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Filmes favoritos baseados em BDs (parte 2 de 2)

Vejam a primeira parte desta lista aqui.

Esta é uma lista pessoal, como não poderia deixar de ser. Misturam-se inclinações, preferências, uma pitada de coração, algum cérebro e, acima de tudo, a vontade de os querer rever sempre. Seguem em baixo, por ordem alfabética.

Podem consultar aqui uma lista de todos os filmes, passados e futuros, baseados em BD. Escusado será dizer que vi apenas uma pequena parcela deles.

Man of Steel de Zack Snyder (2013)

Tinham passados apenas sete anos desde o mal-fadado Superman Returns de Bryan Singer, quando o também odiado Zack Snyder decide revisitar a mitologia do Homem de Aço.

Ah-ga-ssi (A Criada) de Park Chan-wook

A arte de contar histórias reside, muitas vezes, em revelar apenas uma parte do quadro. Escolher, criteriosamente, o que revelar e o que ocultar. Seduzir e cativar o ouvinte, o espectador, o leitor, a querer mais e mais com apenas uma pequena parte da tapeçaria. Outras vezes, pode ser fazer malabarismos com a mão direita quando o que realmente interessa acontece na esquerda. É uma das mais antigas formas de arte (a mais antiga?) e uma das mais cativantes de observar um artífice exímio a exercê-la. Tão capaz pode ser esse obreiro que, se for mesmo, mesmo bom, não nos apercebemos do que está a fazer a não ser no último e desesperado momento.

Esse mestre coloca camadas sobre camadas, entrelaça mil e um novelos de múltiplas cores e constrói algo que, a início, apenas reconhecemos de forma pouco definida mas que, aos poucos, transforma-se em coerência e sentido. Esta fabulosa arte de entreter, de educar, de contar uma história é, a meu ver, uma das grandes vitórias da civilização, não importa de que parte do Globo ela venha.  Park Chan-wook é da Coreia do Sul, um dos maiores realizadores vivos e um contador de histórias de superiores qualidades.

Em Portugal, muitos o conhecem pelo seu Oldboy de 2003 - um dos filmes da minha vida e, agora que o escrevo, pergunto-me como é que não o incluí nesta lista. Seguiram-se obras como Sympathy for Mr. Vengeance, Thirst, a incursão ocidental Stoker, entre outros, mas, ainda que fossem obras de excepção, nada com o lustro e a genialidade de Oldboy. Surge este A Criada, cuja singularidade narrativa e cinematográfica o transformam, imediatamente, num dos filmes do ano e um dos maiores da carreira deste realizador único e verdadeiramente original.

A história passa-se na década de 30 na Coreia do Sul e envolverá uma jovem rica e frágil, um tio excêntrico que deseja casar com ela, uma jovem sua aia e um quarto elemento, um outro homem, que irá tecer ardis para também se casar com a jovem milionária e ficar-lhe com a fortuna. O que parece um enredo banal, ir-se-á transformar num jogo de mentiras e sexualidade, com conotações fortemente feministas. Há quem o descreva como um thriller gótico com conotações lésbicas mas, sinceramente, este é apenas um mote para vender o filme. Verdades ainda mais profundas residem debaixo deste delicioso puzzle.  

Chan-wook assume o seu papel de realizador e nunca nos faz esquecer que o Cinema é uma arte narrativa com todo um arsenal de ferramentas ao seu dispor. Abusa da confiança que nós, espectadores, depositamos no contrato que estabelecemos com ele quando entrámos na sala de cinema. Faz-nos crer em algo que não existe, seja a peça de arte, seja a história que está a contar-nos. E, no jogo de espelhos, luz e sombras inscreve e escreve um mundo inteiro de culturas. 

A Criada é a marca de um dos melhores realizadores atualmente em trabalho e o melhor filme do ano que vi até o momento.

(em exibição, em Lisboa, às 19h no Cinema Monumental ou, já à venda, em DVD pela Cinema Bold)

Rapidinhas de Cinema – Act of Killing; Stoker; Marvel One-Shot: Agent Carter e All Hail the King

The Act of Killing de Joshua Oppenheimer, Anonymous, Christine Cynn

Este documentário vem com a recomendação de ser o melhor filme de 2013 de acordo com a excelente revista Sight & Sound. Este é a publicação, de origem britânica, que em 2012 voltou a eleger os melhores filmes de sempre (uma prática decenal). Nesse ano, Vertigo finalmente destronou o eterno Citizen Kane. Estas recomendações não fazem sentido para avaliar a qualidade do filme, ou melhor, aquilo que achei do mesmo, mas dito este preâmbulo resta-me afirmar que adorei o documentário. O tema é geograficamente limitado mas universalmente abrangente. O realizador pretendia abordar os massacres a simpatizantes comunistas que tiveram lugar em solo indonésio na década de 60. Acontece que os que os perpetraram continuam no poder e são vistos como heróis nacionais. Numa inversão genial, são os próprios carniceiros a oferecer-se para relatar os factos ocorridos. O que segue é uma observação clinica e factual destes homens enquanto reproduzem as ocorrências do passado (usando eles próprios e outros como atores). Pouco mais há a dizer e o realizador bem o sabe. Escancara as portas do documentário e deixa a realidade jorrar para dentro da película com toda a sua tenebrosa factualidade. Um filme poderoso. Muito.


Stoker de Chan-wook Park

A expectativa em relação a este filme era altíssima. Estávamos a falar de um dos meus realizadores favoritos, autor de uma das obras mais marcantes deste início do século XXI: Oldboy. Stoker é a primeira incursão de Chan-wook Park no território de uma língua que não a sua e com atores também para si estrangeiros. Ainda que não seja um My Blueberry Nights de Wong Kar-Wai fica igualmente aquém do esperado. Não me interpretem mal. Está longe de ser um filme mau e desagradável, muito pelo contrário. A realização é absurdamente boa e os atores dão o que melhor têm para dar. Gostei especialmente da excelente fotografia, uma lição em como se fazer um filme com atmosfera ominosa recorrendo apenas a luz e câmara. Contenção e parcimónia valem muito mais que um carnaval de efeitos especiais. Contudo, existe algo na história, um distanciamento, que não me fez relacionar com os problemas que se desenhavam no ecrã. Ou então, tudo se resume a um fastídio natural em relação ao tipo de enredo aqui abordado, apenas mais uma iteração do assassino em série, do deslocado social. Um filme impressionantemente belo mas, como muitas belezas, frio demais para dar espaço ao sentimento.


Marvel One-Shot: Agent Carter de Louis D'Esposito e All Hail the King de Drew Pearce

Estes não são filmes mas antes curtas-metragens que saíram junto com os DVD / Blu-ray de Homem de Ferro 3 e Thor 2, respetivamente. São essencialmente novas incursões no universo ficcional cinematográfico da Marvel, a editora estado-unidense de BD. Ambas aproveitam personagens importantes dos filmes do Capitão América e do Homem de Ferro e desenvolvem enredos com importância marginal na macro-história que a empresa está a querer contar em todos os seus filmes. Serão obras-primas do Cinema (reparem no C de caixa alta)? Não, decididamente. São divertidas e capazes de entreter? Como dizem os americanos: “Hell yeah! They are!”. Uma vez mais, a assinatura dos filmes da Marvel está presente. O humor permeia cada diálogo e cada situação e, tal como nas BD originais, o que interessa são os personagens e as suas curiosas idiossincrasias (passo o pleonasmo).


Deliciosa a continuação da história do falso-vilão do Homem de Ferro 3, o Mandarim. Nesta segunda curta é explicado o porquê do símbolo dos dez anéis do primeiro filme que, como todos os fãs do herói bem sabem, tem tudo a ver com o arqui-inimigo oriental de Tony Stark. Fantástico ver que o papel das mulheres continua a ser valorizado. Uma Agente Carter que não deve nada ao seu amado desaparecido, o Capitão América. Duas curtas que valem não só pelo completismo mas, acima de tudo, pela diversão.