Mostrar mensagens com a etiqueta Filmes que mais gostei em 2018. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Filmes que mais gostei em 2018. Mostrar todas as mensagens

Call Me By Your Name (Chama-me pelo Teu Nome) de Luca Guadagnino

No Verão de 1983, um jovem investigador dos EUA desloca-se para o Norte de Itália, para a casa de campo de um professor de Arqueologia de renome. Na família que o recebe vive um jovem de 17 anos, interessado em música, inteligente e dono de uma cultura acima da média. Elio, o adolescente, fala fluentemente as línguas francesa, inglesa, italiana e mesmo um pouco de alemão. Desde o primeiro trocar de olhares que ele e Arnie, o americano, possuem uma atração mútua intensa, uma relação que, contudo, têm de controlar, esconder, mesmo um do outro, com medo das represálias óbvias. Aos poucos, as barreiras pessoais vão esmorecendo sob o peso da paixão e da intensidade física da atração. Uma relação acontece na casa dos pais de Elio, nos arredores bucólicos da aldeia e campo italianos. Este será sempre mais que um amor de Verão. Será um marco nas vidas de ambos, enquanto descobrem a intensidade a que o Amor pode chegar, quando verdadeiro e único.

Verdade. Dificilmente encontrarão uma palavra que melhor descreva este belíssimo mas intenso filme. Quando os dois jovens revelam o amor que nutrem um pelo o outro, quando o levam até às consequências finais, este Call Me By Your Name voa acima da mundanidade e afirma-se como um testamento à intensidade de um amor verdadeiro, único, daqueles que acontecem apenas uma vez na vida. A rendição completa do nosso querer e do nosso ser a outra pessoa, a dor física da separação, a dor física da união, estão presentes em cada enquadramento e em cada cena que os dois partilham. Isto é muito mais que o amor homossexual. É pura e simplesmente Amor. Sem outros rótulos.

O trabalho de todos os envolvidos, desde realizador a actores, passando por director de fotografia, são exemplares e cheios de intenção e emoção. O filme é belo não só pelos cenários, pelo mise en scéne, pela fotografia, mas principalmente pelo coração, pela intensidade e veracidade dos sentimentos. Luca Guadagnino já tinha dado  maravilhoso Eu Sou o Amor, um dos meus filmes favoritos de 2009, e regressa com este fabuloso Call Me By Your Name, já um dos favoritos de 2018. 

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri de Martin McDonagh

O filme Fargo dos Irmãos Coen começava com uma das maiores mentiras da história da 7.ª Arte. Dizia ser baseado numa história verídica. Este Três Cartazes à Beira da Estrada poderia começar da mesma forma - e não porque tem como protagonista a mesma maravilhosa actriz, Frances McDornand. Ainda que o realizador tenha baseado o seu conto em cartazes que viu expostos à beira da estrada enquanto viajava pelos EUA, o enredo deste seu filme sai inteiramente da sua mente narrativa. E que enredo. A força da história carrega um filme que poderia cair facilmente no óbvio. Inflecte sistematicamente por caminhos inesperados, forçando o espectador a questionar-se sobre as intenções das personagens e as suas. Depressa inverte a moralidade do conto, torcendo-o e obrigando o espectador a estar alerta sobre a verdadeira intenção e motivação dos protagonistas.

Mildred Hayes, interpretada por Frances McDormand, é um mulher forjada por um casamento infeliz e pelo assassinato cruel da sua filha adolescente. A polícia local não conseguiu encontrar qualquer pista sobre o assassino e Mildred vê-se na obrigação de alugar os titulares três cartazes à beira da estrada para transmitir uma mensagem clara às forças de segurança e à comunidade local. A morte brutal da sua filha não poderia ser esquecida. Este é um filme, sim, sobre a injustiça de uma morte prematura, mas também sobre a moralidade da vingança, das intenções e verdades de cada um, escondidas muitas vezes deles próprios. É sobre preconceitos, racistas ou homofóbicos ou outros mais subtis, mas não menos destruidores. É impossível a tomada de posição moralmente elevada sobre a história de qualquer uma das personagens. Nenhuma é perfeita, justa e honesta até às últimas consequências de cada uma dessas palavras. Nisso o filme assume-se como uma parábola de vertente realista que entretém e, acima de tudo, questiona.

Como contadores deste maravilhoso conto moral e realista temos um realizador e argumentista que deixa a história respirar e assumir uma identidade completamente individualizada, temos actores no topo da sua arte a fazer mais com silêncios que com milhares de palavras. Todos convergem numa história poderosa e universal. Aqui não existem respostas, apenas questões.

Um filme extraordinário. Um enredo subtil e moralmente ambíguo. Uma Frances McDormand, um Sam Rockwell, um Woody Harrelson, sufocantemente humanos. Obrigatório e já um dos melhores do ano.