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Uma BD aqui, outra BD ali, 1

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Dark Nights - Metal número 4 de Scott Snyder e Greg Cappulo (DC Comics)

Eu tenho uma paixão pela mitologia pura, não filtrada, dos super-heróis. Aquela em que a escala da luta é multi-universal, em que os vilões são a consumada encarnação do Mal, seres hiperpoderosos capazes de destruir a Realidade com um estalar dos dedos. Dark Nights  - Metal é isso e muito mais. É a Liga da Justiça, é o Super-Homem, é o Batman, é a Mulher-Maravilha, contra versões negras e maléficas do Homem-Morcego. É o palco escancarado da Cosmologia DC pronto a ser absorvido sem limites, como uma orgia em Las Vegas. Ou melhor, como um concerto metálico com todos as cabeças de cartaz dos vossos sonhos. Este número tem a  delícia de, uma vez mais, reescrever a Cosmogonia do multiverso da DC. Mas não é redundante, antes a evolução do trabalho de mestres como Marv Wolfman e Grant Morrison. Não é fácil de chegar a cada pormenor desta história porque é necessário ser doutorado em DC para perceber as implicações de cada palavra e de cada acção mas, ainda assim, é possível o leitor casual entreter-se (acho!). Scott Snyder e Greg Cappulo estão a divertir-se à brava e eu com eles. Nunca mais chegam os números cinco e seis, com a conclusão deste delírio orgiástico protagonizado pelos homens de collants.

Defenders (2017) número 8 de Brian Michael Bendis e David Marquez (Marvel)

Eu gosto do Bendis. Não de tudo, claro. Adorei o seu Ultimate Spider-Man, New Avengers e Demolidor. Não gostei dos seus Guardiões da Galáxia (o maior pecado na Marvel). Defenders é a sua praia. Tem Luke Cage, o seu herói favorito. Tem o Demolidor, que escreveu de forma soberba. Tem Jessica Jones, que criou para  Marvel. Tem o Punho de Ferro. É acção e intriga ao nível da rua, da criminalidade organizada. E, neste número oito, tem ainda Deadpool, com cuja voz Bendis safa-se muito bem. Defenders vai ser um dos adeus de Bendis à Marvel quando migrar para a DC. Ao ler estes primeiros oito números fico com uma gigantesca pena que não continue. Têm sido perfeitos, no que a mim diz respeito. Equilíbrio entre acção e a verborreia que caracteriza o escritor. Claro que é ajudado pelo traço e talento de David Marquez, que depois de Ultimate Spider-Man e Guerra Civil II atinge aqui outros níveis de excelência. De perfeição. Não tem existido, até à data, um único número abaixo de uma elevada fasquia de qualidade. É o canto do cisne apropriado para a Marvel de Bendis.




X-Men - The Grand Design número 1 de Ed Piskor (Marvel)

Um dos grande dramas de quem gosta dos X-Men é tentar convencer a namorada, namorado ou amigos a lerem-nos. Invariavelmente, terá de dizer: "aquilo lê-se muito bem mas é complicado". X-Men é O teste definitivo de resiliência dos que querem entrar na BD dos EUA. Os 50 anos de história(s) cresceram para um nível de complexidade apenas equiparável à Teoria Quântica. Ed Piskor é conhecido da BD alternativa com a obra Hip-Hop Family Tree mas, como o próprio o diz, antes de entrar no mundo autoral (termo que não gosto mas assim simplifico-vos a vida) adorava X-Men. Principalmente os 300 primeiros números da revista Uncanny X-Men. Quando foram escritos e desenhados por mestres como Stan Lee, Jack Kirby, Neal Adams, Roy Thomas, Len Wein, Dave Cockrum, Chris Claremont, John Byrne, Paul Smith, John Romita Jr., Marc Silvestri, Jim Lee, Arthur Adams, etc, etc, etc. Chris Claremont, principalmente, escreveu durante 16 anos a revista dos mutantes da Marvel e construiu uma mitologia incomparável. Complexa mas sedutora. Complicada mas inebriante. A ele a Marvel e a cultura pop devem uma dívida gigantesca. Ed Piskor propõe-se resumir, ao longo de seis números, esses 300 números de histórias. Se este primeiro é prova do que aí vem, os fãs já não terão desculpas para não introduzir novos leitores aos X-Men. Ed Piskor está a tratar disso, numa BD que será de leitura obrigatória para fãs destes mutantes, de BD e de world building. Mitologia moderna é isto. Venham os números que seguem (um obrigado ao Gonçalo pela sugestão).

Reading Habits - Legend of Wonder Woman by Renae de Liz and Ray Dillon

It's a real shame. 

It's a shame that the excellent Legend of Wonder Woman by Renae de Liz and Ray Dillon has been canceled. I will not go into the coming and goings of the falling off between DC and the authors but I will express my disappointment. This volume, collecting all of the online issues, is not only one of the best stories starring my favorite comic book character, Diana of Themyscira, but a fine good comic at that.

Renae de Liz, the writer, chooses (or DC chose for her) to, once again, retell the origin story of Diana, transporting the mythos back to its original time period, the Second World War.  However, there are notable differences between this interpretation and previous ones, both in form and intention. 

Ranae changes the plot just enough not to feel derivative and enough to feel fresh. There are subtle modifications to the story, plot points here and there that are changed not for the sake of novelty but because the authors want to tell a good and entertaining narrative. Hippolyta, the mother of Diana and queen of the Amazons, is not exactly the same, Themyscira, her home, also - I won't number or describe all the changes because I want you to discover for yourself. 

Furthermore, the pace. The slow and steady pace with which she develops the first days in the life of Diana is both a breath of fresh air and an accomplishment. In each story beat she lingers on personality development, adds little quirks to every one, while still ringing true to the archetypes, and enjoys herself in lengthy exchanges of dialogue that are entertaining and meaningful. Besides Diana, the writer spends a lot of time developing Etta Candy's personality, making her so much more than part of the WW supporting cast.

Here, slow pace doesn't mean decompressed storytelling. Each moment is filled with meaningful world-building, rich characters and trivial situations elevated to the status of mythic, simply by the amount of care dedicated to each detail. Ranae also sculpts (pun intended) a cosmogony very different from previous Wonder Woman incarnations, makes it new and, at the same time, gives a cool nod to DC fans. It's noticeable that she is (note that I use present tense - wishful thinking) trying to make a tale for the ages. And in this hardcover she delivers on that promise.

All that is relevant to the Princess of Themyscira mythology is, in some way, touched upon in these pages. Truth, above all, is one of the most prevalent parts of her message, and it shines through in this tale. The War/Peace dichotomy, so integral to WW, comes forth and is justifiable. Ranae knows her Wonder Woman.

Legend of Wonder Woman is an exceptional accomplishment. One that should continue, due to the fact that Diana deserves it but manly because this amount of love and dedication to the Wonder Woman mythos should be appreciated and encouraged. DC, please let the authors finish their story.

O que vou lendo! Legend of Wonder Woman de Renae de Liz e Ray Dillon

É uma pena. É uma pena que a excelente série Legend of Wonder Woman de Renae de Liz e Ray Dillon tenha sido cancelada. Não vou entrar nas coscuvilhices do desaguisado entre a DC e os autores mas não posso deixar de expressar o meu descontentamento. Este volume, que colecciona todos os números online, não é apenas uma das melhores histórias feitas com o meu personagem de BD favorito, Diana de Themyscira, a Mulher-Maravilha, mas um bom livro de mérito próprio. 

Renae de Liz, escritora, escolhe (ou a DC escolheu por ela), uma vez mais, contar a história da origem de Diana, transportando o personagem de regresso ao seu período original, a Segunda Guerra Mundial. No entanto, existem diferenças notáveis ​​entre esta interpretação e anteriores, tanto na forma como na intenção. 

Ranae muda o enredo apenas o suficiente para não parecer derivado e o suficiente para ser fresco. Existem alterações subtis, pormenores de enredo que são diferentes, não apenas para que sejam novidade mas porque os autores querem contar uma narrativa interessante e divertida. Hippolyta, a mãe de Diana e rainha das Amazonas, não é exactamente a mesma, Themyscira, a terra-mãe do personagem, também não - não vou enumerar ou descrever todas as mudanças porque quero que descubram por vocês mesmos. 

O ritmo lento mas seguro com que desenvolve os primeiros dias na vida de Diana é uma lufada de ar fresco. Desenvolve personalidades, acrescenta -lhes pequenas peculiaridades, mantém-se fiel aos arquétipos e diverte-se nas longas e relevantes trocas de diálogo. Além de Diana, a escritora passa algum tempo a desenvolver Etta Candy, transformando-a em muito mais do que um personagem coadjuvante da Mulher-Maravilha.

Ritmo lento não significa, por outro lado, descompressão da história. Cada momento está repleto de world-building, de personagens ricos e de situações triviais elevadas a um status quase mítico, simplesmente pela qualidade do cuidado dedicado a cada detalhe. Ranae também esculpe (pun intended) uma cosmogonia diferente da de encarnações anteriores da Mulher-Maravilha e que é, ao mesmo tempo, original e uma piscadela de olho aos antigos fãs de DC. É notável que tente fazer um conto de Diana para a posteridade (reparem que uso ainda presente, em jeito de esperança). E nesta compilação cumpre essa promessa. 

Tudo o que é relevante para a mitologia da Princesa de Themyscira é, de alguma forma, abordado nestas páginas. A Verdade é, acima de tudo, uma das mais importantes partes da mensagem da Mulher-Maravilha e esta brilha no conto. A dicotomia Guerra / Paz, tão integral à MM, é sublinhada e justificada. De facto, Ranae conhece em profundidade ao personagem. 

Legend of Wonder Woman é uma obra excepcional. Deveria continuar, principalmente porque a Diana merece mas essencialmente porque este nível de amor e de dedicação à mitologia da Mulher-Maravilha deve ser apreciada e encorajada. DC, por favor, deixe os autores terminarem a história.