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Começo pelo princípio, onde todas as coisas devem começar. O desenho animado do Homem-Aranha da década de 60 estava a passar na TV portuguesa lá pelos finais dos anos 70. Eu não conseguia largar a TV quando estava no ar. Algum tempo depois, a Agência Portuguesa de Revistas lançava as Aventuras do Homem-Aranha e, por qualquer razão, só a apanhei no número cinco, que reproduzia o Amazing Spider-Man 156 americano.  Bastou folhear e ler, para ficar agarrado - na realidade foi o meu pai que ma leu, não me perguntem porquê, talvez eu gostasse da maneira como ele lia (parabéns Pai, pelo teu dia, agora que já não estás comigo e com a minha irmã). Assim começou. Tudo graças à Marvel, ao Homem-Aranha e, principalmente, aos autores Len Wein e Ross Andru.

Uma BD por dia, não sabe o bem que lhe fazia - até ao primeiro dia de 2020!



Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Neste momento, estou a escolher os meus momentos importantes do Quarteto Fantástico, aka Fantastic Four, uma das minhas equipas favoritas de supers na BD.


Depois destas, o mundo não seria mais o mesmo.

"Face it, tiger... you just hit the jackpot!" - Mary Jane Watson no Amazing Spider-Man, volume 1, número 42, escrita por Stan Lee.

Capas de the Amazing Spider-Man, volume 1, números 156 e 157, de Maio e Junho de 1976,  desenhos de John Romita Sr.


Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 17.º Volume: Hulk

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Fácil

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 30 de Outubro, junto com Público e custa 8,9€


O Hulk é um dos mais conhecidos personagens da editora de BD Marvel. Muitos já ouviram falar da monstruosa e selvagem figura de pele verde que não é mais que uma evolução super-heroística da história de Dr. Jeckyl e Mr. Hyde.  Um homem bom, cientista de profissão, génio de inclinação, esconde uma natureza selvagem, primal, que é libertada quando se transforma numa gigantesca figura esmeralda, toda ela id, toda ela fúria descontrolada e violência reprimida. O homem é Bruce Banner e o monstro é o Hulk. 

O que menos pessoas sabem (ou seja, ninguém fora do universo da BD) é que a cor de pele que Stan Lee (um dos criadores do personagem) originalmente queria para o Hulk não era o famoso verde mas antes o cinzento. Problemas de impressão obrigaram a optar antes pelo tom esmeralda e o resto, como diz o outro, é história. Contudo, nada nos contornos da BD americana é deitado fora. Na década de 80, o escritor e desenhista John Byrne, numa re-imaginação retro do personagem, decide incorporar na mitologia e na história este "erro" de impressão: o Hulk havia sido, nos absolutos primórdios da sua existência, cinzento e não verde. Não só isso mas essa encarnação era menos forte, mais pequena em estatura e mais inteligente, madura e sarcástica em personalidade. De facto, a argúcia de Byrne não é de desmerecer porque usou o seu amor pelas décadas anteriores da Marvel e construiu algo inovador.

O Hulk, tal como muitos outros personagens, depende da interpretação que diferentes autores fazem da sua personalidade. No início da sua carreira, escrito por Stan Lee, o Gigante Esmeralda era mais arguto e malicioso.  Na mão de autores subsequentes como Len Wein e Bill Mantlo passou a ser infantil, dócil e inocente, excepto quando provocado - no fundo, uma criança. Byrne tentou explicar estas "mudanças".

Depois de Byrne, Peter David, escritor que tomou conta dos destinos do monstro durante muitos anos, agarra nestas alterações de cor e personalidade e atribui-as à infância traumatizada de Bruce Banner - esta ideia é não só uma evolução do trabalho de Byrne como de Bill Mantlo, que idealizou que o monstro era a manifestação física dos problemas do alter-ego do personagem. Os Hulks de tez diferente eram, assim, diferentes personalidades criadas por esses traumas - o Hulk era re-imaginado como esquizofrénico - muito pós-modernista.

A dupla co-autora deste volume da coleção da Levoir, Jeph Loeb, escritor, e Tim Sale, desenhista, andava ocupada em escrever séries para a Marvel baseadas em cores. Haviam escolhido o Amarelo para o Demolidor e o Azul para o Homem-Aranha (ambas já publicadas pela Devir). Obviamente que para o Hulk teria de ser o cinzento. Assim, em Portugal, fica completa esta Trilogia das Cores, apenas parecida com a do Kieslowski por causa do nome.