Depois do surpreendente Uma Irmã, publicado em português de Portugal pela Levoir, a vontade de investigar outras leituras de Bastien Vivès era muita. Já conhecíamos Last Man, um registo pop/manga do autor francês, mas foi necessária a insistência de um amigo para folhear este Dans Mes Yeux, inédito nas nossas terras. Trata-se de uma experiência narrativa em formato BD, colocando o leitor nos olhos do protagonista, enquanto se apaixona por uma jovem mulher.
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Médée tome 3, L'Epouse Bárbare de Nancy Peña e Blandine Le Callet
A Medeia de Eurípides, a da mitologia grega, não era uma personagem fácil. Muitos conhecem os contornos carniceiros e trágicos desta história da antiguidade grega. Mulher do herói Jasão, ajudou-o a recuperar do pai dela o Tosão de Ouro, elevando o marido à categoria de lenda, junto com os seus companheiros, os Argonautas. Contudo, para ele, grego de puro-sangue, Medeia nunca passou de uma bárbara, mulher de fora das fronteiras do mundo helénico. Não demorou para que desposasse uma outra mulher, filha de Creonte de Corinto, inflamando o coração de Medeia que, num assomo de ódio, sacrifica os filhos que tem com o herói. No final, ao invés de ser levada pelas Erínias, que castigavam crimes de sangue filial, é salva pelo deus do sol e afastada das mãos vingativas de Jasão - é desta ferramenta narrativa que nasce a expressão deus ex-machina. Medeia é a definição da expressão "hell hath no fury like a woman scorned".
É também conhecida a ligação de Medeia à deusa Hécate, sendo por esta via associada a rituais de feitiçaria e, por extensão, usada muitas vezes ao longo da História como modo de controlo da mulher pelo homem. Talvez por causa desta história conturbada, Nancy Peña e Blandine Le Callet procuraram recuperar o mito e reinterpertá-lo à luz de uma outra sensibilidade - semelhante ao que Marion Zimmer Bradley fez com As Brumas de Avalon. A sua interpretação é, contudo, menos mitológica, não a alicerçando na fantasia típica da mitologia grega. Peña e Le Callet recuperam a Medeia mas segundo a lupa do mundo real e de um feminismo não militante.
Já vos falei dos dois primeiros volumes (leiam aqui) e, neste terceiro, Medeia abandona a terra natal, Cólquida, casa-se com Jasão e junta-se ao marido na luta pelo trono da cidade deste, Iolcos. Neste volume as autores continuam a reler o mito da personagem mas não esquecem a sua força sanguinária. Medeia é a heroína mas não esquece a artimanhas que a sua deusa de eleição, Hécate, lhe ensinou, usando da inteligência e violência para auxiliar o marido.
Peña e Callet vão muito mais além da releitura pura de uma história milenar, muito para lá da versão modernista e feminista de Medeia. Criam uma história escorreita, empolgante, ao mesmo tempo familiar e nova, com uma personagem forte que merece ser lida e relida. Sem duvida uma das minhas melhores leituras de 2017.
O Homem que é normal - Terras dos Sonhos e L'Homme Qui Marche de Jiro Taniguchi
Jirô Taniguchi vê o mundo como todos nós e, ao mesmo tempo, de forma tão singular. Ler um livro deste autor japonês de Banda Desenhada é mergulhar no mundano, no de tal forma corriqueiro que perguntamo-nos: só isto? Onde está a poesia? A grandiloquência? A arte? Está lá tudo, não duvidem, disfarçado pela patina do normal, do banal dos dias que passam sem notícia digna de jornal. Pode ser apenas um homem que encontra um cão, decide levá-lo para junto da sua esposa, cuidam dele e, anos mais tarde, o animal morre. Pode ser um homem que ama caminhar ao ponto de perder um dia de trabalho por causa disso.
O delicioso passar das horas nos dias calmos pode parecer pouco interessante para qualquer obra de arte ou de entretenimento. Uns lêem Taniguchi e nele não vêem nada de especial. Para mim, é exactamente nesta calmaria que ele se enche de mestria e de arte. Os quadradinhos e as páginas sucedem-se de forma fluída e enchem este leitor de paz e de alegria por poder ver e rever algo maior no simples abanar das folhas das árvores ou de um encontro fortuito. O maior não tem necessariamente de ser divino ou de ser uma epifania. Se acreditam no banal e no real podem encontrar em Taniguchi alguém que partilha da vossa poesia. Mas se acreditam numa força mais pura e animal, a da mãe natureza, também podem ler Taniguchi e sentirem-se preenchidos. Nessa mistura que é, no fundo, o de encontrar o belo na rotina e nos pequenos prazeres, reside muito do que faz este autor uma das enormes referências da 9.ª Arte.
Adorado em França, onde foi descoberto para a Europa, a sua sensibilidade é um pouco a deste nosso continente, mas sou dos que acreditam que ela deve-se muito mais ao país de origem, à leveza com que interpretam e vivem o dia-a-dia, à aproximação que fazem entre o natural, o religioso e o tecnológico. Taniguchi destila esse saber-estar de forma cândida. Um mestre em todos os sentidos que atribuo à palavra e estes dois livros são prova disso: Terra dos Sonhos, publicado em Portugal pela Levoir, e L'Homme que Marche, editado em Portugal em 2005 numa parceria da Devir com o Correio da Manhã.
O prazer absoluto de uma obra de arte - Quartier Lointain de Jirô Taniguchi
Não acontece muitas vezes. Alguém sentir-se de tal forma tocado por um livro que lê ou por um filme que vê ou por uma comida que saboreia, que a palavra "obra-prima" aparece a correr pelos lábios. Isto mesmo sem ter acabado o livro ou o filme ou ter engolido o pedaço de comida. Aconteceu-me enquanto folheava Quartier Lointain, um livro de tal forma arrebatador (no que a mim diz respeito) que dificilmente pude conter o entusiasmo. De tal forma que fiz algo que raramente faço: demorei mais tempo a lê-lo, como se quisesse reter-me naquele mundo, como se quisesse que as palavras e o desenho fossem absorvidos com calma e degustação, para que nenhum sentido oculto pudesse escapar-me.
Acredito que a minha recente viagem ao Japão muito terá contribuído para a leitura deste livro. Acreditem que esta ida para tão longe transformou alguma coisa em mim. Contudo, se não quiserem acreditar nestas revoluções de meia vida, acreditem apenas que estive numa cultura verdadeiramente diferente da nossa portuguesa e da nossa ocidental. Obviamente que de forma alguma é necessário ir ao Japão para ler e adorar este Quartier Lointain. Longe de mim dizê-lo. Falo apenas da minha experiência. Em terras nipónicas existe uma calma e um silêncio que apenas pode ser absorvido lá estando. Tudo aparenta demorar o seu tempo (claro que não é assim mas falo de sensações). A obra de Taniguchi não podia ser outra coisa que não japonesa. Não existem demonstrações grandiloqüentes e barulhentas de eventos e emoções. As coisas acontecem mas com um sussurro, de forma serena.
A força desta obra (de cujo enredo não vou revelar nem uma linha porque tive a sorte que acontecesse assim comigo) é que ela parece existir numa terra onde encontram-se desejos cumpridos e uma viagem para a maturidade, o que acaba por construir um livro ao mesmo tempo cativante e profundamente revelador. Talvez seja a idade onde me encontro mas Quartier Lointain parece talhado para esta minha fase da vida. Uma elegia da juventude que cada vez se estende mais nos anos e um elogio à vida adulta. Isto contado com a sensibilidade de um exímio contador de histórias que, não por acaso, é japonês.
Como disse no primeiro parágrafo, isto não acontece muitas vezes: encontrar algo que, para nós, é uma obra-prima. Aconteceu-me com o Sandman de Gaiman, com o Blankets de Thompson, com o Homem-Aranha das duplas Wein/Andru e Lee/Ditko, com a Diana de Pérez. Depois de tantos e tantos anos a ler BD voltou a acontecer. Que absoluta maravilha.
O que vou lendo! - Médée vol. 1 e 2 de Nancy Peña e Blandine Le Callet (e uma perninha de Medeia de Eurípedes)
"Je crois qu'il existe, quelque part, une puissance, qui se joue de nous, qui se moque et ricane. On a coutume d'appeler cela l'ironie du sort, ou l'ironie des dieux, lorsque ont croit en eux." - Médée, volume dois - Le Couteau dans la Plaie, palavras de Medeia pela escritora Blandine Le Callet.
Medeia é um dos clássicos personagens da tragédia grega. A peça de teatro de Eurípedes existe há cerca de 2400 anos e é também uma das mais escalpelizadas e estudadas da antiguidade clássica. O personagem e a obra já foram associados a diversas escolas de interpretação, passando pelo feminismo, pela vingança, etc. Trata-se de uma das mais interessantes figuras da mitologia grega, com todas as conotações que a isso associamos. A peça remete-se a um período fulcral da vida de Medeia, quando, traída por Jasão, pai de seus dois filhos e a razão porque abandonou a Terra Natal, a Cólquida, decide tornar material o ardor de vingança que nutre pelo líder dos Argonautas. Essa fúria, criada pelo desprezo machista de Jasão que decidiu casar-se com uma outra mulher, irá levar a que Medeia mate a mulher do seu agressor e cometa um dos mais ignóbeis actos da literatura ocidental, o filicídio.
Ora, apesar deste acto transportar Medeia para o papel de vilã da sua própria história, o personagem acaba por estar enquadrado num conjunto de considerações importantes que a elevam para lá deste enquadramento. Dentre várias, quero destacar a sua associação a dois aspectos mitológicos e sobrenaturais: ser discípula de Hécate, uma divindade da Lua, ligada à feitiçaria e, curiosamente, às mulheres; ser neta do deus grego do Sol, Helios. Tanto um como outro são aludidos na peça de Eurípedes. O primeiro, quando Medeia procura inspiração e arte para o seu acto cruel. O segundo, na parte final da peça, já depois do assassinato, quando, com os dois filhos mortos nos braços, ergue-se sobre Jasão montada na carruagem de seu avô, o que transporta a peça e o acto hediondo para o palco da vingança primal, uma variação do Deus Ex-Machina.
Numa cultura ocidental fortemente misógina, Medeia sempre foi vista, junto com a deusa Hécate, como a personificação do medo masculino pela força e natureza femininas. Esta Banda Desenhada, escrita e desenhada por duas mulheres, procura recuperar a honra de um personagem tão vilificado pela literatura e pela interpretação. Os dois primeiros volumes desta saga abordam dois períodos diferentes da vida do personagem. O primeiro, L'Ombre D'Hécate, centra-se na infância da mulher, enquanto que o segundo, Le Couteau dans la Plaie, foca o malfadado primeiro encontro entre Medeia e Jasão. O facto de Blandine Le Callet ser uma investigadora de Literatura Helénica empresta a esta obra uma solidez e um peso que, de outra forma, poderiam lhe escapar. Mas o passado da autora também como escritora de prosa preparou-a para a arte do dramático e este Médée é uma obra de BD em pleno direito. A outra parte da parelha de criadores, Nancy Peña, já era conhecida por outros trabalhos, mas consegue neste uma abordagem tão depressa sua como perfeitamente moldada ao peso e temática da vida deste interessantíssimo personagem. Peña associa um estilo mais "leve", menos realista, à evocação de uma estética grega, principalmente aquela advinda dos conhecidos vasos que sobreviveram da época.
As duas autoras conseguem construir um todo interessantíssimo que, por um lado, procura fazer uma releitura do mito, e, por outro, dá-nos uma história capaz de captar a atenção e o entusiasmo. Abordam explicações alternativas ao mito, a maior parte delas vestidas com a roupagem de "esta é a verdade da história", ao mesmo tempo que escolhem esquecer, pelo menos nestes dois volumes, os contornos sobrenaturais de Medeia. Continuam a identificá-la como descendente de Hélios, mas desta vez não como habitante de um mundo de monstros e magia. Isso contribuiu para que a obra possua uma dimensão apenas sua, afastada da de Eurípedes, e seja transportada para outro nível de interesse, muito semelhante ao do relato histórico, factual.
Esta é uma obra que espero que os portugueses possam, um dia, ler na sua língua materna e, quanto a mim, mal posso esperar pelo próximo volume.
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