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Neon Demon de Nicolas Winding Refn (O Demónio de Neon)

(em exibição desde 18 de Agosto de 2016)

Qual é a maior crítica que faz-se ao mundo da moda? Que fomenta padrões de beleza uniformes, distorcidos e pouco saudáveis. Que o Belo é apenas o da pele e o das formas. Que é superficial. Nesse aspecto, o novo filme de Nicolas Winding Refn é um sucesso. 

Uma jovem rapariga como tantas outras mas bela como poucas entra no mundo da moda e é adorada pelo seu aspecto, delicioso para os que fotografam e desfilam roupas. Ao mesmo tempo, é invejada por quem não teve a sorte da roleta genética e desejada de forma pouco saudável por predadores sexuais. Desta receita não muito original é cozinhado  um semi-filme de terror, que acaba de forma gore e com laivos de paganismo dignos de Hécate.

Sou um admirador do trabalho de NWR - como gosta agora de ser chamado nos seus filmes. Comecei por Valhalla Rising e continuei por Drive e Only God Forgives. Gostei dos três e o meu favorito é bem capaz de ser o vilificado Only God. Descobri recentemente que o realizador é admirador de alguém que também está entre os autores que mais gosto: Alejandro Jodorowsky, conhecido realizador de cinema (muito) alternativo e, essencialmente, escritor de BD. Vi NWR a falar deste seu ídolo no documentário Jodorowsky's Dune, onde professava que essa obra era um dos maiores filmes nunca feitos (em breve falarei dele). Tendo em consideração os gostos do autor de Neon Demon, percebo parte do meu gosto pelo seu trabalho. A paleta de cores garridas e contrastantes sempre foi um dos elementos mais interessantes da sua filmografia, da qual este último filme e Only God Forgives são bons exemplos. Por outro lado, sou também um admirador do engenheiro do Cinema, Kubrick, que fazia filmes como 2001 e The Shining (os meus dois favoritos) a régua e esquadro. NWR, neste Neon Demon, segue o mesmo tipo de mise en scéne, assumido uma plástica totalmente artificial, estudada e planificada - existe mesmo uma alusão a The Shining num dos diálogos. Não há nada de mau nisso. Muito pelo contrário, no que a mim diz respeito. A mistura da geometria, das cores fortes e da belíssima fotografia são cativantes ao olhar. Cada plano assemelha-se a uma fotografia de Gregory Crewdson ou de Philip DiCrocia, apenas com movimento. Neon Demon, esteticamente, faz-me lembrar de BD. Mas, infelizmente, é só mesmo isso. A história, como referi, é banal e ténue. A metáfora é óbvia, o que por si só não é mau. O pior é o filme não oferecer surpresas ou pontos de vista inovadores.

Os actores são um dos pontos altos de Neon Demon, principalmente a protagonista Elle Fanning, Jena Malone e um seguro Keanu Reeves. Também temos tempo para a actriz-aparecimento-rápido-fetiche de NWR, Christina Hendricks, o que é sempre bom.  Sem duvida, um filme belo, ainda que superficial. Pensando bem, terá sido esse o objectivo?

PS - Não sei porquê mas cheira-me que, com o tempo, vou gostar mais deste filme. A ver vamos.

Only God Forgives de Nicolas Winding Refn (Só Deus perdoa)


Se só a Deus é permitido perdoar, para quem fica a tarefa de castigar os impios, os impuros, os pecadores? Quem é o anjo castigador, o dedo na pistola, a mão no punho da espada? E quem é que deve ser castigado? Aquele que comete o crime ou aquele que é a causa da formação do criminoso? As perguntas preservam-se no ar, sem resposta, um doce e amargo perfume iluminado pelo vermelho, verde e azul, as cores primárias, que apontam o caminho no longo corredor,  ou melhor, no labirinto.  Temos obrigação de nos fazer valer pela nossa capacidade de discernimento, de julgamento, de escolha, e não nos deixarmos envolver pela tragédia. Escapar a nós mesmos. Caso contrário, o longo braço da lei, o corte definitivo da espada, esses redentores conseguirão nos alcançar.

Nicolas Winding Refn não é uma realizador fácil e este Only God Forgives não poderia ser dedicado a melhor pessoa: Alejandro Jodorowsky, o insano artista e autor de BD. Parece que uma feira de verão, cheias de algodão doce, carrosséis, luzes brilhantes, parece que uma dessas, bem garridas, tiveram um filho junto com David Lynch. E esse filho teve um outro filho, este nas ruas da Tailândia, onde se passa a história (tragédia) deste filme. Há um irmão que comete um crime hediondo e é assassinado justamente. Há um polícia (o nosso anjo vingador). E há o irmão do primeiro, a quem a mãe - uma mulher temível, um furacão saído de uma Las Vegas de sangue e armas - obriga a vingar a morte.

Descemos às ruas de Bangkok, para uma outra viagem, irreal, deambulando pelo labirinto (outra vez?) da culpa e da redenção. Quem imaginaria que se encontrariam temas tão cristãos nos karaokes das ruas desta cidade, tão longe do Vaticano? Quem são os personagens que se arrastam, inevitáveis, relógios, pelo caminho traçado deste o primeiro frame? Será mesmo assim? Não poderemos escapar a essa linha de raciocínio que a genética nos teceu? Poderemos ser melhores seres humanos quando nos questionamos todos os dias pelas decisões que são tomadas apesar de nós? Quem é o ditador do nosso destino, perdoem-me a redundância?

Outra vez tantas perguntas num comentário onde eu deveria dar a certeza de ter ou não gostado deste filme. Interessa essa certeza? Se sim, acho que vale a pena verem o filme. Se não interessa, acho que vale, na mesma, ver o filme.