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Uma BD aqui, outra BD ali, 23 - Homem-Aranha



Há quem diga que os floppies estão a morrer - panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem. Espero que não porque adoro devorá-los! É um prazer que rezo para nunca acabar. De vez em quando, escrevo umas breves palavras sobre alguns que gostei. Só isso: gostado. Não são nem melhor nem pior que outras coisas.

Amazing Spider-Man (2018) número 1 de Nick Spencer, Ryan Ottley e Humberto Ramos (Marvel)


Dez anos é muito tempo. E é um sinal da idade quando parecem ter passado apenas metade deles. O escritor Dan Slott guiou os destinos da trupe do Trepador de Paredes durante uma década, marcando a personagem e, mais importante, uma geração de leitores, que se habituou à sua versão e apenas à sua versão. Alguns de nós que andam nestas andanças das leituras de BD há mais tempo têm outras visões - não somos nem melhores nem piores, somos apenas mais velhos. 

O que vou lendo! Invincible vols 24 e 25 - The End of all Things de Robert Kirkman, Ryan Ottley e Cory Walker


Lex Luthor, o maior adversário do Super-Homem, afirma, no filme Batman v Superman, que a maior mentira nos EUA é que o poder é inocente. Estava implícito na afirmação que o capacidades divinas do Homem de Aço não podem ser usadas de forma altruísta e desinteressada, que os poderes instituídos (ou o próprio herói) as instrumentalizariam para fazer valer uma agenda mais obscura. A visão de Luthor era pessimista e realista, o que fazia sentido no ponto de vista que Zack Snyder queria fazer passar neste seu filme (para grande descontentamento de quase toda a gente que o viu - excepto eu, que sou um dos que adora o BvS).

Robert Kirkman começou a saga do seu herói Invincible há 14 anos. Achou (e bem) que era altura de colocar um ponto final nas aventuras de Mark Grayson, da família, dos amigos e dos inimigos. Mark é filho do Omni-Man, um análogo do Super-Homem que revela-se ser espião de uma raça alienígena conquistadora. Os 14 anos que se seguem exploraram a relação entre pai e filho, o caminho de herói do segundo e, não de pouca importância, o percurso desde adolescente, passando por pai de família e, finalmente, até chegar líder. O protagonista funcionou sempre como uma mistura entre o Homem de Aço da DC e o Homem-Aranha da Marvel, equilibrando as aventuras cósmicas com dramas quase telenovelescos. Esse equilíbrio foi conseguido de forma, na maior parte das vezes, entretida, muito violenta e recorrendo a um semi-realismo. Fã confesso do Savage Dragon de Erik Larsen, Kirkman bebia da estrutura narrativa usada pelo seu ídolo, com mudanças bruscas de eventos, em que a vida de qualquer personagem alterava-se de forma drástica com o simples virar de página. Nessa capacidade de evolução (que tanto prejudica, em última análise, a DC e a Marvel), os autores conseguiram reter o interesse dos leitores ao longo desta década e meia. Ultimamente, Kirkman parecia estar a ficar sem ideias, daí que ainda bem que as coisas chegaram ao final.

Nestes dois volumes, Kirkman e Ottley chegam ao último capítulo da história de Mark  - Ottley acompanhou o escritor desde o sétimo (dum total de 144), depois de substituir o desenhador original, Cory Walker. À semelhança de volumes anteriores, a estrutura e a ambição são simples: criar uma narrativa divertida e entretida baseada nos lugares-comuns da mitologia de super-heróis. Só por isso já é de louvar. Fecham com chave de ouro e colocam um laço bonito nas muitas linhas que teceram ao longo destes 14 anos. 

Desenganem-se se acreditam não existir algum tipo de inclinação autoral. Kirkman sempre imprimiu velocidade e intenção pop à sua história e, de forma que ainda não percebi se intencional, verteu um optimismo quase naif aos motivos de muitas das personagens, principalmente na forma como interpretava a intenção de alguns heróis, inclusive a de Mark Grayson nestes últimos volumes. As personagens de Kirkman de Invincible acreditam que o poder pode ser inocente. Mesmo que o seu comportamento e acções pareçam imperialistas e marginalmente ditatoriais, elas assumem-no de forma altruísta, cheia de boas intenções. O resultado acaba por ser uma paz duradoura e sustentável, mas realizada à custa de uma tangencial ditadura. Será esta parte do tal optimismo naif ou antes uma crença enraízada? (se calhar uma e outra). A bem ver, estamos a falar de um escritor dos EUA, um país onde uma percentagem aceitável da população acredita que são eles os detentores da verdade e do caminho correcto para a paz mundial (não incluo o poder político estado-unidense, esse bem realista e cheio de agendas).

Invincible vol. 20, Friends, de Robert Kirkman e Ryan Ottley

Invincible não pretende ser mais do que aquilo que apregoa. Uma empolgante história de super-heróis onde os anos efectivamente passam (ao contrário de nas duas grandes editoras, cujos personagens permanecem na mesma idade durante décadas), onde actos têm consequências, onde a mudança do status quo é regular e permanente. O novo volume da saga do herói titular não é excepção. Contudo, parece-me existir algo mais. A homenagem a uma das grandes histórias desta literatura: Watchmen.

É impossível revelar o porquê desta minha opinião sem desvendar alguns  dos mais interessantes enredos que ocorrem nesta revista. Quem, recentemente, tem acompanhado as aventuras de Invincible, desconfia do que estou a falar mas, com este volume e com a sua conclusão, torna-se inevitável que sejam feitas comparações com a grande obra de Alan Moore e Dave Gibbons. Ainda assim, gostaria de voltar a frisar que isto trata-se, tão somente, de uma opinião e, mesmo que tenha sido a intenção do autor, este não pretende fazer mais que uma tangencial referência. Fica a curiosidade atiçada.

O trabalho de Kirkman e Ottley é paradigmático da liberdade que os dois autores procuraram e encontraram com o mundo de Invincible. Tudo é efectivamente possível e nenhuma mudança é radical demais. Ainda que o herói seja uma curiosa amálgama entre o Homem-Aranha e o Super-Homem, as semelhanças ficam-se pela forma. No já recôndito início da saga, eram claras as influências e homenagens do escritor. Hoje, se existe algum título com o qual se pode estabelecer algum tipo de paralelismo, será com Savage Dragon de Erik Larsen, também da Image: nada permanece imutável e muito menos o protagonista. Ora, os dois autores aproveitam ao máximo essa capacidade de re-invenção permanente e oferecem aos seus "clientes" leitura de puro entretenimento. A surpresa é o "lugar-comum" de Invincible. Nunca sabemos onde estaremos no final de cada volume ou de cada capítulo. Ademais, tudo isto sem ter de ler 500 títulos diferentes, interligados ou durante vários anos. É simples e (já agora) bom para a carteira.

Uma provocação: não consigo perceber como é que quem se diz um acérrimo leitor de BD de super-heróis ainda não deu pelo menos uma olhada a Invincible. De que estão à espera? 

Rapidinhas de BD - Invincible vol. 19 e Chew vol. 8

Invincible vol. 19: The War at Home de Robert Kirkman e Ryan Ottley

Neste blog já escrevi tanto sobre o Invincible de Kirkman que começo a sentir a falta de palavras. Principalmente porque, 110 capítulos ou 19 volumes depois, não há retrocesso na qualidade. Não falo de qualidade literária mas da de entretenimento. Falo da qualidade super-heroística. É por isso que não me poupo a elogios ao trabalho de Kirkman nesta sua criação original. Invincible, pelo facto de ser um universo contido em si mesmo, continua a ser uma BD verdadeiramente divertida e envolvente. Os personagens evoluem e são influenciados pelos acontecimentos que os circundam. Status quo é uma palavra e conceito que Kirkman não aplica a quase nada nesta sua obra. Este novo volume é, uma vez mais, prova disso mesmo. Depois das revelações e acontecimentos de volumes anteriores, a vida do personagem titular não será mais a mesma. Mas o passado continua a ensombrá-lo na forma de antigos inimigos e velhos amigos que, agora, se preparam para ser algo mais que isso. Tudo evoluindo de forma orgânica, como se Kirkman, desde o já longínquo primeiro capitulo, sempre tivesse estes desenvolvimentos na cabeça. Volto a repetir: esta é a vantagem de um universo contido, sem múltiplos títulos paralelos para seguir. Contudo, Invincible não deixa de ser uma longa novela super-heroística, extremamente divertida e cujo próximo volume espero sempre com muita ansiedade.

Chew vol. 8: Family Recipes de John Layman e Rob Guilloroy


Mais um sucesso da editora Image (junto com Invincible e tantas, tantas outras). Imaginação desenfreada, conceitos inovadores, controlo total pelo destino dos personagens, visão autoral. Chew é uma das mais interessantes, originais e divertidas BD da atualidade norte-americana. Num futuro alternativo muito próximo, a gripe das aves mudou o panorama mundial. Político e social, quero eu dizer. Ao mesmo tempo, seres com poderes extraordinários relacionados com comida multiplicam-se e propagam-se por todas as esferas da atividade humana. O herói, Tony Chu, é um cibopata, capaz de saber todo o passado do alimento (vegetal ou animal) que ingere. Naturalmente, torna-se agente da mais importante organização policial dos EUA: a Food and Drug Admnistration, a ASAE lá do sítio. Contudo, nada do que parece, é. A história da gripe das aves não está bem contada. Um outro cibopata, vilão e serial killer, movimenta-se pelo mundo em busca de algo ainda desconhecido. Este volume, que entra no ato final da série, inicia o longo descortinar dos mistérios que envolvem a narrativa desde o início. Os personagens começam a ser posicionados para o fim que, já se antevê, não está muito longe. Mas os dois autores não se perdem na exposição e avanço puro dos acontecimentos, antes imergem-se nos deliciosos pormenores de cada um dos personagens que criaram, dando alma e diversão. Esta é uma série que sabe a uma espécie de X-Files com comida e cheia, cheia de humor. Outras daquelas leituras em que mal posso esperar pelo volume que se segue.