Black Panther de Ryan Coogler

(sem spoilers)

O novo filme do universo cinematográfico da Marvel é algo diferente. Não falo do facto de se passar longe das ruas de Nova Iorque ou mesmo do continente americano. Falo de um filme que parece mais preocupado em ser cinema e menos parte de uma oleada máquina que existe desde 2008. Faz parte do Universo da Marvel, mas não é necessário saber nada para seguir a história, divertir-se e gostar deste Black Panther. Falo de um filme que corrige algumas das falhas que têm sido apontadas a estas máquinas fazedoras de dinheiro. Mas estou a adiantar-me.

A história segue de perto a mitologia criada nas páginas da BD. Por um lado, temos a mais avançada nação do mundo em termos tecnológicos que é a Wakanda criada por Stan Lee e Jack Kirby na revista do Quarteto Fantástico. Por outro, temos o vilão, Killmonger, pensado pela mente de Don McGregor numa sequência de histórias criadas por este escritor na década de 70 - e que são consideradas a primeira (e informal) novela gráfica da Marvel (esta história foi compilada recentemente na Epic Collection do Black Panther, que podem encomendar em qualquer loja física ou online que venda BD). Finalmente, temos a politização e engajamento social do trabalho de outro escritor, Christopher Priest, também ele criador das Dora Milage (já falo delas) e dos Lobos Brancos (já escrevi sobre este criador neste link). Portanto, para os fãs desta personagem (que é relativamente desconhecida, mesmo para os mais acérrimos leitores) e de BD, a matéria-prima é respeitada de forma clara. Não quer isto dizer que não existam desvios em relação ao original. Especificamente, o vilão tem matizes mais cinzentos que o puro Mal que representava na BD, o que acaba por funcionar neste filme e transforma o Killmonger de Michael B. Jordan no melhor vilão da Marvel desde o Loki (finalmente).

As mulheres. É discutível se não serão elas as personagens mais interessantes deste filme. A Nakia de Lupita Nyong'o é o impulso motivador de T'Challa, o Pantera Negra, mas não perde com isso um átomo da sua personalidade e força. A mãe, protagonizada pela maravilhosa Angella Basset, não é o papel mais forte, mas prefigura uma presença maternal poderosa. Okoye de Danai Gurira é a melhor guerreira de Wakanda, a líder das Dora Milaje, as soldados desta nação, e talvez a mais mesmerizante personagem de todo o filme.  Só não ganha esse título porque ainda existe Letitia Wright no papel de Shuri, irmã do protagonista e a mente mais brilhante e genial deste universo fictício (sim, mais que Tony Stark). Para quem está atento a estas coisas, já a tínhamos visto no último episódio da quarta temporada de Black Mirror, mas aqui ela atinge um outro nível de encanto. Letitia rouba cada cena em que entra. No filme Thor Ragnarok, a Valquíria de Tessa Thompson era também o melhor do filme, mas nada que se compare a este santíssimo quarteto.

O argumento é outros dos fortes deste filme, quando comparado com esforços anteriores da Marvel. Este é uma história, enredo e personagens com um alcance mais complexo e maduro. A temática da raça e do drama histórico dos africanos é a peça central, abordada de forma convincente dentro dos limites de um filme de entretenimento, que procura agradar o mais possível e desagradar ao menor número de pessoas. Este é o primeiro filme da Marvel que arrisca para além das fronteiras auto-impostas da pura diversão e do escapismo. Só por isso já é um dos melhores (se não mesmo o melhor) deste universo cinematográfico. E, ao contrário de Thor Ragnarok, os argumentistas conseguem um melhor equilíbrio entre drama e humor.

Chadwick Boseman, ainda que outra das forças do filme, é marginalmente eclipsado pelas quatro mulheres e pelo vilão. Por outro lado, o seu T'Challa ainda não é o herói confiante, altamente inteligente e pragmático desenvolvido por Christopher Priest na BD e seguido por outros autores como Jonathan Hickman, Al Ewing, Reginald Hudlin ou Ta-Nehisi Coates. Os efeitos especiais são maravilhosos excepto em algumas cenas, principalmente na climática da batalha final entre os antagonistas, que acaba por ser pouco interessante.

Black Panther é (provavelmente) o melhor filme da Marvel até o momento. Pela força do protagonista, das quatro mulheres que o acompanham, pelo vilão e pela temática mais complexa e madura. 

2 comentários:

Mariana Soto disse...

Foi uma excelente maneira de apresentar o personagem. Eu acho que, embora você não tenha mencionado isso, Michael B. Jordan fez um excelente trabalho. Ele sempre surpreende com os seus papeis, pois se mete de cabeça nas suas atuações e contagia profundamente a todos com as suas emoções. Eu vi que ele vai estrelar o novo filme da HBO. Na minha opinião, Fahrenheit 451 será um dos melhores filmes ficção cientifica de 2018. O ritmo do livro é é bom e consegue nos prender desde o princípio. O filme vai superar minhas expectativas. Além, acho que a sua participação neste filme realmente vai ajudar ao desenvolvimento da história.

SAM disse...

Obrigado, Mariana, pelo comentário.

Ainda que ao de leve, menciono que o vilão do filme é um dos melhores da Marvel, depois do Loki. A personagem é complexa e nada enquadrada numa visão simplista de vilão. Está mesmo muito bem feito.

É, de facto, um dos melhores filmes da Marvel, provavelmente mesmo o melhor.

A Marvel estava cheia de problemas com os vilões (tirando o Loki eram todos bi-dimensionais) mas o Killmonger e, mais recentemente o Thanos, melhoraram e muitl.