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O mundo de Isabel Greenberg - Encyclopedia of Early Earth e The One Hundred Nights of hero




Isabel Greenberg não vive no nosso mundo. Vive numa terra do longínquo passado da nossa chamada Early Earth. Foi ela quem a criou, foi ela quem a habitou com múltiplas histórias. Histórias que falam de deuses de bondade e deuses egoístas, ditadores e mesquinhos. Histórias de amor redentor e de amor salvador. Histórias sobre luas que se apaixonam por humanos. Histórias sobre meninas que se escondem dos pais para poderem dançar. Histórias sobre o gelado norte e o solarengo sul. Histórias sobre histórias e como elas podem salvar um mundo.

Isabel é britânica e não o esconde. A tradição de "contador de histórias" que faz parte do DNA de alguns autores das ilhas britânicas está-lhe no sangue. Quem leu o Sandman de Neil Gaiman sabe do que falo. Da capacidade destes autores em transformar a arte de um conto que começa com o simples "Era Uma Vez...". Eles rodopiam as palavras e voltam a uma forma mais original, mais pura, da cadência das frases. Reduzem-nas ao essencial, ao pseudo-infantil, para dar-nos uma verdade e um real mais próximo do dos primeiros contos. As histórias de Isabel são contadas da forma a mais simples possível mas nisso revela-se uma artífice da palavra escrita. Consegue transmitir o complexo e o adulto através dessa simplicidade. Não vou tão longe ao ponto de dizer que os seus livros podem ser lidos por todas as idades, porque não podem. Alguns contos são recheados de sangue e vingança. Povoados por seres egoístas e vingativos. Mas são sempre, como um leit motif, histórias de amor, histórias de perseverança, de esperança e de luta.

Os dois volumes de capa dura que já foram publicados pela autora, Encyclopedia of Early Earth e The One Hundred Nights of Hero, começam como sendo histórias de amor e histórias de uma cosmogonia imaginada. Os seus heróis e heroínas devem sofrer pelo amor que têm um pelo o outro. Sofrer às mãos de deuses e de homens. Para sobreviver recorrem à sua capacidade de contar histórias, que se encadeiam, acumulam e reflectem umas às outras, como uma matrioska de espelhos. São estas histórias que preenchem de forma literal as páginas destes livros. No primeiro fala de um homem incompleto na busca da parte de si em falta. Para isso viaja pelo mundo contando histórias. No segundo, um casal de mulheres apaixonadas sobrevivem à conta de um engodo igual ao do das Mil e Uma Noites. A paixão é a base por onde Isabel começa sempre os seus relatos, mas vai mais fundo, amontoando contos em cima de contos, contadores em cima de contadores, até que estamos emaranhados no labirinto das suas palavras... mas nunca perdidos. Essa é uma das artes da autora.

A escrita e desenhos de Isabel Greenberg são enganadoramente simples. Os seus contos são sobre histórias e sobre a forma como elas moldam o mundo. Elas são tão antigas quanto a palavra e aí não existe nada de simples. Dois dos meus livros favoritos do ano.

Dark Nights: Metal #2 de Scott Snyder e Greg Capullo



Aviso à navegação: o segundo número do evento de 2016 da DC Comics não é para os que nunca leram nada da editora. A narrativa é alicerçada na sua História, cosmogonia e cosmologia. A referência a eventos passados publicados há muito tempo é constante e pode (e vai) confundir os que não são versados na complexa tapeçaria deste multiverso (e mesmo os que são). Este é um aviso que já tinha feito aqui, quando falei do primeiro número, e continua a ser válido (se não mais ainda) para este segundo capítulo.

Esta também não é uma história para os que gostam das narrativas reais, lógicas e cheias de significado filosófico-existencial. Aqui há, por vezes, coisas que não fazem sentido, momentos de puro ridículo, subtileza narrativa de um Ferrari acidentado na auto-estrada. E há uma outra coisa para quem gosta de super-heróis: puro entretenimento, regozijo em ver os homens de collants em situações escabrosas, ópera pop, explosões, vilões ultra-negros e heróis mega-puros. Tudo é barulho, som e fúria, como numa canção metaleira. Composta por Snyder e Cappulo.

(a partir daqui há muitos spoilers)

A primeira leitura de uma história destas é feita a correr, na ânsia de chegar ao fim, de virar a página e descobrir a próxima surpresa. Existem pormenores que escapam, exigências que não são feitas. Este segundo capítulo conta-nos a perseguição levada a cabo pela Liga da Justiça para capturar Batman, que roubou uma curiosa arma cósmica: o bebé Darkseid. Batman acredita que a versão infantil do Deus de Todo O Mal do Universo DC é a chave para impedir a invasão do Dark Multiverse. Não sabe que está a ser enganado. No final, e pela primeira vez em muito tempo (ou mesmo sempre), o Batman perde e a Liga dos Batmen Negros e Maus Como as Cobras chega com fúria e desespero. Entretanto, sabemos que o vilão-chefe desta saga, Barbatos, conheceu o Cavaleiro das Trevas quando, na saga Final Crisis, escrita por Grant Morrison, Darkseid (ainda não era um bebé) o exila para a Idade da Pedra. No penoso regresso que Bruce Wayne faz para chegar ao presente, Barbatos molda a História do Mundo DC e de Batman de acordo com os seus desígnios bem esconsos. Complicado? Muito! Rebuscado? Sem dúvida! Argumento típico de super-heróis? Oh meus deus... sim! Ou se gosta ou então é melhor nem passar por aqui. 

Imaginem o oposto do que se deve fazer para cativar uma audiência. Tentem ser o mais herméticos possível. Dificultem a mensagem. Isto não deve ser feito, certo? Snyder e Cappulo atiram pela janela o livros de regras dos marketistas e deixam-se levar pela pura geekisse e pelo puro prazer de escrever uma história para eles e para os malucos (como eu!) que sabem destes assuntos mais do que é saudável saber. Pormenores que não interessam a quase ninguém. Mas, no meio de tudo, conseguem entreter e divertir e isso é a única coisa que pode ser esperada de uma história destas. Abandono total.

Subtil como uma fotografia de David Lachappele (tinha de fazer uma referencia mais intelectual para não destruir as minhas credenciais), o número dois de Dark Nights: Metal é entretenimento ao som de guitarra metaleira. Ajuda ser fã à séria da DC? Ajuda! Mas não está na moda aceitarmos "desafios"? Pois eu acho que sim!

O Japão é um lugar familiar - Rapidinhas de BD




Por muito diversificados que sejam os formatos e linguagens da Banda Desenhada, a sua função é transmitir, através das suas histórias, mensagens e sentimentos universais. Tolstoy, no seu O Que É a Arte?, acreditava que a "boa arte" (as palavras são dele e não minhas) é aquela que podia ser lida e entendida por qualquer pessoa, independentemente da geografia, condição socio-económica e cultura. O que levava o escritor russo a esta conclusão era uma linha de raciocínio ampla mas simples. Tolstoy não apreciava o elitismo e o hermetismo na arte - pelo menos nos últimos anos da sua vida.  Tinha também se tornado bastante pio. Independentemente de concordarmos com o todo ou com parte do que escreveu neste ensaio, as suas palavras são poderosas e nelas reside(m) alguma(s) verdade(s): uma obra de arte é mais forte quando transmite sentimentos e mensagens que podem ser entendidos por muitos (citando um outro autor, aliás autora, que gosto, Clarice Lispector, “(...) um dos indiretos modos de entender é achar bonito.”).

Esta introdução serve para vos falar de duas obras do estilo de BD Mangá, conhecida por ser a Banda Desenhada japonesa: Chiisakobé vol. 3 e 4 de Minetarō Mochizuki e Lorsque Nous Vivions Ensemble vol. 1 de Kazuo Kamikura. 

Os dois volumes da primeira concluem a história que o autor Minetarō Mochizuki ofereceu-se para contar num atípico reduzido número de capítulos (atípico para a Mangá). O enredo é um simples drama familiar, de passagem de testemunho entre gerações e da busca (muito japonesa) de honra e rectidão no comportamento do dia-a-dia. É a história de um jovem, cujos pais morrem e que vê-se obrigado a tomar conta da empresa familiar de construção civil, ao mesmo  que entram na sua vida (e na sua casa) uma jovem pouco mais nova do que ele e vários órfãos abandonados e problemáticos. O que para uns poderia transformar-se numa sitcom, o autor transforma numa reflexão meditativa (perdoem o pleonasmo) de atenção aos pormenores, e sobre o respeito pelas motivações de cada um de nós. A face quase gélida e inexpressiva dos  seus protagonistas não revela a turbilhão de emoções que se passa por baixo da barreira cultural e pessoal. Sim, é uma BD passada no Japão e sobre o Japão, mas as motivações e sentimentos são brutalmente universais.

Outro romance poderoso de Tolstoy é A Sonata de Kreutzer, uma opinião crua e dura sobre o relacionamento entre homens e mulheres. Lorsque Nous Vivions Ensemble parece ser o seu herdeiro espiritual. Conta-nos de uma relação entre dois jovens nos seus vinte anos, no Japão da década de 70. Acompanhamos episódios do seu dia-a-dia enquanto habituam-se à vida em comum num apartamento alugado (eles não são casados). A maioria dos capítulos centram-se no ponto de vista da jovem mulher, o que revela desde logo uma inversão de paradigma que faz lembrar os filmes de um dos maiores mestres da 7.ª Arte: Kenji Mizoguchi (também ele amante de Tolstoy). A relação entre ambos oscila entre momentos de paixão carnal e de conflito emocional aberto, uma tempestade que agiganta o oceano. Existem também episódios de ternura fugidia que muitas vezes culminam em novos confrontos verbais. Claro está que tudo parece visceralmente familiar e próximo, como todas as grandes obras de arte deveriam ser - ou pelo menos para aqueles que concordam com a opinião de Tolstoy.

Duas obras sobre um mesmo tema, o relacionamento entre homens e mulheres, com perspectivas bastante diferentes, vindas de um mesmo país. Ambas poderosas e, claro, universais. 

Ronin de Frank Miller na Colecção Novelas Gráficas III da Levoir/Público



A Novela Gráfica está de volta com o jornal Público e com a Levoir.

Desta vez abrem com a obra do mestre Frank Miller, Ronin, para o lançamento da colecção de Novela Gráfica 2017, composta por 15 volumes e cujo lançamento em banca é hoje, dia 30 de Junho. Edição em capa dura de coleccionador por mais 9,99€ cada livro.

Obras imprescindíveis e galardoadas com Prémios internacionais, autores nunca antes editados em Portugal como o espanhol Max e o israelita Asaf Hanuka. Histórias autobiográficas como Batman uma história verdadeira ou Tempos Amargos de Étienne Schréder, percursos pela História, pela literatura, pelo universo dos vinhos como em Os Ignorantes, por mundos distópicos, muito por descobrir e por onde escolher: 

- Ronin de Frank Miller do selo VERTIGO.
- Os trilhos do acaso de Paco Roca, de quem editamos A Casa e o Inverno do Desenhador em 2016.( Em dois volumes ).
- O Idiota do brasileiro André Diniz em primícia mundial.
- Batman uma história verdadeira de Paul Dini e Eduardo Risso do selo VERTIGO. Editamos de Eduardo Risso, Parque Chas em 2016 e Batman Noir em 2015.
- Polina do autor revelação em França, Bastien Vivès.
- Livros da mágia de Neil Gaiman do selo VERTIGO. 
- Uma nova edição com material inédito de Traço de Giz de Miguelanxo Prado, de quem já editámos Presas Fáceis em 2016.
- Vapor do emblemático autor espanhol MAX.
- K.O.Telavive do autor israelita Asaf Hanuka.
- Histórias do Bairro de Bartolomé Seguí e Gabi Beltrán.
- Os Ignorantes de Etienne Davodeau.
- Tempos Amargos de Etienne Schréder.
- Dylan Dog-Mater Morbi de Roberto Recchioni , Massimo Carnevale.
- Uma aldeia branca de Tomeu Pinya.
Em Ronin Frank Miller trabalhou vários elementos que seriam a sua marca-registada, como a influência da cultura japonesa e a narrativa cinematográfica.

A história de Ronin começa no Japão feudal do século XIV quando um jovem samurai que serve um nobre, Ozaki-Sama, é  testemunha da morte de seu mestre pelas garras de um demónio, tornando-se assim num ronin - termo usado para samurai sem mestre.  No clímax da batalha, Agat, que foi gravemente ferido com a espada banhada com sangue de um inocente – no caso, o próprio Ronin – lança um feitiço aos dois, aprisionando as duas almas na arma, que seria encontrada por cientistas nova-iorquinos no futuro. A história passa para o ano de 2030 numa Nova York apocalíptica. A narrativa conta com muitos duelos de espadas, cenas do Japão feudal e hordas de robôs. Os leitores são lançados diante desta fusão entre passado e futuro, com elementos orientais e futuristas.  O Herói principal é um improvável rapaz, sem braços ou pernas, mas dotado de incríveis poderes telecinéticos que vem a tornar-se um fantástico samurai ciborgue. 

Ronin é uma história sobre o que faz de nós humanos, sobre o poder que exercem as fantasias no mundo real e a supremacia do amor, é um épico e revolucionário clássico que merece ser lembrado e relembrado sempre.




Rapidinhas de BD - Vertigo is Dead, Long Live Vertigo



O título não é exagero. O famoso selo da editora norte-americana de BD, a DC Comics, está moribundo. Desde o seu início, no princípio da década de 90,  que a Vertigo não tinha tão poucos livros a serem lançados. Esta foi a casa fundada pela famosa Karen Berger, a lendária editora de BD, a mulher que deu-nos o Alan Moore dos EUA, o Sandman de Neil Gaiman, o Preacher de Garth Ennis e Steve Dillon, o 100 Bullets de Brian Azzarello e Eduardo Risso. São inúmeros os legados deixados por Berger e pela casa que fundou. A História da BD dos EUA e do mundo passa pelos seus corredores e pelo seu catálogo.

Legado também é a palavra correcta para falar destes dois títulos: um é já um antigo amigo, American Vampire de Scott Snyder com Rafael Albuquerque (no seu sétimo volume); outro uma adição, mas com uma equipa já conhecida, o Moonshine de Brian Azzarello e Eduardo Risso. Ambos bebem de um mesmo lugar, da marca de inspiração Vertigo/Berge. Existe a apetência para o terror adulto, negro e deprimido e, nestes dois casos, com inclinação sobrenatural. Poderia ser o horror do serial killer, poderia ser o fantástico pós-modernista. Contudo, os autores ingressam no puro e mais primordial dos horrores, recorrendo a monstros do fabulário e imaginário europeu/ocidental. São duas obras com vampiros e lobisomens, mas arquitectadas por autores que têm algo de novo a dizer acerca destes arquétipos muito conhecidos.

American Vampire é exactamente sobre o que título sugere. Skinner e Pearl são dois vampiros dos EUA, com características bem diferentes dos originais das terras europeias. Ao longo dos seis volumes anteriores assistimos ao seu nascimento e à sua luta para sobreviver, desde o faoreste do século XIX até aos fabulosos anos 20. Os conflitos são contra a sua própria natureza, contra vampiros de outras raças e contra a Humanidade. Neste sétimo volume o confronto é de natureza bíblica. Estamos na década de 60 e um mal primordial ressurge e persegue, indiscriminadamente, a raça de sugadores de sangue. Pode parecer banal mas, uma vez mais e como sempre, é o dedo dos autores que carrega aquilo que é normal e já visto para o reino do entretenimento de qualidade. O conceito deste livro (publicado pela DC e pela Vertigo) é da autoria do conhecido escritor de terror, Stephen King, mas cabe a Snyder a tarefa de levar a bom porto o conceito. E consegue fazê-lo de forma exemplar, demonstrando que, apesar de ter sido esta uma das primeiras obras que o tornou conhecido, continua a entretê-lo e a entreter-nos.

Moonshine vem com a marca de uma das novas Vertigos, a Image, que tem recebido em sua casa autores de várias editoras, para produzir, livremente e detendo os seus direitos, obras de temática diferente. O regresso da parceria Azzarello/Risso a uma obra mais longa era esperado desde a altura do seu essencial 100 Bullets. Voltam atrás no tempo para o final da década de 20 dos EUA, na altura da depressão e da lei seca, onde criminosos e personalidades menos solarengas pareciam multiplicar-se na ficção. Em suma, o casamento perfeito com as sensibilidades de ambos os autores, noir do átomo do cabelo (cheio de brilhantina) à molécula da unha (negra e ressequida) do pé. Existem produtores de whiskey (ou bourbon) clandestinos, homens com passado, mulheres fatais, hillbilly's sanguinários, gangsters violentos... e lobisomens. Que mais pode pedir-se a Azzarello e Risso? Nada excepto: muito bem-vindos de volta. 

O que vou lendo! Salto de Judith Vanistendael e Mark Bellido

Judith Vanistendael conheceu Mark Bellido no caminho de Santiago. Não sei se estava activamente à procura de uma nova história para uma nova BD (depois de David les femmes et la mort), mas a sorte conspirou para que a artista encontrasse este homem, em cuja história recente ela mergulharia nos três a quatro anos que se seguiriam. Mark Bellido tinha sido guarda-costas para autarcas no País Basco, autarcas que eram alvo de ameaças de morte por parte da ETA.

A razão para Bellido optar por uma carreira tão insegura tinha (e não tinha) a ver com necessidade: queria ser escritor e achava que apenas com uma experiência única, apenas com uma vida de "aventura", seria capaz de escrever o romance que o destacaria de todos os outros escritores. O autor tinha uma vida de vendedor de doces no sul de Espanha, onde habitava com a sua mulher e dois filhos. Decide então mudar-se da vida de sol para a chuvosa do norte, onde aceita a sua nova profissão de guarda-costas. Sem que isso constitua spoiler (mas ficam desde já avisados), esse novo trabalho é francamente absorvente em termos de tempo, levando-o a, por períodos cada vez maiores, ausentar-se da sua família. As consequências são as inevitáveis.

Segundo Judith, Bellido tinha acabado de sair desta vida quando a conheceu. O encontro iniciou uma colaboração que, já no final, tornou-se tensa. Decidirem-se pelo final da história transformou-se numa provação para ambos (Bellido tinha dificuldade em concluir) e acabou por ser um editor a fechar a disputa. O que ficou, a obra, é o testemunho pungente duma experiência forte, de uma história que valeu a pensa ser contada (mas talvez não a experiência em si, isto para Bellido).

Judith optou, graficamente, pelo lápis de cor (a sugestão parece ter sido de Bellido), contrastando de forma óbvia com o peso do enredo.  A inventividade em termos gráficos, em termos de estruturação de página e do modo como "parte" a história destacam o trabalho de Vanistendael, que, nas muitas páginas que constituem este relato, deixa que a narrativa respire e se exponha da forma apropriada ao momento - ora delicodoce, ora visceral. 

Às vezes os trabalhos mais  excepcionais vêm das experiências mais difíceis e das colaborações mais complicadas.

(Obrigado, Rui, pela sugestão de leitura)

Rapidinhas de BD - Undertaker, Saga e Drifting Classroom!



 

O prazer pop de diversão pode ter as mais diferentes formas. Não vem todo da mesma fonte, quer seja ela autoral, quer seja geográfica. As três Bandas Desenhadas que aqui vos proponho são disso prova. Cada qual do seu canto do globo, cada qual reflexo de uma filosofia bem diferente de "fazer BD". Cada uma capaz de entreter de forma diferente mas, vou ser sincero, não tanto pelo local de onde vem mas mais pela qualidade dos autores envolvidos.

Undertaker tomo 3, L'Ogre de Sutter Camp, continua esta BD de estilo western produzida em França (nunca consegui perceber o fascínio dos franceses por esta mitologia dos EUA), pelas mãos de autores conceituados da sua praça, Xavier Dorison e Ralph Meyer (agora também com o merecido crédito para a colorista, Caroline Delable).  Perseguimos as aventuras de Jonas Crow, agente funerário das planícies do Faroeste, que, junto com as suas duas companheiras de origem inglesa e chinesa, tem, nesta missão, a incumbência de perseguir um sofisticado serial killer avant la lettre - com as mais que necessárias ligações ao passado do protagonista. É um entretenimento descontraído (se a caça a um assassino o pode ser, claro), bem desenhado, com personagens interessantes ainda que, aqui e ali, um pouco maniqueístas. O trabalho de Meyer e Delable (desenhista e colorista) destaca-se claramente, sendo, cada um, um degrau acima em qualidade.

Atravessamos o oceano e o vazio do universo e passamos para as palavras e desenhos de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, respectivamente, no já incontornável Saga, volume 7. Dizer que esta BD é um vício é ser demasiado brando. A sagacidade, inteligência e imaginação com que os dois autores presenteiam cada novo tomo é desconcertante. Desta vez, Hazel, a narradora desde o primeiro capítulo, filha primogénita, fica ilhada num cometa errante junto com a sua muito disfuncional família. Cheio de sexualidade adulta e, por vezes, desconcertante, de eventos catastróficos, de personagens destrutivos e complexos, tudo marcas e estilos de Saga, a história deste sétimo volume não se afasta (e ainda bem) da "fórmula". Existe espaço para tudo isto e, mais uma vez, para avanços trágicos nas vidas dos muitos protagonistas.

Por último, viajamos no tempo e quase para os antípodas: Japão da década de 70 e para o trabalho do mestre do terror do mangá, Kazuo Umezo. Depois da leitura dos maravilhosos La Maison Aux Insectes ou La Femme Serpent, era urgente passar para uma das  suas mais conhecidas obras, este opus de nome Drifting Classroom. O conceito é deliciosamente terror-pop: uma escola é transportada para um mundo desolado e inóspito, onde trevas escondem um horizonte de planícies sem vida - pergunto-me se alguns autores de terror da década de 80 nos EUA não terão lido Umezo. O toque do mangáka serpenteia por um horror sem desculpas, com vítimas e monstros a aparecerem do lado quer das crianças, quer dos adultos. Ninguém é jovem ou simpático demais para fugir à implacável foice do terror de Umezo, e aí reside o fascínio (se é isso que o poderemos chamar) de quem lê as suas histórias. Regredimos ao estado de terror larval, umbilical, de impotência infantil. Sem duvida, um dos grandes.

O que vou lendo! Le Club des Divorcés, vol. 2 de Kazuo Kamimura

Este segundo volume do Le Club des Divorcés de Kazuo Kamimura fecha a história iniciada no primeiro tomo (leia aqui), recital da vida de uma jovem mulher de 25 anos, Yuko, divorciada, dona de um bar de alterne no bairro de Ginza, Tóquio, durante a década de 70. Esta obra, publicada em França pela editora Kana, permanece inédita em Portugal. É o espelho de uma época e de uma civilização pelos olhos de uma mulher numa sociedade fortemente machista como o é a japonesa.

Para tentar perceber o impacto de um livro chamado O Clube das Divorciadas teremos de ter noção de algumas questões relativas à cultura japonesa e ao peso da palavra "divorciada" na sua sociedade. Até o século XIX, o divórcio não era aceite no Japão, com consequências muito mais negativas para a mulher. Veja-se, por exemplo, o filme Os Amantes Crucificados de Kenji Mizoguchi (em exibição num ciclo deste realizador no Nimas), onde, (spoiler do filme) tanto homem como mulher praticam o adultério, mas enquanto ele é apenas destituído dos seus bens (não pelo facto de ter amante) ela é crucificada junto com o seu amante. Depois de 300 anos do período Edo, onde o Japão esteve sob o jugo de um shogunato ditatorial, serão necessárias gerações e vincadas cisões civilizacionais para vencer tiques societais.

Kazuo Kamimura relata-nos a história desta jovem mulher em pequenos episódios, enquanto tenta adaptar-se a esta vida, vencer o lado social e emocional do divórcio e contornar os muitos amores que desperta. Cada um dos contos é narrado com a leveza de uma bafo de cigarro na noite fria de Inverno, os sentimentos e os gestos mais subentendidos que declarados, espelhando não só a sensibilidade do autor mas, acima de tudo, a sua herança cultural.

Kamimura (que também aparece na história a frequentar o clube da protagonista)  enceta um manifesto feminista engajado, escrito e desenhado com a subtileza dos jardins invernais nipónicos e que permanece relevante mesmo que volvidos 40 anos desde que foi feito. Leitura essencial!

O que vou lendo! Injustice Gods Among Us, Year Two, The Complete Collection de Tom Taylor e vários

A queda de um anjo, o maior do universo da DC, continua. Depois de aqui vos ter falado do primeiro ano, continua o conto de um mundo alternativo onde o Super-Homem, mercê de uma tragédia que recaiu sobre a sua família, transformou-se no maior vilão da História. Como todos os vilões, ele não se vê como talo. Ele o salvador, o polícia da ordem que imporá regras e paz num mundo caótico e sem justiça. Heróis juntam-se à sua cruzada, outros opõem-se. Estes últimos inspirados e liderados por Batman, anátema do sonho despótico. Injustice Gods Among Us é inspirado no jogo de computador com o mesmo nome e conta os eventos que deram origem ao futuro distópico nele relatado.

Prosseguindo o trabalho do primeiro ano, Tom Taylor continua a escrever as linhas trágicas deste mundo negro. O escritor australiano segue a mesma fórmula, confortando-se no conhecimento das personalidades destes ícones da DC, ao mesmo tempo que os interpreta à luz de um enredo e de um objectivo: contar uma história empolgante e, desde o primeiro capítulo, cheia de surpresas. Fazendo pleno uso das premissas do jogo e da liberdade que as mesmas lhe permitem, Taylor deixa o leitor (principalmente se não tiver jogado) viciado e agarrado ao virar de página. O que vai acontecer a seguir é sempre a pergunta. E raramente ele nos desaponta.

O enredo deste segundo ano trás-nos o envolvimento do Corpo dos Lanternas Verdes (sigo a tradução da Levoir) e dos seus mentores e criadores, os Guardiões do Universo, seres omnipotentes e omniscientes quase tão velhos quanto o universo. Como todos os fãs da DC sabem, os Lanternas Verdes são os polícias do universo e a ascensão fascista de um actor tão poderoso como o Super-Homem obriga à sua intervenção. As consequências acontecem à escala cósmica.

Injustice Gods Among Us é divertimento para fãs (e não só) da DC Comics. É descomprometido e empolgante. Não posso pedir muito mais disto. Venha o ano três.

O que vou lendo! Le Club des Divorcés vol. 1 de Kazuo Kamimura

Kazuo Kamimura, autor de Mangá da década de 70, foi presenteado este ano com uma exposição e homenagem no indispensável festival de BD de Angoulême,  dando a conhecer a obra impar e autoral deste artista. Hedonista e bon-vivant, Kamimura viveu muito e morreu cedo (aos 47 anos) deixando, contudo, um legado único no panorama da 9.ª Arte, dentro e fora das fronteiras do Japão. A sua obra mais conhecida, Lady Snowblood, é uma parceria com Kazuo Koike, o mesmo do essencial Lone Wolf and Cub, tendo sido mesmo objecto de adaptação ao cinema. Ainda que não tenha lido Lady Snowblood, Le Club Des Divorcés está longe da temática medieval, samurai e de acção deste mas não deixa de partilhar algo do DNA: uma protagonista feminina. Este dado aparentemente inocente não deixa de ser relevante no contexto da época e da cultura japonesa.

Le Club Des Divorcés relata-nos a vida de uma mulher divorciada em Tóquio da década de 70, que decide vencer as dificuldades financeiras que essa situação acarreta abrindo um bar de acompanhantes e prostituição no famoso bairro de Ginza.  O ponto de vista da narrativa cinge-se exclusivamente à protagonista, centrando-se na opção de vida e nas consequências que a mesma tem para o seu quotidiano e para aqueles que dependem dela. Yuko é uma mulher complexa numa sociedade profundamente machista, onde o divórcio é visto de forma fracturante. Apenas com 25 anos, tendo ao cargo uma filha que tem de deixar ao cuidado da mãe, vale-se da beleza e experiência para seduzir homens, quer para o trabalho, quer para a vida pessoal. Nesse delicado equilíbrio entre uma e outra esfera, Yuko revela-se complexa nas falhas, uma espécie de predador benévolo que tem total conhecimento da sua ferocidade e poder.  Nem sempre esse poder ela consegue levar a um bom porto, acossada pelas exigências de mãe, pelas exigências de ser patrona do Clube e, principalmente, pela busca frenética e amedrontada que enceta de modo a vencer a sua solidão presente e principalmente a futura.

Kamimura exibe um delicado equilíbrio e sensibilidade , construindo em Yuko uma personagem exigente ao estilo de uma Madame Bovary  ou mesmo Anna Karenina. Esta é uma mulher que tem que vencer num mundo de homens e para homens, dona e vitima da sua beleza, como muitos dos grandes personagens femininos clássicos (nisso, também eles um pouco machistas).  O autor é dono de silêncios reveladores e de uma narrativa escorreita que obriga à atenção do pormenor, em sequências de eloquência cinematográfica. Sem duvida uma obra única e obrigatória. 

O que vou lendo! Dark Night, A True Batman Story de Paul Dini e Eduardo Risso

A publicação de biografias ou autobiografias em BD é, há muito tempo, uma tradição. Obras impares como Maus e Blankets nasceram desta inclinação e transformaram de forma perene o panorama da arte. Quer se queiram, quer não, também os super-heróis fizeram o mesmo, quer na dita BD de "qualidade" quer na outra, também dita, a da "cultura popular". O que raramente acontece (a minha memória não ajuda) é a junção das duas, como é o caso deste Dark Night, A True Batman Story, escrita por Paul Dini e desenhada por Eduardo Risso.  

Desenganem-se, dos que ficam curiosos pela leitura, que irão ler uma obra de acção e luta entre o Cavaleiro das Trevas e os seus muitos e coloridos adversários. Não que não possamos ver e apreciar o dedo do brilhante Risso a desenhar Batman, Joker, Hera Venenosa, entre muitos outros dos personagens míticos da mitologia deste personagem da DC Comics. Mas este é um livro sobre Paul Dini,  escritor de BD mas também da afamada série de desenhos animados Batman, The Animated Series, considerada por muitos fãs como uma das melhores séries deste estilo a grassar as telas da TV. Esta é a história da sua vida e de como um encontro fortuito e violento, quando escrevia para a série em princípios da década de 90, marcou-o de forma indelével.

Publicado pela DC e pela chancela da Vertigo, Dark Night é uma obra onde Dini escolhe a BD e os seus personagens favoritos desta arte para, corajosamente, expor a sua vida. A imaginação que o acompanha, diz ele, desde a infância, serve de conselho e de coro para os acontecimentos trágicos (ou não) da sua vida, descortinando-os de forma cândida e aberta. A honestidade é a chancela desta BD que não desvia-se do ridículo, abrindo espaço para que nós, leitores, nos identifiquemos de forma mais ou menos forte com Dini. A DC deixa que os seus muitos protegidos personagens funcionem como catalisadores e, ao mesmo tempo, exorcistas dos demónios que assolam a vida do escritor. Acredito que apenas alguém como Dini o possa fazer, tendo em consideração que já tanto contribuiu para a editora, principalmente com a criação de um dos seus mais famosos personagens: Harley Quinn, namorada do Joker e estrela do filme Esquadrão Suicida.

O trabalho de Risso é multifacetado, escolhendo estilos diferentes quando cada situação o impõe e justificando o porquê se ser um das mais requisitados e interessantes desenhistas da BD da actualidade. A parceria que enceta com Dini, tal como acontece com Azzarello (o de 100 Bullets e agora de Moonshine, este última da Image), é simbiótica. Risso não trabalha apenas com os escritores, é um dos escritores. 

Honesta, disfuncional, corajosa. Adjetivos sempre apropriados para uma autobiografia e também para este Dark Night, A True Batman Story de Paul Dini e Eduardo Risso.

O que vou lendo! Injustice Gods Among Us, Year One, The Complete Collection de Tom Taylor e vários

Ideias simples e novas são as mais difíceis. A frase "já tudo foi inventado" é provável que seja verdadeira - mas tenho dificuldades em acreditar. Desviar-nos para um novo ponto de vista poderá ser o proverbial "ovo de Colombo". Basta inclinar a cabeça, a perspectiva muda e conseguimos algo inovador. Basta abraçarmos a nossa personalidade para vermos algo nunca visto. Alan Moore, o famoso escritor (também) de BD, conseguiu-o na década de 80 e em duas obras consideradas essenciais: Miracleman e Watchmen (ambas publicadas em Portugal pela GFloy e Levoir, respectivamente). Moore importou o "mundo real" para o do super-heróis e transformou-o. Desde então, muitos foram os autores que de alguma forma o copiaram, e outros tantos os que, em oposição, tentaram repor o maravilhamento da fantasia juvenil. Frank Miller, escritor e desenhador americano de Comics, fez algo a uma escala diferente mas que, a par do anterior autor, também significou uma mudança de paradigma na BD dos EUA. Injustice Gods Among Us é um estranho filho das sensibilidades e histórias destes dois gigantes da 9.ª Arte.

Injustice Gods Among Us nasceu de um jogo de computador com o mesmo nome e trata-se de uma reinterpretação pós-apocalíptica do universo dos super-heróis - é a Chris Claremont e a John Byrne que deve-se a primeira iteração destes distopias com o seu X-Men: Days of Future Past, já transposto para o cinema. Nestas histórias, que de serem já tantas são parte integrante da mitologia dos super-heróis (ou um cliché, se preferirem), os personagens vivem numa paisagem subjugada a um dos seus inúmeros inimigos (X-Men: Age of Apocalypse, por exemplo), ou são eles próprios os causadores desse futuro distópico (Kingdom Come). Esta obra está integrada na segunda categoria. Neste universo alternativo, e na sequência de um evento catastrófico, o Super-Homem transforma-se num dos piores vilões da História. Constituem-se facções, uma de apoio ao Homem de Aço e outra contra, liderada por Batman - reflexos de Frank Miller e do seu Dark Knight Returns. Esta queda do anjo evolui para uma cruzada do Super-Homem e dos seus aliados para livrar o mundo de todos os conflitos, uma empreitada cheia de boas intenções e um caminho que apenas pode levar à derrocada moral dos envolvidos - pequenas inspirações de Watchmen.

Ao contrário da seminal obra de Alan Moore, Injustice Gods Among Us de Tom Taylor afasta-se (mas não totalmente) da profundidade intelectual e escolhe o espectáculo pirotécnico, o enredo surpreendente e a força das personalidades destes ícones da BD dos EUA. As versões dos personagens nem sempre são facilmente reconhecíveis para os fãs mais radicais (a queda do Super-Homem parece precipitada e a Mulher-Maravilha nada tem a ver com versões mais consensuais) mas não deixa de ser uma interpretação valorosa e, acima de tudo, cativante. Virar a página com sofreguidão para descobrir "o que vem a seguir" é um dos maiores atractivos desta série e do seu primeiro ano, compilado neste único volume. Não deixa de ser uma versão negra do universo DC, onde é difícil conseguir encontrar luz de esperança por detrás de motivações tão despóticas e sombrias. Contudo, os fãs da DC anseiam por este tipo de versões - aliás, para o bem e para o mal (mais para mal, pelo que dizem mas eu não sou um deles), foi desta visão que Zack Snyder partilhou para conceber o seu Batman v Superman. É óbvio que o prazer desta obra muito se deve à familiaridade que o leitor tem com a DC Comics mas, mesmo que tangencialmente, todos temos uma ideia de quem são o Super-Homem e o Batman. Conhecer este dois é ponte mais que suficiente para embrenharem-se na história.

Injustice Gods Among Us pode ser e é uma visão sombria do universo da DC, mas, devido a um enredo com muitas surpresas e a um conhecimento único das personalidades destes personagens, transforma-se numa leitura viciante. 

O que vou lendo! La Femme Serpent de Kazuo Umezo

La Femme Serpent é o terceiro livro do histórico mangaka Kazuo Umezo editado pela Lézard Noir. Antecedeu-lhe La Maison aux Insectes e Le Voeu Maudit, obras dentro da mesma linha a que o autor habituou os leitores: o Terror. Umezo é um lendário autor nipónico de Mangá, as suas obras tendo marcado uma ampla geração de leitores com tenebrosos e retorcidos contos, ao ponto das introduções destas três edições francesas serem escritas por romancistas, editores de Mangá e realizadores de Cinema japoneses. Parece não existir escapatória (em mais sentidos do que um) às infâncias marcadas pelas histórias do autor, cada um dos "introdutores" sentindo necessidade de relatar as emoções violentas e os sonhos roubados por Umezo. Ou melhor, os pesadelos gerados.

Os ocidentais tiveram o seu primeiro grande contacto com o terror de marca japonesa em filmes como Ring  e Ju-On, leituras de vingança e de apropriação de espaços familiares para extrapolar cenários de horror verdadeiramente atemorizante. Neste filmes estamos perante figuras que, de alguma forma, haviam feito parte do reino dos mortais mas que, por alguma razão sobrenatural, assombravam agora o mundo dos vivos. Um envolvia uma mulher de longos cabelos negros que materializava-se numa cassete de VHS que passava de mão em mão. Outro era a figura de um rapazinho que assombrava numa casa aconchegadoramente suburbana.

La Femme Serpent é um pouco como Ring, em que o "monstro" é uma mulher, também ela de longos cabelos negros e hábito japonês, mas que, ao contrário deste, habita o mundo dos vivos. O nome, Mulher-Serpente, indica claramente do que se trata, e este é, ao contrário dos dois primeiros volumes da Lezard Noir, um único conto de cerca de 300 páginas que envolve a titular personagem e a perseguição que enceta a jovens raparigas pré-adolescentes. O monstro já havia aparecido em Le Voeu Maudit, mas aqui assume protagonismo e destaque. Nesta obra, o autor escolhe cingir-se a personagens femininos, focando, uma vez mais, o terreno das relações filiais entre personagens. Esta mania de Umezo, ao evocar, no caso de La Femme Serpent, a relação entre mães e filhas, avós e netas, coloca-nos imediatamente num terreno justificadamente assustador. Ao escolher as roupagens da segurança, neste caso a da família, o mangaka coloca-nos numa posição de desconforto, o que contribuiu para  a intensificação das situações de horror, mesmo daquelas que poderiam ser, à partida, apenas para entretenimento. Como diz Hitomi Kanehara na introdução, Umezo entretém e atemoriza em igual medida. 

O desenho, o estilo de desconstrução da história, a mise en scéne, contribuem para contos atmosféricos de Terror que, apesar do meio, o da BD, não diminui o impacto das sombras que o autor procura construir. Do lado da história Umezo também se excede, construindo camadas e acabando onde começou, entrando de forma decidida em alguns dos cânones do Horror: nada acaba; não existe escapatória possível; as forças do Mal serão incansáveis na perseguição; não existe lugar seguro, nem na família, nem em casa, nem no Tempo.

O que vou lendo! Chiisakobé Vol.1 e 2 de Minerato Mochizuki


Existem sensações que são-nos mais aconchegantes do que outras. São parte do sangue e arrepiam a pele. Tem a ver connosco, com a nossa personalidade, misturada aos anos e aos segundos de vida. O Japão é uma ilha que deu origem a uma civilização com modos de estar e pensar algo diferentes de muitos países no mundo. O seu isolacionismo geográfico levou, durante largos períodos de tempo na História, a um isolacionismo cultural. Quando abriram-se ao mundo, o que aconteceu de forma mais clara no pós-Segunda Guerra Mundial, não deixaram de absorver partes dele mas de uma forma sua. O Mangá, a Banda Desenhada japonesa, nasce também por influência dos Comics dos EUA mas temperada pela cultura, linguagem, alfabeto de dentro das suas fronteiras. O Cinema teve um percurso semelhante. Estas duas artes, ambas produto do século XX, encontram na cultura do Japão uma das formas mais interessantes de miscigenação. O Mangá chama para a sua linguagem o movimento e o tempo do Cinema, mas ambos devem também muito ao modo como os japoneses vêem e experimentam o mundo à sua volta. Existe observação e reflexão na forma como vivem o passar dos segundos, existe conflito entre o moderno e o tradicional, entre a tecnologia e o artesanal, existe uma constante dicotomia que, contudo, e ao contrário de nós latinos, não é resolvida de forma exuberante. Provavelmente será por serem tão diferentes que atraem-me tanto.

Chiisakobé de Minerato Mochizuki é um Mangá inspirado num romance de 1957 de Shûgorô Yamamoto, cuja acção decorria no período Edo e que o mangaka transporta para os dias de hoje. É a história de um jovem arquitecto que perde os pais e que terá de tomar as rédeas da empresa de construção civil dos dois, ao mesmo tempo que se vê compelido a albergar uma jovem de 20 anos em sua casa e um grupo de cinco órfãos problemáticos. À semelhança do que acontece com outro autor japonês, Taniguchi, esta BD escolhe uma perspectiva mais pessoal e cultural na forma como aborda o enredo. O tempo dos personagens e, por influência, dos leitores, é de outra velocidade e convida à observação das páginas e da forma como Mochizuki  escolhe para contar esta história. O autor não tem pressa e não revela, por palavras, muito do que acontece. A perspectiva da sua câmara é, também ela, curiosa, preferindo, em muitos dos diálogos, focar-se em partes do corpo que, à partida, pareceriam estranhos: as pernas; os pés; o tronco. Ao afastar-se do rosto e preferir partes menos emocionais da fisionomia humana, provoca uma quebra no diálogo tradicional que o leitor tem com a BD. Será este um reflexo da história? Do autor? Ou da cultura japonesa onde as emoções são culturalmente contidas? Continuando a esticar esta análise, nunca vemos o rosto do protagonista na medida em que este está coberto por uma longa barba. E também não podemos deixar de reflectir sobre esta contenção emocional quando o pai de um dos personagens tem uma forma nada saudável de observação da filha e do seu corpo.

A história ela própria é, na sua essência, nipónica. A necessidade de perpetuar o legado dos pais, do país, enquanto defronta-se com as soluções que o mundo moderno tem para oferecer. Ao mesmo tempo, nesta luta pela continuação da herança dos progenitores,  procura o caminho honrado, sem depender da comunidade que, contudo, o tenta ajudar de uma forma, que para muitos de nós, mais cínicos, poderia parecer falsa.

Não deixa de ser curioso, e não conhecendo o romance original, que uma cultura possa ainda ser tão bem caracterizada através de uma história que originalmente ocorreu no período Edo (1603 - 1868), um período que formou muito da cultura deste país e que é caracterizado por um profundo isolacionismo em relação ao resto do mundo e por uma severidade moral e judicial ditatoriais. O autor não o terá feito de forma descabida. 

Estes são os dois primeiros volumes de uma obra de quatro. Venceu este ano no Festival de BD de Angoulême o Fauve Prix de la Série e é uma das provas de que o mangá é uma das mais estimulantes formas narrativas actualmente em publicação.