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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, e agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

E, na recta final, BDs e leituras para todos os gostos e uma coisinha especial.

O que vou lendo! - Trilogia Nemo de Alan Moore e Kevin O'Neill.


Apesar do nome, o herói desta nova trilogia do universo da Liga dos Cavalheiros Extraordinários, criada por Moore e O'Neill, não é sequer um herói, mas antes uma heroína. Mais precisamente a filha do famoso Capitão das 20 000 Léguas Submarinas de Júlio Verne, e que já tinha aparecido em volumes anteriores das aventuras da Liga. Para quem não sabe, o conceito por detrás destas histórias é simples e eficaz. Agarrando num arquétipo da Banda Desenhada, o da equipa com os maiores e melhores super-heróis (Liga da Justiça e Vingadores, para quem não está familiarizado), reúne sob um mesmo chapéu os mais conhecidos personagens da Literatura vitoriana, nomeadamente Mr. Hyde, Homem Invisível, Drácula, Minas de Salomão e, como já perceberam, também o Capitão Nemo. Já foram publicados vários volumes, na maior parte dos casos focados na equipa original, mas esta trilogia muda o olhar para a filha do famoso navegador indiano de submarinos. A fórmula é similar mas, pela primeira vez, Moore e O'Neill decidem concentrar a sua atenção e narrativa na personalidade desta mulher.

O resultado é menos robusto que os esforços anteriores mas, ainda assim, esta trilogia, que abarca a vida da personagem ao longo de quase um século, funciona bem. Somos levados para três momentos diferentes, com um arco único, o do confronto entre Nemo e uma deusa imortal. Moore e O'Neill concentram a atenção em três pontos geográficos e temporais diferentes, nomeadamente na Antárctica do início de século, na Alemanha da 2.ª Grande Guerra e na Amazónia da década de 70. Em qualquer trabalho de Moore as leituras não se cingem ao superficial, ainda que esta Liga acabe por ser das suas obras mais leves e "aventureiras", muito ao estilo pulp, que já tinha experimentado com Tom Strong. As referências são, na maior parte dos casos, meta-textuais, cada volume funcionando como um "onde está o Wally" da Literatura e da cultura Pop (até poderão ver o D'Artacão, não estou a brincar). mas, claro está, Moore não se refreia na ironia e sátira com episódios de um humor muito britânico, alusivo e nunca declarado. Gostei particularmente de uma pequena piada que acontece no terceiro volume, o passado em 1975, a nas mulheres que por lá aparecem. 

Apesar de serem três obras que, a meu ver, não estão no mesmo patamar que os anteriores volumes da Liga, não deixam de ser leituras acima da média. Que posso fazer? Moore e O'Neill habituaram-nos mal. 

O que vou lendo! - League of Extraordinary Gentlemen Century por Alan Moore e Kevin O'Neill

Isto é Alan Moore light. Mas mesmo mesmo sendo leve não é de todo simples. Com este escritor nada é. 

Com LOEG: Century o autor continua a exploração da ideia de juntar personagens conhecidos da literatura dos finais do século XIX, princípios do XX, numa única equipa similar em motif à dos super-heróis. Contudo, apesar de ser fácil reconhecer nas roupagens e em alguma abordagem os cânones deste último tipo de literatura, assume de forma mais sublinhada a da primeira, a prosa. 

Os dois primeiros volumes não só relatavam a famosa origem deste grupo de personagens (desta encarnação, sublinhe-se, porque a Liga existe desde tempos imemoriais), como aventuras subsequentes. O sucesso e originalidade da premissa deu origem até a um (deplorável) filme, mas Moore, que é conhecido pelo forte antagonismo à face mais corporativa da actividade de publicação, retirou a LOEG das mãos da "vil" DC Comics e entrou pela porta aberta da Knockabout, onde agora explora, junto com o imprescindível desenhista Kevin O'Neill, aventuras mais recentes desta nova iteração da Liga.

Century passa-se em dois períodos distintos do século XX (1910 e 1969) e entra no nosso XXI, especificamente em 2009. A equipa é constituída pelos recorrentes Mina Murray (dos romances do Drácula) e Alan Quatermain (das Minas de São Salomão, obra bem conhecida dos portugueses), e pelo novo Orlando (de Virginia Woolf). No meio deste trio passeiam-se uma infinidade de outros personagens, todos ligados à literatura. A LOEG é um verdadeiro quebra-cabeças de "quem é este personagem?", "qual é este lugar?", algo que já era bem presente nos volumes anteriores e que continua. As referências passam despercebidas aos menos conhecedores (a mim passaram-me ao lado muitas), mas não em detrimento do apreciar da história como um todo. O enredo principal anda à volta de algo bastante comum em histórias de fantasia e de super-heróis, a da eventual ascensão de um anti-cristo, um ser demoníaco apocalíptico - existe mesmo uma referência deliciosa ao filme Rosemary's Baby de  Roman Polanski. A descoberta de quem é este anti-cristo é, ao mesmo tempo, vintage  Alan Moore e algo que irá irritar os fãs de um personagem da literatura muito famoso. 

LOEG continua com o mesmo nível de qualidade e densidade dos anteriores volumes, sublinhando porque este é dos melhores escritores de BD de todos os tempos. Não é do nível de profundidade dramática e conceptual que, por exemplo, From Hell ou Promethea, mas faz ansiar pelo regresso não só de outros volumes deste conceito como também de algo bastante saudoso do mesmo autor: Top 10.