A editora portuguesa G Floy, desde que adquiriu os direitos para publicação do catálogo de BD Millarworld, o selo do escritor escocês Mark Millar, tem lançado, de forma regular, trabalhos do autor. Escolha atempada, já que esse mesmo selo foi adquirido pela gigante Netflix, para que, em simbiose, ambos produzam conteúdos e conceitos que possam existir, simultaneamente, em papel e em ecrã de TV. KM/H e o segundo volume de Legado de Júpiter são dois bons exemplos dessa troca.
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Imperatriz vol. 1 de Mark Millar e Stuart Immonen (GFloy)
(a partir de 28 de Fevereiro nas bancas)
A história passa-se no passado distante do nosso planeta, há 65 milhões de anos, quando os nossos antecessores governavam as paisagens do planeta que viria a ser a nossa casa. Envolve a fuga de uma rainha das mãos psicopatas de um governante ditatorial, o seu marido. Uma fuga que a levará, aos seus filhos e amigos aos quatro cantos do universo em busca de refúgio em civilizações alienígenas coloridas e multifacetadas.
Imperatriz é a definição de blockbuster. A velocidade é vertiginosa. Millar e Immonen não deixam o leitor respirar, obrigando ao frenético voltar de página, ao desespero de saber o que virá a seguir. O artista tem espaço para brilhar, ao inventar inúmeras paisagens extraterrestres, seres alienígenas, acção incontida. O escritor é parcimonioso nas palavras, estilo pelo qual é conhecido, o que contribui para a velocidade da leitura mas também da obra em si. Millar é um verdadeiro parceiro do desenhador, permitindo-o brilhar com a sua estética e design, sem limites e com o mínimo de intromissão. Digamos que é o anti-Alan Moore. As suas histórias são big concepts de diversão desregrada e (quase) acerebral. Diversão e entretenimento puros que prendem e relaxam.
Acabamos Imperatriz com a sensação de ter visto um filme de alto orçamento. Entretidos desde a primeira à última página. E temos de agradecer à GFloy o prazer que nos dá ao imprimir as suas obras em formato maior que comic. Uns vêem televisão. Com estas edições vamos ao Cinema.
Kingsman, The Golden Circle de Matthew Vaughn
Querem saber qual o filme baseado em BD mais BD que passou nos cinemas neste ano da graça de 2017? Não precisam de ir mais longe do que este maravilhosamente hedonista Kingsman, the Golden Circle, sequela do também delirante Kingsman: The Secret Service de 2014. Regressam (quase) todos os intervenientes do primeiro, desde realizador a actores, com algumas adições valiosas na pele de Channing Tatum, Halle Berry, Jeff Bridges, Pedro Pascal, Julianne Moore e... Elton John (a fazer dele próprio). Se este último nome não vos convence da loucura que é este novo Kingsman, então não estão preparados para ele.
Tudo é hiperbólico sem deixar de ser ao estilo do primeiro. Cenas de acção que, de tão únicas, ficam para sempre associadas a Kingsman. Câmara "real", a acompanhar os movimentos vertiginosos dos protagonistas como se colada às suas costas. Rodopio, cambalhotas, hiperviolência, sexo, nada aqui é acção destilada e pronta a ser consumida por petizes inocentes. Isto é para adultos com sentido de humor e com cérebro desligado (não estou a ser irónico e é antes um elogio). Existe um lado de não-estamos-a-levar-isto-muito-a-sério-e-estamos-aqui-a-nos-divertir. E isso transpira em cada cena de acção escabrosa, cada enredo descabelado, cada décor tão berrante que poderia ter nascido do cruzamento entre BD de Jack Kirby e o 007. Delirantemente pop e muito, mas mesmo muito, divertido.
Não pensem daqui tirar grandes lições de vida ou reflexões profundas sobre a razão de ser da Humanidade. A entrega do realizador é toda para um entretenimento sem desculpas, delirante, divertido e, digo-o uma vez mais porque é mesmo preciso reforçá-lo, adulto. Os adolescentes vão gostar mas isto não é para vender bonecos à lá Disney. Não se lava a mensagem nem o enredo com Omo Mais Branco para incluir o maior número de pessoas sensíveis a tudo e mais alguma coisa. Há ofensa. Há politicamente incorrecto. Há diversão (para quem gosta destas coisas).
Sim, é o filme de BD mais BD do ano. E graças a Deus por isso. Parabéns a Matthew Vaughn.
Swamp Thing, Darker Genesis de Mark Millar, Phil Hester e outros
A década de 80 na BD dos EUA foi um ponto de viragem nessa arte. Um dos momentos zero que assinalou essa viragem foi o trabalho dos ingleses Alan Moore e Stephen Bissete numa personagem moribunda da DC Comics: o Swamp Thing - Monstro do Pântano em português. Para não arriscar substancialmente, a editora de BD deu carta branca aos dois autores para trabalharem nesta personagem pouco conhecida e marginal. Apesar das credenciais e criticas favoráveis de obras produzidas do outro lado do oceano (Miracleman), a DC não estava ainda disposta a dar o proverbial tudo por tudo. Depressa corrigiriam esse rumo, após Moore e Bissete provarem, com a lendária sequência de histórias no Swamp Thing, do que eram capazes. Não só marcaram indelevelmente a 9.ª Arte como uma personagem que ficaria para sempre associada à qualidade do seu trabalho (na Marvel o mesmo aconteceu, por exemplo, com o Demolidor de Frank Miller).
Após a saída de Moore (que deixou o Monstro do Pântano depois de Bissete, este sendo substituído por Rick Veitch), muitos foram os que, até hoje, o seguiram nesta personagem e todos, de uma forma ou de outra, não conseguiram sair da sua sombra ou influência, num misto de homenagem e medo. Recentemente, a DC tem revisitado em formato de Trade Paperback algumas sequências de histórias de margem das décadas de 80 e 90 e, desta vez, coube ao Monstro do Pântano de Mark Millar e Phil Hester. Começaram com The Root of All Evil e continuam com este Darker Genesis.
Este volume colecciona um arco onde a personagem titular vê-se envolvido com um estranho assassinato invertido, onde as primeiras cenas da história são de uma mulher a ser reavivada, como num filme visto em rewind. Essa mulher é uma escritora frustrada que não pode abandonar o mundo dos vivos enquanto não completar a sua obra máxima, uma colecção de histórias fantásticas às quais, segundo, ela, falta um elemento essencial: o próprio Monstro do Pântano. Para apaziguar a alma da jovem, a personagem titular encetará várias viagens por mundos paralelos para ajudar a finalizar os enredos das histórias: visita a Terra-3 da DC Comics, onde tudo é ao contrário e o Super-Homem e o Batman são vilões - mas não aparecem, o foco é outro; uma terra onde os nazis venceram a 2.ª Guerra Mundial; outra onde um herói idoso enfrenta um outro tipo de monstro do pântano; etc. Os vários enredos, aparentemente desconexos, confluem para uma macro história que é-nos revelada no final.
O trabalho de Millar ainda não era particularmente conhecido nesta altura e é também um dos mais fortes na sua carreira. Hoje em dia, o autor escocês dirige os seus esforços para histórias ao estilo de uma Grande Ideia, desenhando obras muito direccionadas para a adaptação pelo Cinema. Aqui é mais focado, controlado e pessoal, notando-se já a apetência para essas Grandes Ideias, mas temperada, acabando por construir um verdadeiro page-turner cheio de conceitos e execução interessantes. Faz-se acompanhar por desenhadores também em início de carreira e que, hoje, são nomes mais ou menos relevantes da arte: Phil Hester, o principal colaborador neste Monstro do Pântano, Chris Weston, Phil Jimenez e Jill Thompson. Acabam por construir uma sólida sequência de histórias antes do próxima colecção, não só a sua última como a que junta os derradeiros capítulos da revista do Monstro do Pântano à altura, a mesma que nos deu Alan Moore nos EUA.
BD é o comboio de regresso.
"Alec Holland - I'm just a ghost made of flowers.
Electric Messenger - You woke from a reality into a dream. It's time to return."
Swamp Thing, número 142, escrito por Grant Morrison e Mark Millar.
Imagens de Ekho Monde Miroir, desenhos de Alessandro Barbucci.
Rapidinhas de BD - Ekhö, Monde Miroir, Hollywood Boulevard e Secret Service
Ekhö, Monde Miroir vol.3 , Hollywood Boulevard de Christophe Arleston e Alessandro Barbucci
Cliquem neste link para um post sobre os dois volumes anteriores.
Continuam neste terceiro volume da série Monde Miroir as aventuras de Fourmille Gratule e Yuri Podrov. A primeira é a mega-voluptuosa e muito histriónica heroína, ele o companheiro que se viu apanhado por acaso no destino da primeira. Neste novo volume, os dois viajam para a versão de Hollywood deste mundo espelho governado por esquilos mágicos e onde a electricidade não foi descoberta. Ao invés disso, são utilizados estranhos substitutos de toda e qualquer tecnologia do nosso mundo: uma espécie de dimensão steampunk.
Esta nova história continua no espírito dos duas primeiras, misturando humor, cenários extraordinários, alguma sensualidade, tudo passado num universo cartoonesco, ou não estivéssemos a usufruir dos maravilhosos desenhos de Barbucci, que trabalhou para os estúdios Disney. É aliás, o desenho deste autor o grande atractivo da série, com a sua atenção ao detalhe, com o enorme controlo da acção e com uma beleza que não sendo nada discreta não deixa de ser particularmente atraente. A história em si é simples, sem grandes pretensões para além do puro entretenimento - e isso não é nada de errado. Neste novo volume o enredo anda à volta de uma interpretação da já eterna história de Marilyn Monroe e John F. Kennedy. Não acrescenta mas diverte.
Secret Service de Mark Millar e Dave Gibbons
Esta é a BD que inspirou o muito divertido filme Kingsman. Saído da mente do escritor Mark Millar e do desenhador Dave Gibbons, desde o seu início que os leitores sabiam que a mesma iria passar para o grande ecrã. O que eu, particularmente, não esperava era a BD não ser tão boa quanto o filme. Sim, leram bem... a BD não teve o mesmo impacto que a sua versão cinematográfica. Porquê? Pura e simplesmente porque não é tão divertida e tão cheia de ideias. Enquanto o filme, por exemplo, procura uma atmosfera puramente britânica, analisando os trejeitos da cultura, a BD fica-se por um enredo cujo vilão (que pouco ou nada é aquele mostrado por Samuel L. Jackson) tem uma ligação ao universo dos geeks não só dessa arte como de outras que atraem a adoração destes.
Eu sei que estou a fazer algo que nunca se deve fazer: comparar duas artes e duas histórias que, ainda que provenientes da mesma origem, têm soluções narrativas completamente diferentes. Mas, ao mesmo tempo, é-me difícil não o fazer, porque o avalanche de ideias que geralmente se associa a Millar não está particularmente reflectido neste Secret Service - em boa verdade, eu não tenho sido um grande fã da maior parte dos seus esforços na série Millarworld , uma marca que criou para englobar todas as suas mais recentes produções, como sejam Wanted e Kick-Ass. Existe de facto um deserto de ideias quando comparado com o filme Kingsman (sei que erradamente, volto a referir). Ocorrem, aqui e ali, alguns momentos mais interessantes e inspirados e verifica-se alguma partilha de código genético entre as duas obras. Contudo, a distância de qualidade é muito grande e óbvia para a simplesmente colocar de lado. É pena, porque estamos a falar de dois grande criadores da 9.ª Arte.
Kingsman, the Secret Service de Matthew Vaughn
Os amantes de Banda Desenhada americana conhecem os nomes Mark Millar e Dave Gibbons. O segundo, desenhador, é uma das mentes criativas por detrás do essencialíssimo Watchmen. O primeiro, escritor, escocês, entrou pela porta grande dos Comics e teve sempre o talento e a sorte de escrever para as maiores empresas e para os maiores personagens. Foi responsável pelo Super-Homem ser adoptado por Stalin e por uma Guerra Civil entre os personagens da Marvel, opondo, de um lado, o Capitão América e, do outro, o Homem de Ferro. Contudo, depressa percebeu que os seus talentos seriam melhor aplicados na criação de ideias originais e concebeu o conceito Millarworld. Com esta marca, publicada em várias editoras, pôde, junto com os melhores desenhistas do universo da BD americana, desenvolver histórias que o catapultaram para o primeiro plano não só da 9.ª Arte mas também do Cinema. Os espectadores já puderam ver Kick-Ass, que criou junto com John Romita JR, e agora é a vez de Kingsman, um filme que antes de o ser foi uma BD (eu não me esqueci de Wanted mas o filme pouco ou nada teve a ver com o original).
Esta introdução tem duplo intento. Primeiro, ficar bem claro que este filme tem uma história retirada de uma mente criativa muito particular, a de Mark Millar. Segundo, a estética do mesmo deve muito à arte na qual foi buscar inspiração.
Kingsman é um filme de acção como há muito não se via. Divertido, idiossincrático, fora do comum. Não existem aqui tantos lugares-comum quanto é costume neste tipo de narrativa, muito por causa da sua origem geográfica: este é um filme britânico feito por britânicos. Essa origem nota-se em todos os momentos do filme e, principalmente, na história e ambiente. Ambiente que deve muito, sim, a Ian Fleming e ao seu mais famoso personagem, 007, mas também à cultura e História da ilha de Sua Majestade: a importância do sotaque; a forte hierarquização social; a nobreza como instituição; a educação; o amor por classe e alfaiates; etc. No que respeita ao primeiro, existe mesmo uma muito divertida inversão em relação ao vilão do filme. Ele é interpretado por Samuel L. Jackson a falar no seu melhor sotaque americano (com um twist que só ouvido) e envergando roupas que são o inverso da sobriedade. Em muitos filmes com origem nos EUA o vilão ou é inglês ou tem sotaque desta ilha. É um lugar comum. Por outro lado, são sempre ultra-sofisticados e instruídos (vejam Die Hard, por exemplo). Kingsman é o oposto. O herói é sofisticado, bem vestido, com sotaque impecável e educado. O vilão é, sem duvida, inteligente, mas rude, mal vestido e com um sotaque absolutamente deplorável - ainda que o nesta coisa do sotaque um outro herói da história também tem um apontamento a fazer.
A ação do filme, uma das mais fortes razões porque nos deslocarmos a vê-lo (para as mulheres é Colin Firth), é fora do comum para um filme que procura atrair um público mais abrangente. A violência é sanguinária, de um esteticismo que não deixa de a embelezar mas que também a analisa de uma forma diferente: hilária, por um lado, dura, por outro. Existem dois momentos altos no que respeita a ela e que devem ser muito bem apreciados: um passado numa igreja dos EUA e outro num dos momentos climáticos do filme - que mete muitas explosões. Estas duas cenas sublinham também uma outra característica da violência Millariana: a catarse. Millar aproveita-se sempre dos seus personagens para ajustar contas com coisas que, pessoalmente, lhe metem pirraça e parte para a ignorância da violência extrema.
Sinceramente, não tenho qualquer tipo de reserva a fazer a este filme, já um dos mais divertidos e melhores que vi neste ano. Realizador, actores, escritor, estão todos de parabéns, por nos ter oferecido momentos originais muito fora de comum. E, já agora, desses momentos, tenho mesmo de destacar o que involve uma princesa Sueca (a primeira a resistir aos avanços do vilão americano - uma metáfora muito pouco subtil). Acontece mais para o final e dá a pincelada final num quadro completamente diferente. 5 estrelas.
Colecção DC Levoir/SOL – 7.º Volume: Super-Homem
(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta colecção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)
Grau de acessibilidade: Fácil
Sai Sexta-feira, dia 10 de Janeiro, junto com jornal SOL e custa 8,9€
“Em Elseworlds,
os heróis são tirados dos seus ambientes naturais e colocados em lugares e
épocas estranhas – algumas que de facto existiram, outras que poderão ter
existido e outras ainda que não podem ou poderiam ter existido. O resultado são
histórias que recriam personagens, familiares como o ontem mas frescos como o
amanhã.”
Já tínhamos visitado os mundos imaginários dentro destes mundos imaginários. Primeiro com o Cavaleiro das Trevas e depois com a Liga da Justiça, o clube exclusivo para os melhores do mundo. A Levoir decidiu agora regressar ao original, o primeiro dos primeiros, o filho de Krypton e corporização de todos os lugares-comuns dos super-heróis, isto porque foi ele quem os criou: Super-Homem.
Mark Millar, o escritor deste BD, ainda não era o nome porque mais tarde viria a ser conhecido. Ainda não tinha criado a minissérie Wanted, que seria adaptada ao cinema com Angelina Jolie como cabeça de cartaz, nem tampouco Kick-Ass, também alvo de duas passagens para o grande ecrã. Este Superman: Red Son está longe ainda dos anos de produção independente que se seguiriam e expressa de forma contundente a paixonite aguda que muitos autores deste lado do Atlântico nutrem pelo Homem de Aço. Parece, de facto, uma epidemia. O seu mentor, Grant Morrison, tem-na, e até o uber-intelectual da BD, Alan Moore, tem-na. Provavelmente tem a ver com a originalidade pura do personagem, pelo facto de representar os EUA no seu estado mais idealista, um país que para muitos britânicos é a solidificação de um ideal identificável. Qualquer que seja a razão, Millar exibe neste seu trabalho não só esse amor profundo pelo mais conhecido super-herói do mundo, como também uma das imagens de marca com que viria a ser conhecido como criador: o alto conceito.
Em Red Son, Millar levanta e responde a uma daquelas questões que surgem em discussões geeks como as que se vêm no The Big Bang Theory: e se a nave espacial que carregou Kal-El desde Krypton não aterrasse nos EUA mas antes na URSS? Desta premissa aparentemente simples, Millar transporta-nos para uma análise profunda das bases do mito e da mitologia do Super-Homem, colocando-os sobre o prisma da natureza vs. educação como base para desenvolvimento do ser humano. Ao afastar o personagem dos princípios basilares da educação rural norte-americana, as do honesto dia de trabalho na imensidão das quintas do Kansas, que homem fica? Ser criado sem os auspícios de um casal com os valores morais sólidos da quente democracia americana, dará origem a um ser de visão diferentes? A tundra gélida da união soviética e o ideal stalinista poderão quebrar o forte imperativo genético?
Estas deambulações filosóficas são apenas um dos ingredientes. Millar não se perde apenas por estas e não se afasta de introduzir momentos de entretenimento digno de outros contos de super-heróis, ajudado pelo desenhista Dave Johnson. Uma das mais acessíveis e interessantes BD's a sair nesta coleção. Deliciosamente imperdível.
Nota – Não partilho da opinião que tem de se saber
tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside
na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles
que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço
Kick-Ass 2 de Jeff Wadlow
A
máxima “O primeiro é que era bom!” aplica-se
a este filme na perfeição. No que o anterior funcionava, com certeza por causa
da batuta de Matthew Vaughn, neste,
meus amigos, é sem sal, desapaixonado. O argumento corre mais ou menos parecido
com as duas BD’s em que se inspira (e das quais falei neste post) mas em modo
tarefeiro. Jeff Wadlow, perdoa-me,
mas até eu que nem gosto muito de dizer mal das coisas, tenho a declarar que tu
não tiveste lá muito inspirado. Eu sei que esta BD não se oferece a diatribes
autorais e filosóficas sobre o significado do que estamos aqui a fazer, mas uma
telenovela de violência orgástica como Kick-Ass
2 mereceria um trabalho mais divertido e leve (se de leve se pode chamar às
litradas de sangue e teatro sado-maso que é o enredo do filme).
No
artigo da Maxim que escrevi há uns
dias trás (leiam-no aqui) já discorri sobre a BD e sobre a filosofia de Kick-Ass (desculpem os filósofos por
esticar tanto o termo), portanto no que respeita a isso apenas posso reiterar
que se trata de um filme que gosta do estilo narrativa catártica, em que
podemos, de uma forma ou de outra, nos identificar com aqueles personagens que
se vingam, das formas mais inspiradas, daqueles “que lhes fizeram mal”. Existem
momentos particularmente interessantes e muitos deles (ou todos eles) não
envolvem o titular mas antes a coadjuvante (Hit-Girl)
e o vilão (The Motherfucker e ainda
bem que este post é em português). Aliás,
um dos personagens menos interessantes é mesmo Kick-Ass, tão sensaborão que, mesmo com todas as desgraças que lhe
acontecem, pouco simpatizamos com os seus dilemas. Pergunto-me se a culpa é
mais da equipa do filme ou mesmo de Mark
Millar, o escritor da BD.
Resumindo,
o filme pouco mais oferece que 2 horas de porrada que não digo ser
descontextualizada e desinteressante mas pouco para lá falta. Mas sempre
podemos esperançar por uma aventura a solo de Hit-Girl que, se alguma coisa boa veio desta série, é ela de
certeza.
Kick-Ass 2 : se lhe apetecer magoar alguém, não culpe o filme - artigo Maxim
Esta semana, lá porque estreia um novo filme baseado em BD não estavam a pensar que eu ia escrever qualquer coisa sobre ele, pensavam?
Pois... tive mesmo de o escrever.
Leiam-no aqui.
Wolverine: as histórias que o cronista mais gosta - artigo Maxim
Esta semana continua a cobertura sobre o Wolverine e, à semelhança do que fiz para o Super-Homem, escolhi as histórias de que gosto mais. Leiam aqui.
Hit-Girl e Kick-Ass 2 de Mark Millar (escritor) e John Romita JR (desenhista)
Estas duas BD são a sequela do Kick-Ass original, dos mesmo autores,
que teve honras de adaptação cinematográfica. O filme teve sucesso o suficiente
para justificar também ele uma sequela (a estrear ainda em 2013) e estes dois volumes são – à partida – a fonte
de inspiração para a mesma.
O maior elogio e também a maior critica que se
pode fazer a Hit-Girl e Kick-Ass 2 é
que é mais do mesmo.
Um rapaz decide, num mundo
“real” como o nosso, imitar os super-heróis que idolatra da BD. Veste um uniforme feito em casa e sai
à rua, munido de dois bastões, para fazer valer a sua forma de justiça. Este
é Kick-Ass.
Hit-Girl é a única que neste universo se pode considerar uma verdadeira super-heroína. Treinada nas artes de combate desde a infância por um pai sociopata, mas munido de um sentido de justiça em modo hiperbólico, torna-se na única força, no sentido mais literal do termo, de combate ao crime no mundo de Kick-Ass. Juntem o facto de estarmos a falar de uma miúda de 14 anos com uma boca de peixeira de Alfama e temos a combinação perfeita para um personagem memorável (tanto que mereceu um volume só para si, mesmo sendo um personagem secundário).
Hit-Girl é a única que neste universo se pode considerar uma verdadeira super-heroína. Treinada nas artes de combate desde a infância por um pai sociopata, mas munido de um sentido de justiça em modo hiperbólico, torna-se na única força, no sentido mais literal do termo, de combate ao crime no mundo de Kick-Ass. Juntem o facto de estarmos a falar de uma miúda de 14 anos com uma boca de peixeira de Alfama e temos a combinação perfeita para um personagem memorável (tanto que mereceu um volume só para si, mesmo sendo um personagem secundário).
O que temos neste dois volumes é a escalada da
violência estilizada e hiperbolizada, onde o sangue jorra aos litros, os vilões
e heróis são submetidos aos mais cruéis castigos imagináveis, tudo culminado por batalhas campais onde a cor vermelha é mais abundante que no ato final de Hamlet. Isto amarrado ao belo laço de
palavrões metralhados a 1000 à hora mas, diga-se de passagem, metidos em
diálogos mega-divertidos, isto para quem consegue acompanhar a boca desregrada dos
vários personagens. Basicamente, o universo de Kick-Ass é catarse pura e dura. Gostavas de sair à rua e dar
porrada valente e sádica a criminosos? Estes livros são para ti.
Mark
Millar, escritor e escocês, deve-se divertir à grande
a congeminar estas histórias. Para isso evoca o anão violento e sádico que habita
no fundo das tripas e dá-lhe imaginação, palavras, punhos e armas grandes e
mega-violentas. John Romita JR, o
lendário e excelente desenhista de BD, faz muito mais que acompanhá-lo, antes torna-se
num verdadeiro colaborador e coautor, contribuindo com uma linha clara e fluída.
Romita é um consumado contador de
histórias em BD, capaz de partir o argumento em páginas e
quadradinhos dotados de uma leveza reservada apenas aos verdadeiramente
talentosos.
Hit-Girl e Kick-Ass 2 estão longe de serem as melhores obras destes dois autores e não será para os mais leves de barriga, mas
é também entretenimento no sentido mais puro. Só por isso vale a
pena lê-las. E sempre podemos expurgar alguns demônios. É que, hoje em dia, deve haver
muita pessoa que gostaria de sair à rua vestido de super-herói e com dois
bastões desatar à porrada a muito boa gente.
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