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The Florida Project de Sean Baker

Existem mundos que aguardam nos subúrbios dos outros. Pessoas que acumulam-se nas fronteiras dos locais bonitos. Que observam de longe os sítios mais visitados. Vivem na espera. Vivem na esperança de um futuro melhor. As crianças preferem não esperar um futuro melhor, porque o presente é produto da imaginação, das brincadeiras que criam nos dias de verões preguiçosos. Sem destino, vivem mais felizes. Mas a tragédia que são os seus tutores, arrasta-as, sem querer, para longe da felicidade.

Sean Baker regressa às cores garridas das ruas escondidas, das traseiras dos edifícios. Regressa aos desalinhados, aos esquecidos, aos que vivem longe da normalização. São mundos a que acedemos apenas por engano ou que vemos apenas de cima, de um alto voo com destino para outras paragens. Somos turistas que não devem ser incomodados. Eles são os que ali vivem e são forçados a ver a utopia de longe. Forçados a observarem e a serem esquecidos. Os que veem de fora, os visitantes, os tais turistas, são mais importantes que os que ali vivem. Esses são incómodos na imagem colorida de uma fantasia infantil.

Enquanto isso, os esquecidos lutam com o que podem. No desespero do último recurso, quando nenhum caminho lhes é oferecido, voltam-se para a venda do próprio corpo (faz-me lembrar o filme São Jorge de Marco Martins). Os que vivem no mundo ideal observam-nos como abutres, prontos a aproveitarem-se do desespero ou da inocência.

Este são os EUA que não aparecem nos filmes coloridos e explosivos. Este é um filme sobre os escombros do crescimento económico. Dos esquecidos desse crescimento. Visto através dos olhos e brincadeiras de crianças, observadas até à exaustão pela câmara de Sean Baker. Ele entra pela vida adentro desses pequenos e procura não esquecê-los. É impossível esquecê-los.

Um filme brilhante e que brilha. Nessa luminosidade existem todas as sombras do mundo. É um filme sobre o subúrbio da fantasia e, por isso, extraordinariamente real.

Tangerine de Sean Baker

(novamente a rubrica Quando estreia?, sem mérito nenhum e muita sorte, consegue prever um filme que iria estrear. Esta semana temos esta experiência filmada em iPhone chamada Tangerine. Segue o que se escreveu num post anterior)

Tangerine de Sean Baker vem com várias recomendações.  Fez parte de várias listas dos melhores filmes de 2015. Fez furor no Festival de Sundance nos EUA. Foi integralmente filmado com um iPhone. A curiosidade era mais que justificada.

O enredo passa-se num dia da cidade de Los Angeles onde acompanhamos duas amigas enquanto uma delas tenta encontrar o seu namorado/chulo que, alegadamente, a terá traído com outra das suas prostitutas. Apesar do móbil da acção ser a jovem traída, ambas são protagonistas num drama que, ainda que ocorra num universo hermético, possui uma universalidade que o exporta para o círculo do relacionável.

As duas protagonistas, Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor, são dois furacões em movimento pela labiríntica e ensolarada Los Angeles, uma cidade ela própria longe das referências europeias de urbe. Oferecem um desempenho cativante que nos obriga a estar constantemente a prestar atenção ao ritmo acelerado do seu discurso regional e cheio de colorido. São ao mesmo tempo sofredoras e lutadoras sem medo, procurando sublinhar-se como pessoas. Não há quartel na sua luta, o que se espelha no tom das suas vozes, na ferocidade do seu andar e na velocidade que partem na afirmação dos seus desejos. Não há espaço para duvidas. Ou, pelo menos, assim o parece porque, na realidade, há e muitas. 

A realização de Sean Baker é de tal forma energética e estudada que nos faz esquecer o facto de ser integralmente filmada em iPhone 5S. A montagem é rápida, emprestando a velocidade das protagonistas ao passo do enredo.  Muito à semelhança de Victoria de Sebastian Schipper, o elemento técnico  vai muito para além da curiosidade e assume-se como elemento da narrativa, de forma plena e descomprometida.  Abre espaço para esperança da democratização do Cinema, algo que Martin Scorcese abordou numa conhecida carta endereçada à sua filha. Mas como também ele diz, não basta a facilidade com que podemos fazer filmes hoje em dia. Para ser Cinema é preciso mais que isso, uma magia que junta enredo, técnica e talento. E isso este Tangerine tem de sobra. 

Quando estreia? Tangerine de Sean Baker

Tangerine de Sean Baker vem com várias recomendações.  Fez parte de várias listas dos melhores filmes de 2015. Fez furor no Festival de Sundance nos EUA. Foi integralmente filmado com um iPhone. A curiosidade era mais que justificada.

O enredo passa-se num dia da cidade de Los Angeles onde acompanhamos duas amigas enquanto uma delas tenta encontrar o seu namorado/chulo que, alegadamente, a terá traído com outra das suas prostitutas. Apesar do móbil da acção ser a jovem traída, ambas são protagonistas num drama que, ainda que ocorra num universo hermético, possui uma universalidade que o exporta para o círculo do relacionável.

As duas protagonistas, Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor, são dois furacões em movimento pela labiríntica e ensolarada Los Angeles, uma cidade ela própria longe das referências europeias de urbe. Oferecem um desempenho cativante que nos obriga a estar constantemente a prestar atenção ao ritmo acelerado do seu discurso regional e cheio de colorido. São ao mesmo tempo sofredoras e lutadoras sem medo, procurando sublinhar-se como pessoas. Não há quartel na sua luta, o que se espelha no tom das suas vozes, na ferocidade do seu andar e na velocidade que partem na afirmação dos seus desejos. Não há espaço para duvidas. Ou, pelo menos, assim o parece porque, na realidade, há e muitas. 

A realização de Sean Baker é de tal forma energética e estudada que nos faz esquecer o facto de ser integralmente filmada em iPhone 5S. A montagem é rápida, emprestando a velocidade das protagonistas ao passo do enredo.  Muito à semelhança de Victoria de Sebastian Schipper, o elemento técnico  vai muito para além da curiosidade e assume-se como elemento da narrativa, de forma plena e descomprometida.  Abre espaço para esperança da democratização do Cinema, algo que Martin Scorcese abordou numa conhecida carta endereçada à sua filha. Mas como também ele diz, não basta a facilidade com que podemos fazer filmes hoje em dia. Para ser Cinema é preciso mais que isso, uma magia que junta enredo, técnica e talento. E isso este Tangerine tem de sobra.