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Tenho participado de uma brincadeira no Facebook: enumerar uma BD por dia até 2020. Começou há alguns meses, mas só agora dou-me ao trabalho de aqui a reproduzir. Mostro, hoje, as escolhas desta semana, com link na imagem para o texto que escrevi sobre o livro, ou um nhónhózinho, caso ainda não tenha falado dele.

Esta semana temos sugestões para todos os gostos e sensibilidades e, no fundo, para quem só gosta de ler um bom livro.

O que vou lendo! Injection vol. 2 de Warren Ellis e Declan Shalvey

Warren Ellis é escritor de Banda Desenhada há mais de duas décadas e foi o culpado por histórias tão emblemáticas e históricas como Authority Planetary, ambas da editora Wildstorm, agora pertencente à DC Comics. Estas duas obras são conhecidas de muitos leitores de BD estado-unidense, pois representaram uma mudança de paradigma, paradigma esse que pode não ter-se iniciado com a sua publicação mas que cristalizou-se nela. Authority, especificamente, ajudou a consolidar um nicho, o da BD de super-heróis adulta, ao estilo  de cinema blockbuster, que não perdia de vista o maravilhamento reminiscente da Idade de Prata, que fazia, à altura, falta no género.  Este ressurgimento já se tinha iniciado em obras como Kingdom Come de Mark Waid e Alex Ross, Astro City de Kurt Busiek e Brent Anderson e JLA de Grant Morrison e Howard Porter, mas Warren Ellis continuou e acrescentou mais uma linha de sofisticação. 

Esta sofisticação muito deve-se à sua assinatura autoral, patente em cada linha de diálogo e no mise en scéne, se assim o podemos chamar, que Ellis impõe aos desenhadores com quem trabalha e que ajudam ao reconhecimento de uma obra sua. A escrita é, na falta de uma palavra melhor, "eficiente", não só na parcimónia com que usa as palavras, como na intenção como são debitadas pelos personagens. Existe urgência em Ellis, que obriga os protagonistas a afirmarem-se como afinadas máquinas de personalidade. Mas desenganem-se se disto concluem que são bidimensionais. Na realidade, os personagens de Ellis são profundamente Ellisanos, geralmente anti-sistema, disruptores do status quo e, acima de tudo, furiosamente independentes - Spider Jerusalem de Transmetropolitan é um dos melhores exemplos, Appolo e Midnighter de Authority outro, ainda que por razões diferentes (são o primeiro casal abertamente gay na BD de super-heróis). 

Nesta nova obra, Injection, estão espelhados os trejeitos de Ellis. É impossível não abrir as páginas desta singular obra e não reconhecer, apesar dos desenhos de  Declan Shalvey, que estamos a ler Warren Ellis. Existem organizações governamentais secretistas e marginalmente ditatoriais que observam, nas sombras, o desenrolar da acção. Existem os personagens "eficientes" que, desconfio, são um reflexo do autor. E existe outra mania: as verdades ocultas do mundo (leiam Planetary ou mesmo Nextwave). Neste segundo volume, essas verdades não são ainda claras mas parece estarmos perante uma curiosa junção de Inteligência Artificial criada pelos cinco protagonistas, cientistas e ocultistas à procura do futuro, com um Outro Mundo, esse místico e parte da Anciã Infraestrutura do Mundo. Esta mistura entre o tecnológico e sobrenatural é também marca de Ellis, revelando um (para nós) estranho britanismo - aliás, esta é também uma obra sobre a Grã-Bretanha e os seus antigos mistérios.

A editora Image insiste em continuar a publicar algumas das mais interessantes obras no panorama da BD dos EUA e, desta vez, escolheu Warren Ellis, um dos mais antigos e conceituados escritores desta arte. Injection ganha com este segundo volume, em clareza de enredo e intenção, conseguindo transformá-la numa das favoritas do momento.

Rapidinhas de BD - Astro City: Lovers Quarrel e Injection vol. 1

Astro City: Lovers Quarrel de Kurt Busiek, Brent Anderson e Alex Ross

Busiek, Anderson e Ross andam às voltas com Astro City há um bom par de décadas e, apesar de "apenas" terem um total de 12 volumes publicados até à data, esta continua a ser uma das minhas mais interessantes BD's pela análise que dedica à mitologia dos super-heróis. As histórias que contam não são descontruções pós-modernistas que tanto furor fazem de uma certa tendência intelectual. Antes procuram uma abordagem mais pura e maravilhada, uma mistura de sensibilidade típica das Idades de Prata e Bronze da BD nos EUA com linguagens mais modernas mas, volto a dizer, sem tendências descontrucionistas. Busiek, o escritor, é conhecido pela sua abordagem de fã à mitologia e em nenhuma das suas obras algo é tão óbvio como neste Astro City, uma carta de amor elaborada e longa aos universos a quem dedicou décadas de leitura, devoção e trabalho: refiro-me à Marvel e à DC. 

Este Lovers Quarrel possui um conjunto de características que, ainda que não originais, são particularmente interessantes. Busiek e companhia focam o seu olhar num par amoroso de super-heróis (talvez reminescentes da famosa parelha Demolidor / Viúva Negra da década de 70 da Marvel), enquanto tentam envelhecer com dignidade. Como disse, não se trata de uma abordagem ou temática inovadoras, mas a candura e maestria com que os autores elaboram as vidas, personalidades e histórias dos personagens, transformam o familiar no cativante.  Ao mesmo tempo, aparentam, com discrição, avançar uma macro-história que parecem estar a construir desde que iniciaram esta nova iteração de Astro City pela editora Vertigo da DC Comics. 

Sistematicamente, esta continua a ser uma das mais interessantes BD que leio. Isto apesar de, neste volume, Brent Anderson parecer estar em baixo de forma e alguns dos desenhos aparentarem ser semi-acabados. Ainda assim, um digno volume da coleção.

Injection vol. 1 de Warren Ellis, Declan Shalvey, Jordie Bellaire

Por falar em autores já experientes, volto a dedicar algum do meu tempo de leitura a Warren Ellis, consistentemente um dos mais prodigiosos escritores de BD da actualidade. Apesar da "pequena" revolução na narrativa super-heroística do início do século com meros doze números de Authority e com os quatro volumes de Planetary, continua a procurar não tanto novas linguagens mas perspectivas inovadoras e sui generis. Injection, publicada pela editora Image, fala de cinco génios que literalmente injectaram um "vírus" no século XXI. Previram que a humanidade estaria prestes a entrar numa fase de estagnação e criaram algo que possibilitasse "tornar as coisas mais interessantes". A ideia, por si só, é já cativante, mas a abordagem marginalmente surrealista de Ellis à escrita transformam a experiência. 

Ellis procura unir o místico ao tecnológico, o ecológico ao digital, criando um algoritmo narrativo que necessita de várias leituras para ser entendido e decifrado. Não tenta, de forma nenhuma, criar uma experiência "amiga do leitor", antes forçando-o a ter atenção, a ler e reler, a criar um novo estado de mente para poder ler, mais com o coração do que a cabeça, a história da injeção nanomística. Ellis parece controlar um conjunto de mitologias, misturando-as de forma particular e cheia de energia cinética. Junto com Trees (Image) e Karnak (Marvel), este escritor continua a provar ser uma das mais interessantes mentes da BD mundial, lado a lado com outros ingleses famosos como Moore e Morrison, de quem partilha o mesmo código genético narrativo mas com quem, apesar da sua já vasta obra, não parece (ainda) partilhar da mesma fama.