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The Florida Project de Sean Baker

Existem mundos que aguardam nos subúrbios dos outros. Pessoas que acumulam-se nas fronteiras dos locais bonitos. Que observam de longe os sítios mais visitados. Vivem na espera. Vivem na esperança de um futuro melhor. As crianças preferem não esperar um futuro melhor, porque o presente é produto da imaginação, das brincadeiras que criam nos dias de verões preguiçosos. Sem destino, vivem mais felizes. Mas a tragédia que são os seus tutores, arrasta-as, sem querer, para longe da felicidade.

Sean Baker regressa às cores garridas das ruas escondidas, das traseiras dos edifícios. Regressa aos desalinhados, aos esquecidos, aos que vivem longe da normalização. São mundos a que acedemos apenas por engano ou que vemos apenas de cima, de um alto voo com destino para outras paragens. Somos turistas que não devem ser incomodados. Eles são os que ali vivem e são forçados a ver a utopia de longe. Forçados a observarem e a serem esquecidos. Os que veem de fora, os visitantes, os tais turistas, são mais importantes que os que ali vivem. Esses são incómodos na imagem colorida de uma fantasia infantil.

Enquanto isso, os esquecidos lutam com o que podem. No desespero do último recurso, quando nenhum caminho lhes é oferecido, voltam-se para a venda do próprio corpo (faz-me lembrar o filme São Jorge de Marco Martins). Os que vivem no mundo ideal observam-nos como abutres, prontos a aproveitarem-se do desespero ou da inocência.

Este são os EUA que não aparecem nos filmes coloridos e explosivos. Este é um filme sobre os escombros do crescimento económico. Dos esquecidos desse crescimento. Visto através dos olhos e brincadeiras de crianças, observadas até à exaustão pela câmara de Sean Baker. Ele entra pela vida adentro desses pequenos e procura não esquecê-los. É impossível esquecê-los.

Um filme brilhante e que brilha. Nessa luminosidade existem todas as sombras do mundo. É um filme sobre o subúrbio da fantasia e, por isso, extraordinariamente real.

A Most Wanted Man de Anton Corbijn (O Homem mais Procurado)


Este não é apenas o último filme do recentemente falecido Philip Seymour Hoffman. Esta é uma história de espiões, contado no clima pós-11 de setembro, realizada pelo fotógrafo/realizador Anton Corbijn e baseada num romance do profícuo John LeCarré. Filmado tendo como pano de fundo a cidade de Hamburgo, centra-se nos esforços de uma equipe de contra-espionagem alemã  em desmantelar a teia de subsídios ao terrorismo que se espalha pelo mundo. Ao mesmo tempo, envolve velhos bancos onde antigos generais da URSS escondiam o dinheiro hipócrita e sujo,  uma jovem filha de dinheiro que tenta expiar a culpa do berço onde nasceu, colegas espiões alemães e estado-unidenses,  tudo misturado numa trama complexa, intrincada, mas curiosamente fácil de seguir.

Existe muito pouca coisa errada neste filme. Para vos ser sincero, tenho mesmo dificuldade em encontrar o que quer que seja. A galeria de atores que se prestaram aos diferentes papéis é exuberante. Nina Hoss, a brilhante protagonista de dois excelentes filmes, Barbara e Ouro, David Bruhl, muito conhecido por Good Bye Lenin e Inglorious Basterds,  Rachel McAdams, Willem Dafoe, Robin Wright, isto apenas para citar os nomes mais relevantes para a história. E, claro, o brilhante Philip Seymour Hoffman. Que não falha. Que parece derreter-se no papel. 

A história, como já disse, é intrincada mas extraordinariamente fácil de seguir. Já há muito que não se fazia um enredo de espiões que seguia tão bem alguns dos apetrechos e trejeitos obrigatórios de um filme deste estilo, mas de uma forma fácil, segura e sem grandes rodriguinhos, quer de estilo, quer de forma. A equipe de espiões exibe saudosos tiques e comportamentos que imaginamos serem os típicos da profissão (principalmente porque alimentados pela literatura e filmes), mas  escritor e o realizador exibem-nos e narram-nos como dados adquiridos, naturais.

Por outro lado, a complexidade da história subverte a moralidade e os julgamentos de valor fáceis e imediatos. Dois dos momentos chave do filme acontecem de forma serena: quando o espião interpretado por Hoffman encontra-se, por duas vezes, com a americana Robin Wright. A primeira, num bar escolhido por ela, situado no topo de um hotel. A segunda, num outro, este escolhido por ele, cravado nas ruas de Hamburgo. O diálogo que ele tem com a sua congénere à entrada do segundo é, para mim, o mais interessante de todo o filme. Revela não só a personalidade dos personagens em causa, mas os valores mais globais que estão sempre em jogo numa história bem contada. Como esta o é. 

Um filme que é pena ter sido o último deste ator. Que fique em paz.