Mostrar mensagens com a etiqueta Chris Claremont. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Chris Claremont. Mostrar todas as mensagens

Iron Fist Epic Collection vol. 1: The Fury of Iron Fist

Muitos dos amantes de BD da minha geração recordam-se com mais do que mero afecto as revistas em formato pequeno que a Editora Abril, brasileira, começou a distribuir em Portugal em 1982 (salvo erro). A início eram duas: Capitão América e Heróis da TV. Ambas foram um salto quântico na quantidade (e qualidade) dos heróis da Marvel no nosso país. De repente, para mim em particular, deixei de ter apenas acesso ao Homem-Aranha e ao Hulk, para poder também ler o Capitão América, o Conan, os Vingadores, Warlock, Shang-Chi e o Punho-de-Ferro. O primeiro contacto com este personagem dificilmente poderia ser melhor. Na revista do Capitão América número 40 publicam o número três da edição original, Iron Fist. Em subsequentes publicações desta revista brasileira continuam as aventuras de Danny Rand (o nome verdadeiro do herói), Misty Knight e Colleen Wing, até que são transferidos para o Heróis da TV, no número 49 desta. Desculpem o entusiasmo mas estes são momentos que guardo com especial carinho. Todo esse carinho deve-se à idade, certo, mas também ao trabalho de dois autores que desconhecia na altura, mas de quem reconheci o talento, mesmo que de forma subconsciente: Chris Claremont na escrita e John Byrne no desenho. Estes senhores foram os responsáveis por uma das maiores revoluções da Marvel da década de 70 e mesmo da BD dos EUA, quando pegaram em mãos as vidas dos mutantes mais famosos do mundo, os X-Men (aliás, o facto de serem os mais famosos a estes senhores quase exclusivamente se deve). Mas antes dos X-Men houve Iron Fist.

Este volume da fabulosa Epic Collection da Marvel era dos mais aguardados desta colecção. Finalmente poderia ler, no formato e palavras originais, as aventuras do herói vindo da misteriosa terra de Kun Lun, mestre em artes marciais e dotado do poder do punho de ferro. Este volume da Epic Collection compila todos os números a solo do herói (e mais uma coisinhas) antes de se juntar a Luke Cage noutra mítica revista (com raras publicações em Portugal), Power Man & Iron Fist. A história de Danny Rand pode (e deve) ser dividida entre o antes-CC JB (Chris Claremont e John Byrne) e o pós-CC JB. As aventuras antes-CC JB são, muito sinceramente e aqui que ninguém nos ouve, para esquecer. O primeiro número, de Roy Thomas e Gil Kane, terá o valor da originalidade mas os talentos que se seguem, não sei se por culpa deles, dos editores ou da pressa, não envelheceram bem de forma alguma (se é que alguma vez tiveram boa forma). Eis que chega a era CC JB onde a qualidade cresce, a principio de forma tímida mas depois assumida. Depressa se notam um conjunto de assinaturas interessantes de, por exemplo, Claremont. As mulheres à volta de Danny Rand passam a ser tão relevantes quanto o herói, não damas em perigo  mas antes companheiras e, por vezes, salvadoras do personagem principal.  Os poderes do punho de ferro são explorados de forma mais pormenorizada, expandido-os. Os confrontos com os vilões são analisados de forma mais complexa, com ligações pessoais e histórias paralelas sólidas. O passado do herói é escalpelizado com o regresso de ameaças que não tinham sido reveladas na origem inicial. 

Infelizmente, mesmo os talentos e CC e JB não foram suficientes para salvar o Punho de Ferro e a revista foi cancelada no número 15. Os autores teriam mesmo de acabar alguns dos enredos noutra revista onde colaboravam, a Marvel Team-Up, onde Danny Rand tem um encontro obrigatório com o famoso Homem-Aranha. Com certeza já terei lido numa Back Issue da vida as razões por detrás deste cancelamento. Independentemente disso tudo, a leitura destes números de CC e JB provam que o talento verdadeiro envelhece bem. Um axioma que as duas grandes editoras de BD dos EUA têm muitas vezes dificuldade em perceber. Estão mais maduras do que na década de 70, quando tiravam de circulação trabalhos como este ou o de Jim Starlin em Warlock, mas ainda há caminho a percorrer. Ainda assim, ficamos com este Punho de Ferro e, isso, terá de ser suficiente.

Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 16.º Volume: Mulheres da Marvel

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Fácil

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 16 de Outubro, junto com Público e custa 8,9€


Os apreciadores de BD em geral e europeus em particular conhecem bem o nome de Milo Manara (leiam um artigo que escrevi sobre sexo na BD, onde falava deste grande senhor). Sabemos que é sinónimo de erotismo e de mulheres esbeltas e magras, sempre (ou quase sempre) envolvidas em situações eróticas e sexuais. As mulheres de Manara são bastante conhecidas. Contudo, o que passa muitas vezes despercebido, principalmente para os menos atentos, é que ele é também um exímio contador de histórias e um extraordinário desenhista. A sua fama passou além fronteiras e além 9.ª Arte, atraindo, desde cedo, os olhares de outros em outros cantos do mundo. Um desses cantos foi os EUA e, paradoxalmente, a editora de super-heróis Marvel. 

Recentemente, Manara tem contribuído com capas alternativas de revistas mensais da editora e uma delas gerou forte polémica. O desenho era do personagem Mulher-Aranha numa posição considerada como pouco digna para o género feminino. Não irei agora aqui ingressar numa reflexão sobre o alcance deste pequeno drama mas parece-me uma ponte interessante para focar o que me traz a este post: Milo Manara desenhou uma história para a Marvel envolvendo algumas mulheres dos X-Men. E, para juntar o agradável ao ainda mais agradável, escrita pelo mais lendário dos  autores americanos a trabalhar nos X-Men, o responsável pela fama mundial deste grupo de personagens, Chris Claremont. 

A parelha é de tal forma improvável que por si já vale o preço de admissão. O produto final deve mais à sensibilidade de Claremont do que à de Manara, mas não deixa de ser um interessante pedaço de História de BD. Cheira-me que houve mais entusiasmo do primeiro em trabalhar com o idiossincrático italiano e apesar de a história não ser, de longe, dos melhores trabalhos dos dois artistas, vale a pena ser lida pela curiosidade do evento. Há espaço para algum innuendo erótico, mas sempre de uma forma muito leve, ou não estivéssemos a falar de personagens que, geralmente, permanecem afastados de  situações mais risqué. Apesar da forte carga sexual dos super-heróis, principalmente das mulheres, com os seus uniformes altamente reveladores, qualquer tipo de envolvimento carnal é sempre abordado na esfera do subentendido ou mesmo platónico. É, portanto, ainda mais irónico que alguém como Milo Manara, conhecido por estar do lado oposto do subentendido ou do platónico, tenha sido convidado para desenhar os X-Men. Devo dizer que ainda bem, porque temos oportunidade de ver a colaboração única entre estes dois artistas superiores da 9.ª Arte e porque o público americano poderá ficar mais desperto para o que se faz deste lado do oceano. 

Chris Claremont, por seu lado, tem espaço para voltar a explorar os personagens favoritos dos seus saudosos X-Men: as mulheres. Claremont, entre outros contributos para o "amadurecimento" da BD nos EUA, ajudou ao desenvolvimento de personagens femininos reais e centrais nas histórias de super-heróis. Não tendo sido o pioneiro, foi um dos exploradores, ajudando a que os super-heróis não se ficassem pelo género masculino e, mais importante, para que as mulheres funcionassem como mais do que apenas a concretização de fantasias juvenis masculinas. As mulheres de Claremont não eram frágeis, eram seres humanos com tanta garra, determinação e personalidade quanto os seus congêneres do sexo oposto. E aliar numa história de BD dois homens com estas visões tão interessantes das mulheres só pode ser visto como uma benesse.

Nota – Não partilho da opinião que tem de se saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 9.º Volume: X-Men

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Médio para o Fácil

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 4 de Setembro, junto com Público e custa 8,9€

Em 1981 foi previsto que 2013 seria o ano da morte dos X-Men, a famosa equipa de super-heróis da editora de BD americana, a Marvel. Todos eles mutantes que, segundo este universo ficcional, são o passo seguinte na evolução da humanidade, seriam exterminados num momento da história em nada diferente do Holocausto. A equipa estava no auge da popularidade, totalmente por culpa de dois artistas, Chris Claremont (escritor) e John Byrne (escritor e desenhista), que desde 1975 e 1977, respectivamente, produziam histórias que viriam a ser consideradas um marco, não só pela qualidade da colaboração, mas também por apresentarem alguns dos momentos mais relevantes, icónicos e transformadores da BD americana.

A parelha tinha acabado de sair de um desses momentos, ao produzir uma das suas mais importantes histórias, em que haviam sido forçados a matar um relevante personagem dos X-Men na intitulada “Saga da Fênix Negra” (publicada também Levoir-Público). O que poderia ser visto por qualquer outro como um apropriado canto do cisne, na realidade serviu como acha para uma fogueira que arderia ainda por mais alguns meses. Nasceria Days of Future Past.

O enredo à data era algo de particularmente inovador na BD americana. Durante dois números mensais, os 141 e 142 da revista Uncanny X-Men, a equipa dividiu o protagonismo das páginas da revista com uma sua versão futura. Daí a 30 anos, o governo norte-americano havia aprovado uma lei que bania a existência dos chamados mutantes, os homo superior, relegando-os a um papel de párias, perseguidos por todos em geral e por gigantescos robôs sentinelas em particular, caçadores implacáveis e velhos inimigos dos X-Men. Aquilo que representavam, as minorias, a luta pela afirmação da diferença, os direitos dos excluídos, era sublinhado e hiperbolizado, ao comparar a sua luta com o sofrimento infligido a tantos outros ao longo da História da humanidade. Comparava-os à perseguição e purga que havia sido sanguinariamente perpetrada a tantos outros no passado. Depois de caçados como sub-humanos, eram atirados para campos de concentração, forçados a viver em condições que espelhavam o racismo e desprezo que inspiravam nos seus semelhantes. Deste futuro distópico é trazida para o presente a mente de um dos X-Men, que tenta usar o seu corpo de 1981 para impedir que aquele 2013 tenha lugar.

A luta no presente adquiria um peso diferente. Os X-Men não lutavam apenas contra o vilão do momento ou o inimigo figadal, lutavam pelo futuro da sua raça, um futuro que se desenhava negro, o reflexo distorcido do sonho que os havia inspirado a unir-se, o da irmandade entre todos os homens. Este conflito era genialmente sublinhado pelos criadores, ao forçarem no presente de 1981 um combate tipicamente “super-heróico”, mas desta feita contra um grupo de mutantes terroristas que, não acreditando na filosofia pacifista dos X-Men, procuravam uma defesa mais militarista dos direitos que acreditavam ser seus. Deste modo, os protagonistas são colocados numa área cinzenta de moralidade, fornecendo diferentes pontos de vista e aproximações a um mesmo problema. A conclusão, à data, foi particularmente dura e surpreendente, porque as versões dos X-Men de 2013 sofriam um destino nada risonho. A luta dos principais personagens assumia-se, uma vez mais, como multidimensional e facetada. O futuro era verdadeiramente trágico e nessa dimensão Chris Claremont e John Byrne saíam vitoriosos e inovadores. Os X-Men assumiam-se como personagens de uma tragédia clássica, em que o destino inexoravelmente os dirigia para um fim negro, apesar de todos os esforços, apesar de todos os sacrifícios.

Este volume da Levoir coleciona esta história mas não só. Junta os derradeiros e históricos momentos da mítica colaboração entre Claremont e Byrne: o regresso de Wolverine à sua terra natal, o Canadá; as boas-vindas de Kitty Pryde ao escola dos X-Men; a elegia de Jean Grey, a Fênix Negra. Isto é para lá de essencial, é lendário e objecto de teses de doutoramento sobre a BD.


Nota final – Eu não partilho da opinião que se tem de saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.

X-Men: Days of Future Past de Bryan Singer (X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido)


(antes de lerem este post e se quiserem saber um pouco mais sobre a BD que inspirou o filme leiam aqui)

Neste ano de 2014, apesar de já ter visto uma apreciável quantidade de filme de super-heróis nenhum me tinha enchido as medidas. Até este. X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é tudo o que um fã de BD poderia esperar. Uma história que nos agarra do primeiro ao último momento, personagens bem escritos e muito bem interpretados, pirotecnia quanto baste. Outros sites já fizeram o paralelismo entre este e o mais bem sucedido filme deste estilo, Os Vingadores, mas ao mesmo tempo que os compreendo também reconheço serem dois bichos diferentes. São igualmente divertidos mas os personagens pouco têm a ver uns com os outros.

Este X-Men, ao contrário do que seria de esperar, apesar de ter um número apreciável de personagens, centraliza a sua história em quatro: Charles Xavier (Professor X); Eric Lensherr (Magneto); Raven Darkholme (Mística); Logan (Wolverine). O enredo concentra-se quase exclusivamente neles (excepto pelo “vilão”, Bolivar Trask e os seus Sentinelas), ganhando não só em profundidade psicológica, ao analisar demoradamente as motivações de cada, como filosoficamente, ao contrapor de forma eloquente as diferenças que os separam. Entre Xavier e Lensherr. Entre Raven e Charles. Entre Raven e Lensherr. Entre Logan e todos. Existe um enredo, bastante forte, que envolve um futuro distópico onde os mutantes e a humanidade lutam pela sobrevivência, que envolve uma viagem no tempo para evitar este futuro, mas tudo fortemente alicerçado no que mais envolve o espectador, quer do ponto de vista emocional, quer racional: a humanidade dos personagens. Estes são seres maiores que a vida, com poderes sobre-naturais impressionantes, mas poderiam ser um de nós. Isto construído com diálogos de qualidade raramente vista neste tipo de filmes e com atores que se entregam de forma definitiva (familiar?).

Bryan Singer, que é um dos percursores dos filmes de super-heróis (com o primeiro e segundo X-Men, já nos idos da década de 90), rege tudo de forma não só segura como talentosa, imprimindo muito da sua personalidade. Alguns dos filmes da Marvel, por exemplo, pecam por pouco se diferenciarem entre eles. X-Men de Bryan Singer é apenas dele. Não só isso como também entende como fazer um filme dos X-Men e como fazer um filme para os fãs. O humor existe (o personagem Quicksilver é maravilhoso) mas não em detrimento do peso melodramático que é, aliás, uma das marcas destes personagens. Os X-Men raramente ganham. Sobre eles perdura uma espada de Damocles, a do racismo, a da extinção, a da perseguição, a da discriminação. Contra estes enormes obstáculos ergue-se um homem com uma filosofia de paz e fraternidade, uma mensagem de tal forma forte e transversal que apenas poderia transformar este heróis nos modelos e ícones que são pelo mundo inteiro.

Por seu lado, os fãs de BD raramente irão ver um argumento tão talhado para as suas sensibilidades. Como um deles posso dizer obrigado por este grande filme.


(já agora, não se esqueçam de ficar até depois dos créditos finais. Um dia destes explico de quem se trata o personagem. Não que não o possam saber num outro qualquer site).

2013: o ano do fim dos X-Men


Este artigo foi originalmente publicado em 2013 no site da revista Maxim e procurava preparar os leitores para a saída da segunda parte da segunda trilogia de filmes dos X-Men, filme que saiu esta semana pelo mundo inteiro. Já vi o filme e muito em breve escrevo, a quem interessar, sobre o mesmo. Mas, como o que interessa mesmo é irem ver o filme, acho que se lerem este post podem ficar melhor preparados para ele.

Em 1981 foi previsto que 2013 seria o ano da morte dos X-Men, a famosa equipa de super-heróis da editora de BD americana, a Marvel. Todos eles mutantes que, segundo este universo ficcional, são o passo seguinte na evolução da humanidade, seriam exterminados num momento da história em nada diferente do Holocausto. A equipa estava no auge da popularidade, totalmente por culpa de dois artistas, Chris Claremont (escritor) e John Byrne (escritor e desenhista), que desde 1975 e 1977, respectivamente, produziam histórias que viriam a ser consideradas um marco, não só pela qualidade da colaboração, mas também por apresentarem alguns dos momentos mais relevantes, icónicos e transformadores da BD americana.

A parelha tinha acabado de sair de um desses momentos, ao produzir uma das suas mais importantes histórias, em que haviam sido forçados a matar um relevante personagem dos X-Men na intitulada “Saga da Fênix Negra” (publicada no ano passado em Portugal numa edição mais do que recomendável da Levoir-Público). O que poderia ser visto por qualquer outro como um apropriado canto do cisne, na realidade serviu como acha para uma fogueira que arderia ainda por mais alguns meses. Nasceria Days of Future Past.

O enredo à data era algo de particularmente inovador na BD americana. Durante dois números mensais, os 141 e 142 da revista Uncanny X-Men, a equipa dividiu o protagonismo das páginas da revista com uma sua versão futura. Daí a 30 anos, o governo norte-americano havia aprovado uma lei que bania a existência dos chamados mutantes, os homo superior, relegando-os a um papel de párias, perseguidos por todos em geral e por gigantescos robôs sentinelas em particular, caçadores implacáveis e velhos inimigos dos X-Men. Aquilo que representavam, as minorias, a luta pela afirmação da diferença, os direitos dos excluídos, era sublinhado e hiperbolizado, ao comparar a sua luta com o sofrimento infligido a tantos outros ao longo da História da humanidade. Comparava-os à perseguição e purga que havia sido sanguinariamente perpetrada a tantos outros no passado. Depois de caçados como sub-humanos, eram atirados para campos de concentração, forçados a viver em condições que espelhavam o racismo e desprezo que inspiravam nos seus semelhantes. Deste futuro distópico é trazida para o presente a mente de um dos X-Men, que tenta usar o seu corpo de 1981 para impedir que aquele 2013 tenha lugar.

A luta no presente adquiria um peso diferente. Os X-Men não lutavam apenas contra o vilão do momento ou o inimigo figadal, lutavam pelo futuro da sua raça, um futuro que se desenhava negro, o reflexo distorcido do sonho que os havia inspirado a unir-se, o da irmandade entre todos os homens. Este conflito era genialmente sublinhado pelos criadores, ao forçarem no presente de 1981 um combate tipicamente “super-heróico”, mas desta feita contra um grupo de mutantes terroristas que, não acreditando na filosofia pacifista dos X-Men, procuravam uma defesa mais militarista dos direitos que acreditavam ser seus. Deste modo, os protagonistas são colocados numa área cinzenta de moralidade, fornecendo diferentes pontos de vista e aproximações a um mesmo problema. A conclusão, à data, foi particularmente dura e surpreendente, porque as versões dos X-Men de 2013 sofriam um destino nada risonho. A luta dos principais personagens assumia-se, uma vez mais, como multidimensional e facetada. O futuro era verdadeiramente trágico e nessa dimensão Chris Claremont e John Byrne saíam vitoriosos e inovadores. Os X-Men assumiam-se como personagens de uma tragédia clássica, em que o destino inexoravelmente os dirigia para um fim negro, apesar de todos os esforços, apesar de todos os sacrifícios.

A próxima iteração dos X-Men no cinema, a sair em 2014 pela mão de Bryan Singer, vai exactamente adaptar esta história mítica. X-Men: First Class II, que terá como actores Michael Fassbender, Jennifer Lawrence e James McAvoy, vai receber a visita dos X-Men da primeira versão em cinema, estando já confirmados para o futuro distópico a presença de Hugh Jackman como Wolverine e Ian McKellen como Magneto.

Felizmente, esta BD vai muito em breve ser publicada em Portugal, tendo como verdade os rumores que andam pela net de que a Levoir/Público vão lançar uma nova coleção de livros, estando esta histórias nela incluída.

 


Ler Sem Medo! - X-Men: New Mutants Classic volumes 1 a 7 e Magik

Os conhecedores da mitologia sabem perfeitamente que ler qualquer história protagonizada pelos X-Men ou outro dos personagens derivados é um exercício complicado. Desde que foram reiniciados em meados da década de 70, e, especialmente, desde que passaram a ser escritos por Chris Claremont, que o universo cresceu para dimensões inacreditáveis e os enredos tornaram-se labirínticos – isto junto com parceiros de crime como John Byrne, Dave Cockrum, Paul Smith, et al. Durante mais de 17 anos o escritor construir um mundo de tal forma complexo que o mais desavisado ou casual dos leitores terá uma tarefa hercúlea se quiser entrar neste mundo.

Uns anos depois de os X-Men serem já um valor seguro, Claremont experimentou com a fórmula e criou uma equipa de mutantes adolescentes a quem deu o “imaginativo” nome de Novos Mutantes. Não só capitalizava na fama do grupo principal como também nos Novos Titãs da Distinta Concorrência (A DC, perceberam?), outros dos valores seguros de venda no início da década de 80. Nasciam um grupo de cinco jovens mutantes: Danni Moonstar, a nativo-americana conhecida por Mirage; Rahne Sinclair, a escocesa e lupina Wolfsbane; Sam Guhtrie, rapaz all-american, o Cannonball; Roberto da Costa, brasileiro, o Sunspot; e Xian Coy Mahn, vietnamita de cognome Karma. Durante quase cinco anos, 54 capítulos e mais umas coisas aqui e acolá, Claremont imprimiu o seu muito particular carimbo num grupo de jovens que se portavam de acordo com a idade, isto enquanto lidavam com o facto de fazerem parte de uma raça ostracizada pelo resto da sociedade e, já agora, com sombrios inimigos. Os oito volumes que acabei de ler englobam a totalidade deste trabalho.



Os primeiros volumes desta coleção são, sem dúvida, os mais fortes. Nos dois últimos já se nota algum esforço em ir ao encontro da fabulosa tour de force que foi o princípio. Com a ajuda de desenhistas de primeira água como Bob McLeod, Sal Buscema, Bill Sienkiewicz, Arthur Adams, apenas para citar os mais fortes, assistiu-se a um dos mais imaginativos “world-building” que a editora de BD Marvel teve o prazer de incluir nos seus anais. Especialmente nos três primeiros volumes, somos bombardeados com novos conceitos atrás de novos conceitos, introduzindo mundos, personagens e enredos a uma velocidade estonteante: Nova Roma; Urso Demônio; Legião, o filho do Professor Xavier; Hellions; etc. Quase que me arrisco a dizer que este foi o último “world-building” desta magnitude a acontecer na Marvel. Desde então a editora e os seus criadores limitam-se a jogar com os brinquedos que homens como Claremont, Lee, Kirby, Ditko, Starlin, etc., tiveram a ingenuidade de criar para um patrão que lhe ficou com os dividendos do trabalho.

Foi especialmente gratificante ler no original a lendária colaboração Claremont/ Sienkiewicz, um dos pontos altos da BD mainstream nos EUA. Muito dificilmente voltamos a ver um escritor tão comercial a trabalhar de forma tão produtiva com um desenhista de margem do gabarito deste. Os conturbados argumentos de Claremont eram imediatamente colocados num outro nível quando o muito pouco “realista” traço de Sienkiewicz tornava físicas as palavras do primeiro, de uma forma que devia mais ao onirismo que ao fantástico típico do mundo dos super-heróis.

Outras das mais interessantes colaborações ocorrem nas aventuras Asgardianas dos Novos Mutantes (sim, o mundo mítico de Thor), com o traço e imaginação de Arthur Adams. Este é um dos momentos altos da imaginação do escritor, que mistura os dilemas existenciais do universo Mutante com a mitologia de Asgard, uma combinação estranha mas com resultados deliciosos. É pena que o trabalho de coloração nestes volumes seja o original, porque o traço de Adams necessita urgentemente de um esforço muito melhor.


Também foram muitos os parceiros a juntar-se à luta dos cinco originais; Magma; Warlock; Cypher; e Illyana Rasputin, Magik, irmã do X-Man Colossus e estrela da única minissérie paralela feita por Claremont, e que contava a história do personagem antes de se juntar aos Novos Mutantes. Uma história que, a meu saber, nunca foi publicada em Portugal. Sim, porque estas aventuras foram quase todas lançadas pela saudosa editora brasileira Abril, nos seus saudosos formatinhos. Reler foi, obviamente, um prazer nostálgico, mas não seria nada de extraordinário se a qualidade não estivesse de acordo com esse peso. Conseguiram sobreviver com o passar dos anos, isso posso vos garantir, e ganham muito em folhear estas páginas na sua língua original. Sem divida para fãs e, espero, não só.