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Mulher-Maravilha de Azzarello, Chiang, Adkins e Sudzuka




(publicado em Wonder Woman New 52 (2011) 0, 1-35, Faces of Evil: First Born)

(contém spoilers)

Esta não é a Mulher-Maravilha a que estão habituados. A versão é visceral e violenta, bebendo das lendas e mitos dos deuses gregos para além da filosofia do criador de Diana, William Moulton Marston. Existe mais guerra e menos paz. Gail Simone, uma das mais conhecidas escritoras da Mulher-Maravilha, diz não ser fã de uma modificação basilar ao mito de Diana introduzida por Azzarello: a mãe não a esculpiu do barro a que, posteriormente, os deuses deram vida. Diana é agora uma semi-deusa, nascida da luxúria entre Hipólita, a rainha das Amazonas, e Zeus, o Deus dos deuses. Segundo a autora, a introdução de um lado masculino na mitologia da Princesa Amazona diminui a mensagem feminista de Marston. Qualquer que seja o lado para que pendam, esta é a origem que passou para o cinema, pela realizadora Patty Jenkins.

Azzarello, ao introduzir uma nova versão do nascimento de Diana, modifica o mito e aproxima-o dos heróis e semi-deuses da mitologia grega, muitos deles nascidos das indiscrições do pai dos deuses. Todos sabemos de Perseu, de Hércules. Diana junta-se a eles, a uma linhagem que pertence à História da Cultura Ocidental e à Literatura Clássica - Homero e Ovídio ficariam orgulhosos. Azzarello reinterpreta a personagem e adapta-a ao seu olhar e é nesta perspectiva que a sua versão deve ser avaliada. Claro que isso não invalida os que se sentem defraudados pela interpretação desviar-se do que julgam ser essencial à personagem. Contudo, segundo a minha perspectiva, o que é basilar a Diana continua na versão de Azzarello. 

Mais do que uma vez, Diana prefere o uso da conciliação e da não-violência para resolver um conflito. Quando confrontada com Hera, a deusa responsável, num assomo de ciúmes, pela transformação das suas conterrâneas e mãe em cobras e pedra, respectivamente, decide o caminho do perdão e da redenção (já agora, um aparte: Azzarello, consciente ou inconscientemente, alude às Metamorfoses de Ovídio, ao escolher o modo de castigo a que Hera recorre na sua vingança). Quando se vê forçada a casar com Hades, ela ilude o deus usando da sua inteligência e compaixão. Num momento que encapsula a sua motivação, Diana afirma "que ama todos", mesmo o deus dos infernos. Azzarello, por mais que pinte com as suas próprias cores esta narrativa da Mulher-Maravilha, não foge das bases da personalidade da personagem. Diana é uma força de amor, de poder guerreiro e, acima de tudo, uma personalidade resoluta. Cada passo é raramente noutra direcção que não seja para a frente. Sem dúvidas.

É nas intrigas entre os deuses do panteão grego que o escritor se centra. Desde cedo elimina do enredo tudo o que considera supérfluo ou redundante. Steve Trevor, o eterno namorado, não existe. As Amazonas são, como já o disse, retiradas de campo pela mão vingativa de Hera, a esposa desonrada de Zeus, o que está em acordo com a versão que todos conhecemos na História. A acção começa não só pelo abandono, por parte de Zeus, do trono do Olimpo, como pela gravidez e posterior nascimento de mais um bastardo deste deus, colocando a perpetuamente sofredora esposa como uma antagonista de Diana. Paralelamente, os filhos do Deus desaparecido, bem como Hades e Poseidon, seus irmãos, degladiam-se pelo trono abandonado. A Mulher-Maravilha é colocada neste palco, entre a defesa da mãe da criança, do seu meio-irmão, e as lutas palacianas. É arrastada para cada enredo e conluio contra a sua vontade mas depressa toma as rédeas do destino, não o deixando por mãos alheias. 

O enredo irá culminar em dois eventos. Assistimos, desde cedo, à caminhada do First Born, o primeiro filho de Zeus e Hera, rejeitado pelo pai por, tal como com Cronos,  ser o seu possível futuro assassino. Do conflito com este ser movido apenas pelo ódio, Diana ascende à divindade, ao matar o Ares, O Deus da Guerra (que nesta versão não é seu opositor mas mestre), e herdando o título. É aqui que Azzarello deixa vincada a sua marca, num claro desvio da mensagem de paz de Marston. Contudo, acredito que é apenas na forma, porque no cerne da personagem, esta transformação serve para sublinhar a mensagem pacífica de Diana. Nesta escolha do extremo oposto, Azzarello prova, pelos actos de compaixão levados a cabo pela Mulher-Maravilha, que ela é a escolha certa para a divindade da guerra e do conflito.

Para terminar um post já longo, não posso deixar de sublinhar o trabalho dos desenhadores, principalmente o de Cliff Chang e de Goran Sudzuka. Com uma linha minimalista e cartoonesca, são o complemento perfeito para a parcimónia e honestidade brutal das palavras de Azzarello. Fora fica o tom clássico de George Pérez, com a sua fiel e rebuscada pintura do mundo helénico de Diana. Themyscira, a ilha das Amazonas, assemelha-se mais às casas da Grécia moderna do que às representações idealizadas da antiga.  Fora ficam as figuras de toga dos deuses gregos e surgem visualizações metafóricas e simbólicas dos mesmos.  O Olimpo fica desnudado de arquitecturas escherianas e dá lugar à sobriedade e soturnidade do minimalismo.

A Diana de Azzarello, Chiang, Sudzuka e Adkins é a prova de que os arquétipos mais antigos podem ser re-imaginados, sem perder o seu núcleo e a sua mensagem. É a prova de que a Mulher-Maravilha é um dos mais perenes e primordiais. 

Image é o futuro - Paper Girls e Beauty



Eu próprio já estou enjoado com o que digo: actualmente, a Image é uma das mais dinâmicas editoras de BD em qualquer mercado, mas principalmente no dos EUA, onde imperam, em percentagens bem apreciáveis, os super-heróis. Durante muitos anos, era província de editoras como a DC/Vertigo, Drawn & Quarterly, Fantagraphics, a capacidade de explorar linguagens diferentes das da mitologia dos homens e mulheres de super-poderes. A Image "antiga" apostava muito no mesmo mundo, mas copiando mal. Desde o sucesso "independente" de The Walking Dead e da percepção de que, afinal, poderiam apostar em outras perspectivas, que a Image remodelou a sua - sim, vou dizê-lo - imagem. Assim, ao mesmo tempo que, tragicamente, a DC/Vertigo media o seu caixão com o inacreditável erro da dispensa de Karen Berger, a Image decide seguir o modelo desta editora, levando-o, inclusive, mais além: total liberdade criativa.

Um dos primeiros e maiores sucessos desta nova fórmula foi o Saga de Brian K. Vaughn e Fiona Staples. Qualquer um que tivesse acompanhado o trabalho do primeiro, escritor em títulos da DC/Vertigo, sabia do seu enorme talento. Saga foi e continua a ser uma das mais importantes bandeiras desta nova Image, mas sabíamos que Vaughn não ficar-se-ia por ali. Eis que surge Paper Girls junto com o desenhista Cliff Chiang, este uma das duas partes responsáveis pela brilhante nova interpretação da minha Diana (Mulher-Maravilha, para os mais distraídos). Esta BD segue também uma muito salutar nova "moda" de ter personagens femininos como protagonistas, neste caso quatro adolescentes na década de 80. Quatro jovens distribuidoras de jornais residentes numa vila que é alvo duma invasão de seres de outro tempo. As cores, a história, tudo faz lembrar velhas cassetes VHS com filmes de ficção científica série B ou Z desta mesma década, e que os fãs viam até ao desgaste da fita. Tenho mesmo a certeza ser essa a intenção dos autores. A principio, confesso, a história não estava a conseguir cativar-me, mas a última página do primeiro capítulo, ao estilo dos "cliffhangers" típicos de Vaughn, prende com um gancho delicioso (que, obviamente, não revelo). A partir daí, os autores carregam no acelerador e não parecem querer parar, desenvolvendo personagens reais e tangíveis ao mesmo tempo que avançam um enredo cativante e cheio de sensibilidade pop. Sem dúvida, mais um título a seguir.

O mesmo não vou poder dizer de Beauty de Jeremy Haun e Jason A. Hurley. Infelizmente, o alto e muito interessante conceito por detrás desta BD não foi (ainda) suficiente para agarrar-me, muito por culpa de um argumento que, neste primeiros cinco capítulos, não vai muito para além do banal e previsível. O desenho também não é excepcional, com construções de vinhetas também elas pouco inspiradas e, por vezes, até desajustadas. O traço, apesar de simplista e com pouco virtuosismo, poderia ser suplantado com construções de história mais interessantes, o que não acontece - quando falam-me de que é importante um desenhista ser excepcional para que exista uma boa BD lembro-me sempre do trabalho de Peter Gross, cujo traço ultra-simplista enriqueceu, pela sua superior arte, trabalhos como Unwritten, Lucifer e Books of Magic. Dito isto, fico com particular pena porque (como já disse) o conceito por detrás deste Beauty é ultra-cativante: existe uma nova doença no mundo chamada Beleza. Uma doença de que todos querem padecer. Transmitida sexualmente, quem a contrai fica com o corpo e aspecto de um super-modelo, dono de uma beleza digna de Apolo e Afrodite. Claro que, contudo, a história desta doença não fica-se por aqui.  De facto, o conceito é interessantíssimo, moderno e, ao mesmo tempo, intemporal. Mas fica a sensação que em outras mãos poder-se-ia transformar em algo fabuloso. Que não é.