevante de Jeff King que, sim, estreia-se nestas andanças da Banda Desenhada mas que representa um erro de casting da editora. A história, mesmo para mim que já não sou novato, é cheia de referências que apenas os fãs de uma série em particular poderão apreciar (não vou dizer o nome para não estragar a surpresa). É o regresso de personagens afastados de publicação regular há muitos anos e que apenas uns poucos irão apreciar com total empenho. Digo-o sem reservas porque a DC Comics também o faz sem reservas: Convergence só interessa aos fãs de longa data

A Marvel, a outra grande editora de super-heróis dos EUA, inicia esta semana o evento de 2015 que promete modificar por completo a paisagem do seu multiverso: Secret Wars (sim, também tem um mutiverso, se bem que, em conceito, bastante diferente do da DC - um dia falo-vos disso). Esta revolução estava a ser preparada há muitos anos, desde que o escritor Jonathan Hickman havia agarrado nos Vingadores e, ao longo de vários capítulos, construído de forma lenta, paulatina e estruturada este mega-evento que resulta (e acho que não vou estragar a surpresa a ninguém) no fim do universo Marvel. A publicidade era ampla e os fãs já estavam preparados. Na era da internet e das encomendas três meses antes é difícil guardar surpresas desta envergadura. 

Ao contrário de Convergence, os talentos envolvidos não são pequenos e nota-se no produto final. Hickman não é um escritor de BD mediano, muito pelo contrário. O seu trabalho faz lembrar Grant Morrison pela cascata de ideias, pela linguagem críptica, e Alan Moore, pelo facto de verter filosofia e crenças aparentemente pessoais no trabalho. Esad Ribic é um desenhista de craveira elevada, justificando o facto do seu enorme talento poder ser apreciado num palco tão global - se bem que eu adorava que regressasse ao Thor de Jason Aaron. O primeiro número é ainda de preparação, mas as últimas páginas são suficientemente importantes para ser (muito) relevante a sua leitura. Não só ocorre um evento de gigantesca importância como é trabalhado de forma a ser uma coda do universo Marvel - basicamente a escolha do narrador é relevante e todos os fãs irão saber porquê.

Secret Wars é principalmente para quem já acompanha o trabalho de Hickman nos Vingadores e para quem sabe alguma coisa da Marvel. Contudo, pelo facto de representar o acto final de uma longa epopeia que o autor laborou ao longo de vários anos não choca. Deve-se ler esta série como o fechar da cortina, o capítulo final de um longo trabalho. Com altos e baixos mas que (possivelmente) será dos mais interessantes na já longa carreira dos Vingadores e do Universo Marvel. A ver vamos.

O que vou lendo! - Thor, the God of Thunder - Godbomb por Jason Aaron e Esad Ribic

Leiam neste link um post sobre os primeiros capítulos desta história.

Infelizmente, a editora Panini Portugal ficou-se pela publicação dos primeiros cinco capítulos do trabalho de Aaron, escritor, e Ribic, desenhador, em Thor, o Deus do Trovão - versão Marvel. Os portugueses só poderam ver parte da impressionante saga que ambos teceram para um personagem já com 50 anos de publicações (isto se descontarmos os vários séculos de história e mitologia). Godbomb completa, de forma verdadeiramente épica, os eventos que começaram naqueles primeiros capítulos (publicados nos números 6 a 11, volume de 2013, da revista original do personagem). A batalha final de três versões do Deus do Trovão, uma do passado, outra do presente e uma do longínquo futuro, contra o "Chacinador de Deuses", desenrola-se no palco mais que apropriado para estas mitologias: o cósmico. Toda a grandiloqüência de combates maiores que a vida,  toda a fúria tonitruante, todo o poder titânico, foi concentrado pelas palavras de Aaron e pela arte de Ribic em onze capítulos que, muito sinceramente, já vigoram (no que a mim diz respeito) nos melhores contos de Thor.

Muito raramente uma voz poderia colar tão bem com as palavras e ações de um personagem. Aaron é perfeito para Thor e para o seu universo, misturando masculinidade, belicismo medieval, orgias, bebedeiras e combates, num cozinhado de puro entretenimento. Ao mesmo tempo, mistura uns pós de reflexão suave que constroem um conto que vai para além dos limites do filme-pipoca. Ribic, por seu lado, com desenho limpo e cenários mitológicos, é a escolha acertada para o escritor e personagem. 

Agora que já se prepara o terceiro filme protagonizado por Thor, inspirado na lenda Viking de Ragnarok, o crepúsculo dos deuses, tenho uma sugestão a fazer. Quando estiverem a pensar no quarto filme das aventuras do Deus do Trovão na 7.ª Arte, não vão muito mais longe que estes primeiros onze capítulos do trabalho de Jason Aaron. Tudo é perfeito para o cinema: uma história direta e pouco alicerçada na complicada continuidade do personagem; cenários maiores que a vida; combates épicos; um vilão tenebroso. Não mudem as palavras, não medem quase nada. Não vale a pena. Aaron e Ribic já fizeram o trabalho mais difícil. É só copiar e não estragar. 

Panini Portugal - Thor, o Chacinador de Deuses # 1


De vez em quando gosto de pensar que existem dois tipos de leitores no que respeita a BD de super-heróis: os que gostam do Super-Homem e os que inclinam-se para o Batman. Uns preferem seres maiores que a vida, dotados de poderes divinos, envolvidos em situações onde, permanentemente, o destino da realidade é posto em causa - estes são os do Super-Homem. Os de outra qualidade preferem heróis realistas, que poderiam existir no nosso mundo e que, diariamente, travam uma luta desesperada e trágica contra o cinza do crime nas cidades - estas são as do Batman.  Antes de continuar, os fãs de BD que me perdoem a excessiva compartimentalização. Obviamente que a apreciação da arte não passa por este preto e branco excessivo. Mas, ainda assim, existe aqui algo de verdade.

No que me toca, sempre pendi mais para o lado do Super-Homem e o Thor, livro e personagem que me trouxeram a este post, tende claramente para o lado cósmico do arquétipo do super-herói. Neste sentido, este primeiro volume do trabalho de Jason Aaron e Esad Ribic é um soberbo exemplar  da capacidade que a BD tem em superar os limites da Prosa e do Cinema e contar uma história verdadeiramente cósmica em escala, linguagem e alcance. O enredo atravessa o tempo e o espaço, focando três épocas da vida do Deus do Trovão enquanto este confronta um ser demoníaco e hiper-poderoso cujo objectivo é claro no título do livro: exterminar todos os panteões de deuses do universo. Ênfase em universo. Pela primeira vez (pelo menos tanto quanto é do meu conhecimento) aparecem nas páginas do personagem outros panteões que não apenas os terrenos. Aaron delicia-se em criar múltiplos deuses, espalhados pelos cantos do cosmo e alvo da adoração de uma multitude de povos alienígenas. Para completar o quadro, a linguagem tipicamente  visceral que costuma aplicar aos seus diálogos e exposições é aplicada a longos momentos de exploração cosmogónica. Existe prazer nesta descoberta, particularmente deliciosa para quem o lê, tendo em consideração outras obras mais "urbanas" que caracterizaram anteriores explorações do autor (portanto, estilo Batman): Wolverine e Punisher, por exemplo. A aproximação rude que Aaron faz aos personagens, que geralmente são duros e másculos, aplica-se na perfeição a Thor, que podemos ver como o guerreiro definitivo. De facto, existe no personagem e no autor uma salutar combinação, como se ambos tivessem destinados em se encontrar. Visceralidade misturada com Divindade, à boa maneira do povo que adorava Thor, os Vikings.

No que respeita ao trabalho da Panini e do tradutor Felipe Faria,  só posso dedicar os mais sinceros elogios pelo excelente trabalho. Os últimos anos e Portugal têm sido alvos de um enorme profissionalismo no que respeita à publicação de BD em geral e americana em particular. Quase que fico com pena de não existir uma edição em formato maior e com capa dura para que a escala cósmica do conto e a belíssima tradução possam ser adorados com ainda maior entusiasmo. São trabalhos destes que dão gosto ler e comprar. Muito recomendável, quer para os adoradores do lado do Super-Homem, quer para os do Batman.