Um filme de Tarantino é um acontecimento. As salas enchem-se para ver o que o realizador tem de novo para dizer. Nos dias que correm, de franquias, dos super-heróis, dos remakes e das sequelas, é um caso raro. Nos últimos anos, parece estarmos sujeitos a uma barragem de publicidade a merchadise e a outros produtos que nada têm a ver com Cinema. A cada ida às salas, parece estarmos mais longe da obra autoral. Não quero com isso dizer que não podemos ter entretenimento, mas a hegemonia do produto concebido para agradar a adolescentes, a crianças e a investidores é avassaladora. Associe-se o facto da narrativa na TV estar a criar histórias mais plurais e, muitas delas, direccionadas a um público adulto, e criou-se um ambiente de crise criativa na sétima arte. E isso é ainda mais visível em Hollywood, nem que seja pelo número elevado de filmes a que estamos sujeitos vindos dessas geografias.
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The Revenant de Alejandro G. Iñárritu (O Renascido)
Esqueçam que o Leonardo diCaprio tem um dos melhores papéis da sua vida , e que ... é quase certo, todos o sabemos ... vai lhe dar, finalmente, um Óscar. Esqueçam isso... o que é difícil. Esqueçam também que Tom Hardy faz uma interpretação invejável - e quem o tem visto em filmes como Locke ou Mad Max sabe que a excelência não é inatingível para ele. Esqueçam também isso... o que é difícil. Concentrem-se na realização e na fotografia. Concentrem-se na narrativa. Pode ser que, assim, vejam um filme diferente, melhor, menos agarrado aos soundbites necessários para o vender e vender o Óscar de DiCaprio.
Foquem a vossa atenção na grande angular da câmara portátil que acompanha (por vezes em travelings longos) a acção de muitas partes do filme. Escolham focar a vossa atenção na luz e na sombra que fazem a iluminação natural com que o filme é filmado. Porque cada cena não tem outra luminosidade a não ser a do sol e as sombras não têm outra ausência de luz a não ser a do sol. Escolham maravilhar-se com os contrastes de cor, com a chuva, com a neve impiedosa. Cada momento de natureza é retirado da virgindade que rodeava os cinematógrafos, quer sejam eles o realizador ou o director de fotografia.
Decidam que esta é a história, simples, é verdade, de um homem que sobrevive de forma quase impossível (ou será mesmo impossível?) à tragédia e às provações que parecem saídas dos 12 trabalhos de Hércules. Não sei se metade do que aqui é relatado de facto assim se passou mas, a ser, espero que este homem tenha passado o seu código genético para gerações futuras. Sobrevive a todas as doenças, a todas as potenciais infecções, a mutilações do corpo, a agruras climáticas. O mundo e a natureza reduzem este homem aos seus mais básicos elementos. Nada sobrevive a não ser o essencial. Fica o homem nu, por vezes literalmente, exposto e atento ao mundo à sua volta.
Duas horas e meia de ansiedade, desespero e sobrevivência.
Wolf of Wall Street de Martin Scorcese (Lobo de Wall Street)
A relação
simbiótica entre Leonardo DiCaprio e Martin Scorcese tem-se revelado progressivamente
benéfica para os dois. Começou de forma fraquita com Gangs of New York e evoluiu para O Aviador e The Departed,
este último aquele que finalmente deu o merecido óscar de melhor realizador a Scorcese - digo-o mais pela sua
contribuição para o Cinema e não tanto pelo filme em si, que não apreciei por
aí além – vejam antes trilogia original realizada em Hong Kong (leiam sobre ela aqui). A colaboração subiu uns valentes
degraus com o maravilhoso Shutter Island
e atinge a apoteose com este Wolf of Wall
Street, uma prenda rara na época dos óscares, entregue com pompa, circunstância
e recompensa. Desta vez, o que era prometido foi dado e Scorcese e DiCaprio
confecionaram um prato absurdamente delicioso.
Há muito que não me
ria tanto. Com a depravação, com os diálogos que um amigo disse-me serem quase-Tarantinescos – ele até tem razão (a
conversa sobre anões) e, inclusive, existem situações dignas de um Pulp Fiction (DiCaprio a arrastar-se sob o efeito pesado de drogas é a mais
óbvia). Ri-me com os excessos, com a imaturidade, com a incrível descompensação
emocional destes putos cheios de poder e talento para fazer o que é
profundamente errado em todos os níveis. Não só os emocionais, não só no
relacionamento com os seus mais próximos e mais queridos. Falo do papel na
sociedade que deveriam ter mas que, orgulhosamente, não têm. O personagem de DiCaprio afirma, e parafraseio, “o que fazemos não é do todo normal, mas quem
é que quer pertencer ao mundo normal?”. Pouco do que estes seres humanos
fizeram cai no reino do habitual e aceitável, portando-se antes como romanos
numa nova Roma de deboche e excessos polvilhados de libertinagem.
Na batuta desta
orgia está um maravilhoso Scorcese,
capaz de superar, no excesso de velocidade da montagem, muitos dos jovens
pretensamente elétricos dos dias que correm. Obviamente que a mestria de Scorcese (que até nem é dos meus realizadores
favoritos) não se revela apenas no ritmo epiléptico, mas também na cuidada manutenção
de um ritmo moderno e vertiginoso, as três horas dos filme passando sem fastio,
cada frase e cada cena a conjugação de melodias de uma sinfonia belíssima,
divertida, inteligente e com alta capacidade de nos entreter. Parece que existe
um diálogo perpétuo entre os atores, o realizador, o escritor, a montagem, e
claro que há, como em tantos outros filmes, mas neste parece melhor, mais
perfeita, mais cuidada, mais experiente. Estamos a falar de um realizador que
anda nestas andanças há mais de quatro décadas e um ator que, paulatinamente,
tem construído uma carreira sólida.
Ainda bem que estes
dois meninos se encontraram (porque é de garotos que, felizmente, continuamos a
falar). Os cinco filmes que já fizeram juntos podem ter começado de forma menos famosa (pelo menos para mim), mas
se a evolução continuar nesta progressão De
Niro que se cuide (calma, esta frase foi feita apenas para efeitos dramáticos,
porque Taxi Driver continua a ser a
maior de todas as obras de Scorcese).
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