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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, e agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

E, na recta final, BDs e leituras para todos os gostos e uma coisinha especial.

BD é Cinema e Documentário: Trilhos do Acaso de Paco Roca e Uma Irmã de Bastien Vivès - Levoir


Quero contar-vos um segredo: a BD não é só para crianças. Talvez um dia tenha sido. Talvez isso fosse apenas uma insistência do senso comum. Mas a BD tem de tudo, como a farmácia. Tem histórias para crianças. Tem histórias para pré-adolescentes. Tem histórias para adolescentes. E para adultos. E dentro desta já incrível panóplia, tem histórias de todos os géneros e feitios, cuja variedade é apenas limitada pelo artista, pelo mercado e pelo editor. Prova disso são estes dois extraordinários exemplos de como a BD, como arte, é capaz de atingir níveis de excelência que não a colocam num gueto intelectual, mas antes a atiram para dentro do ringue das grandes obras de Literatura mundial.

Os Trilhos do Acaso vol. 2 de Paco Roca na Colecção Novelas Gráficas III da Levoir/Público


Em Os Trilhos dos Acaso 2,  chega ao fim a proeza do soldado Miguel Ruiz e dos seus companheiros de La Nueve, um grupo de espanhóis republicanos que lutou sob as ordens do General Leclerc contra o nazismo.

Paco Roca desenterra a história deste grupo de militares comandados pelo francês Raymond Dronne e que a 24 de Agosto de 1944 entra de surpresa na capital francesa com um grupo de soldados espanhóis conseguindo a sua libertação da ocupação nazi.  Os franceses acreditam tratar-se de parte das tropas alemãs que se encontram instaladas na cidade, mas depressa se apercebem que não, estes soldados vestem uniformes dos Estados Unidos, mas neles têm cosidas uma bandeira vermelha, amarela e roxa. São os soldados de La Nueve, a companhia de choque da II Divisão Blindada do general Leclerc. 

La Nueve foi dotada de armamento procedente dos Estados Unidos e muitos dos seus blindados e veículos foram baptizados com nomes de batalhas da Guerra Civil espanhola, como Ebro, Teruel, Guadalajara, etc.

Quando De Gaulle desfila pelos Campos Elísios tem ao seu lado em lugar de honra os militares de La Nueve.

Em palavras do autor Paco Roca: “ …a trajectória daqueles espanhóis estava cheia de aventuras e sofrimento, o mesmo sofrimento que viveu parte do meio milhão de exiliados no final da Guerra Civil”.

Em 2014 esta obra recebe o Prémio da Crítica para Melhor Argumento Nacional e ainda o Prémio Melhor Obra de Autor Espanhol no Salão Internacional do Comic de Barcelona.

Os Trilhos do Acaso 2 tem posfácio à edição espanhola do conhecido especialista da história das Brigadas Internacionais Robert S. Coale.

Paco Roca termina este livro com os agradecimentos a todos os que o ajudaram, não só com as suas histórias, mas também com os seus conselhos, ensinamentos ou o empréstimo de livros, que um dia devolverá.

Parafraseando Paco Roca: “Lutar pela liberdade é tão necessário como respirar”.

Características:
Formato -170x240 mm
Nº de páginas – 168
Cor





Os Trilhos do Acaso vol. 1 de Paco Roca na Colecção Novelas Gráficas III da Levoir/Público


Esta semana de regresso um dos grandes autores espanhóis de Banda Desenhada, Paco Roca, autor de A Casa e de O Inverno do Desenhador, editados em 2016 pela Levoir. 

O volume 12 da colecção Novelas Gráficas, Os Trilhos do Acaso 1* considerada recentemente uma das 25 jóias da BD pelo suplemento cultural BABELIA do jornal espanhol EL PAIS, foi lançado em 2013. Nesse mesmo ano ganhou o Prémio Zona Comic Melhor Comic Nacional e o Grande Prémio Romics: Roma em 2014.

É considerado o Maus espanhol nas palavras do jornalista espanhol Javier Gallego.

Em Os Trilhos do Acaso 1, conta-se a emocionante história de um grupo de soldados, na sua maioria espanhóis republicanos exilados em França, que se alistaram na Legião Estrangeira do Exército Francês e que partiram para o Norte de África onde França mantinha ainda algumas colónias, e onde foram incorporados na 2ª Divisão Blindada do general Philippe Leclerc. Por se tratar na sua maioria de soldados espanhóis rapidamente foi apelidada de La Nueve. 

A história destes soldados começa com a derrota republicana e o começo do exílio, quando centenas de milhares de espanhóis, muitos deles combatentes republicanos, fogem através dos Pirenéus ou de barco a partir do porto de Alicante.

Paco Roca reconstrói a história destes soldados que lutaram com todas as suas forças contra o fascismo na Europa ajudando os franceses na libertação de Paris durante a II Guerra Mundial, através das memórias de Miguel Ruiz, republicano exilado em França.

Com prefácio de Pedro Bouça, é uma história apaixonante que retracta as ilusões perdidas de toda uma geração que lutou, dando a vida, por um mundo melhor.

Características:
Formato - 170x240 mm
Nº de páginas – 160   Cor

* Esta história foi dividida em dois volumes por decisão da Editora. Assim, a 15 de Setembro teremos Os Trilhos do Acaso 1, e na semana seguinte, a 22 de Setembro Os Trilhos do Acaso 2.  




O que vou lendo! A Casa de Paco Roca



Acredito que, apesar das nossas diferenças, existe um iberismo que nos une aos castelhanos, catalães, andaluzes, galegos. Um sentimento transversal, um estar, ser e sentir que aproxima todos os que estão nesta península depositada para cá dos Pirenéus. Obviamente que não existe nenhuma novidade no que penso. Fernando Pessoa falava de um "grupo civilizacional Ibérico". Teixeira de Pascoaes era defensor de um "Iberismo espiritual, que solicita um entendimento e uma acção espiritual comum". É-me impossível olhar para o filme Volver de Pedro Almodóvar e não sentir proximidade com as idosas que limpam os túmulos dos falecidos maridos, com a mulher interpretada por Penélope Cruz a lavar facas enquanto o realizador aponta a câmara, de cima, para o abastado decote da actriz. Os espanhóis como um todo poderão ser mais alegres, ter uma movida mais colorida e vivida, mas há proximidades, físicas e culturais, que nos unem.

Nestes dois últimos anos, graças à editora Levoir e ao jornal O Público, os portugueses têm tido a sorte de contactar com a muito rica 9.ª Arte das terras aqui do nosso lado. Tive o prazer de ler Rugas e O Inverno do Desenhador mas, ainda assim, esperava por algo deste autor valenciano que me tocasse de forma mais profunda e perene (talvez necessite de mais uns anos para chegar a Rugas). Eis que surge A Casa publicada no contexto da colecção Novela Gráfica da Levoir. A simplicidade do título alude à simplicidade do tema mas de forma alguma o tratamento que Roca faz da história, do enredo e dos personagens partilha dessa singeleza. Três filhos reúnem-se à volta de uma casa de veraneio do pai, falecido recentemente, de modo a perceber o que fazer com a mesma. Enquanto procedem a pequenas alterações e conservações, a memória vagueia pelo passado e pelo relacionamento de cada com o progenitor. A autobiografia não está longe desta A Casa mas Roca não nos assoberba com essa intenção, antes deixa a sua sensibilidade cinematográfica e a suas tendências para longos silêncios  ganharem a atenção do leitor. Mas o que mais chama a atenção é a incrível familiaridade das situações e cenários, as cores quentes de amarelo a sugerir os dias ensolarados de qualquer ponto do nosso país, a viva recordação das manias dos pais e dos confrontos entre os filhos, a quentura da proximidade das relações, o convívio ao ar livre. Entramos n'A Casa e partilhamos  dos segundos de confrontos e anos de recordações. Roca, inclusive, decide deitar o livro, parecendo um monólito rectangular que alude à forma de, sim, uma casa, e os quadradinhos funcionam como janelas, permitindo a partilha do interior. É, ao mesmo tempo, um ecrã de TV e uma janela da casa ao lado e nós somos bisbilhoteiros da vida alheia. É a quarta parede do palco do teatro que não está bem lá, quase que não existe.

A Casa de Paco Roca é um obra descomplicada na forma, emotiva no tema e familiar na geografia. Um livro que é, a nós, portugueses, muito próximo. E viva o Iberismo.

O que vou lendo! - O Inverno do Desenhador de Paco Roca

Muitas vezes procuramos nas obras de arte que lemos, vemos ou ouvimos apenas a referência directa ao tema que elas focam. A Ilíada é sobre a Guerra de Tróia. Madame Bovary é sobre adultério. Os Sopranos é sobre mafiosos. Mas obras imortais como estas sabem que, para perdurar no tempo, têm de ser capazes de sair dos limites do enredo. Se bem arquitectadas, se as suas histórias são bem contadas, elas transcenderão os limites impostos pelas acções dos personagens e pela geografia dos rios, planícies e montanhas. Olhos diferentes verão diferentes mensagens. Prismas tecidos na malha das palavras permitirão ver, de forma única, um outro tema contado naquela guerra, naquela romance, naquele crime. É por isso que temas herméticos, eventos que interessarão apenas a alguns, podem crescer e chegar aquele lugar estranho e indefinível do reconhecimento universal.

O Inverno do Desenhador, do autor espanhol Paco Roca, relata um desses temas herméticos que, neste caso, é apenas do conhecimento (interesse?) intimo de apreciadores do mundo editorial da BD do país vizinho. Cinco dos mais populares autores da 9.ª Arte na década de 50 em Espanha decidem abandonar a editora para a qual trabalhavam e formam a sua própria. Assim poderiam reter os direitos de publicação dos personagens e ter liberdade criativa para formar as histórias que bem entendiam. O tema é, sem duvida, microscópico mas o alcance está longe de o ser. O contexto é o da ditadura franquista e o da mão pesada de uma editora quase monopolista que tenta, por todos os meios, permanecer com os direitos de publicação do trabalho de autores assalariados. Faz lembrar batalhas familiares (também herméticas) da editora Image dos EUA (três décadas depois) e faz lembrar a perpétua procura de equilíbrio entre a voz única, da coragem de ter o seu caminho  e da luta contra qualquer hegemonia.

Paco Roca é um autor que descobri recentemente e de quem li, até o momento, apenas esta obra e Rugas. Enquanto o tema do anterior era transversal,  porque focava uma doença que afecta a vida de muitos, o Alzheimer,  O Inverno do Desenhador afasta-se desta transversalidade, como já sublinhei. Mas a arte de Roca, a sua capacidade de contar uma história em Banda Desenhada, supera essa limitação e permitem uma absorção mais ampla. Um estilo "simples" e quase cartoonesco, evocador de clareza do desenho, um "partir de páginas" cinematográfico, exemplificado por mais que uma cena de câmara "parada" com o autor como  observador dos acontecimentos, tudo conspira para a criação de um livro interessante e robusto. Uma digna adição à brilhante colecção Novelas Gráficas da Levoir.

Da Vida à Morte - Drinking at the Movies de Julia Wertz e Rugas de Paco Roca



Estas duas Bandas Desenhadas não poderiam ser mais diferentes. O que prova a incrível vitalidade da 9.ª Arte e dos seus artistas, capazes de combinar imagem e texto de formas tão diferentes. Drinking at the Movies de Julia Wertz foca-se, ao estilo de cartoons de jornais, em vários episódios da vida de uma jovem artista de BD em início de carreira quando muda-se para Nova Iorque. Rugas de Paco Roca aponta para o outro lado da nossa vida, o dos últimos dias, o de quando a morte começa a tirar-nos as medidas. Claro que o que focam é importante mas a forma como o fazem é que é a tal prova da diversidade da BD.


Drinking at the Movies é um relato especialmente cândido e honesto de uma jovem desalinhada. Com vontade de mudar de ares, deixa a sua terra natal de São Francisco e vai para a Grande Maçã. Ao longo de muitas páginas, Wertz tece o retrato autobiográfico das suas lutas com apartamentos lúgubres de Brooklyn, de empregos onde aos poucos evolui de medíocre para nada de especial, de namoros onde dificilmente ajusta-se, isto tudo ao mesmo tempo que lida com um problema crescente de alcoolismo. Como disse, Wertz é especialmente honesta com vários pormenores da sua vida, começando pela sua personalidade tangencialmente anti-social e acabando numa vida tão pouco glamorosa que acaba por ser romântica. Escolhe, para estas histórias, o estilo de narrativa episódica  típico de cartoons, o que enaltece a vida sem rumo que teve na sua estadia em NY. Tudo acontecia quase em detrimento de si mesma. Não esperem, portanto, um final redentor e discursos onde aprende-se lições de vida. Essas, provavelmente, nunca virão.


Também não existe nenhuma lição particularmente pungente em Rugas de Paco Roca e digo isto como o maior dos elogios. Como em quase tudo o que vale a pena no que nestas coisas da Arte e da narrativa diz respeito, não interessam as lições, interessam os caminhos. A vida, muito raramente, oferece-nos finais redondos de bandeja. Temos de colar as peças e fazer da vida o nosso próprio puzzle. Rugas  é o relato ao mesmo tempo humorístico e duro de como é chegar aos últimos dias da nossa vida. Enfiados, neste caso, num lar, confrontados com várias doenças, a maior parte relacionadas com a demência. O que poderia ser uma narrativa delicodoce ou apelativa de lágrima fácil, pela mão de Roca transforma-se em ironia caustica, em episódios de força emocional. Os vários protagonistas são obviamente confrontados com os momentos derradeiros da sua existência mas transformados em algo amargo pela mão dura da doença. Não a física mas a mental. Aquela que nos rouba o tempo que a memória guardou. Aquela que é um buraco negro que apaga os contornos de luz que foram a nossa vida. Tudo parte-se e não volta a colar-se. As faces nada mais são que rascunhos. Os actos são apenas momentos sem seguimento. Não há horas. Não há dias. Há espera e segundos. Nada mais.

Duas extraordinárias BD's que podem ou não ser lidas juntas. Eu tive essa sorte.