Avengers Endgame dos Irmãos Russo

Escrever sobre Avengers Endgame é uma dança entre os pingos da chuva. Como é que se fala sobre um filme, que, entre outras coisas, foca-se no enredo e na surpresa, sem estragar o que quer que seja? Não se preocupem que eu vou conseguir dizer o que necessito dizer, sem que, para isso, estrague o prazer que (inevitavelmente) terão ao ir ao cinema. Resumindo... não há spoilers neste artigo.

O que é achei deste filme?


Avengers Endgame dos Irmãos Russo quase que dispensa apresentação ou resumo. A campanha de trailers que o precederam prometia apenas imagens dos primeiros 15 minutos de filme. Não sendo totalmente verdade, não deixa de ser relevante que, de facto, pouco foi revelado do verdadeiro enredo. Sabíamos que a saga que iniciou-se em 2008 com o Homem de Ferro iria chegar ao final. O grande plano conheceria um desfecho, um laço que fechava, se não todas, pelos menos as principais linhas de história do universo cinematográfico da Marvel. O que acontece neste filme cumpre essa promessa, e o caminho que escolhe para chegar a esse destino é inventivo, surpreendente e, dentro da linguagem de adaptação de BD ao cinema, inovador. 

Uma das forças de Endgame é o maravilhoso argumento, que afasta-se, quando necessário, das fórmulas e ritmos normais de filmes de supers, e procura por soluções que agarrem o espectador ao ecrã, coloquem o seu coração a mil à hora e o façam, perpetuamente, perguntar: o que é que vai acontecer agora? Esse não é um feito pequeno, mais ainda quando falamos não só dos habituais espectadores, leitores e amantes de histórias, mas também dos chamados fãs - dos quais faço parte há 40 anos. O enredo consegue inventar novos caminhos para que nunca digas que já sabias que ias por ali. Conseguir essa proeza, nestes tempos tão cínicos e experimentados, não é algo que se possa descurar. E reitero, este que vos escreve já acompanha histórias de supers há tempo demais e, ainda assim, consegui sair deste Vingadores com o oposto da sensação de dejá vu.

Outro dos aspectos fortes deste filme é a enorme conexão emocional. Isso é veiculado, claro, pelo somatório de uma década de histórias, mas, principalmente, por uma combinação de talento que conspirou para tecer uma história com coração, com alma, com todos os eufemismos que possam imaginar para a palavra emotividade. Existem os obrigatórios momentos de lágrima no olho, que convivem com os de humor apanágio da Marvel cinematográfica. Existe um suave tambor que funciona como leit motif no fundo da história. E o ritmo tocado é o de um profundíssimo humanismo. Sim, estamos a falar de supers e, às vezes, até de deuses. Mas, todos eles, sem excepção, emocionam-se e emocionam-nos. Com uma força tão épica quanto a do conflito-tema deste Vingadores.

Ser épico é, também, a palavra de ordem quando falamos de Endgame. Há quem diga que, dificilmente, repetir-se-ão as circunstâncias que confluíram para este enredo. Não sou dessa escola, mas antes da oposta. Mas acho (que acho) que, independentemente do que o futuro reserva, esta obra ficará como um marco do passado. Um ponto alto do cinema-espectáculo, de como podemos ter entretenimento sem que, para isso, sacrifiquemos a nossa alma de artista ao altar do todo-poderoso dólar. Não quero com isto dizer que estamos à frente de herdeiros de Kubrick ou de Bergman. Quero antes dizer que os Irmão Russo, usando um produto comercial, conseguiram um filme profundamente humano. E isso é dizer muito. Peço que atentem à primeira hora de filme para perceberem o que quero dizer com isto. 

Finalmente, uma enorme palavra de agradecimento aos actores que deram vida a estas personagens que acompanho há quatro décadas e que tanto significam para mim. Um enorme obrigado cheio de emoção. E obrigado à Marvel por ter conseguido a proeza de fechar este ciclo de forma tão monumental e emotiva. Não gostei de todas as pedras deste caminho, mas a sala de descanso no final da viagem é francamente maravilhosa. Aplausos.

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