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Guerra dos Tronos - contar histórias não desapareceu com os nossos avós (e ainda bem!)



É incrível como contar histórias ainda nos comove e preenche. Mesmo numa sociedade cada vez mais afastada da natureza, cada vez mais tecnológica. Mundos imaginários com dragões, princesas, príncipes, vilões e senhores das trevas. Mesmo que a forma seja mais adulta do que a que ouvíamos quando éramos crianças.  A aparente simplicidade das narrativas vicia mas, hoje em dia, a uma escala global. Antes esperávamos pelo boca-a-boca, pela tradução do livro, pela episódio passar àquela hora na TV. Hoje em dia, vemos todos ao mesmo tempo, longe uns dos outros e, logo a seguir, temos necessidade de partilhar o entusiasmo na Internet, nas redes sociais.  A série Guerra dos Tronos não é a primeira mas é a primeira a esta escala.

Muito se deve a uma arte que (na minha opinião) faz parte de todas as outras artes e que deveria ser considerada uma arte em si mesma: a de contar histórias. A habilidade com que uns poucos manejam os truques e cativam uma audiência é uma maravilha de se ver. Neste caso falamos, primeiro e sempre, de George R. R. Martin, um residente dos EUA que tornou-se mestre desta tradição milenar. Já são muitas as considerações sobre a capacidade deste senhor em tecer um bom conto. Eu partilho de muitas dessas opiniões. Martin, acima de tudo, começa por cativar-nos com personagens bem construídas e com as quais desenvolvemos uma relação de empatia, simpatia e amizade. Antes de passar à acção e às mortes ele consegue com que tenhamos sentimentos por cada um deles. Por vezes, bem definidos, como o amor ou o ódio, outras vez mais ambíguos, como se não soubéssemos se estamos a ler sobre um herói ou um vilão. As personalidades e motivações são delineadas e descritas ao pormenor, como se (lá está) estivéssemos a conhecer alguém. Por causa disso, relacionamo-nos com elas. Por causa disso (e mais umas coisas, já lá vou), sofremos de ansiedade com o seu destino.

O curioso de Martin é que muitas das suas personagens principais têm um tipo de impedimento, físico ou social. Tyrion é anão. Jon Snow é bastardo. Daenerys é mulher. Martin, aliás, assume o seu feminismo nesta personagem mas não só: também em Sansa, em Arya, em Brienne e mesmo Cersei. Todas vivem num mundo misógino e de expectativas castradas. O curioso é que, na fase da história em que a série de TV se encontra, três delas são as governantes do continente imaginário de Westeros. Após tantas provações são elas que lideram e governam (bem ou mal). Por outro lado, existem as personagens que passaram da força para a fraqueza, como é o caso de Jaime Lannister, cuja perspectiva mudou quando perdeu a mão direita, a que lhe permitia ser um espadachim único. Depois de uma longa jornada, Jaime atinge o seu apogeu na primeira batalha do seu exército contra o dragão de Daenerys, ao não a abandonar e ao estar pronto para se sacrificar. A lição da humildade é, para Martin, importante.

O mundo que o escritor construiu é demasiado real. A imprevisibilidade é comum. A surpresa da morte de personagens que julgávamos importantes tem cativado os leitores e espectadores. A ansiedade que cada nova cena provoca é impressionante. Em muitas outras histórias estamos totalmente seguros que nada iria acontecer à nossa personagem favorita. Quem é que acha que o Super-Homem ou o Indiana Jones vai morrer no final? Pelo menos permanentemente. Na Guerra dos Tronos estamos sempre agarrados à cadeira com medo que seja desta vez que Tyrion ou a Daenerys (ou mesmo o dragão) não se safem. E muitas vezes esse sentimento acontece nos dois lados de uma mesma batalha. Tão depressa não queremos que morra o Bronn como o Drogon. Martin perdeu tempo a explorar cada personalidade, a construir empatia com cada personagem. Envolveu-nos de tal forma que somos chantageados a sentir cada morte e cada ameaça constantemente. Não há descanso.

Porque estamos a acompanhar um livro (e uma série) muitas das personagens cresceram em frente dos nossos olhos. Acompanhamos cada experiência de Sansa, de Arya, de Jon, de Daenerys, ao longo de muitos episódios, capítulos e anos. Como se estivéssemos em confidência com o nosso melhor amigo. Como na vida real. Apercebemo-nos, mesmo sem o racionalizar, que as acções e personalidades são diferentes hoje do que eram ontem, por razões que sentimos como claras. Relativizamos cada opção, muitas vezes as mais criminosas (Tyrion mata o pai, Arya é uma assassina). Uma  das minhas favoritas é Sansa, que começa como uma típica princesa dos contos de fada, suspirando por um príncipe e por uma vida de sonho num longínquo reino maravilhoso. Mas o seu príncipe é um psicopata e o reino um ninho de víboras, umas das piores sendo a sua sogra. Aliás, Cersei e Sansa são o espelho uma da outra. Ambas sonharam com uma vida de Branca de Neve mas a realidade impregnou-se devagarinho e negra. Mas enquanto Sansa parece ter aprendido a apoiar-se na família e a não se ser tão má quanto as suas experiências, Cersei afasta-se até do irmão, quem mais a ama no mundo, e torna-se numa das mais atemorizantes personalidades de Westeros. Esta lenta a progressiva construção de personagens é apenas possível em literatura e na sua herdeira, a série de TV.

A arte de contar histórias é uma das mais antigas e mais importantes. A tecnologia não a matou. Está bem viva. E a Guerra dos Tronos é disso prova.

Guerra dos Tronos: com 10 minutos assim...


Como seria de esperar para quem lê este Blog, a probabilidade de eu ser fã da série de TV Guerra dos Tronos era elevada. Para que as minhas credenciais geek fiquem totalmente carimbadas, fui primeiro fã dos livros. Já sabia da existência d'As Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin antes da publicação, em 2007, do primeiro volume pela Saída de Emergência, mas foi com esta editora que comecei a devorá-los (leiam aqui o que escrevi à altura, com ainda menos qualidade de escrita e um gosto imberbe pela obra).

Sou daqueles que preferia que Martin tivesse acabado esta obra e não estivesse a "lê-la" na série de TV. Contudo, com a qualidade que tem demonstrado, é uma irritação mínima (mas não totalmente apagada). Mas imaginem como se sentem os que começaram a ler as aventuras de Tyrion, Daenerys, Jon Snow, etc., quando o escritor publicou o primeiro volume da saga em 1996. Vinte anos depois ainda não sabem do fim da história e vão descobri-lo numa série de TV.

Sim, o episódio quatro da sétima temporada, agora em exibição, foi maravilhoso e empolgante. Principalmente os últimos dez minutos, os da batalha entre as forças (a partir de agora há spoilers, portanto, fujam os que ainda não viram o episódio) de Daenerys e de Jamie/Cersei Lannister. Dez minutos em que era impossível não estar sentado na beira do sofá enquanto o coração batia a mil, preocupado com o destino das muitas personagens que aprendemos a adorar ao longo destes anos todos. Um verdadeiro testamento à qualidade da escrita de Martin e dos que fazem a série de TV.

Houve o glorioso uso de Drogon, o gigantesco dragão de Daenerys, cuja chama incandescente varria o exército de Jaime Lannister. Houve a batalha sangrenta e incrivelmente violenta, como raramente aparece no Cinema e muito menos na TV. Houve a pirotecnia e o soberbo uso de efeitos especiais. Mas houve muito mais que isso e finalmente chego ao que vos quero dizer.

A cena começa nos diferentes diálogos de Jaime e Bronn com outros personagens mas principalmente com o jovem cavaleiro Dickon. A troca de palavras centra-se no facto da guerra não ter nada de glorioso, ao contrário do que professam os contos de cavalaria e a gabarolice dos cavaleiros (tema recorrente em George Martin). Falam do facto de Dickon ter morto ou visto morrer companheiros de caçada, outra característica inglória e desonrosa da guerra e da luta pelo poder. Estas afirmações sublinham a ideia de ausência de maniqueísmo simplista na narrativa de Martin, onde existem pessoas completas e ambivalentes em ambos os lados. A conversa funciona como prelúdio ao que se seguiria.

O escritor (ou escritores) tem realizado um extraordinário trabalho para que leitores e telespectadores estivessem preparados para empatizar com os dois lados desta batalha. Podemos roer as unhas em cada momento, num duelo esperança/receio de que alguém sairia morto no final (não esquecer que Martin tem feito gala de que "nenhuma personagem está a salvo", aumentando o nosso nível de ansiedade). Por um lado, queremos que Daenerys vença, que Drogon faça terra queimada do campo de batalha, mas por outro não queremos que Jaime ou Bronn sejam sacrificados (nem o dragão, já agora, que esteve perto de morrer).

O rosto e olhar de Tyrion são um espelho desta realidade. Preocupa-se ao mesmo tempo com o irmão e com Daenerys. Esse olhar espelhava a dicotomia que sentia ao ver uma batalha terrivelmente sangrenta. Pessoas calcinadas e nada mais que cinzas sopradas pelo vento. Violência desmedida. Não há glória ou honra nas batalhas e na guerra. Só nos contos delas. Guerra é inevitável. Honra e Glória é apenas para os que a tentam vender aos desgraçados que dão o corpo por ela. 

Jaime, por seu lado, prova que evoluiu como pessoa desde o primeiro episódio. Não abandona a batalha e quase (?) que dá a vida pela vitória e pelos companheiros de batalha. Faz lembrar o comentário da Diana (a Mulher-Maravilha) aos generais ingleses da 1.ª Guerra: que os verdadeiros generais estão junto com os seus soldados e não refugiados na distância e conforto das salas de mapas.

Dez brilhantes minutos que gritam bem alto pela qualidade da escrita, pela realização, pela alma e pelo planeamento desta obra. Aplausos de pé!

The Sword in the Storm – 1º Volume da série Rigante de David Gemmell

Nunca tinha ouvido falar de David Gemmell. Mas, por causa das felizes comunidades que se criam entre pessoas com gostos parecidos, foi-me aconselhado este livro. Depois de ter lido o primeiro volume da enorme saga Wheel of Time de Robert Jordan, foi sugerido que dedicasse algum tempo a este livro, o primeiro de quatro. Que bom conselho foi esse.

A saga dos Rigante, povo deste mundo imaginário construído por Gemmell, é um romance de fantasia à semelhança de O Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos (sim, eu sei que este é o nome do primeiro livro da Saga do Fogo e do Gelo de George Martin). Aliás, para ser mais preciso, no que respeita a estilo, está algures a meio destes dois livros. Primeiro, porque a construção do mundo não é tão pormenorizada ou obsessiva como o foi a de Tolkien. Segundo, é bastante mais fantasioso que a famosa saga de George Martin, não se afastando da matriz mágica e mítica que tantos fãs gostam nestes romances passados em mundo medievais imaginários. Por outro lado ainda, existe um nível de brutalidade que pode comparar-se a Westeros mas que, a meu ver, sabe mais ao estilo de Conan, o Bárbaro, de Robert E. Howard. Muita dessa impressão dever-se-á ao personagem principal, Connavar, guerreiro dotado, resoluto e implacável. Ele é também o típico escolhido pelo Destino para servir um propósito escondido do entendimento do próprio herói e de todos à sua volta. Aliás, se existe uma estética transversal, uma mensagem, se assim o quiserem, é exatamente a do caminho urdido pelos Deuses. Desde o primeiro momento tem-se a certeza (revelada e declarada) que a vida de Connavar é seguida de forma atenta pelos seres divinos que vigiam o caminho dos homens, deuses de matiz naturalista (à semelhança da mitologia celta, japonesa e alguns pormenores da grega), habitantes das árvores, rios e montanhas. Outro pormenor que sublinha este aspeto é de que a todos os habitantes deste mundo imaginário cedo é revelado por uma bruxa, uma xamã, quais os sinais que precederão a sua morte. Um aviso de que poderão escapar a esse destino se estiverem atentos.

Outra dos temas da Saga dos Rigante é também o da defesa de um estilo de vida rural, da pequena comunidade local e dos costumes tradicionais adaptados ao ambiente em que vivem. Este povo vive em harmonia com o dia-a-dia que segue há séculos, felizes nas tradições (digamos) anti-cosmopolitas. Contudo, descobrem que a defesa desse modo de vida exige sacrifícios. Materiais e não só.


Não sendo uma saga de originalidade impressionante, a escrita de Gemmell é empolgante, raramente se perdendo em descrições extenuantes de todos os pormenores. Antes foca-se no enredo, que se desenvolve a um passo bastante rápido (muito em oposição, por exemplo, ao de George Martin que é glacial) e cheio de reviravoltas, o que torna a leitura agradável e deixa-nos sempre com ansias para passar ao próximo capítulo. Recomendável.

O que vou lendo! – The Eye of The World – 1. º Volume de The Wheel of Time de Robert Jordan

O livro estava a ganhar pó e amarelo no papel há mais de uma década. A ganhar corpo e sabor. Para que, quando finalmente o lesse, o pudesse saborear com o vintage da idade. Isto tudo para justificar tê-lo parado na prateleira. Já o deveria ter lido. Alguém me incentivou a ler, numa daquelas conversas em que um assunto leva outro. Começou pela BD (belo lugar onde começar), invadiu o terreno do romance de Alta Fantasia, deslizou por George Martin e acabou neste Robert Jordan, percursor do primeiro.

Desde que soube o peso de toda a saga fiquei um pouco acabrunhado e achei que seria uma pesada empreitada. Catorze volumes no total. Cada um tão grande ou maior que este primeiro – cerca de 800 páginas. Ainda assim, decidido, arrisquei. E ainda bem. Divertido, empolgante e viciante são adjetivos bem apropriados. Há outros. O que vos posso dizer é que os dois próximos volumes já estão no carro de compras. Vamos ver se o entusiasmo continua e se consigo chegar ao final.

Como não poderia deixar de ser quando falamos de romances deste género literário, existem um conjunto de clichés que são sempre obrigatórios. Trata-se de um mundo parecido com o nosso, um ambiente semi-medieval, uma sombra que se aproxima, uma milenar luta entre as forças da escuridão e as da luz, um conjunto idiossincrático de pessoas que se juntam, um dentre eles o prometido Salvador. Tudo servido com decorações que variam entre línguas exóticas inventadas, criaturas fantásticas de mil e uma cores, paisagens de tirar o fôlego, civilizações tão antigas quanto o nascer do sol, etc. Em suma, tudo o que se espera encontrar neste tipo de livros desde que Tolkien os inaugurou. O que varia é sempre a forma como se cozinha e apimenta o preparado.

Robert Jordan dá-nos de tudo o que acima enumerei um pouco mas, necessariamente, de uma forma muito sua. Mistura diferentes religiões do nosso mundo para construir uma mitologia e cosmogonia que refletem o seu modo de pensar. A Roda do Mundo, um dos pilares deste mundo de fantasia, é uma mescla de budismo e mitologia grega, ao abordar os temas da ressurreição e do destino que é tecido por forças superiores alheias. Os senhores da Luz e Sombra são reflexos de um arquétipo que nos é familiar, o judaico-cristão. O enfoque num lado comunal com a natureza bebe a rituais pagãos que remontam ao druidismo. Também Tolkien construiu uma mitologia que absorvia diferentes influências, mas tal como George Martin da Guerra dos Tronos, cada qual pega numa das pontas do novelo disponível e constrói algo seu. É nessa construção que está parte do prazer da leitura. Outra fonte é sem dúvida a qualidade da narrativa e do enredo, o tipo de relação que se consegue construir para que o leitor se embrenhe com vontade nos destinos dos personagens. E, nisso, Jordan consegue com mestria.

Outro lado interessante neste romance e que surge em contraponto com o modo como Tolkien o abordou no seu Senhor dos Anéis, é o tratamento que Jordan faz das mulheres, quer como personagens, quer no seu papel no mundo fictício. Neste universo elas são omnipresentes na influência e no poder, numa alusão a outras mitologias, estas mais remotas e matriarcais, aquelas das primitivas sociedades humanas. Elas são curandeiras, místicas e símbolo de vida, com uma forte ligação à fonte de poder primordial. Por exemplo, o arquétipo Gandalf (que, por sua vez, vem de Merlin) é ocupado por uma mulher. O que, a bem ver, constitui-se como um exemplo positivo e a seguir.


Este primeiro volume, ainda que de modo algum seja revolucionário na escrita e no enredo, constitui-se como um pedaço de entretenimento bastante interessante. Para quem não sabe, infelizmente, o autor já faleceu, não tendo tido oportunidade de escrever a sua mega-saga até ao final. Contudo, quando soube da sua prevista morte, preparou o terreno todo, escreveu os últimos capítulos e entregou o resto às capazes mãos de um fã, Brandon Sanderson, que acabou o 14.º volume em 2012. Espero chegar a ele…

(PS - Para quem não tem controlo razoável da língua inglesa, será difícil acompanhar esta saga até o final. É que, em Portugal, foram publicados pela Bertrand apenas os quatro primeiros volumes da saga)

Guerra dos Tronos: Não confundir com O Senhor dos Anéis


Guerra dos Tronos é a muito conhecida série de TV produzida pela HBO e baseada nos livros da saga As Crónicas de Gelo e Fogo, escritos pelo autor norte-americano George R. R. Martin. A publicação dos 7 volumes planeados começou em 1996, mas a sua conclusão (com o lançamento dos dois últimos) ainda não está prevista. A velocidade de escrita de Martin é, infelizmente, tão glaciar quanto o ritmo do enredo da Guerra do Tronos mas, como o próprio refere, a obra não ficará conhecida pela rapidez com que a realizou mas pela qualidade da mesma. Portanto, resta aguardar pela publicação do 6.º volume (The Winds of Winter), previsto para 2014, e do 7.º e último numa data ainda a especificar (A Dream of Spring).

George Martin nunca escondeu que é fã do pai e fundador dos romances de Alta Fantasia, J.R.R. Tolkien, mas ao mesmo tempo não quer que a sua obra-prima seja confundida com O Senhor dos Anéis, da autoria deste último. Claro que não pode desmerecer este seu antecessor já que, não só criou um estilo do qual, de uma forma ou outra, é devedor (tal como Tolkien deve a Homero, às lendas Arturianas, a Beowulf), como o sucesso da trilogia do Senhor dos Anéis teve impacto suficiente para abrir caminho à aprovação da Guerra dos Tronos pela HBO. Mas, verdade seja dita, o relato de Martin é bastante diferente do de Tolkien, apenas se assemelhando a este no facto de se passar num mundo de fantasia de laivos cavaleirescos e mágicos. Mas as semelhanças param por aqui. Martin é mesmo peremptório em afirmar, em jeito de brincadeira (ou se calhar, não de tanta brincadeira assim), que em As Crónicas de Gelo e Fogo não há nem haverá os aborrecidos elfos.

O enredo da saga tem como palco dois continentes deste mundo inventado, Westeros e Essos, e conta a história da disputa da governação do primeiro, levada a cabo por sete famílias reais – ainda que se centre principalmente em três: os Lannister, talvez os mais maquiavélicos; os Stark, os mais honrados; Os Targaryen, os depostos mas talvez futuros reis. Como não poderia deixar de ser num romance de Alta Fantasia, uma sombra aproxima-se, vinda do Norte e sob a forma de um Inverno rigoroso e de espectros de mortos-vivos, percursores de um exército e de uma entidade das trevas que, paulatinamente, se aproxima do mundo. O que difere Guerra dos Tronos de O Senhor dos Anéis é o facto do lado mágico e fantasioso ter episódios apenas esporádicos, preferindo centrar o enredo nas maquinações que ocorrem nos bastidores da conquista do poder, na ambição pela governação do Trono de Ferro, assento máximo e simbólico dos governantes de Westeros. Este é um romance de intriga palaciana, revelando as mais intrincadas e atrozes formas que os diferentes atores escolhem para se suplantarem, muitas vezes à custa de actos hediondos. Não há tréguas, cada um vale por si, e geralmente os mais honrados têm o destino mais desgraçado, como se Martin colocasse um contraponto a todos os romances de cavalaria, onde o Bem triunfa e a Honra é sistematicamente recompensada.

Nenhum dos personagens deste romance é facilmente classificável. Todos se perpetuam numa área cinzenta de moralidade, portanto toda ela dúbia, indefinível. Este lado da narrativa é fortemente sublinhado pela escolha estilística do autor, que escreve cada capítulo sob o ponto de vista de diferentes personagens. Martin não gosta do narrador omnisciente porque, como o próprio refere, ele não existe no real. Todas as ações são presenciadas por alguém que possui um prisma sobre os acontecimentos, uma subjectividade, que o autor explora através deste método. Claramente, este é algo que nos escapa na série de TV, onde dificilmente sabemos o que cada personagem pensa, qual o seu passado, não só por imperativos de tempo como também pelas características intrínsecas a cada meio. Nada de novo na transposição da prosa para o cinema e TV.

Obviamente que esta indefinição moral e ética dos personagens deverá ser sempre entendida no âmbito do tipo de romance em que A Guerra dos Tronos está inserido. Todo o estilo narrativo escolhido por Martin se encaixa nos trâmites mais clássicos da Alta Fantasia, se não na forma, pelo menos no conteúdo. Existe uma descrição exaustiva de cada nome, de cada estrada, de cada castelo, mesmo da gastronomia (aliás uma das imagens de marca), tudo num ambiente devedor à Idade Média e aos seus códigos e atmosfera.

Westeros emula a Inglaterra ou Europa medievais, onde os estandartes erguem-se, orgulhosos, por cada família, e os cavaleiros, com pesadas armaduras sobre os ombros, são tratados por Sor (palavra popular portuguesa que se refere a senhor). Essos, por sua vez, afastado pelo apropriadamente apelidado Mar Estreito, faz lembrar o Norte de África e Médio Oriente da mesma era da História.

Apesar disto tudo, não podem faltar alguns aspectos mais fantasiosos, como os referidos espectros, a Magia ou os famosos Dragões que, contudo, estão longe do arquétipo falante, sábio ou tenebroso. Aqui são retratados como ferozes animais irracionais a ser domados como um cavalo (ainda que com capacidades bélicas bem diferentes). Martin não descura os aspectos mais tradicionais do cânone, se bem que se incline para a quase-omnipresente componente da intriga.

A publicação dos livros da saga é assegurada em Portugal pela editora Saída de Emergência que, contudo, escolheu dividir cada um dos cinco volumes em dois. A 1.ª e 2.ª temporadas da série de TV adaptaram os dois primeiros volumes originais (quatro em Portugal), enquanto a 3.ª (atualmente em exibição) e a 4.ª (a sair para o ano) trazem para o pequeno ecrã o maior volume da história, A Storm of Swords (em Portugal A Tormenta das Espadas e A Glória dos Traidores). Uma das outras imagens de marca dos livros é que nenhum dos personagens, mesmo os que consideramos principais, é certo chegar ao final com vida. O que aliás é um dos aspectos mais surpreendentes do volume atualmente a ser adaptado.


Ainda que às Crónicas de Gelo e Fogo falte muita da imaginação delirante de Tolkien, da sua prodigiosa capacidade para construir mundos e mitologias, ganha pelo lado marginalmente mais adulto e orientado para o enredo cativante e verdadeiramente viciante. O que aliás tem sido provado pelo enorme sucesso da série de TV. Mas, como é meu costume aqui nestas sugestões, tenho de recomendar lerem os livros porque eles são mesmo... lá vai o cliché...melhores que a série.


Crónicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin


George R. R. Martin não é John R.R. Tolkien.


Não entendam esta afirmação apenas como uma crítica mas também com um elogio.

Tolkien foi o pai e o precursor de um estilo, obreiro de uma das mais importantes heranças literárias do século XX e da humanidade, digno de ombrear com outros tecedores de mundos dignos de nota. George Martin, pelo menos até o momento, não deu origem a nenhum estilo, antes se sentiu inspirado por muitos.

Mas Martin também não seguiu cegamente as peugadas do pai e de sua prol (e foram uma legião), antes tem consistentemente aberto os seus trilhos, sem medo de encontrar um ou outro abismo sobre o qual teimosamente insiste em construir uma ponte. E esta é uma das forças maiores de George Martin: unir mundos (literários) de uma forma fresca.

O mundo que Martin criou não foge ao sonho de muitos dos que avidamente lêem este tipo de romance com vários epítetos: Alta Fantasia; Romance de Cavalaria; etc. Mas fá-lo de uma forma idiossincrática, deixando o universo respirar lenta e pausadamente antes de o mergulhar no deslumbramento do fantástico. O primeiro volume das “Crónicas de Gelo e Fogo” chamado “A Guerra dos Tronos” (que em Portugal foi dividido em dois pela editora Saída de Emergência) não possui quase nenhuma referência ou episódio sobrenatural. Antes imiscui-se de uma forma conhecedora nos meandros de um mundo medieval onde a intriga palaciana é rainha e senhora (o trocadilho é intencional).

Os vários intervenientes (e Martin recorre ao recurso estilístico de cada capítulo ser contado no ponto de vista de um dos seus personagens) perdem-se em rebuscados enredos de busca incessante e tão humana por poder, justificando-o por uma miríade de razões mas sempre com o intuito vergonhosamente egoísta: conseguir mais para mim, para a sobrevivência que, ironicamente, acaba abruptamente. Com o cravar de um punhal, figurativo e não só, nas costas.

Martin excede-se nestes retorcidos caminhos, agarrando o leitor de forma voyeurista. Os seus personagens não são excessos de bravura e nobreza. É raro um que o seja. E, ainda assim, insistimos em vê-los em cair...