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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, e agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana optamos pela miscelânea. Um pouco daqui, um pouco dali, e prova-se do que a BD é capaz.

O que vou lendo! Invincible vols 24 e 25 - The End of all Things de Robert Kirkman, Ryan Ottley e Cory Walker


Lex Luthor, o maior adversário do Super-Homem, afirma, no filme Batman v Superman, que a maior mentira nos EUA é que o poder é inocente. Estava implícito na afirmação que o capacidades divinas do Homem de Aço não podem ser usadas de forma altruísta e desinteressada, que os poderes instituídos (ou o próprio herói) as instrumentalizariam para fazer valer uma agenda mais obscura. A visão de Luthor era pessimista e realista, o que fazia sentido no ponto de vista que Zack Snyder queria fazer passar neste seu filme (para grande descontentamento de quase toda a gente que o viu - excepto eu, que sou um dos que adora o BvS).

Robert Kirkman começou a saga do seu herói Invincible há 14 anos. Achou (e bem) que era altura de colocar um ponto final nas aventuras de Mark Grayson, da família, dos amigos e dos inimigos. Mark é filho do Omni-Man, um análogo do Super-Homem que revela-se ser espião de uma raça alienígena conquistadora. Os 14 anos que se seguem exploraram a relação entre pai e filho, o caminho de herói do segundo e, não de pouca importância, o percurso desde adolescente, passando por pai de família e, finalmente, até chegar líder. O protagonista funcionou sempre como uma mistura entre o Homem de Aço da DC e o Homem-Aranha da Marvel, equilibrando as aventuras cósmicas com dramas quase telenovelescos. Esse equilíbrio foi conseguido de forma, na maior parte das vezes, entretida, muito violenta e recorrendo a um semi-realismo. Fã confesso do Savage Dragon de Erik Larsen, Kirkman bebia da estrutura narrativa usada pelo seu ídolo, com mudanças bruscas de eventos, em que a vida de qualquer personagem alterava-se de forma drástica com o simples virar de página. Nessa capacidade de evolução (que tanto prejudica, em última análise, a DC e a Marvel), os autores conseguiram reter o interesse dos leitores ao longo desta década e meia. Ultimamente, Kirkman parecia estar a ficar sem ideias, daí que ainda bem que as coisas chegaram ao final.

Nestes dois volumes, Kirkman e Ottley chegam ao último capítulo da história de Mark  - Ottley acompanhou o escritor desde o sétimo (dum total de 144), depois de substituir o desenhador original, Cory Walker. À semelhança de volumes anteriores, a estrutura e a ambição são simples: criar uma narrativa divertida e entretida baseada nos lugares-comuns da mitologia de super-heróis. Só por isso já é de louvar. Fecham com chave de ouro e colocam um laço bonito nas muitas linhas que teceram ao longo destes 14 anos. 

Desenganem-se se acreditam não existir algum tipo de inclinação autoral. Kirkman sempre imprimiu velocidade e intenção pop à sua história e, de forma que ainda não percebi se intencional, verteu um optimismo quase naif aos motivos de muitas das personagens, principalmente na forma como interpretava a intenção de alguns heróis, inclusive a de Mark Grayson nestes últimos volumes. As personagens de Kirkman de Invincible acreditam que o poder pode ser inocente. Mesmo que o seu comportamento e acções pareçam imperialistas e marginalmente ditatoriais, elas assumem-no de forma altruísta, cheia de boas intenções. O resultado acaba por ser uma paz duradoura e sustentável, mas realizada à custa de uma tangencial ditadura. Será esta parte do tal optimismo naif ou antes uma crença enraízada? (se calhar uma e outra). A bem ver, estamos a falar de um escritor dos EUA, um país onde uma percentagem aceitável da população acredita que são eles os detentores da verdade e do caminho correcto para a paz mundial (não incluo o poder político estado-unidense, esse bem realista e cheio de agendas).

Invincible vol. 20, Friends, de Robert Kirkman e Ryan Ottley

Invincible não pretende ser mais do que aquilo que apregoa. Uma empolgante história de super-heróis onde os anos efectivamente passam (ao contrário de nas duas grandes editoras, cujos personagens permanecem na mesma idade durante décadas), onde actos têm consequências, onde a mudança do status quo é regular e permanente. O novo volume da saga do herói titular não é excepção. Contudo, parece-me existir algo mais. A homenagem a uma das grandes histórias desta literatura: Watchmen.

É impossível revelar o porquê desta minha opinião sem desvendar alguns  dos mais interessantes enredos que ocorrem nesta revista. Quem, recentemente, tem acompanhado as aventuras de Invincible, desconfia do que estou a falar mas, com este volume e com a sua conclusão, torna-se inevitável que sejam feitas comparações com a grande obra de Alan Moore e Dave Gibbons. Ainda assim, gostaria de voltar a frisar que isto trata-se, tão somente, de uma opinião e, mesmo que tenha sido a intenção do autor, este não pretende fazer mais que uma tangencial referência. Fica a curiosidade atiçada.

O trabalho de Kirkman e Ottley é paradigmático da liberdade que os dois autores procuraram e encontraram com o mundo de Invincible. Tudo é efectivamente possível e nenhuma mudança é radical demais. Ainda que o herói seja uma curiosa amálgama entre o Homem-Aranha e o Super-Homem, as semelhanças ficam-se pela forma. No já recôndito início da saga, eram claras as influências e homenagens do escritor. Hoje, se existe algum título com o qual se pode estabelecer algum tipo de paralelismo, será com Savage Dragon de Erik Larsen, também da Image: nada permanece imutável e muito menos o protagonista. Ora, os dois autores aproveitam ao máximo essa capacidade de re-invenção permanente e oferecem aos seus "clientes" leitura de puro entretenimento. A surpresa é o "lugar-comum" de Invincible. Nunca sabemos onde estaremos no final de cada volume ou de cada capítulo. Ademais, tudo isto sem ter de ler 500 títulos diferentes, interligados ou durante vários anos. É simples e (já agora) bom para a carteira.

Uma provocação: não consigo perceber como é que quem se diz um acérrimo leitor de BD de super-heróis ainda não deu pelo menos uma olhada a Invincible. De que estão à espera? 

Rapidinhas de BD - Invincible vol. 19 e Chew vol. 8

Invincible vol. 19: The War at Home de Robert Kirkman e Ryan Ottley

Neste blog já escrevi tanto sobre o Invincible de Kirkman que começo a sentir a falta de palavras. Principalmente porque, 110 capítulos ou 19 volumes depois, não há retrocesso na qualidade. Não falo de qualidade literária mas da de entretenimento. Falo da qualidade super-heroística. É por isso que não me poupo a elogios ao trabalho de Kirkman nesta sua criação original. Invincible, pelo facto de ser um universo contido em si mesmo, continua a ser uma BD verdadeiramente divertida e envolvente. Os personagens evoluem e são influenciados pelos acontecimentos que os circundam. Status quo é uma palavra e conceito que Kirkman não aplica a quase nada nesta sua obra. Este novo volume é, uma vez mais, prova disso mesmo. Depois das revelações e acontecimentos de volumes anteriores, a vida do personagem titular não será mais a mesma. Mas o passado continua a ensombrá-lo na forma de antigos inimigos e velhos amigos que, agora, se preparam para ser algo mais que isso. Tudo evoluindo de forma orgânica, como se Kirkman, desde o já longínquo primeiro capitulo, sempre tivesse estes desenvolvimentos na cabeça. Volto a repetir: esta é a vantagem de um universo contido, sem múltiplos títulos paralelos para seguir. Contudo, Invincible não deixa de ser uma longa novela super-heroística, extremamente divertida e cujo próximo volume espero sempre com muita ansiedade.

Chew vol. 8: Family Recipes de John Layman e Rob Guilloroy


Mais um sucesso da editora Image (junto com Invincible e tantas, tantas outras). Imaginação desenfreada, conceitos inovadores, controlo total pelo destino dos personagens, visão autoral. Chew é uma das mais interessantes, originais e divertidas BD da atualidade norte-americana. Num futuro alternativo muito próximo, a gripe das aves mudou o panorama mundial. Político e social, quero eu dizer. Ao mesmo tempo, seres com poderes extraordinários relacionados com comida multiplicam-se e propagam-se por todas as esferas da atividade humana. O herói, Tony Chu, é um cibopata, capaz de saber todo o passado do alimento (vegetal ou animal) que ingere. Naturalmente, torna-se agente da mais importante organização policial dos EUA: a Food and Drug Admnistration, a ASAE lá do sítio. Contudo, nada do que parece, é. A história da gripe das aves não está bem contada. Um outro cibopata, vilão e serial killer, movimenta-se pelo mundo em busca de algo ainda desconhecido. Este volume, que entra no ato final da série, inicia o longo descortinar dos mistérios que envolvem a narrativa desde o início. Os personagens começam a ser posicionados para o fim que, já se antevê, não está muito longe. Mas os dois autores não se perdem na exposição e avanço puro dos acontecimentos, antes imergem-se nos deliciosos pormenores de cada um dos personagens que criaram, dando alma e diversão. Esta é uma série que sabe a uma espécie de X-Files com comida e cheia, cheia de humor. Outras daquelas leituras em que mal posso esperar pelo volume que se segue.

Dos The Walking Dead para Invincible: A viagem de Kirkman

Uma das séries de TV com maior êxito e audiências nos últimos anos pertence a um canal de cabo americano que todos os fãs de George Romero (e não só), o guru dos filmes de zombies, conhecem muito bem: The Walking Dead. O que provavelmente não sabem é que a série é baseada numa BD americana do mesmo nome que começou a ser publicada em 2003 e que foi criada por três senhores: Robert Kirkman (escritor), Tony Moore e Charles Adlard (desenhistas). Não descurando a importância dos desenhistas, foi de Kirkman a ideia principal, o momento eureka. Um dia quis responder a uma pergunta: como continua a história nos filmes de zombies depois de rolarem os créditos finais e sairmos da sala de cinema? Assim nasceu The Walking Dead.

A primeira grande obra de Kirkman não foi, contudo, esta inovadora variação (não tanto no conteúdo mas mais na forma) de um tema tão prolificamente tratado nos filmes de terror. Foi antes uma muito convencional série com um super-herói adolescente, uma espécie de Homem-Aranha “meets” Super-Homem para o século XXI (perdoem-me a horrível linguagem de gestor de Hollywood). Como a maior parte das boas ideias, por vezes não são os conceitos inovadores que contribuem para a receita do sucesso mas antes a forma como se cozinham os ingredientes. Com Invincible e The Walking Dead, Kirkman extrapola conceitos básicos, batidos, facilmente reconhecíveis - em suma, lugares-comuns - e, munido de uma liberdade criativa normal para quem é dono dos seus próprios personagens, consegue criar histórias verdadeiramente empolgantes de desavergonhado entretenimento.

Kirkman chegou a trabalhar para a super-editora Marvel em personagens tão conhecidos como os X-Men e o Homem-Aranha, mas cedo chegou à conclusão que a liberdade criativa que se consegue através da publicação independente é dificilmente superável. Com as suas próprias criações, Kirkman, à semelhança de tantos outros autores da realidade editorial, conseguia jogar com a vida dos seus personagens, transformá-los, evoluí-los, amadurecê-los, de uma forma impossível num universo tão “franchisado” como é do Marvel. Invincible e The Walking Dead são parte da evolução dessa consciência e, quando os lemos, temos a confortável insegurança de que qualquer coisa pode efetivamente ocorrer com os personagens. Ninguém está a salvo. Nenhum axioma está seguro. Nenhum conceito é estanque. O suspense é total.

Invincible conta a história de um legado, de um rapaz que herda as fantásticas habilidades de seu pai. Como inspiração para o personagem do pai Kirkman emula o arquétipo Super-Homem, ou seja, o super-herói todo-poderoso, adorado pelo público em geral, o zénite da perfeição e da bondade, o super-herói dos super-heróis. O pai é um extraterrestre enviado para divulgar a mensagem de paz da sua raça, um Siddhartha intergaláctico com verdadeiros superpoderes. Mark Grayson, o filho e protagonista da série, descobre as suas habilidades na adolescência e depressa se assume como herdeiro decidindo perseguir o seu legado genético. Esta origem padece de incrível banalidade mas o que ocorre ao longo das histórias, não sendo incrivelmente original, é extraordinariamente divertido, sendo fácil para o leitor (mesmo o não entendido nestas coisas dos super-heróis) de acompanhar Invincible sem perder-se ou sentir-se ostracizado.

Obviamente que não vos vou aqui revelar nenhum pormenor dos desenvolvimentos que já acorreram nas 16 colecções que juntam todos os quase 100 capítulos desta fabulosa série, mas Invincible continua a ser uma BD a acompanhar, pelo simples facto de ser muito bem escrita por um Kirkman que controla como um cientista as doses certas de momentos calmos, de acção e de surpresa (e estes últimos são muitos, um dos grandes fortes da escrita de Kirkman). Inúmeras são as vezes que o leitor não consegue parar de virar página atrás de página na ânsia de saber como tudo continua, ou de ficar siderado quando se depara com aquele acontecimento que o faz exclamar “mas tenho de esperar pela próxima colecção para saber como isto acaba?!”.


Este controlo da forma narrativa da BD foi também um dos grandes trunfos de The Walking Dead. Kirkman, Adlard e Moore (este último apenas desenhou os primeiros 6 capítulos) apropriam-se do simples virar de página para provocar o momento de terror que antes era apenas reservado ao cinema. Os zombies, conhecidos pela sua lentidão, tornam-se verdadeiros elementos surpresa na acção, podendo surgir no canto do quadradinho ou quando passamos para a página seguinte e nela testemunhamos um painel de página inteira com algo surpreendente. Mas os zombies não são, decididamente, o mais importante elemento desta série. À semelhança do mestre George Romero, a atenção é totalmente dedicada não ao elemento terror mas antes aos seres humanos que são afectados por ele, a todas as idiossincrasias, a todos os pequenos momentos de evolução ou involução pessoal que advêm deste evento catastr. O que faz o leitor regressar mês após mês, colecção após colecção (nos EUA já vão em 17 fascículos), é o investimento pessoal de cada um de nós nos seres humanos que compõem a série. Desde Rick Grimes, protagonista, e o seu filho, que nos acompanham desde o início, passando por Michonne, a ronin de poucas (ou nenhumas) palavras, Glenn e Maggie (que formam um dos pares amorosos que tenta sobreviver neste mundo pós-apocalíptico), entre tantos outros.


Robert Kirkman tem mais séries publicadas mas estas duas, da editora americana Image, são sem sombra de dúvida as suas melhores e mais famosas. Em Portugal, The Walking Dead tem quatro volumes publicados pela Devir e, infelizmente, de Invincible ainda não vimos sequer a sombra.




O que vou lendo - Invincible volume 17: What’s Happening de Robert Kirkman, Ryan Otley e Cory Walker


Esta é uma série, não me canso de repeti-lo, desavergonhadamente divertida. Se querem ler algo que tenha a telenovela e acção típicos de super-heróis, sem subtextos, interpretações metafísicas, referenciais a grandes obras da literatura mundial, a eventos, a situações, pura e simplesmente uma obra divertida e acessível, Invincible é a vossa praia, confiem em mim. E é substancialmente melhor que a maior parte da arte que sai das duas maiores editoras de super-heróis do mundo, a Marvel e a DC. Porque não temos de ler mil e um outros livros para perceber todo o contexto, porque o escritor e desenhistas são os mesmos quase desde sempre (o escritor é o mesmo desde sempre), existe consistência criativa e narrativa dificilmente batida pelos vendedores de franchises que são as duas gigantes americanas. Não me interpretem à letra, quer a Marvel quer a DC produzem muita coisa boa, mas os personagens não pertencem aos autores, o que torna difícil a inventividade e a mudança, a evolução e, muitas vezes, a maturidade dos personagens. E aqui reside uma das maiores forças de Invincible. Os personagens não estagnam nas suas incarnações iniciais, eles evoluem, crescem e morrem. Ninguém aqui está a salvo de amadurecer e crescer, perdoem o pleonasmo. Não estão presos à rotina narrativa, cada virar de página pode efectivamente trazer-nos uma surpresa.

Robert Kirkman, o escritor e criador (o mesmo de The Walking Dead) deve muito do seu estilo à influência do actual patrão da editora Image , Erik Larsen, que o cultivou na emblemática série, Savage Dragon, que infelizmente já viu melhores dias. Mas ao contrário do “mestre” Kirkman não abrandou ainda o passo, construindo um mundo e personagens de forma ao mesmo tempo familiar e fresca.
Reconhecemos todos os arquétipos que aqui estão representados. Há um Super-Homem, uma Mulher-Maravilha, um Batman, um Homem-Aranha, um Wolverine (estes nomes não estão aqui por acaso). Há uma Liga da Justiça, uns Vingadores, um Quarteto Fantástico (também não estão aqui por acaso). Mas, acima de tudo, há muito Robert Kirkman, Ryan Otley e Cory Walker. Em cada quadradinho.

Este volume, que colecciona os números 91 a 96 da série, prepara-nos para o capítulo 100, sempre um marco nestas coisas da BD americana. Curiosamente não se centra no personagem dono do título, antes em dois dos coadjuvantes, Robot e Monster Girl, e na sua inacreditável história de amor passada num mundo alternativo, onde o tempo demora de uma forma diferente. E temos uma invasão provinda desse mesmo mundo alternativo. Como é o estilo de algumas histórias de super-heróis, os dois enredos entrelaçam-se de forma íntima e pessoal para os personagens, revelando-se num todo sólido. Consistentemente sólido, como esta série já me habituou. 

The Walking Dead e Invincible de Robert Kirkman - artigo da Maxim desta semana

Malta que acha que acha, acha muito ou acha pouco, está online aqui o meu novo artigo na Maxim. Desta vez sobre duas BD do amigo Kirkman, Robert Kirkman. Uma mais que conhecida, nem que seja pela série de TV, The Walking Dead, e outra menos pelo público em geral, Invincible. Leiam, curtam o artigo (traduzindo, façam um like amigo) e partilhem nos vossos FB da vida. É que a gerência do Acho que Acho agradece.



Partícula de Higgs V

Às vezes é urgente desligar o tico e o teco. Existem por aí umas coisas que me dão tanto prazer... por assim dizer, “culpado”... e para as quais não é necessário ligar o modo “James Joyce”, arquivar em ficheiro de linguagem “Einstein” e sub-rotina “Mozart”. E que delícia são esses momentos, esses pecadilhos inconsequentes cheios de enlevo e puros de entretenimento.

Falo, por exemplo, de uma BD que ando a sorver com fome e ganância chamada “Invincible”, o nome do autor Robert Kirkman. Nada mais é que um paliativo “super-heroístico”, uma fusão entre o Super-Homem (pelos poderes!) e o Homem-Aranha (pelos conflitos, humor e alma!). Acção Blockbuster! Conflitos amorosos telenovelescos! Ópera espacial! É um furioso virar de página, em que a leitura à guisa de dois volumes por mês (já são doze e vou no sexto!) não é cadência suficiente para serenar a descompensação que a ausência gera.

Falo, por exemplo, de 2012 de Ronald Emmerich, escapismo absurdo e inconsequente que vale pelos efeitos, pela acção, pela inviolada felicidade de estar 2 horas e meia a achar que não se acha nada!

Falo, por exemplo, de nos enredarmos na dança nocturna, ritmada, errática, de uma ida ao Lux. Sem pretextos e sem reprimendas. Sem nos conhecerem!

É preciso tirar prazer do corpo em autogestão, (in)consequente retorno às origens.