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(título gentilmente inventado pelo Filipe Faria)

Quantas e quantas vezes os fãs de BD ouvem a frase "isso é coisa de miúdos"? Pode acontecer quando estamos sossegados a ler na esplanada ou quando queremos sugerir algo e convencer que BD é Arte como outra qualquer. Às vezes, até dentro dos fãs de BD, existe a eterna divisão entre os que gostam de super-heróis ou da Disney e os outros que consideram que, uma vez mais, "isso é coisa de miúdos". 

Rapidinhas de BD - Astro City vol. 14 e Thor By Jason Aaron & Russell Dauterman Vol. 2

A parceira de Kurt Busiek, Brent Anderson e Alex Ross na série Astro City dura há 20 anos, sem sinais de abrandar na qualidade e produtividade. Começaram na editora Image e na label de Jim Lee, a Wildstorm, mas desde então passaram para a DC Comics, quando esta adquiriu a primeira. Ultimamente têm sido publicados debaixo do selo da lendária Vertigo, ainda que a temática e a abordagem nada tenham a ver com a inclinação sobrenatural e com o terror sofisticado que classificaram esta durante mais de duas décadas.

Astro City é um mundo de super-heróis inteiramente concebido pelos autores, com o propósito de comentário meta-textual ao original da Marvel e da DC. Por outro lado, procuram a perspectiva do man on the street, do comum mortal, ainda que essa visão seja menos presente nos volumes mais recentes. Agora também procuram outros pontos de vista, desde vilões a seres extra-terrestres, passando, claro, pelos heróis propriamente ditos. Interessa aos autores a visão sobre eventos que são lugar comum na mitologia dos super-heróis. Kurt Busiek, o escritor, é um assumido geek destes universos e faz bom uso dessa inclinação, ao explorar de forma inventiva cada pormenor que passaria de outra forma despercebido nas histórias das duas grandes.

Neste 14.º volume não abranda este olhar clínico e inventivo, ao focar-se em seres que ajudam um ditador extra-dimensional na batalha contra análogos do Quarteto Fantástico, num casal de ex-vilões, agora com uma relação mais saudável com a Lei, e no também análogo do Super-Homem - esta última como comemoração dos 20 anos de publicação. Todas estas histórias enriquecem de forma independente a rica tapeçaria deste mundo criado do zero, que continua a ser uma das mais cativantes visitas a universos de fantasia. 

Entretanto, os autores já noticiaram a desistência da publicação mensal clássica para focarem-se em livros de contagem de páginas mais extensas ao estilo europeu.

A Marvel, do ponto de vista criativo, não anda a ter os seus melhores dias. Ainda assim, existem equipas que seguem a nobre tradição de clássicos como Lee/Kirby, Lee/Ditko, Claremont/Byrne, Simonson, etc. Jason Aaron no Thor é uma delas. Primeiro trabalhou com Esad Ribic e agora com Russell Dauterman, para produzir aquela que considero a mais interessante publicação mensal desta editora. Parece que a Marvel sabe disso e tem lançado estas edições formato grande a que chama Deluxe e que coleccionam, em média, cerca de 12 números da revista mensal. Valem a pena o preço e a (longa) espera entre volumes. É neste formato que as aventuras mitológicas da agora versão feminina do Deus do Trovão devem ser apreciadas. Num palco cósmico de grandiosidade épica.

Aaron mistura o mundo empresarial do mundo real com a mitologia Viking para criar ameaças ao mesmo tempo credíveis e fantasiosas. Concebe diálogos ricos que desenvolvem as personalidades dos protagonistas e que avançam a narrativa de forma sempre entretida. Constrói personalidades que vão para lá dos estereótipos e da bidimensionalidade a que estávamos habituados ao longo de décadas no Thor da Marvel (não sempre, claro, mas de forma recorrente). Acima de tudo, cria uma leitura que não conseguimos largar de tão entusiasmante que é. O único defeito que aponto é a velocidade com que queremos ler já o próximo volume - e nem noticia de para quando o seu lançamento.

Entretanto, a G.Floy publicou o volume que se segue ao lançado há uns anos pela Panini (infelizmente, os portugueses nunca verão a conclusão do Chacinador de Deuses) e a Goody irá, em breve, começar a fase da Thor versão feminina. 

Uma BD aqui, outra BD ali, 6

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Extremity números 1 a 10 de Daniel Warren Johnson (Skybound e Image)


Já o ouvi várias vezes. Escrevam sobre aquilo que conhecem. Acredito nesta máxima. As palavras e os conceitos tendem a fluir mais facilmente quando falamos das nossas vidas, ou melhor, das nossas perspectivas. Mas não é, decididamente, apenas isso. Para o leitor, espectador ou ouvinte, a mensagem tende a tornar-se mais verdadeira, mais, paradoxalmente, universal. Apercebemos-nos, racional e emocionalmente, da honestidade das palavras, das imagens ou dos sons. É difícil de quantificar. Fácil de sentir. Este é o maior elogio que posso escrever sobre este Extremity de Daniel Warren Johnson, publicado em conjunto pela Skybound e pela Image.

Esta BD figurou em algumas das listas das melhores de 2017 e a minha curiosidade foi atiçada. Li os dez primeiros capítulos e fui imediatamente agarrado pela premissa e, principalmente, pela honestidade emocional com que o criador veicula esta estranha aventura num mundo alienígena. Sim, ele nunca viveu num mundo extra-terrestre e muito menos no que parece ser um futuro pós-apocalíptico. Mas o worldbuilding é sólido e as personagens baseadas na experiência pessoal do autor. As vozes delas são a sua voz. As palavras lêem-se com sentimento de veracidade, ainda que estejamos a dimensões de distância da nossa realidade.

Extremity passa-se num mundo de ilhas flutuantes, após uma catástrofe, onde várias tribos humanas degladiam-se pela sobrevivência e pela vingança. Uma mistura de Senhor dos Anéis e de Avatar. Incrivelmente dinâmico e cinético, com cenas de acção poderosas, bem-coreografadas, rápidas e muito violentas. Mas desenganem-se os que lêem "violência" e inflectem logo para gratuitidade. Existe ressonância emotiva em cada golpe dado e em cada gota de sangue derramada. E as mensagem e os momentos de paz são os que ajudam a sublinhar a violência extrema que lhes segue ou antecede.

Uma das grandes BDs em publicação na actualidade. Emoção em ecrã gigante.

The Wildstorm números oito a dez de Warren Ellis e Jon Davis-Hunt (Wildstorm e DC Comics)


Uma das razões porque sou um apaixonado (mas não um fanático) pela editora DC Comics são as histórias e séries publicadas mais ou menos entre meados da década de 80 e meados da primeira do século XX. Vinte anos de risco que deram algumas das mais emblemáticas BDs da minha vida, fora e dentro do mundo dos super-heróis. Foi com pesar que assisti à lenta queda da qualidade e inclinação adulta da editora (coincidente com a entrada do editor-chefe Dan Didio). Mas é com igual alegria que, recentemente, tenho recuperado a fé que tinha na maturidade das escolhas da DC. Começou com vendas fracas e com a reacção a elas: DC Rebirth - o electrochoque dado à ala dos super-heróis; experimentações como Young Animal; as personagens da Hanna Barbera; o ressurgimento da linha Elseworlds; e este Wildstorm.

Wildstorm pertencia ao autor Jim Lee, um dos fundadores da Image no início da década de 90, e era uma das subdivisões dessa mítica editora. Anos mais tarde, separar-se-ia da casa-mãe e acabaria por ser adquirida pela DC Comics. Há semelhança de outras aquisições, as personagens de vertente super-heroística seriam absorvidas pelo universo do Super-Homem e afins, passando a viver aventuras conjuntas (o evento Novos 52 de 2011, onde a editora começava tudo do zero, serviu para juntar os mundos da DC e da Wildstorm). Eis que se passam meros sete anos e Jim Lee decide voltar a isolar o seu universo e entrega as rédeas criativas ao escritor Warren Ellis, autor de alguns dos maiores sucessos da Wildstorm antes da junção com a DC: Authority; Planetary; para citar dois favoritos pessoais e obras de reconhecida importância sísmica.

Ellis decidiu recomeçar zero e contar um épico em 24 partes. As personagens são reconhecíveis para quem leu algo da antiga Wildstorm, mas é apenas isso: familiaridade. De resto, nada têm a ver. Como o zeitgeist deste meio da década de 10 do século XXI é outro, o escritor inflecte a escrita para uma sensibilidade ultra-tecnológica, sem perder a sua assinatura super-sónica, focando-se em personalidades duras, ultra-competentes e perigosamente sarcásticas. O mundo deste The Wildstorm é um mundo Ellisiano, de conspirações, de pouca fé na natureza humana e de risco constante à escala multiuniversal. A violência, à semelhança de Extremity é, desculpem o trocadilho manhoso, extrema, coreografada e assustadoramente bela. Arrisquem-se a ler mas façam-no de uma assentada. Porque esta é do tipo de séries cuja complexidade apela a uma leitura atenta e focada. Finalmente, não é todo de descurar o trabalho do desenhista Jon Davis-Hunt, uma surpresa em capacidade de desenho e do contar de uma história. A coreografia não seria a mesma.