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Os gostos têm tendência em unir pessoas na amizade. Eu e o Filipe Faria - escritor extraordinaire da saga Crónicas de Allaryia e tradutor incansável - temos uma devoção imortal pelos mundos da DC Comics. Ele é fã incontestável do Super-Homem e eu devoto da igreja da Diana de Themyscira. O Filipe tem uma colecção de momentos curiosos dos 80 anos de publicações desta editora. Todas as Sextas ele vai tentar colocar aqui um. Eu apenas publico e nada mais. 

Hoje temos o Questão, uma personagem pouco conhecida da DC, criada originalmente por Steve Ditko, o mesmo do Homem-Aranha, para a entretanto assimilada Charlton Comics. Se vos disser que é a base para o Rorschach dos Watchmen, já vos interessa mais. 

Deliciem-se com a matéria de que um verdadeiro herói é feito.

Dr. Strange de Scott Derrickson (Dr. Estranho)

Já tinham ouvido falar do Dr. Estranho? Sim? Se não são leitores de Banda Desenhada, da Marvel e, mais especificamente, de super-heróis, então dou-vos os parabéns. Já agora, conto-vos um segredo: mesmo os experimentados podem não conhecer de forma aprofundada a personalidade e aventuras do mestre das artes místicas. O personagem apareceu, pela primeira vez, em 1963 graças à imaginação de Steve Ditko (desenhista credenciado como o principal criador) e de Stan Lee - ambos também os responsáveis pela criação do maior personagem da Marvel: o Homem-Aranha. A revista foi a Strange Tales número 110 e relatava a história de um cirurgião egocêntrico, Stephen Strange (a aliteração e referência on-the-nose é típica de Stan Lee), que sofre uma lição em humildade quando, vitima de um acidente rodoviário, perde o uso funcional das mãos, essenciais para a actividade que exerce. Na busca de medicinas alternativas que o ajudem à cura, encontra nos Himalaias um idoso de nome Ancient One que o guiará no caminho das artes místicas, abrindo caminho para que Strange transforme-se no Mago Supremo deste universo. Pela influência da estética de Ditko, as aventuras originais do Dr. Estranho são uma viagem alucinogénea por reinos psicadélicos onde as leis da nossa física não se aplicam. Infelizmente, o desenhador sai em confronto com Stan Lee mas, claro, o Dr. Estranho continua nas mãos da Marvel. Ao longo dos anos serão vários os criadores que trabalham nos labirintos esotéricos do mundo das artes místicas, com resultados de qualidade variante. Não será um personagem de publicação regular já que nunca é dos favoritos dos leitores da Marvel. Ainda assim é dos mais importantes do panteão da editora, o que claramente justificou a sua introdução no universo cinematográfico.

A produtora de filmes Marvel possui uma arte que tem auxiliado no sucesso dos seus filmes, isto apesar do relativo anonimato dos personagens: o casting. Foi a capacidade de perceber que Robert Downey JR era um Tony Stark/Homem-de-Ferro perfeito que catapultou o sucesso destes universos. Agora é a vez de Benedict Cumberbatch como Stephen Strange/Dr. Estranho. O actor britânico, com o seu carisma e talento, foi uma escolha mais do certa... foi óbvia. Ainda que a interpretação do Dr. Estranho escolhida seja bastante diferente da concebida por Ditko/Lee e por muitos dos autores que seguiram as suas pisadas, a mudança não choca, bem pelo contrário, parece melhorar alguns aspectos menos interessantes do original. Enquanto o Stephen Strange da BD era soturno, sério, como deveria ser um personagem que lida nas artes esotéricas e existenciais, este é cheio de humor, one-liners e tantos outros deliciosos momentos de riso - aliás, provavelmente é o mais humorístico de todos os filmes da Marvel competindo mesmo com o primeiro Avengers. Claro que os puristas podem sempre advogar que se era para ter uma versão feiticeira de Tony Stark mais valia não haver esforço. No que a mim diz respeito, ainda bem que decidiram tornar mais leve a personalidade de Stephen Strange sem, contudo, perder o mais importante aspecto da origem concebida pelos criadores: uma lição em humildade. Em todos os aspectos, Benedict é uma escolha fabulosa para a Marvel e, como já li algures na internet, "nasceu uma nova estrela". 

Mas não é só de Benedict Cumberbatch que o Dr. Estranho vive. Outra das escolhas deliciosas é Tilda Swinton como Ancient One, a mentora do protagonista, o mestre que o guiará na busca de redenção e de arte. Todo o poder e gravidade exigidos a um personagem destes são veiculados pela actriz, uma das melhores de qualquer geração. Por seu lado, Chiwetel Ejiofor faz de um competente Dr. Mordo, ainda que não seja uma revelação. Finalmente, chego ao velho problema dos filmes da Marvel: os vilões. Esse continua a não ter solução neste Dr. Estranho. Mads Mikkelsen é um dos grandes actores que fazem parte do elenco do filme (lembrem-se de A Caçada e Hannibal, a série de TV) mas, ainda que existam laivos de um passado trágico, o seu personagem não evolui muito para além do "antagonista que tem de ser derrotado". É muito mais competente que os inimigos bidimensionais do Guardiões da Galáxia ou do Homem-Formiga, para citar dois exemplos, mas, infelizmente, não demarca-se o suficiente. 

Uma das grandes vitórias deste filme são os  efeitos especiais. São usados de forma bastante criativa, emulando o trabalho de Ditko, outro de autores mais recentes que colaboraram com o escritor Brian Michael Bendis, e filmes como o óbvio Inception de Christopher Nolan. Indutores de vertigem, funcionam como viagens psicadélicas pela multitude de universos e realidades disponíveis à futura imaginação dos criadores do universo cinematográfico da Marvel. Infelizmente, do lado da realização continuamos no reino da normalidade quase tarefeira. Um filme da Marvel é sempre um filme da Marvel e, salvo pequenos pormenores, este continua a sê-lo. É uma marca e quem não gosta tem uma opção: não os ver. 

Dr. Estranho é dos filmes mais divertidos da Marvel (lá em cima com os Vingadores, no que a mim diz respeito) e um dos mais entretidos do ano. Benedict Cumberbatch é uma escolha certeira e bem-vinda aos super-heróis da 7.ª Arte. 

Epic Collection: The Amazing Spider-Man, Great Power por Stan Lee e Steve Ditko


Dificilmente uma BD de maior importância histórica sairá em Outubro - bem... talvez também a que comemora os 50 anos da Mafalda. A Banda Desenhada já deu ao mundo personagens intemporais que tornaram-se conhecidos pelo mundo inteiro. Poucos são aqueles que nunca ouviram falar do Astérix, Tintin, Super-Homem ou Batman. No início da década de 60 surgiriam, pela imaginação de uma mão cheia de criadores da editora Marvel, mais uma multitude de outras personagens. Destas destacou-se o famoso Homem-Aranha e o seu alter-ego Peter Parker. O impacto deste personagem é sentido nos dias de hoje, por ter materializado aquela que, anos mais tarde, viria a ser conhecida como a Revolução Marvel. Essencialmente, graças aos talentos de Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko (a santíssima trindade), foi introduzido dinamismo, modernidade e humanidade nos super-heróis, cujo arquétipo ainda se confundia com aquele criado nos finais da década de 30 com o Super-Homem. Estes eram essencialmente forças de fazer o bem, quase divinos e donos de características supra-humanas, quer físicas, quer de carácter. O que estes três artistas fizeram foi desenvolver o super-herói com falhas humanas e não um ideal Apolónio de perfeição.

Na Segunda Grande Guerra estes ideais eram necessários. O mal que se combatia além-fronteiras obrigava a personagens que fortalecessem a moral dos combatentes, seres que resolvessem facilmente aquilo que custava vidas e sangue a conquistar. Na década de 60, na sequência do McCartismo, da era atómica e da guerra fria, os americanos, apesar de ainda munidos de um exuberante optimismo (que só na de 70  seria seriamente abalado), estavam preparados para pés de barro nos seus heróis. Capazes de perceber este zeitgeist e fartos da luz incandescente do Super-Homem e família, Lee, Kirby e Ditko estavam preparados para introduzir no mundo um novo paradigma e novos arquétipos. Surgiriam o Quarteto Fantástico, os primeiros, e seguir-lhe-iam as pegadas o Hulk, Thor, Homem-de-Ferro, Vingadores e aquele que seria o maior deles todos, o Homem-Aranha.

Tudo o que escrevi nos dois parágrafos anteriores cristaliza-se em Peter Parker/Homem-Aranha. Já muitos ouviram falar de que, para este personagem, ser um super-herói não era a vida de rosas que para outros era. Raramente chegava ao fim do dia com uma vitória clara. O termo Vitória de Pirro deveria ser reequacionado. Vitória de Parker (ou Sorte de Parker, como ficou conhecida na BD) é mais apropriado e pós-moderno. Ou eram contas que ficavam por pagar, ou a Tia que o criou que ficava seriamente doente, ou os colegas de escola que o desprezavam. Mesmo que o vilão do dia fosse derrotado, muito dificilmente o seria de forma total - muitas vezes resultava na morte de alguém conhecido, querido ou inocente. Esta transposição da vida real que, muitos anos mais tarde, se consubstanciaria em obras como Watchmen e The Dark Knight Returns, inicia-se com o Homem-Aranha. Este é dos primeiros personagens da BD americana para quem a ficção deixou de ser um refúgio. O realismo começava a entrar pelas fissuras  da estátua perfeita que era o escapismo  da 9.ª Arte - o termo realismo deve ser lido com algum toque de discernimento.

Claro que ainda não estamos a falar de uma obra realista como as que já mencionei. O Homem-Aranha, bem vistas as coisas, não deixa de ser uma BD de super-heróis da década de 60, com todas as obrigações que a isso acarretam. Os capítulos coleccionados neste primeiro volume cronológico da Epic Collection dedicada ao personagem incluem as primeiras aparições, além do próprio Homem-Aranha, de personagens como a Tia May, Dr. Octopus, Duende Verde, Electro, J. Jonah Jameson, e mais uma quantidade memorável de outros. Se querem saber como são as versões que inspiraram tantas e tantas outras que se seguiram no cinema, TV, etc, só têm de ler este volume para perceber a importância e impacto deste mito tão duradouro e perene.

Esta colecção épica que a Marvel decidiu lançar - não me canso de dizê-lo - constitui um dos meus maiores sonhos tornado realidade. Paulatinamente, a editora irá compilar todo o seu catálogo de BD, estando neste momento a publicar principalmente os volumes da Epic Collection dedicados ao Thor, Homem-de-Ferro, Capitão América, Vingadores, Quarteto Fantástico e o Homem-Aranha. Para este último já tinham lançado dois volumes mas de histórias das décadas de 80 e 90. Este Great Power é cronologicamente o primeiro e, para completar o trabalho da dupla Lee e Ditko, faltará apenas mais um. Não consigo ser suficientemente enfático para sublinhar o trabalho destes dois autores e a importância e qualidade do que está incluído neste maravilhoso volume. Querem dar uma prenda com substância? Acho que este pode ser o caminho.

Coleção Levoir/Público Marvel 2014 – 12.º Volume: Dr. Estranho

(Prometo informar os menos conhecedores acerca da acessibilidade desta coleção de BD, ou seja, se é fácil ou não ler sem saber mais coisas)

Grau de acessibilidade: Fácil

Sai amanhã, Quinta-feira, dia 25 de Setembro, junto com Público e custa 8,9€

O Dr. Estranho, senhor das artes místicas da Marvel, é dos personagens mais antigos do catálogo da editora mas, de uma forma ou de outra, também dos mais difíceis de escrever e "vender".  Nascido das imaginações de Stan Lee e, principalmente, de Steve Ditko (ambos também criaram o famoso Homem-Aranha), cedo se revelou que a capacidade deste personagem vingar nas compras mensais dos leitores residia muito na qualidade dos artistas e menos na atractividade do personagem. Já neste blog escrevi várias vezes que nenhuma personagem é privada de potencial. Obviamente que o Homem-Aranha, pelas suas características, possui um potencial quase ilimitado. O Dr. Estranho, pelo contrário, sofre do síndrome do Super-Homem: é de tal forma poderoso que torna-se difícil nos identificarmos com ele e, por outro lado, convencer os leitores de que existe uma ameaça credível à sua vida. Claro que os mais talentosos e imaginativos conseguiam contornar o problema. Roger Stern e Mike Mignola são dois desses talentos.

O mundo onde o Dr. Estranho se movimenta, o da magia, quase não tem regras e limites. A "ciência" do obscuro é, por natureza, a arte do impossível, de tornar realidade aquilo que, de forma material, é difícil. Portanto, um personagem que, ainda por cima, é o Mago Supremo, um título intimidador e totalitário, carrega uma bagagem incontornável. Contudo, Roger Stern, escritor de BD bastante profícuo na década de 80, conseguiu fazer o que muitos não conseguiam há anos: tornar o Dr. Estranho interessante. Umas das suas contribuições passou por esta história, Triunfo e Tormento, onde não só se juntava ao talento de um Mike Mignola ainda em início de carreira (é o criador de Hellboy), como punha o mestre das artes místicas lado a lado do maior vilão do universo da Marvel, o eterno antagonista do Quarteto Fantástico, o Dr. Destino. Este encontro teria repercussões bastantes relevantes e duradouras para o segundo, ao revelar um lado mais "frágil" de um dos mais interessantes personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby (no Quarteto Fantástico, claro). 

Por outro lado, esta aventura revelava-nos o Mike Mignola como viria a ser conhecido uns poucos anos mais tarde,depois da criação de Hellboy. O lado místico e soturno que tanto se encaixa no universo mítico do Dr. Estranho estava particularmente bem talhado para as manias e inclinações deste desenhista.  E é maravilhoso quando isso acontece, principalmente no tipo de trabalho que é solicitado aos artistas quando estão em editoras como a Marvel e a DC Comics. Este é daqueles volumes desta colecção que facilmente se pega e aprecia.

Nota – Não partilho da opinião que tem de se saber tudo para acompanhar bem uma história. Parte da “magia” da BD americana reside na descoberta posterior, na paciente reconstrução do puzzle. Mas para aqueles que não têm tempo e paciência aqui fica este meu pequeno esforço.