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Filmes favoritos baseados em BDs (parte 2 de 2)

Vejam a primeira parte desta lista aqui.

Esta é uma lista pessoal, como não poderia deixar de ser. Misturam-se inclinações, preferências, uma pitada de coração, algum cérebro e, acima de tudo, a vontade de os querer rever sempre. Seguem em baixo, por ordem alfabética.

Podem consultar aqui uma lista de todos os filmes, passados e futuros, baseados em BD. Escusado será dizer que vi apenas uma pequena parcela deles.

Man of Steel de Zack Snyder (2013)

Tinham passados apenas sete anos desde o mal-fadado Superman Returns de Bryan Singer, quando o também odiado Zack Snyder decide revisitar a mitologia do Homem de Aço.

Ronin de Frank Miller na Colecção Novelas Gráficas III da Levoir/Público



A Novela Gráfica está de volta com o jornal Público e com a Levoir.

Desta vez abrem com a obra do mestre Frank Miller, Ronin, para o lançamento da colecção de Novela Gráfica 2017, composta por 15 volumes e cujo lançamento em banca é hoje, dia 30 de Junho. Edição em capa dura de coleccionador por mais 9,99€ cada livro.

Obras imprescindíveis e galardoadas com Prémios internacionais, autores nunca antes editados em Portugal como o espanhol Max e o israelita Asaf Hanuka. Histórias autobiográficas como Batman uma história verdadeira ou Tempos Amargos de Étienne Schréder, percursos pela História, pela literatura, pelo universo dos vinhos como em Os Ignorantes, por mundos distópicos, muito por descobrir e por onde escolher: 

- Ronin de Frank Miller do selo VERTIGO.
- Os trilhos do acaso de Paco Roca, de quem editamos A Casa e o Inverno do Desenhador em 2016.( Em dois volumes ).
- O Idiota do brasileiro André Diniz em primícia mundial.
- Batman uma história verdadeira de Paul Dini e Eduardo Risso do selo VERTIGO. Editamos de Eduardo Risso, Parque Chas em 2016 e Batman Noir em 2015.
- Polina do autor revelação em França, Bastien Vivès.
- Livros da mágia de Neil Gaiman do selo VERTIGO. 
- Uma nova edição com material inédito de Traço de Giz de Miguelanxo Prado, de quem já editámos Presas Fáceis em 2016.
- Vapor do emblemático autor espanhol MAX.
- K.O.Telavive do autor israelita Asaf Hanuka.
- Histórias do Bairro de Bartolomé Seguí e Gabi Beltrán.
- Os Ignorantes de Etienne Davodeau.
- Tempos Amargos de Etienne Schréder.
- Dylan Dog-Mater Morbi de Roberto Recchioni , Massimo Carnevale.
- Uma aldeia branca de Tomeu Pinya.
Em Ronin Frank Miller trabalhou vários elementos que seriam a sua marca-registada, como a influência da cultura japonesa e a narrativa cinematográfica.

A história de Ronin começa no Japão feudal do século XIV quando um jovem samurai que serve um nobre, Ozaki-Sama, é  testemunha da morte de seu mestre pelas garras de um demónio, tornando-se assim num ronin - termo usado para samurai sem mestre.  No clímax da batalha, Agat, que foi gravemente ferido com a espada banhada com sangue de um inocente – no caso, o próprio Ronin – lança um feitiço aos dois, aprisionando as duas almas na arma, que seria encontrada por cientistas nova-iorquinos no futuro. A história passa para o ano de 2030 numa Nova York apocalíptica. A narrativa conta com muitos duelos de espadas, cenas do Japão feudal e hordas de robôs. Os leitores são lançados diante desta fusão entre passado e futuro, com elementos orientais e futuristas.  O Herói principal é um improvável rapaz, sem braços ou pernas, mas dotado de incríveis poderes telecinéticos que vem a tornar-se um fantástico samurai ciborgue. 

Ronin é uma história sobre o que faz de nós humanos, sobre o poder que exercem as fantasias no mundo real e a supremacia do amor, é um épico e revolucionário clássico que merece ser lembrado e relembrado sempre.




Plano Editorial da Levoir 2017

No passado dia 10 de Março a Levoir apresentou no Festival de BD de Coimbra parte do seu plano editorial para 2017, vimos agora acrescentar algumas novidades ao mesmo que ainda não foram comunicadas.

MULHER-MARAVILHA

Teremos o lançamento de uma colecção de 5 volumes da Mulher-Maravilha, personagem que acaba de celebrar o seu 75.º aniversário. São cinco títulos inéditos em português de Portugal, edição de capa dura com a qualidade que nos é habitual, e que estará disponível no final de Maio.

Títulos:
Mulher-Maravilha: Homens e Deuses (George Pérez)
Mulher-Maravilha: Deuses de Gotham (Phil Jimenez)
Mulher-Maravilha: A Hiketeia (Greg Rucka e J.G.Jones)
Mulher-Maravilha: Terra Um (Grant Morrison e Yanick Paquette )
Mulher-Maravilha: Um por todos (Christopher Moeller)




A Levoir já editou dois títulos desta personagem: Quem é a Mulher-Maravilha na colecção de 2013 (George Pérez, Phil Jimenez, Allan Heinberg, Terry Dodson ) e Super-Homem & Mulher Maravilha, Par Perfeito (Charles Soule, Tony S. Daniel) mais recentemente em 2016.

NOVELAS GRÁFICAS

Ainda no primeiro semestre de 2017, teremos o lançamento de uma nova colecção de Novela gráfica, sendo que podemos anunciar 3 títulos do selo Vertigo:

- RONIN de Frank Miller
- Dark night true story de Paul Dini e ilustrações de Eduardo Risso, presente também nas nossas edições no Batman Noir e no Parque Chas.
- The books of Magic de Neil Gaiman, autor da nossa colecção SANDMAN.




A BD franco-belga marcará também presença na nova série, de entre os quais destacamos:

- Os Ignorantes de Étienne Davodeau; autor com extensa obra e galardoado com vários prémios entre os quais destacamos o Prémio do melhor argumento e o Prémio do Público do Festival de BD de Angoûleme em 2012.

- Polina do jovem autor francês Bastien Vivès que se tem vindo a afirmar em  França e conta já com vários títulos editados. Polina recebeu o Prémio dos livreiros de BD em 2011 e o Grand Prix de l´ACBD (Associations des critiques et des journalistes de BD) em 2012, sendo que a obra foi adaptada ao cinema e tem estreia prevista em Portugal ainda este ano.




E como em todas as nossas colecções de Novela Gráfica, teremos um título do que de melhor se faz nos  fumetti (nome dado à Banda Desenhada em Itália) Dylan Dog, o investigador do oculto vegetariano, abstémio e com vertigens, criado por Tiziano Sclavi para a editora Bonelli. Iremos publicar Mater Morbi, escrita por Roberto Recchionni, o actual responsável pela coordenação da série Dylan Dog é uma reflexão sombria sobre a doença e das melhores histórias do detective do pesadelo das últimas décadas, muito bem ilustrada por Massimo Carnevale. Esta obra ganhou em 2016, ano do seu 30º aniversário,  o Prémio de melhor novela gráfica de terror pelos prestigiados The Ghastly Award.

Daredevil: Devil at Bay e West-Case Scenario de Mark Waid e a série de TV Daredevil



Rai’s parta ao diabo, ou melhor, ao Demolidor, que ultimamente é difícil de ser mau. Quer seja a lê-lo ou a vê-lo. Há 15 anos consecutivos que a Marvel não consegue publicar más histórias deste personagem (OK, o esforço do escritor Andy Diggle não foi dos melhores mas, ainda assim, superior à média). Começou com a dupla Kevin Smith/Joe Quesada, continuou com o último e David Mack (que até vai ser publicado em Portugal pela Levoir na sua nova coleção), a fabulosa e muito essencial saga de Bendis/Maleev, seguidos, em catadupa, de Brubaker/Lark e Diggle (com vários desenhadores). Esta “fase” foi longa, deprimente, negra e assustadoramente boa, porque bebia da pesada e nobre herança do segundo e talvez “verdadeiro” criador do Demolidor, Frank Miller (já falo mais dele). Depois de tanta tragédia, a Marvel decide ir por um caminho diferente, entregando o personagem ao escritor Mark Waid, que tem feito um trabalho extraordinário, declamando palavras que, bem misturadas, formam alguns dos melhores contos feitos para o Homem Sem Medo. Perdeu muito do ambiente noir que caracteriza o personagem desde que Frank Miller o fez seu e bebe mais da herança super-heroística. Contudo, e aí reside a arte de Waid, sem se afastar da aura fatalista que agarra Matt Murdock desde há muito.

Waid está na recta final da saga e, tradicionalmente para este personagem e ainda bem, a Marvel tem deixado em paz os autores que lidam com o Demolidor (excepto por um leve crossover com um evento num destes dois livros). Podemos, assim, saborear e sem molhos o prato desenhado pelo escritor. O personagem é, de facto e salvo as devidas distâncias, o Batman da Marvel, em que a visão do autor consegue moldar-se em volta do personagem sem perder identidade, quase como se todos quisessem deixar a sua impressão digital, não tanto na personalidade do Homem sem Medo mas antes no seu historial. Há personagens com essa sorte, em que a continuidade não os afecta e para os quais há espaço para a individualidade. Continuem a deixar o Demolidor em paz que nós agradecemos.


Frank Miller está em todo o código genético da maravilhosa série de TV que teve o Demolidor como personagem. Consigo dizer, sem reticências, que, para o meu gosto, a 1.ª temporada de Daredevil da Netflix é o melhor filme da Marvel até o momento. Solidamente assente no universo cinematográfico que iniciou-se em 2008 com o primeiro Iron Man é, contudo, completamente diferente. Adulto, violento, complexo, moralmente ambíguo, como dizia um amigo meu da Spoiler Alert, é os Sopranos dos super-heróis. Mas mais do que isso. Esta 1.ª temporada poder-se-ia antes chamar Wilson Fisk, que os fãs reconhecem como sendo Kingpin, o vilão do Homem-Aranha que Frank Miller re-imaginou como o Némesis de Matt Murdock. Nesse sentido é os Sopranos, porque a “viagem” de Fisk é tão (ou mais) importante quanto a de Murdock.


Os fãs como eu deliciaram-se com as interpretações de D’Onofrio como Fisk, Charlie Cox como Demolidor, Deboral Ann Woll como Karen Page, Elden Henson como Foggy Nelson, Rosario Dawson como Claire Temple, a Night Nurse, e, a minha favorita, Ayelet Zurer no papel de Vanessa, a amada de Kingpin. De facto, tenho dificuldades em encontrar falhas nesta excelente série, que quase me levou às lágrimas. Desde estes maravilhosos actores ao burilado e inspirado argumento, que bebe sem reverência escusada à BD, principalmente aquela que “interessa”, a de Frank Miller, tudo é bom, cuidado. Venha a 2.ª Temporada que mal posso esperar. 

A BD será sempre a minha casa.

"Não somos nós que regressamos à nossa terra. É ela que um dia chega aos nossos corações." - O Diário do Meu Pai, Jiro Taniguchi

Daredevil volume um número 182, Frank Miller.





Sin City – Mulheres Perigosas e Armas Redentoras

Sin City ficou conhecida pelo público em geral na versão cinematográfica de 2005, realizada em parelha por Robert Rodriguez e Frank Miller, este último o autor da BD original que lhe serviu de base. O filme abriu um precedente que seria repetido por Zach Snyder em 300 (BD do mesmo escritor e desenhista). As imagens eram retiradas das pranchas da banda desenhada ao ponto da obsessão. As palavras, também extraídas ipsis verbis da obra, eram proferidas pelos atores como se de uma peça de teatro se tratasse, declamadas com a cadência e a reverência dedicada apenas a alguns autores.

O filme de 2005 combinava três das obras que compõem a antologia que é Sin City. Estas são contos de uma cidade de pecado, suja com os relatos de desesperança humana, de homens perdidos pelo álcool, pela própria natureza e por mulheres belas e fatais como serpentes. Os três álbuns incluídos eram o homónimo Sin City, That Big Yellow Bastard e The Big Fat Kill (todos publicadas pela editora Devir), e a versão de cinema contava com nomes sonantes como Bruce Willis, Clive Owen, Mickey Rourke e Jessica Alba.

Passados 8 anos vamos finalmente ter a oportunidade de ver mais uma passagem para o grande ecrã da obra de Frank Miller, regressando a alguns dos personagens focados no primeiro filme. A história principal é baseada no álbum A Dame to Kill For, originalmente publicado em 1993, e conta o drama de Dwight McCarthy, interpretado no primeiro filme por Clive Owen e neste por Josh Brolin, e do amor e obsessão que nunca conseguiu largar, Ava, esta a ser desempenhada pela dolorosamente fatal Eva Green (quem conhece a sua interpretação de Morgan Le Fey na cancelada série da Starz, Camelot, sabe do que falo). Outra parte do filme será ocupada por uma história original, a da procura de redenção do personagem de Bruce Willis por parte da sua amada, a voluptuosa Nancy, interpretada por Jessica Alba, e pelo demente Marv, na realidade Mickey Rourke.

A Dame to Kill For é tudo o que um romance noir deve ser. Começa pela imagem de marca da série Sin City, a hiperbolizada imagética chiaroscuro, onde os personagens não são definidos pelos clássicos contornos da banda desenhada, mas antes pelas sombras, por um contexto de luz que reflete de forma explícita o seu impacto na história e nos outros protagonistas. A síntese do preto e do branco (em que o preto é contudo rei e senhor) espelha o ambiente e a alma deturpada dos intervenientes. Quando ouvimos a voz de Ava pela primeira vez, veludo e pecado do outro lado do telefone com Dwight, vemos apenas os seus lábios, levemente separados, a suspeita de dentes a entrever-se, uma promessa de noites perdidas. McCarthy sabe que está em sarilhos. Quando, num bar a tresandar a mau whiskey, charutos baratos, vómito e sémen, a conseguimos discernir no ar espesso de fumo, ela a figura de uma deusa de sexo e de promessas agridoces, percebemos que o homem não tem outro remédio a não ser cair.

As mulheres que Miller pinta em Sin City oscilam entre a nobre prostituta e a femme fatal, esta negra como o breu, azeda como o fel, traiçoeira como a cascavel. Assim é Ava, o erro que todos os homens adoram cometer, mesmo que movidos pelas mais nobres intenções. Ela corrompe cada um com o poder da mentira que veste, indumentária escolhida a dedo para melhor fazer cair o homem que seleciona como vítima.


Os homens, feios, rasgados, destruídos, tão depressa se entregam ao calor do amor que acreditam inocente, como explodem em violência desmedida e incontrolada. Em Sin City não há sentimentos para lá dos extremados. Assim é a cidade noir que Frank Miller idealizou. A obra é toda ela estilo, palavras que se cadenciam para a construção de um quadro obcecado com esta forma de narrativa. Nada se desvia do caminho para criar uma história de homens violentos, caídos, e mulheres que explodem em corpos impossíveis. Esta perigosa relação entre sexos acaba, impreterivelmente, na redenção oferecida pelo cano quente da pistola. Sin City é uma cidade que não acredita em finais felizes.

Sin City, A Dame to Kill For de Robert Rodriguez e Frank Miller

Frank Miller e Alan Moore são dois nomes que os fãs de BD bem conhecem. Ambos revolucionaram a 9.ª Arte dos EUA por volta do ano de 1986. O primeiro com The Dark Knight Returns e o segundo com Watchmen. Ambos prosseguiram as suas carreiras de forma profícua, ambos continuaram a criar caminhos que outros autores de BD seguiriam. Frank Miller, especificamente, criaria duas obras que, neste século XXI, seriam alvo de adaptações para o Cinema, quando a Banda Desenhada começou a ser uma das maiores fontes de inspiração para o grande ecrã. Uma, 300, o relato estilizado da Batalha das Termópilas, foi acalentado mundialmente em 2006. A outra, Sin City, abria em 2005 o espaço para a reverência ao autor de BD. Pela primeira vez, os quadradinhos da obra serviam como inspiração direta para os enquadramentos da objectiva do realizador. Os diálogos eram retirados dos balões, as palavras respeitadas à letra, como se de uma peça de teatro se tratasse.  Passados quase 10 anos, Rodriguez e Miller voltam à cidade do pecado, com muitos dos mesmos actores, para adaptar o livro A Dame to Kill For.

Foi este um bom regresso? Sim e não. Claro que boa parte do efeito de novidade desaparece mas quando o filme permanece fiel às palavras e - principalmente - ao ambiente criado pelo autor de BD as coisas vão correndo pelo melhor. O problema  é quando isso não acontece. Ao contrário do filme anterior são criadas novas histórias para este novo esforço, uma que consegue beber às intenções do autor, outra que resulta muito pouco já que foge à "fórmula". A principal, aquela que bebe directamente à BD, essa resulta da mesma forma que no filme original, os atores entregando as palavras ao melhor estilo noir hiperbolizado que tanto fez as delicias de quem leu Sin City pela primeira vez nos idos da década de 90. Eva Green é maravilhosa como a titular Dame to Kill For. Josh Brolin encarna perfeitamente o anti-herói  típico de Frank Miller. E os restantes atores, os que regressam como Alba, Rourke e Dawson, basicamente sublinham aquilo que já antes tinham feito.

Os cenários, a mise en scéne e o ambiente é exactamente aquele que se espera na continuação do filme original, excepto por uma sarapintadelas de cor que parecem demasiadas. Mas é também aí que falha. Tudo parece ser mais do mesmo. O que funciona em BD, pela repetição, aqui soa a material gasto e revisitado - o famoso "been there, done that". Se, por acaso, este filme tivesse sido feito há seis anos atrás não saberia tanto a sopa requentada. Hoje, sabe a tarde demais. Ainda assim, Frank Miller não se pode queixar. As suas obras de BD, apesar deste esforço mais fraco, continuam um patamar acima das adaptações do seu contemporâneo revolucionário, Alan Moore. Enquanto que Miller ainda tem, apesar de tudo, este menos conseguido mas divertido Sin City  - A Dame to Kill For, Moore ainda se lembra de From Hell e League od Extraordinary Gentlemen.  

Parece que estamos a assistir a um final de ciclo.  Este ano os filmes de BD começaram a dar os primeiros sinais de fadiga com o segundo Homem-Aranha e este Sin City que, nos EUA, foi um gigantesco fracasso. O que o futuro trará logo se vê, mas, por enquanto, o filme baseado em BD não tem perspectivas de abrandar, tendo em conta o que aí vem nos próximos anos. Mas em 2014 fizemos a última visita à cidade do pecado.

Frank Miller, entre Batman e 300

Frank Miller tornou-se num dos poucos escritores/desenhistas de BD que saiu do mundo anónimo desta arte e assumiu-se no mainstream. Segura e lentamente foi construindo uma obra irrepreensível e inquestionável que edificou a actual fama e o reconhecido mérito.

Começou como muitos começam, a desenhar uma quase incógnita BD que adaptava a série de TV Twilight Zone, mas após ilustrar dois números de uma revista mensal do Homem-Aranha de 1979 o seu talento passou a ser melhor reconhecido pelos pares e pelo público (publicadas pela Levoir-Público no primeiro volume Heróis Marvel publicado em 2012). Deste personagem, Miller salta para um outro, o homem sem medo conhecido por Demolidor (Daredevil, no original), este o definitivo trampolim para a fama.

A revista homónima do personagem estava ameaçada de cancelamento e, como era habitual, foi dada carta-branca a um criador menos conhecido para fazer aquilo que bem entendesse. De início era apenas o desenhista, mas quando o escritor regular da revista a abandonou, imediatamente e sem qualquer tipo de compunção ou vergonha, Frank Miller começou uma das mais extraordinárias criações da década de 80. As suas histórias foram um dos marcos evolutivos da BD americana, ao escrever com vincada assinatura e total liberdade um personagem que ganhou vida e personalidade, inclusive superando o criador deste herói cego, o mítico Stan Lee. A relação simbiótica de Miller com o Demolidor durou vários anos e o que este autor trouxe para o personagem foram basicamente todas as suas idiossincrasias. Começou com o amor pela banda desenhada japonesa, o Mangá, e muito especialmente uma obra, Lone Wolf & Cub, o que se sentiu logo na primeira história com o aparecimento de uma antiga e esquecida paixão do personagem, uma ninja marcada pela morte extemporânea do pai. Havia a sensibilidade noir não só influenciada pelos mestres desta literatura como Philip Marlowe ou Raymond Chandler, mas também pelos representantes deste estilo na BD como o Will Eisner e a sua criação Spirit. Os homens eram duros, a cidade suja, as mulheres fatais. E o Demolidor saiu da sombra do cancelamento e passou a vigorar no átrio dos personagens mais míticos da Marvel. Frank Miller teria ainda outras oportunidades com este, agora seu, personagem, sendo a mais conhecida a extraordinária história Demolidor Renascido (recentemente publicada pela Levoir-Público) que, uma vez mais, ajudou a trazer a merecida maturidade para uma arte tantas vezes posta de lado como infanto-juvenil.


O ano de 1986 é considerado por muitos entendidos como o melhor da Banda Desenhada americana, e claro que Frank Miller esteve no meio dessa tormenta, nomeadamente com The Dark Knight Returns, o relato dos últimos anos de um Batman reformado. Miller apresentou-nos um Batman afastado há cerca de 10 anos e que, confrontado com uma cidade e sociedade anárquicas que não reconhece, decide voltar e impor a sua forma de ordem. Não existe nesta BD nenhum compromisso infanto-juvenil. O Batman de Miller é um vigilante negro, determinado e com laivos despóticos, sem complacência para filosofias new age de compreensão das razões do criminoso. Mas o autor, ao contrário do que seria de esperar, não se afastou da matriz que criou Batman, antes aproximou-se mais porque o Cavaleiro das Trevas original não era um simpático super-herói, mas um implacável justiceiro.

Com a fama conseguida com The Dark Knight Returns, Miller continuou com Batman, mas desta vez para relatar a origem definitiva do herói em Batman: Ano Um (ambas estas histórias foram publicadas pela Devir). Em apenas duas obras de quatro capítulos cada, o autor conseguia imprimir a sua visão de forma indelével em mais um personagem mítico da BD americana e, ainda que nas duas décadas que se seguiram tenha voltado a este personagem, estava agora preparado para outros voos. Segue-se a publicação independente.


O autor foi um dos criadores a transferir-se para a já na altura relevante editora independente Dark Horse, onde criaria duas das mais importantes bandas desenhadas da década de 90: Sin City e 300. Se já ouviram falar destes nomes poderão ser uma de duas coisas, fãs de BD ou de Cinema. As duas obras foram adaptadas para a 7.ª Arte pelos realizadores Robert Rodriguez (na companhia do próprio Miller e de Tarantino) e Zach Snyder, respectivamente, e tinham a característica de fiel e quase fanaticamente transferir para a película as pranchas e as palavras do autor, revelando um amor e reverência geralmente reservada ao mais renomeado dos artistas. A idolatria não era desmerecida.


Em Sin City, Miller dava asas à sua inclinação noir, já revelada em Demolidor e Batman, assumindo-a e hiperbolizando-a. Os homens eram extraordinariamente duros, a cidade caricaturalmente suja e as mulheres… ah, as mulheres… desesperadamente fatais, perigosamente curvilíneas, arrebatadoramente belas. As situações eram de limite, tão perto do abismo que o monstro que nele habitava desenhava o bafo quente das suas entranhas podres no semblante de quem para ele olhava. O fim dos protagonistas raramente era belo. A tragédia ecoava forte nas ruas esconsas de Sin City.


Finalmente, em 300, o escritor/desenhista cumpre um sonho de longa data e decide relatar a famosa Batalha das Termópilas onde, segundo alguns, o destino da civilização ocidental foi decidido por 300 soldados Espartanos liderados pelo seu Rei, Leónidas. A simplicidade do evento atraiu Miller que, determinado, partiu para a investigação in loco do momento histórico e adaptou-o numa BD que veio a revelar-se um êxito, não só de vendas como também de crítica. Como em todas as suas obras, imprimiu a sua muito particular visão em pormenores como a vestimenta dos guerreiros, a linguagem, os planos, a velocidade da narrativa, o ponto de vista dos eventos, entretecidos num todo coerente com a sua personalidade. E foi sempre isto o que o elevou um pouco acima dos pares. A voracidade com que imprimia uma visão nas obras às quais se dedicava. Só assim se constrói um verdadeiro autor.


Demolidor – Ler sem medo! – parte 4.ª

Para artigos anteriores da rubrica Ler sem Medo, cliquem neste link.

Este é o único livro que devem ler do Demolidor, isto se não tiveram tempo ou paciência para ler outro qualquer protagonizado pelo personagem. Publicado pela Levoir/Público no ano passado, é possível lê-lo em português e a um preço perfeitamente aceitável, numa edição de qualidade, não só na impressão como também na tradução – chama-se Demolidor – Renascido.
O título, ainda que perfeitamente banal, adquire, com o conteúdo da história, um significado que nos leva a crer que a escolha do mesmo não poderia ter sido outra. Este é a história de um renascimento, típico em heróis sujeitos a adversidades sobre-humanas, o conto do ressurgir das cinzas depois de testado para lá dos limites. Mas ao que poderia ser feito de forma banal são adicionadas camadas que transferem o significado para uma outra esfera, esta assumidamente religiosa, ao contextualizar o sofrimento do herói no calvário de uma figura divina (extraordinariamente) conhecida da História da humanidade. Claro que não se trata de nada de novo, mas não só é sublimemente bem escrito e desenhado como, no contexto dos super-heróis, foi considerado inovador.
Esta é a história de Matt Murdock, o nome do homem que enverga as vestes do demônio Demolidor, e do que tem de prescindir para perpetuar a sua luta. Todos os elementos do herói clássico, mas também do redentor que sofre pelos nossos pecados, estão aqui presentes, alicerçados numa figura a quem não atribuiríamos algumas das características destes dois tipos de personagens – afinal, estamos a falar de um homem que se veste de demônio. Mas é deste molde que renasce um vingador dos afastados, dos submissos, dos esquecidos. É daqui que renasce um dos mais interessantes personagens da BD americana.
Tudo graças ao engenho de um dos maiores autores desta Arte… Frank Miller. Neste volume, assume-se como o definitivo escritor dos destinos do Demolidor, aquele a quem todos os que vieram a seguir (e mesmo antes) devem ser comparados, com todas as injustiças advindas desta comparação.
Não revelei, propositadamente, quase nenhum pormenor do enredo deste livro, isto para vosso benefício. É verdade que se trata de uma história que transcende o simples “o que vai acontecer a seguir”, impregnada que está de várias camadas de complexidade narrativa e emocional, mas é sempre elegante não ser um estraga-prazeres.