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Dr. Sleep (Dr. Sono) de Mike Flanagan

Produzido pela Warner Bros. e realizado por Mike Flanagan, Dr. Sono é a sequela do lendário filme de Stanley Kubrick, The Shining. Como muitos, desconfiei desta premissa. The Shining é mais do que apenas Cinema, o que é um lugar reservado a apenas algumas obras da sétima arte. O filme de 1980, na forma como vejo estas coisas, é uma peça de arte tão relevante quanto a Mona Lisa de DaVinci ou o D. Quixote de La Mancha de Cervantes. Apesar deste ser a adaptação do romance homónimo de 1977 de Stephen King, o prolífico escritor de, entre muitas outras coisas, terror, Kubrick de tal forma alterou a premissa original que pouco mais ficou que a sua própria visão. É a prova de que um realizador com um ponto de vista  muito próprio consegue transformar um argumento ou uma história em algo que espelha mais a sua forma de ver o mundo do que propriamente a do autor original. Ora, exactamente por isso Stephen King não é fã do The Shining do cinema.

Anos depois, percebo o ponto de vista de King.

O desnecessário: escolher o que se gosta mais. Desta vez, filmes.

Movie Theatre-Trylon Theatre, NYC, 1976, de Hiroshi Sugimoto da série Salas de Cinema 
No final de cada ano não fujo ao lugar comum de escolher algumas das coisas que mais gostei. Filmes. Banda Desenhada. Música. Nem é muito difícil. A larga maioria do que se produz não me diz grande coisa. Por esta, aquela ou outra razão. Não interessa qual. São só gostos. Contudo, quando alguém pergunta-me quais os filmes que acho melhores, os que mais gosto, os da "minha vida", aqueles que vão ficando com o envelhecer do tempo, aí a coisa fica muito mais difícil. São muitos e a memória é falha.

Apenas porque adoro estas listas decidi fazer uma dos filmes que são, vá lá, "top of the mind". Não há pretensões intelectuais (tenho quase a certeza). São filmes que gosto mesmo. Que vejo e revejo com prazer. A lista não é, nem de longe ou de perto, definitiva. É apenas a lista de hoje, deste segundo. À medida que escrevo vou lembrando-me de mais este e mais aquele. Não vale a pena dizerem-me, inflamados, "Como é possível não escolheres o"preencher com o que acharem melhor". Que brutal falta de gosto. Vai mas é pastar bacalhaus!". "Escolheste esta m****? É pá, eu que nunca te veja aí na rua que limpo-te o sebo!". Dizer estas coisas faz mal ao fígado, meninas e meninos. Relaxem! Dito isto, esta é a minha lista (ainda agora acrescentei um que não estava, só para verem):

2001, Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick
Apocalypse Now de Francis Ford Coppola
Aurora de Murnau
Deathproof de Tarantino
High Fidelity de Stephen Frears
In the Mood for Love de Wong Kar Wai
La Vie D'Àdéle de Abdellatif Kechiche
Man of Steel de Zack Snyder
O Segredo do Cus-Cus de Abdellatif Kechiche
Pássaros de Hitchcock
Psycho de Hitchcock
Senhor dos Anéis (toda a trilogia) de Peter Jackson
The Descent de Neil Marshall
The Shining de Stanley Kubrick

Enquanto estava a fazer a lista, houve duas coisas que achei curiosas: há mais filmes dos EUA do que suspeitaria; vi todos em sala de cinema. Será que gosto de americanadas mais do que pensava? Mas, mais importante, será que o facto de os ver em sala influencia o gosto? Espero bem que sim, porque isso quer dizer que ando a fazer alguma coisa bem. Cinema, minhas amigas e amigos, é para ser visto na tela grande. O conforto do lar que me perdoe.

E porquê estes filmes? Kubrick e Hitchcock são dois realizadores que adoro (todos nós adoramos) e estes são os meus filmes favoritos deles. 2001 é essencial, certo, é um filme brutalmente bem realizado, correcto, e é daqueles que qualquer cinéfilo e ser humano tem de ver um dia. The Shining é um enorme filme de terror, com actores e atmosfera perfeitos (curioso que não há quase nenhuma morte, lembrem-se disso), arquitectado ao milímetro com engenharia de génio. Os Pássaros e Psycho são também, por assim dizer, dois filmes de terror (há aqui um padrão?), dois filmes onde a sensibilidade comercial e intelectual do realizador vem completamente à tona. Em cada um deles há um pormenor que sempre chamou-me mais à atenção: em Psycho é o facto de durante meia hora não estarmos nunca com o protagonista do filme (já não se faz nada de tão corajoso hoje em dia); N'Os Pássaros é o maravilhoso e vago final. Por falar em filmes de terror, à última lembrei-me do The Descent, que vi com dois amigos amantes do estilo no Alvaláxia. Acho que tenho de agradecer à revista Empire tê-lo ido ver e, até hoje, pelo ambiente claustrofóbico (única razão porque nunca irei fazer espeleologia), pelo puro terror sanguinolento, é dos meus filmes de sempre. 

Tarantino e Kechiche. Estes são, para moi, dois dos maiores realizadores em trabalho, aqueles dos quais só espero coisas divinas. Vi todos os seus filmes e nenhum, sublinho, nenhum, decepcionou-me. Mas primeiro escrevo sobre o segundo. Os que lêem este Blog sabem da minha história de amor com La Vie D'Àdéle, um filme que considero estar perto da perfeição: o voyeurismo e obsessão de Kechiche por Adèle Exarchopoulous é palpável e contagiante. A história é simples e deliciosa. A realização natural e bela. O mesmo pode dizer-se de O Segredo do Cus-Cus, o meu primeiro filme do realizador e um do qual saí da sala em êxtase. Nunca esquecerei o almoço de cus-cus, o desespero da mulher enganada e a dança da jovem na noite de abertura do restaurante.

Sobre o Tarantino podem fazer-me uma pergunta: porque não pões mais filmes dele? Pois, deveria mas ainda não sei se devo escolher mais um ou dois ou todos. Estive quase, quase a colocar o Inglourious Basterds mas, por enquanto, fico-me pelo meu favorito: Deathproof. Não será o que tem mais "qualidade" mas, para mim, é aquele onde noto mais a assinatura do autor que é Tarantino: os pés; a comida; os diálogos musicais, fúteis e desnecessários; as belas mulheres tarantinianas; etc. Tudo é deliciosamente dele. E, mais importante, é um filme divertido como o caraças. 

O Aurora de Murnau é o filme mais antigo nesta lista e também o único mudo. Tive o prazer de o ver, pela primeira vez, numa sessão no Nimas e fiquei siderado com a simplicidade dramática do que pode fazer-se apenas com imagens em movimento. Bastam actores, sentimentos, uma história intemporal e uma realização primal. Tudo é certo, tudo é verdadeiro neste filme que é também muito importante na História da 7.ª Arte.

Outro importante marco histórico é o Apocalypse Now de Francis Ford Coppola - em cada uma das suas duas versões é o meu filme favorito sobre guerra (quase, quase que também aqui meto o Thin Red Line do Mallick e o Vem e Vê de Elem Klimov). Uma literal viagem entre um ponto a e um ponto b transforma-se numa reflectiva metáfora. Um filme gigante que é um prazer ver.

In the Mood for Love. Ah, o In the Mood for Love. Quem o viu sabe do que falo. Um filme belo, romântico até doer, trágico como todas as boas histórias de amor se calhar são. Já o vi várias vezes, já vi Kar Wai a falar do seu processo de criação (é uma lição em como se fazer cinema. Vejam-no aqui) e já construí diferentes versões da narrativa na minha cabeça. Pena Kar Wai nunca mais ter feito algo assim. Mas, se calhar, não é necessário. Este já existe no mundo e é delicioso.

Finalmente, não poderiam faltar os filmes que apelam ao meu lado mais puro, mais ligado à Banda Desenhada e a tudo o que, graças a ela, li, vi e ouvi . Comecemos por um que a maior parte das pessoas devem perguntar-se "que raios?" (mesmo os fãs de BD devem fazer essa pergunta): Man of Steel de Zack Snyder. Todos os anos, pelo menos uma vez por ano, tenho estado a rever este filme, na secreta esperança de que não envelheça e nunca me decepcione. Até agora, muito pelo contrário. Acho (quase) tudo bom. Todas as vezes noto um novo pormenor como, por exemplo, o olhar do Super-Homem quando pela primeira vez cruza-se com Lois Lane. Não é isso que pensam. É o olhar de conforto, serenidade e paz que transparece. Este é o meu Super-Homem - sim (spoiler), ele mata o vilão no final mas querem falar sobre a última história de John Byrne na sua run em BD? E mesmo que consigam convencer-me do contrário em relação a este desenvolvimento este continua a ser o meu filme favorito do personagem (pelo menos até Batman vs Superman).

Outro filme que acredito ser estranho para muitos de vós é o High Fidelity de Stephen Frears. Certo, não é uma obra-prima de Cinema. Certo, é comercial e simplista e romântico e lamechas. Mas quem gosta do universo dos fanáticos de alguma coisa (música, BD, etc.) sabem que aquele universo existe e é lindo. Fui claro porque gosto tanto e já o vi tantas vezes?

Last but definitely not the least: Senhor dos Anéis do Peter Jackson. Aqui não há um truque para não ter de escrever os três. Tal como Tolkien escreveu apenas um livro que o editor partiu em três (leiam a História, amigos, e confirmem-no), também Peter Jackson realizou um único filme dividido em três partes. Li o livro por volta da idade em que os GNR dizem que se deve ler o Senhor dos Anéis e, quando soube que iam (finalmente) fazer o filme, entrei em delírio. Estava na sala grande do São Jorge quando no final da Irmandade do Anel ouviu-se um suspiro colectivo porque muitos não sabiam que a história ia continuar em mais dois filmes. Vi mais do que uma vez cada um deles, em sala e em casa. Vi e tenho as versões alargadas (as únicas que interessam). Quase que chorei quando descobri que Jackson sabia filmar (ou pintar, se quiserem ser poéticos e verdadeiros) o universo mitológico da Terra Média. Não há muito mais que pedir (a não ser pelo Silmarillion).

Bem, é tudo. Agora vou ali rever cada um destes filmes porque a saudade aperta.

O sátiro faz sátira? ou porque o Dr. Estranhoamor e Veep têm tanto em comum.




Não sei se o sátiro gosta ou alguma vez gostou de sátira. Na realidade, era mais inclinado para escapadas sexuais bem regadas. Na mitologia grega o personagem é representado com características de cavalo (inclusive as fálicas) e é apenas nos Romanos que assume o aspecto de bode que lhe associamos. Em outras literaturas, o sátiro pareceu-me representado por certos escritores como um personagem capaz de alguma ironia mas, ao mesmo tempo, não totalmente capaz de funcionar para lá de ímpetos sexuais primais . O que é que isto tem a ver com sátira e com a série de TV Veep e o filme Dr. Estranhoamor? Já lá vou.

Apesar de estar aberto a alguma discussão (segundo o wikipédia, desculpem-me não procurar melhores fontes) a sátira e o sátiro nada têm em comum a não ser a partilha de cinco letras. A sátira é um tipo de discurso, um estilo, se assim quiserem, que tem a capacidade de ironizar e ridicularizar vícios ou defeitos de uma pessoa ou grupo de pessoas, de, em tom sarcástico e jocoso, gozar com entidades, costumes e vícios (não escrevi nada disto, foi o dicionário Priberam. Culpem-no de qualquer erro). Sempre me senti muito atraído por este tipo de discurso. Não porque achava que era particularmente melhor trabalhado, mais elevado, mas porque, muito sinceramente, melhor retratava o ser humano e os seus comportamentos. Por exemplo: as séries de TV House of Cards e Veep abordam temas muito semelhantes, o das intrigas palacianas da alta política dos EUA. Contudo, com uma enorme diferença: a primeira segue os moldes de uma tragédia clássica (faz-me lembrar uma amálgama de MacBeth e Ricardo III) e a segunda é pura sátira. Enquanto House of Cards idealiza os anti-heróis como sofisticados demónios capazes de ardis labirínticos, Veep vê o ser humano como incompetente, egoísta, mesquinho, ridículo e estúpido. Qual destas duas leituras vos parece a mais mordaz e acertada? (a resposta a esta pergunta é vossa e só vossa. Eu tenho a minha, que não é melhor que a de ninguém, talvez apenas pior).

Ontem tive o prazer de rever em ecrã gigante (obrigado Gulbenkian) o Dr. Estranhoamor de  Stanley Kubrick. Depois de o ver tive a sensação deste filme partilhar o mesmo código genético de Veep. O mesmo cinismo e descrença em relação ao ser humano. As decisões não são tomadas por complexos pensamentos burilados laboriosa e metodicamente, mas antes amontoados de acasos, alguns incompetentes, outros nem por isso, que empilham-se para criar um todo aleatório e, esse sim, verdadeiramente trágico. Vejam o discurso onde o General Buck Turgidson tenta explicar ao Presidente dos EUA como chegaram, por meio de decisões burocráticas inanes, à situação de uma guerra nuclear devastadora. Vejam como o personagem de Julia Louis-Dreyfus chega à posição de uma das mais poderosas pessoas do mundo. Tudo hilariantemente aleatório.

Já perceberam então porque gosto tanto de sátira? E, já agora, perguntam, que é que o sátiro tem a ver com isto tudo? No final do Dr. Estranhoamor, o personagem titular, o brilhante nazi de Peter Sellers, sugere que, na iminência do desastre nuclear, deverão todos ir viver em minas onde serão levadas - para efeitos puramente de repopulação, claro - dez mulheres sexualmente atraentes para cada um dos homens (principalmente políticos e militares, curiosamente). Escusado será dizer que os presentes não desdenham a ideia de forma nenhuma. 

Já agora, o General Jack D. Ripper (Jack The Ripper?), o causador da hecatombe, começou a sua estúpida teoria de fluídos corporais depois de um episódio de impotência?

O meu MoteLx – Byzantium de Neil Jordan e Room 237 de Rodney Ascher


O amigo Jordan voltou aos vampiros, uns valentes anos depois de Entrevista com um Vampiro. Byzantium não vem revestido das roupagens “tem o Tom Cruise e um gajo muito giro que se chama Brad Pitt. Conhecem?”. Protagonizam-no duas excelentes atrizes, Saoirse Ronan e Gemma Arterton (tão gira!), nos papéis de filha e mãe, respectivamente, ambas vampiras com cerca de 200 anos de idade. Uma vez mais, e como já começa a ser hábito, os autores  escolhem fazer uma evolução da mitológica criatura, escolhendo libertá-la das amarras da noite. Estas não são vampiras que necessitem de viver em caixões ou sequer longe da luz do dia e veem-se perfeitamente ao espelho (e, ainda bem, já que Gemma é uma visão). Mas estes são meros apontamentos num filme que escolhe focar-se na relação entre mãe e filha, nas diferentes personalidades (o modo como cada decide lidar com 200 anos de memórias é particularmente bom) e, acima de tudo, na relação destes dois “seres humanos” com a sua imortalidade.

Não estamos a falar de um realizador inexperiente nem tampouco sem voz. Neil Jordan é um mestre da câmara e um exímio contador de histórias e este seu filme reitera estas virtudes. Ainda que no final se veja obrigado a resolver alguns enredos com os obrigatórios clímaxes, não o faz em detrimento da inteligência e da sua idiossincrasia. O que, até aí, era um reflexo cuidado acerca da natureza de duas mulheres diametralmente opostas que se veem obrigadas a lidar com uma situação de moralidade dúbia, não é arruinado, antes se transforma e evolui para outro comentário, o da evolução do papel do género feminino na sociedade. Digo-o com todas a letras: ainda bem que saímos desse modelo machista e estamos, ferozmente, a entrar neste paradigma. 
Já agora, não me canso de dizer, não são necessários caríssimos efeitos especiais  ou pós-produção em Photoshop para fazer um filme, mesmo que de fantasia. Basta a câmara bem apontada e planos bem construídos e conseguem-se efeitos que, não só são mais reais, como francamente melhores. Este Byzantium é um deles e lembro-me também de Stoker de Chan-wook Park, que infelizmente não vai estrear em Portugal (um dia falo dele aqui).

Room 237 é um outro bicho. Para começar, é um documentário e, desde que o vi anunciado algures na Empire, estava doido para o ver. Estamos a falar de um relato à volta das variadíssimas, escabrosas e rocambolescas teorias acerca dos significados escondidos em The Shining do mestre Stanley Kubrick. Quando se fala de rocambolescas é, verdadeiramente, do que estamos a falar. Obviamente que não teço qualquer tipo de julgamento de valor acerca da validade das mesmas, mesmo porque sabemos que Kubrick era tudo menos um realizador e autor limitado e inconsequente. Para quem gosta destes quadros sobre as mentes do fãs em funcionamento tem, em Room 237¸ uma fabulosa exposição. As apresentações oscilam entre “hum, se calhar até faz sentido!” e “meu deus, a sério? Não será esticar um pouco a coisa?” (ui, já fiz um julgamento).

Como é necessário (mas nem sempre obrigatório ou conseguido), o realizador distancia-se, sempre que pode, de qualquer tipo de juízo de valor, escolhendo que os diferentes teoristas exponham as suas diatribes com a eloquência necessária. Contudo, o autor do filme nem sempre é inocente na exposição das cenas, muitas vezes colocando lado a lado diferentes teorias sobre um mesmo momento do filme - como o faz acerca do significado dos padrões do tapete que aparecem no poster deste documentário e que, pelos vistos, são tão relevantes para a compreensão do The Shining. 

A ver, principalmente para os fãs de cinema e do mítico filme de Kubrick. 

Em baixo podem ver os trailers dos filmes.