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Manifesto de Julian Rosefeldt

A linguagem é a mais importante invenção humana. Usando a palavra, a humanidade consegue transmitir muito mais do que a sensação de fome, sede ou dor. Consegue questionar os céus e a natureza. Percebe o mundo ao atribuir-lhe nomes. Não será por acaso que, nas religiões dos tempos antigos, um demónio (imaginado ou não) nunca permitia que o "seu verdadeiro nome" fosse conhecido. Caso isso acontecesse, corria o risco de ser aprisionado para sempre.

Palavras são poderosas. Dependendo da intenção, elas prendem o mundo, entendem-no, ou mistificam-no, aumentam o mistério. A Arte sempre foi uma das melhores formas de entender o mundo, provavelmente mais relevante do que a Religião e a Ciência. A Arte é a província do indivíduo. E todos nós somos únicos e indivisíveis. Como era dito no filme O Clube dos Poetas Mortos, e parafraseio, "Engenharia, medicina, essas são profissões honradas e nobres. Mas Poesia, Beleza, Romance, Amor... são por causa deles que permanecemos vivos".

Mesmo a Arte necessita de palavras, para verter uma visão, uma perspectiva, um testemunho que quer passar. A Arte é tão múltipla quanto múltiplos são os indivíduos, mas mesmo ela origina correntes, grupos, movimentos. Estes são destilados em manifestos onde os artistas de uma escola de pensamento discorrem e vomitam todo o seu pensamento, antagónico, evolutivo ou original, sobre a Arte. Os manifestos são arte feita intenção feita palavra.

Este filme deve ter arrastado muitos ao Cinema para verem a Cate Blanchett a encarnar diversas personagens. Sim, ela faz isso, mas as personagens estão ali para falar, declamar ou vociferar um dos doze manifestos escolhidos: está lá o Dadaísmo (o meu momento favorito do filme); o surrealismo; o minimalismo; a arte pop; Cinema; etc.  Este não é tanto um filme mas uma colagem de doze momentos díspares, manifestações da individualidade. Se forem com este aviso, divertem-se tanto quanto eu.

Blue Jasmine de Woody Allen

Cate Blanchett é fenomenal neste filme. Pronto, já o disse, como tantos outros antes de mim e mais uns depois. A sua capacidade de levar ao extremo dos sentimentos e do desespero este personagem é, efetivamente, reservada apenas àqueles que carregam dentro de si o talento e o caos suficientes para conseguir uma proeza deste gabarito (já o dizia Nietzsche). Se Cate não vence nenhum prémio com o papel desta mulher, mutuamente destroçada e enamorada, então roubem-no à Gwyneth Paltrow, que até hoje não percebo como ganhou alguma coisa com o Shakespeare in Love (e até simpatizo com a rapariga, mas convenhamos…). Há uma sinfonia multi-instrumental a ser tocada na face e nos gestos de Blanchett, que consegue colocar a nu um personagem criado por outro génio, o realizador/escritor/autor Woody Allen.

E está aqui outra surpresa deste Blue Jasmine, ou seja, Allen afinal continua vivo, não que alguma vez achasse que estivesse menos dotado mas, talvez, mais complacente com o percurso e se resignasse a “divertir-se”. Nada mais longe da verdade, como este filme tão bem atesta. O realizador nova-iorquino, que espero ver um dia a filmar Lisboa, volta a exibir a justificação porque, com a idade, as coisas tornam-se mais claras, ou melhor, definidas pela indefinição.


As aparências iludem, não somos exatamente aquilo que parecemos nem tampouco aquilo que os outros pensam que nós somos. E este Blue Jasmine é, também, um filme sobre o que aparentamos ser e aquilo que, forçados pelo cair dos dominós, temos mesmo de ser. Muitos são os personagens que são uma coisa no início deste filme e que, no seu decorrer, revelam-se ser outra. As áreas de cinzento com que, pelo senso-comum, costumamos classificar o real, estão devidamente representadas. Personagens fortes são, na realidade, fracos. Personagens elitistas são, na realidade, naif. Personagens humildes são, na realidade, sujeitos aos mesmos sonhos vácuos de todos os outros. Nesta sinfonia (outra vez) existe a batuta exímia de um maestro que, de tanto tocar, acaba por, num determinado dia, acertar nas notas e forçar o divino para fora do interior do corriqueiro.
 
Voltaste, Woody, e estás completamente a-perdoado.