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O que vou lendo! L'Apprentie Geisha de Kazuo Kamimura

Cada vez que leio um Mangá de Kazuo Kamimura lembro-me de um conterrâneo seu, o cineasta Kenji Mizoguchi. Ambos apresentam as mesmas obsessões. Esta partilha é tanto mais curiosa quanto melhor conhecemos a sociedade japonesa e especificamente tudo o que está relacionado com as mulheres. Os japoneses (como aliás muitos povos, inclusive o nosso) tiveram de forma continuada comportamentos misóginos. Ainda no século XX, este pendor manifestava-se de forma clara em terras nipónicas, com uma forte estratificação de papéis e posição social. Essa clausura, esse cerco, que a sociedade japonesa fazia (e faz) ao sexo feminino, foi de tal forma tema na obra de Mizoguchi que transformou-se numa assinatura autoral. Na maioria dos seus filmes, escolhia o ponto de vista feminino para contar as histórias ou, não sendo explícito nessa escolha, procurava temáticas que focassem a injustiça de que o género era alvo - quer falasse da sua contemporaneidade, quer da antiguidade (leiam o que escrevi sobre este realizador aqui). Kazuo Kamimura partilhava deste ponto de vista ou, pelo menos, assim o parecem demonstrar alguns dos seus livros e, especificamente, este Aprendiz de Gueixa (infelizmente inédito no nosso país).

Um dos temas mais queridos a Mizoguchi eram as gueixas de Kyoto, tendo dedicado alguns filmes a estas. Kamimura, neste seu livro, viaja para norte e para Tokyo, para relatar, de forma episódica, o percurso de vida de uma jovem gueixa, O-Tsuru, desde os primeiros anos como aprendiz até transformar-se numa gueixa renomada e apreciada. Ao longo de mais de 300 páginas e 14 capítulos, o autor de Mangá irá não só focar-se no percurso e manias da jovem protagonista mas também de todo um mundo à sua volta. Desde a patrona da casa de gueixas até aos homens que passam pelo seu caminho. Estes são observados do ponto de vista da jovem simultaneamente com carinho e com um olhar distante. Os comportamentos e atitudes dos homens devem ser julgados pelo peso da subjectividade histórica ou sobre um olhar mais específico, mais humano? 

Kamimura balança de forma elegante entre a sexualidade e a tristeza deste mundo, com o qual poderá ter contactado quando alugava um escritório num mesmo edifício de um conhecido bairro de gueixas em Tokyo. Esse equilíbrio é conseguido pela estrutura das histórias e pelo enredo, que estão cheios de um sabor agridoce suave e discreto mas, paradoxalmente, pungente e sublinhado. O seu traço ondulante e quase etéreo é perfeitamente  adaptado a este mundo de sexo e lágrimas, conferindo uma terrível e terrena poesia a actos sobre os quais temos dificuldade em descortinar a bondade ou maldade dos mesmos. Kamimura não procura respostas moralistas ao mundo das gueixas, deixando que as histórias e o seu traço falem por si - como qualquer contador deveria fazer. 

Kazuo Kamimura foi um mestre que abandonou-nos cedo demais (aos 45 anos). A sua obra é repleta das obsessões que constroem o trabalho autoral. Mas é no produto final, nas linhas do desenho e na escolha das palavras, que se vislumbra o génio que é imperativo conhecer. Não só um autor de Mangá obrigatório mas também de uma literatura que importa não esquecer.  

O mundo de Isabel Greenberg - Encyclopedia of Early Earth e The One Hundred Nights of hero




Isabel Greenberg não vive no nosso mundo. Vive numa terra do longínquo passado da nossa chamada Early Earth. Foi ela quem a criou, foi ela quem a habitou com múltiplas histórias. Histórias que falam de deuses de bondade e deuses egoístas, ditadores e mesquinhos. Histórias de amor redentor e de amor salvador. Histórias sobre luas que se apaixonam por humanos. Histórias sobre meninas que se escondem dos pais para poderem dançar. Histórias sobre o gelado norte e o solarengo sul. Histórias sobre histórias e como elas podem salvar um mundo.

Isabel é britânica e não o esconde. A tradição de "contador de histórias" que faz parte do DNA de alguns autores das ilhas britânicas está-lhe no sangue. Quem leu o Sandman de Neil Gaiman sabe do que falo. Da capacidade destes autores em transformar a arte de um conto que começa com o simples "Era Uma Vez...". Eles rodopiam as palavras e voltam a uma forma mais original, mais pura, da cadência das frases. Reduzem-nas ao essencial, ao pseudo-infantil, para dar-nos uma verdade e um real mais próximo do dos primeiros contos. As histórias de Isabel são contadas da forma a mais simples possível mas nisso revela-se uma artífice da palavra escrita. Consegue transmitir o complexo e o adulto através dessa simplicidade. Não vou tão longe ao ponto de dizer que os seus livros podem ser lidos por todas as idades, porque não podem. Alguns contos são recheados de sangue e vingança. Povoados por seres egoístas e vingativos. Mas são sempre, como um leit motif, histórias de amor, histórias de perseverança, de esperança e de luta.

Os dois volumes de capa dura que já foram publicados pela autora, Encyclopedia of Early Earth e The One Hundred Nights of Hero, começam como sendo histórias de amor e histórias de uma cosmogonia imaginada. Os seus heróis e heroínas devem sofrer pelo amor que têm um pelo o outro. Sofrer às mãos de deuses e de homens. Para sobreviver recorrem à sua capacidade de contar histórias, que se encadeiam, acumulam e reflectem umas às outras, como uma matrioska de espelhos. São estas histórias que preenchem de forma literal as páginas destes livros. No primeiro fala de um homem incompleto na busca da parte de si em falta. Para isso viaja pelo mundo contando histórias. No segundo, um casal de mulheres apaixonadas sobrevivem à conta de um engodo igual ao do das Mil e Uma Noites. A paixão é a base por onde Isabel começa sempre os seus relatos, mas vai mais fundo, amontoando contos em cima de contos, contadores em cima de contadores, até que estamos emaranhados no labirinto das suas palavras... mas nunca perdidos. Essa é uma das artes da autora.

A escrita e desenhos de Isabel Greenberg são enganadoramente simples. Os seus contos são sobre histórias e sobre a forma como elas moldam o mundo. Elas são tão antigas quanto a palavra e aí não existe nada de simples. Dois dos meus livros favoritos do ano.

O Japão é um lugar familiar - Rapidinhas de BD




Por muito diversificados que sejam os formatos e linguagens da Banda Desenhada, a sua função é transmitir, através das suas histórias, mensagens e sentimentos universais. Tolstoy, no seu O Que É a Arte?, acreditava que a "boa arte" (as palavras são dele e não minhas) é aquela que podia ser lida e entendida por qualquer pessoa, independentemente da geografia, condição socio-económica e cultura. O que levava o escritor russo a esta conclusão era uma linha de raciocínio ampla mas simples. Tolstoy não apreciava o elitismo e o hermetismo na arte - pelo menos nos últimos anos da sua vida.  Tinha também se tornado bastante pio. Independentemente de concordarmos com o todo ou com parte do que escreveu neste ensaio, as suas palavras são poderosas e nelas reside(m) alguma(s) verdade(s): uma obra de arte é mais forte quando transmite sentimentos e mensagens que podem ser entendidos por muitos (citando um outro autor, aliás autora, que gosto, Clarice Lispector, “(...) um dos indiretos modos de entender é achar bonito.”).

Esta introdução serve para vos falar de duas obras do estilo de BD Mangá, conhecida por ser a Banda Desenhada japonesa: Chiisakobé vol. 3 e 4 de Minetarō Mochizuki e Lorsque Nous Vivions Ensemble vol. 1 de Kazuo Kamikura. 

Os dois volumes da primeira concluem a história que o autor Minetarō Mochizuki ofereceu-se para contar num atípico reduzido número de capítulos (atípico para a Mangá). O enredo é um simples drama familiar, de passagem de testemunho entre gerações e da busca (muito japonesa) de honra e rectidão no comportamento do dia-a-dia. É a história de um jovem, cujos pais morrem e que vê-se obrigado a tomar conta da empresa familiar de construção civil, ao mesmo  que entram na sua vida (e na sua casa) uma jovem pouco mais nova do que ele e vários órfãos abandonados e problemáticos. O que para uns poderia transformar-se numa sitcom, o autor transforma numa reflexão meditativa (perdoem o pleonasmo) de atenção aos pormenores, e sobre o respeito pelas motivações de cada um de nós. A face quase gélida e inexpressiva dos  seus protagonistas não revela a turbilhão de emoções que se passa por baixo da barreira cultural e pessoal. Sim, é uma BD passada no Japão e sobre o Japão, mas as motivações e sentimentos são brutalmente universais.

Outro romance poderoso de Tolstoy é A Sonata de Kreutzer, uma opinião crua e dura sobre o relacionamento entre homens e mulheres. Lorsque Nous Vivions Ensemble parece ser o seu herdeiro espiritual. Conta-nos de uma relação entre dois jovens nos seus vinte anos, no Japão da década de 70. Acompanhamos episódios do seu dia-a-dia enquanto habituam-se à vida em comum num apartamento alugado (eles não são casados). A maioria dos capítulos centram-se no ponto de vista da jovem mulher, o que revela desde logo uma inversão de paradigma que faz lembrar os filmes de um dos maiores mestres da 7.ª Arte: Kenji Mizoguchi (também ele amante de Tolstoy). A relação entre ambos oscila entre momentos de paixão carnal e de conflito emocional aberto, uma tempestade que agiganta o oceano. Existem também episódios de ternura fugidia que muitas vezes culminam em novos confrontos verbais. Claro está que tudo parece visceralmente familiar e próximo, como todas as grandes obras de arte deveriam ser - ou pelo menos para aqueles que concordam com a opinião de Tolstoy.

Duas obras sobre um mesmo tema, o relacionamento entre homens e mulheres, com perspectivas bastante diferentes, vindas de um mesmo país. Ambas poderosas e, claro, universais. 

O que vou lendo! Salto de Judith Vanistendael e Mark Bellido

Judith Vanistendael conheceu Mark Bellido no caminho de Santiago. Não sei se estava activamente à procura de uma nova história para uma nova BD (depois de David les femmes et la mort), mas a sorte conspirou para que a artista encontrasse este homem, em cuja história recente ela mergulharia nos três a quatro anos que se seguiriam. Mark Bellido tinha sido guarda-costas para autarcas no País Basco, autarcas que eram alvo de ameaças de morte por parte da ETA.

A razão para Bellido optar por uma carreira tão insegura tinha (e não tinha) a ver com necessidade: queria ser escritor e achava que apenas com uma experiência única, apenas com uma vida de "aventura", seria capaz de escrever o romance que o destacaria de todos os outros escritores. O autor tinha uma vida de vendedor de doces no sul de Espanha, onde habitava com a sua mulher e dois filhos. Decide então mudar-se da vida de sol para a chuvosa do norte, onde aceita a sua nova profissão de guarda-costas. Sem que isso constitua spoiler (mas ficam desde já avisados), esse novo trabalho é francamente absorvente em termos de tempo, levando-o a, por períodos cada vez maiores, ausentar-se da sua família. As consequências são as inevitáveis.

Segundo Judith, Bellido tinha acabado de sair desta vida quando a conheceu. O encontro iniciou uma colaboração que, já no final, tornou-se tensa. Decidirem-se pelo final da história transformou-se numa provação para ambos (Bellido tinha dificuldade em concluir) e acabou por ser um editor a fechar a disputa. O que ficou, a obra, é o testemunho pungente duma experiência forte, de uma história que valeu a pensa ser contada (mas talvez não a experiência em si, isto para Bellido).

Judith optou, graficamente, pelo lápis de cor (a sugestão parece ter sido de Bellido), contrastando de forma óbvia com o peso do enredo.  A inventividade em termos gráficos, em termos de estruturação de página e do modo como "parte" a história destacam o trabalho de Vanistendael, que, nas muitas páginas que constituem este relato, deixa que a narrativa respire e se exponha da forma apropriada ao momento - ora delicodoce, ora visceral. 

Às vezes os trabalhos mais  excepcionais vêm das experiências mais difíceis e das colaborações mais complicadas.

(Obrigado, Rui, pela sugestão de leitura)

Médée tome 3, L'Epouse Bárbare de Nancy Peña e Blandine Le Callet

A Medeia de Eurípides, a da mitologia grega, não era uma personagem fácil. Muitos conhecem os contornos carniceiros e trágicos desta história da antiguidade grega. Mulher do herói Jasão, ajudou-o a recuperar do pai dela o Tosão de Ouro, elevando o marido à categoria de lenda, junto com os seus companheiros, os Argonautas. Contudo, para ele, grego de puro-sangue, Medeia nunca passou de uma bárbara, mulher de fora das fronteiras do mundo helénico. Não demorou para que desposasse uma outra mulher, filha de Creonte de Corinto, inflamando o coração de Medeia que, num assomo de ódio, sacrifica os filhos que tem com o herói. No final, ao invés de ser levada pelas Erínias, que castigavam crimes de sangue filial, é salva pelo deus do sol e afastada das mãos vingativas de Jasão - é desta ferramenta narrativa que nasce a expressão deus ex-machina. Medeia é a definição da expressão "hell hath no fury like a woman scorned".

É também conhecida a ligação de Medeia à deusa Hécate, sendo por esta via associada a rituais de feitiçaria e, por extensão, usada muitas vezes ao longo da História como modo de controlo da mulher pelo homem. Talvez por causa desta história conturbada, Nancy Peña e Blandine Le Callet procuraram recuperar o mito e reinterpertá-lo à luz de uma outra sensibilidade - semelhante ao que Marion Zimmer Bradley fez com As Brumas de Avalon. A sua interpretação é, contudo, menos mitológica, não a alicerçando na fantasia típica da mitologia grega. Peña e Le Callet recuperam a Medeia mas segundo a lupa do mundo real e de um feminismo não militante.

Já vos falei dos dois primeiros volumes (leiam aqui) e, neste terceiro, Medeia abandona a terra natal, Cólquida, casa-se com Jasão e junta-se ao marido na luta pelo trono da cidade deste,  Iolcos. Neste volume as autores continuam a reler o mito da personagem mas não esquecem a sua força sanguinária. Medeia é a heroína mas não esquece a artimanhas que a sua deusa de eleição, Hécate, lhe ensinou, usando da inteligência e violência para auxiliar o marido.

Peña e Callet vão muito mais além da releitura pura de uma história milenar, muito para lá da versão modernista e feminista de Medeia. Criam uma história escorreita, empolgante, ao mesmo tempo familiar e nova, com uma personagem forte que merece ser lida e relida. Sem duvida uma das minhas melhores leituras de 2017.

O que vou lendo! Le Club des Divorcés, vol. 2 de Kazuo Kamimura

Este segundo volume do Le Club des Divorcés de Kazuo Kamimura fecha a história iniciada no primeiro tomo (leia aqui), recital da vida de uma jovem mulher de 25 anos, Yuko, divorciada, dona de um bar de alterne no bairro de Ginza, Tóquio, durante a década de 70. Esta obra, publicada em França pela editora Kana, permanece inédita em Portugal. É o espelho de uma época e de uma civilização pelos olhos de uma mulher numa sociedade fortemente machista como o é a japonesa.

Para tentar perceber o impacto de um livro chamado O Clube das Divorciadas teremos de ter noção de algumas questões relativas à cultura japonesa e ao peso da palavra "divorciada" na sua sociedade. Até o século XIX, o divórcio não era aceite no Japão, com consequências muito mais negativas para a mulher. Veja-se, por exemplo, o filme Os Amantes Crucificados de Kenji Mizoguchi (em exibição num ciclo deste realizador no Nimas), onde, (spoiler do filme) tanto homem como mulher praticam o adultério, mas enquanto ele é apenas destituído dos seus bens (não pelo facto de ter amante) ela é crucificada junto com o seu amante. Depois de 300 anos do período Edo, onde o Japão esteve sob o jugo de um shogunato ditatorial, serão necessárias gerações e vincadas cisões civilizacionais para vencer tiques societais.

Kazuo Kamimura relata-nos a história desta jovem mulher em pequenos episódios, enquanto tenta adaptar-se a esta vida, vencer o lado social e emocional do divórcio e contornar os muitos amores que desperta. Cada um dos contos é narrado com a leveza de uma bafo de cigarro na noite fria de Inverno, os sentimentos e os gestos mais subentendidos que declarados, espelhando não só a sensibilidade do autor mas, acima de tudo, a sua herança cultural.

Kamimura (que também aparece na história a frequentar o clube da protagonista)  enceta um manifesto feminista engajado, escrito e desenhado com a subtileza dos jardins invernais nipónicos e que permanece relevante mesmo que volvidos 40 anos desde que foi feito. Leitura essencial!

O que vou lendo! Legend of Wonder Woman de Renae de Liz e Ray Dillon

É uma pena. É uma pena que a excelente série Legend of Wonder Woman de Renae de Liz e Ray Dillon tenha sido cancelada. Não vou entrar nas coscuvilhices do desaguisado entre a DC e os autores mas não posso deixar de expressar o meu descontentamento. Este volume, que colecciona todos os números online, não é apenas uma das melhores histórias feitas com o meu personagem de BD favorito, Diana de Themyscira, a Mulher-Maravilha, mas um bom livro de mérito próprio. 

Renae de Liz, escritora, escolhe (ou a DC escolheu por ela), uma vez mais, contar a história da origem de Diana, transportando o personagem de regresso ao seu período original, a Segunda Guerra Mundial. No entanto, existem diferenças notáveis ​​entre esta interpretação e anteriores, tanto na forma como na intenção. 

Ranae muda o enredo apenas o suficiente para não parecer derivado e o suficiente para ser fresco. Existem alterações subtis, pormenores de enredo que são diferentes, não apenas para que sejam novidade mas porque os autores querem contar uma narrativa interessante e divertida. Hippolyta, a mãe de Diana e rainha das Amazonas, não é exactamente a mesma, Themyscira, a terra-mãe do personagem, também não - não vou enumerar ou descrever todas as mudanças porque quero que descubram por vocês mesmos. 

O ritmo lento mas seguro com que desenvolve os primeiros dias na vida de Diana é uma lufada de ar fresco. Desenvolve personalidades, acrescenta -lhes pequenas peculiaridades, mantém-se fiel aos arquétipos e diverte-se nas longas e relevantes trocas de diálogo. Além de Diana, a escritora passa algum tempo a desenvolver Etta Candy, transformando-a em muito mais do que um personagem coadjuvante da Mulher-Maravilha.

Ritmo lento não significa, por outro lado, descompressão da história. Cada momento está repleto de world-building, de personagens ricos e de situações triviais elevadas a um status quase mítico, simplesmente pela qualidade do cuidado dedicado a cada detalhe. Ranae também esculpe (pun intended) uma cosmogonia diferente da de encarnações anteriores da Mulher-Maravilha e que é, ao mesmo tempo, original e uma piscadela de olho aos antigos fãs de DC. É notável que tente fazer um conto de Diana para a posteridade (reparem que uso ainda presente, em jeito de esperança). E nesta compilação cumpre essa promessa. 

Tudo o que é relevante para a mitologia da Princesa de Themyscira é, de alguma forma, abordado nestas páginas. A Verdade é, acima de tudo, uma das mais importantes partes da mensagem da Mulher-Maravilha e esta brilha no conto. A dicotomia Guerra / Paz, tão integral à MM, é sublinhada e justificada. De facto, Ranae conhece em profundidade ao personagem. 

Legend of Wonder Woman é uma obra excepcional. Deveria continuar, principalmente porque a Diana merece mas essencialmente porque este nível de amor e de dedicação à mitologia da Mulher-Maravilha deve ser apreciada e encorajada. DC, por favor, deixe os autores terminarem a história.

O que vou lendo! Injustice Gods Among Us, Year Two, The Complete Collection de Tom Taylor e vários

A queda de um anjo, o maior do universo da DC, continua. Depois de aqui vos ter falado do primeiro ano, continua o conto de um mundo alternativo onde o Super-Homem, mercê de uma tragédia que recaiu sobre a sua família, transformou-se no maior vilão da História. Como todos os vilões, ele não se vê como talo. Ele o salvador, o polícia da ordem que imporá regras e paz num mundo caótico e sem justiça. Heróis juntam-se à sua cruzada, outros opõem-se. Estes últimos inspirados e liderados por Batman, anátema do sonho despótico. Injustice Gods Among Us é inspirado no jogo de computador com o mesmo nome e conta os eventos que deram origem ao futuro distópico nele relatado.

Prosseguindo o trabalho do primeiro ano, Tom Taylor continua a escrever as linhas trágicas deste mundo negro. O escritor australiano segue a mesma fórmula, confortando-se no conhecimento das personalidades destes ícones da DC, ao mesmo tempo que os interpreta à luz de um enredo e de um objectivo: contar uma história empolgante e, desde o primeiro capítulo, cheia de surpresas. Fazendo pleno uso das premissas do jogo e da liberdade que as mesmas lhe permitem, Taylor deixa o leitor (principalmente se não tiver jogado) viciado e agarrado ao virar de página. O que vai acontecer a seguir é sempre a pergunta. E raramente ele nos desaponta.

O enredo deste segundo ano trás-nos o envolvimento do Corpo dos Lanternas Verdes (sigo a tradução da Levoir) e dos seus mentores e criadores, os Guardiões do Universo, seres omnipotentes e omniscientes quase tão velhos quanto o universo. Como todos os fãs da DC sabem, os Lanternas Verdes são os polícias do universo e a ascensão fascista de um actor tão poderoso como o Super-Homem obriga à sua intervenção. As consequências acontecem à escala cósmica.

Injustice Gods Among Us é divertimento para fãs (e não só) da DC Comics. É descomprometido e empolgante. Não posso pedir muito mais disto. Venha o ano três.

O que vou lendo! Le Club des Divorcés vol. 1 de Kazuo Kamimura

Kazuo Kamimura, autor de Mangá da década de 70, foi presenteado este ano com uma exposição e homenagem no indispensável festival de BD de Angoulême,  dando a conhecer a obra impar e autoral deste artista. Hedonista e bon-vivant, Kamimura viveu muito e morreu cedo (aos 47 anos) deixando, contudo, um legado único no panorama da 9.ª Arte, dentro e fora das fronteiras do Japão. A sua obra mais conhecida, Lady Snowblood, é uma parceria com Kazuo Koike, o mesmo do essencial Lone Wolf and Cub, tendo sido mesmo objecto de adaptação ao cinema. Ainda que não tenha lido Lady Snowblood, Le Club Des Divorcés está longe da temática medieval, samurai e de acção deste mas não deixa de partilhar algo do DNA: uma protagonista feminina. Este dado aparentemente inocente não deixa de ser relevante no contexto da época e da cultura japonesa.

Le Club Des Divorcés relata-nos a vida de uma mulher divorciada em Tóquio da década de 70, que decide vencer as dificuldades financeiras que essa situação acarreta abrindo um bar de acompanhantes e prostituição no famoso bairro de Ginza.  O ponto de vista da narrativa cinge-se exclusivamente à protagonista, centrando-se na opção de vida e nas consequências que a mesma tem para o seu quotidiano e para aqueles que dependem dela. Yuko é uma mulher complexa numa sociedade profundamente machista, onde o divórcio é visto de forma fracturante. Apenas com 25 anos, tendo ao cargo uma filha que tem de deixar ao cuidado da mãe, vale-se da beleza e experiência para seduzir homens, quer para o trabalho, quer para a vida pessoal. Nesse delicado equilíbrio entre uma e outra esfera, Yuko revela-se complexa nas falhas, uma espécie de predador benévolo que tem total conhecimento da sua ferocidade e poder.  Nem sempre esse poder ela consegue levar a um bom porto, acossada pelas exigências de mãe, pelas exigências de ser patrona do Clube e, principalmente, pela busca frenética e amedrontada que enceta de modo a vencer a sua solidão presente e principalmente a futura.

Kamimura exibe um delicado equilíbrio e sensibilidade , construindo em Yuko uma personagem exigente ao estilo de uma Madame Bovary  ou mesmo Anna Karenina. Esta é uma mulher que tem que vencer num mundo de homens e para homens, dona e vitima da sua beleza, como muitos dos grandes personagens femininos clássicos (nisso, também eles um pouco machistas).  O autor é dono de silêncios reveladores e de uma narrativa escorreita que obriga à atenção do pormenor, em sequências de eloquência cinematográfica. Sem duvida uma obra única e obrigatória. 

O que vou lendo! Injustice Gods Among Us, Year One, The Complete Collection de Tom Taylor e vários

Ideias simples e novas são as mais difíceis. A frase "já tudo foi inventado" é provável que seja verdadeira - mas tenho dificuldades em acreditar. Desviar-nos para um novo ponto de vista poderá ser o proverbial "ovo de Colombo". Basta inclinar a cabeça, a perspectiva muda e conseguimos algo inovador. Basta abraçarmos a nossa personalidade para vermos algo nunca visto. Alan Moore, o famoso escritor (também) de BD, conseguiu-o na década de 80 e em duas obras consideradas essenciais: Miracleman e Watchmen (ambas publicadas em Portugal pela GFloy e Levoir, respectivamente). Moore importou o "mundo real" para o do super-heróis e transformou-o. Desde então, muitos foram os autores que de alguma forma o copiaram, e outros tantos os que, em oposição, tentaram repor o maravilhamento da fantasia juvenil. Frank Miller, escritor e desenhador americano de Comics, fez algo a uma escala diferente mas que, a par do anterior autor, também significou uma mudança de paradigma na BD dos EUA. Injustice Gods Among Us é um estranho filho das sensibilidades e histórias destes dois gigantes da 9.ª Arte.

Injustice Gods Among Us nasceu de um jogo de computador com o mesmo nome e trata-se de uma reinterpretação pós-apocalíptica do universo dos super-heróis - é a Chris Claremont e a John Byrne que deve-se a primeira iteração destes distopias com o seu X-Men: Days of Future Past, já transposto para o cinema. Nestas histórias, que de serem já tantas são parte integrante da mitologia dos super-heróis (ou um cliché, se preferirem), os personagens vivem numa paisagem subjugada a um dos seus inúmeros inimigos (X-Men: Age of Apocalypse, por exemplo), ou são eles próprios os causadores desse futuro distópico (Kingdom Come). Esta obra está integrada na segunda categoria. Neste universo alternativo, e na sequência de um evento catastrófico, o Super-Homem transforma-se num dos piores vilões da História. Constituem-se facções, uma de apoio ao Homem de Aço e outra contra, liderada por Batman - reflexos de Frank Miller e do seu Dark Knight Returns. Esta queda do anjo evolui para uma cruzada do Super-Homem e dos seus aliados para livrar o mundo de todos os conflitos, uma empreitada cheia de boas intenções e um caminho que apenas pode levar à derrocada moral dos envolvidos - pequenas inspirações de Watchmen.

Ao contrário da seminal obra de Alan Moore, Injustice Gods Among Us de Tom Taylor afasta-se (mas não totalmente) da profundidade intelectual e escolhe o espectáculo pirotécnico, o enredo surpreendente e a força das personalidades destes ícones da BD dos EUA. As versões dos personagens nem sempre são facilmente reconhecíveis para os fãs mais radicais (a queda do Super-Homem parece precipitada e a Mulher-Maravilha nada tem a ver com versões mais consensuais) mas não deixa de ser uma interpretação valorosa e, acima de tudo, cativante. Virar a página com sofreguidão para descobrir "o que vem a seguir" é um dos maiores atractivos desta série e do seu primeiro ano, compilado neste único volume. Não deixa de ser uma versão negra do universo DC, onde é difícil conseguir encontrar luz de esperança por detrás de motivações tão despóticas e sombrias. Contudo, os fãs da DC anseiam por este tipo de versões - aliás, para o bem e para o mal (mais para mal, pelo que dizem mas eu não sou um deles), foi desta visão que Zack Snyder partilhou para conceber o seu Batman v Superman. É óbvio que o prazer desta obra muito se deve à familiaridade que o leitor tem com a DC Comics mas, mesmo que tangencialmente, todos temos uma ideia de quem são o Super-Homem e o Batman. Conhecer este dois é ponte mais que suficiente para embrenharem-se na história.

Injustice Gods Among Us pode ser e é uma visão sombria do universo da DC, mas, devido a um enredo com muitas surpresas e a um conhecimento único das personalidades destes personagens, transforma-se numa leitura viciante. 

O que vou lendo! Chiisakobé Vol.1 e 2 de Minerato Mochizuki


Existem sensações que são-nos mais aconchegantes do que outras. São parte do sangue e arrepiam a pele. Tem a ver connosco, com a nossa personalidade, misturada aos anos e aos segundos de vida. O Japão é uma ilha que deu origem a uma civilização com modos de estar e pensar algo diferentes de muitos países no mundo. O seu isolacionismo geográfico levou, durante largos períodos de tempo na História, a um isolacionismo cultural. Quando abriram-se ao mundo, o que aconteceu de forma mais clara no pós-Segunda Guerra Mundial, não deixaram de absorver partes dele mas de uma forma sua. O Mangá, a Banda Desenhada japonesa, nasce também por influência dos Comics dos EUA mas temperada pela cultura, linguagem, alfabeto de dentro das suas fronteiras. O Cinema teve um percurso semelhante. Estas duas artes, ambas produto do século XX, encontram na cultura do Japão uma das formas mais interessantes de miscigenação. O Mangá chama para a sua linguagem o movimento e o tempo do Cinema, mas ambos devem também muito ao modo como os japoneses vêem e experimentam o mundo à sua volta. Existe observação e reflexão na forma como vivem o passar dos segundos, existe conflito entre o moderno e o tradicional, entre a tecnologia e o artesanal, existe uma constante dicotomia que, contudo, e ao contrário de nós latinos, não é resolvida de forma exuberante. Provavelmente será por serem tão diferentes que atraem-me tanto.

Chiisakobé de Minerato Mochizuki é um Mangá inspirado num romance de 1957 de Shûgorô Yamamoto, cuja acção decorria no período Edo e que o mangaka transporta para os dias de hoje. É a história de um jovem arquitecto que perde os pais e que terá de tomar as rédeas da empresa de construção civil dos dois, ao mesmo tempo que se vê compelido a albergar uma jovem de 20 anos em sua casa e um grupo de cinco órfãos problemáticos. À semelhança do que acontece com outro autor japonês, Taniguchi, esta BD escolhe uma perspectiva mais pessoal e cultural na forma como aborda o enredo. O tempo dos personagens e, por influência, dos leitores, é de outra velocidade e convida à observação das páginas e da forma como Mochizuki  escolhe para contar esta história. O autor não tem pressa e não revela, por palavras, muito do que acontece. A perspectiva da sua câmara é, também ela, curiosa, preferindo, em muitos dos diálogos, focar-se em partes do corpo que, à partida, pareceriam estranhos: as pernas; os pés; o tronco. Ao afastar-se do rosto e preferir partes menos emocionais da fisionomia humana, provoca uma quebra no diálogo tradicional que o leitor tem com a BD. Será este um reflexo da história? Do autor? Ou da cultura japonesa onde as emoções são culturalmente contidas? Continuando a esticar esta análise, nunca vemos o rosto do protagonista na medida em que este está coberto por uma longa barba. E também não podemos deixar de reflectir sobre esta contenção emocional quando o pai de um dos personagens tem uma forma nada saudável de observação da filha e do seu corpo.

A história ela própria é, na sua essência, nipónica. A necessidade de perpetuar o legado dos pais, do país, enquanto defronta-se com as soluções que o mundo moderno tem para oferecer. Ao mesmo tempo, nesta luta pela continuação da herança dos progenitores,  procura o caminho honrado, sem depender da comunidade que, contudo, o tenta ajudar de uma forma, que para muitos de nós, mais cínicos, poderia parecer falsa.

Não deixa de ser curioso, e não conhecendo o romance original, que uma cultura possa ainda ser tão bem caracterizada através de uma história que originalmente ocorreu no período Edo (1603 - 1868), um período que formou muito da cultura deste país e que é caracterizado por um profundo isolacionismo em relação ao resto do mundo e por uma severidade moral e judicial ditatoriais. O autor não o terá feito de forma descabida. 

Estes são os dois primeiros volumes de uma obra de quatro. Venceu este ano no Festival de BD de Angoulême o Fauve Prix de la Série e é uma das provas de que o mangá é uma das mais estimulantes formas narrativas actualmente em publicação.