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American Hustle de David O.Russel (Golpada Americana)


A época dos óscares tem destes filmes, daqueles que todos parecem se esforçar um pouco mais para conseguir atingir o nirvana da cinematografia americana. Os escritores dedicam-se a dedilhar argumentos assentes em temas fracturantes ou relevantes. Os realizadores tiram todos os coelhos da cartola e exibem o máximo da sua proeza técnica. Os actores escolhem personagens de margem e excedem-se em esforços que, por vezes, chegam perto das sevícias físicas auto-infligidas.  

Este American Hustle é disto tudo um pouco mas com panache e qualidade. O argumento é daqueles que são muito apreciados pelos americanos, o do "self made man", "the lovable rogue", o vigarista com coração de ouro que faz de tudo para perseguir a sua muito pessoal interpretação do "big old americam dream". Este homem é Christian Bale, numa interpretação que vai além da entrega à personalidade do seu personagem mas também à da condição física, transfigurando o corpo - como aliás já nos habituou em filmes como American Psycho, O Maquinista e mesmo a trilogia de Batman . Ao seu lado, duas mulheres belíssimas e belissimamente interpretadas por Amy Adams e Jennifer Lawrence, completando a santíssima trindade de actores que fazem desta golpada um filme que supera a banalidade. Sim porque, apesar de David O. Russel não ser um realizador estilo tarefeiro, este é, acima de tudo, o trabalho de um "ensemble cast", onde todos os diferentes atores contribuem para a sinfonia, trocando entre si melodias e acordes, não se entregando ao egoísmo e egocentrismo e contribuindo para um todo onde todos lucram. 

O argumento de Russel e a magnifica construção de personagens não será alheia à qualidade do produto final. Apenas com uma matriz da qualidade do script deste American Hustle, principalmente do lado das personalidades dos vários intervenientes,  podemos ter atores a conseguir tirar prestações muito acima da média, mesmo quando o enredo não se desvia de tantos outros em volta do tema da golpada,  mafiosos e das traições em cima de traições em cima de traições. 

Silver Linings Playbook (Guia para um final feliz)


Silver Linings Playbook (Guia para um final feliz) de David O. Russell

O realizador é já conhecido de outras andanças, sejam elas ironias pós-modernistas sobra a nova guerra (Three Kings – Três Reis de 1999), psicadelismos existenciais (I Heart Huckabees - Os Psico-Detectives de 2004) ou o obrigatório filme da perseverança humana usando como pano de fundo o Boxe (The Fighter – Último Round de 2010).

Este “Guia para um final feliz” nada tem a ver com os anteriores filmes do realizador, enquadrando-se no estilo romântico de que todas as artes preenchem os interstícios com contos atrás de histórias atrás de enredos. Centra-se (obviamente) num casal, ele bi-polar e a recuperar de uma traição da que ainda considera ser sua mulher, ela a lidar com a morte extemporânea do marido polícia. Nas fronteiras deste improvável romance coabita um carnaval de coloridos coadjuvantes (rica aliteração). Os pais dele, uma mãe compreensiva e (perdoem o pleonasmo) maternal, e o pai, Robert de Niro, no papel de um idoso americano suburbano, tentando sobreviver ao desemprego usando como apoio um esquema de apostas de futebol americano. A irmã dela, uma típica dona de casa suburbana, uma potencial soccermom, esforçada castradora do marido, interpretada por uma impecável Julia Stiles fora do seu ambiente. Isto para apenas falar dos mais importantes.

O forte do filme é a história, perturbada por homens e mulheres que passeiam defeitos e virtudes, e tocando alguns dos motes preferidos de um certo estilo americano como seja a família, a individualidade e a diferença como força de resgate. Apesar de parecer uma parada de clichés, pela força dos actores, pelo enredo e pelo claro olho de Russel, o filme passa apenas tangencialmente pelo corriqueiro e assume-se como uma deliciosa história de amor que dá gosto e prazer de ver. A realização de Russell opta por alguns recursos estilísticos interessantes, como o frenesim da câmara no início do filme ou o delicioso plano final de afastamento dos amantes. E o talento dos vários intervenientes carrega o filme para um excelente porto.

Parece existir aqui um comentário à América, às suas famílias, ao estilo de vida do país que tanta atracção exerce. Os personagens parecem não só representar personalidades individuais mas também arquétipos de uma América dividida entre a tradição e o modernismo, isto tudo metido no caldeirão da crise económica e filosófica deste início da década de 10 do século XXI.

Verdadeiramente redentor! Para os lamechas! E quem diria que factos sobre desporto debitados à velocidade de metralhadora fossem tão inequivocamente românticos.