O que é hoje os EUA? Essa questão ecoa por todos os minutos deste maravilhoso filme do realizador Paul Schrader, também conhecido por ser o escritor das obra-primas da 7.ª Arte que são Taxi Driver e Touro Enraivecido. O silêncio e calmaria que permeia esta obra, esteticamente brilhante, parece ser a capa que disfarça uma tempestade voraz. Uma tormenta que quer consumir o mundo. Uma narrativa contida que esconde conflitos, desejos e ambições que ameaçam a sobrevivência, principalmente a do Homem.
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Boyhood de Richard Linklater
Quando é que um filme de uma história banal não é um filme banal? Quando é que, sem fogo de artifício, apenas com normalidade, a arte cresce para a mesma envergadura da vida? Como é possível captar o mais inclemente dos donos do universo, o tempo? Como fazemos para escrever com as imagens da ficção a realidade dos segundos?
Richard Linklater com este maravilhoso Boyhood esteve o mais perto possível da resposta a estas questões.
Todos já ouviram falar da experiência do realizador e da sua equipe em filmar os mesmos indivíduos ao longo de um período de 12 anos, acompanhando especificamente o crescimento de um rapaz entre os seus 6 e 18 anos de idade. Por mais que se repita, como um mantra, como uma curiosidade mediática, esta experiência é tudo menos banal. Outros realizadores já passaram pela tentativa de captação da passagem do tempo, mas ninguém com o arrojo e sucesso de Linklater. Não porque o realizador americano tenha optado por um abordagem artística específica, obedecendo a uma escola ou chamamento interno ininteligível, mas antes porque o faz apenas com o recurso às ferramentas e à estética que a vida dá a todos nós: amadurecimento e tempo. Linklater junta a estas uma narrativa fictícia (mas não tão fictícia assim) na qual os personagens respiram e vivem os dias sem artifícios. Apenas com as rugas e o acumular de anos. Nada mais simples e nada (imagino) tão difícil.
Presumo que muitos espectadores tenham saído da sala de cinema com a sensação de ter entrado por uma casa igual à nossa e pouco mais ter feito que observar pequenos dramas familiares, o crescimento e amadurecimento de pessoas, o desfilar de refeições em comum. O que é curioso é que essas pessoas terão toda a razão e, ao mesmo tempo, estarão erradas. Porque Boyhood é isso e não pretende ser muito mais que isso. Mas ao juntar o "truque" de filmar o verdadeiro envelhecimento dos actores enquanto acompanham os seus personagens em 12 anos reais, transforma a banalidade da arte em magnificência da vida. Porque a vida é sempre superior à arte, é superior a tudo, porque não existem artifícios, apenas realidades armazenadas em cima dos segundos, dos dias, das semanas e dos anos.
Não é a primeira vez (e imagino que não será a última) que Linklater experimenta com a passagem do tempo na tela do cinema. Já o tinha feito na trilogia de filmes protagonizados por Julie Delpy e Ethan Hawke. Mas Boyhood é ainda mais radical. É como se o realizador se esforçá-se para dizer que é na banalidade do real que encontraremos toda a magia e descoberta que poderemos querer. Para mim, esta é uma mensagem tão poderosa quanto a veiculada por qualquer livro sagrado.
Before Midnight de Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke
Passaram-se 18 anos desde o primeiro encontro entre Jesse e Celine numa viagem de comboio pelo interior da Europa. Passaram-se
9 desde o reencontro nas ruas de Paris. Será este filme o fim da trilogia? Até
pode ser que sim, mas não o fim da história, como aliás a estrutura narrativa e
temporal das três películas atesta. Sim, o tempo passa, inevitavelmente, e a
vida (pois, este cliché intransponível) abalroa quaisquer pretensões
românticas, metafóricas, alusivas e artísticas. Por mais que a tentemos subverter
e adaptar, os minutos que se acumulam são tão fortes quanto a gravidade. É este
o contrato que assinamos quando nascemos. Se tudo isto parece trágico, não é.
Se tudo isto parece derrotista, também não o é. Se vos pareço realista… não é esse
o ponto. O ponto é que as coisas são como são.
Este terceiro filme é, provavelmente, o menos interessante
dos três mas, ainda assim, forte o suficiente para ombrear com os seus
predecessores (o meu favorito continua a ser o segundo). São duas as palavras
que me ocorrem quando vejo qualquer um da trilogia: tempo e relações.
Tempo, porque passam-se sempre 9 anos entre cada filme. Porque
a sua passagem no decorrer dos filmes é de extraordinária importância. Muitas
vezes acompanhamos os protagonistas em longos diálogos em tempo real, que sublinham
o que de corriqueiro e sublime o lado mais puro da nossa existência pode ter.
Mas, enquanto estes dois aspectos são meramente formais, o tempo manifesta-se também
de uma forma menos óbvia.
Existe um diálogo neste terceiro filme, em que Jesse explica que criou vários
personagens, no seu mais recente romance, que testemunham de diferentes formas a
memória, desde a mulher que se lembra de tudo, ao homem que se esquece de cada pormenor.
A memória é a forma de recordarmos o passado, claro, mas também a forma como estruturamos
o presente e o futuro. Correndo o risco de parecer banal (mas não sendo), faço
a ponte para as relações, especificamente entre homem e mulher, e das diferenças
que estão por detrás de cada um, diferenças essas que nos individualizam
(graças a deus), que nos atraem e que nos repelem. A forma como cada um dos
dois se lembra das coisas, relaciona as memorias, como pensa a passagem do
tempo, acaba por estruturar os pensamentos e sentimentos. O que, aliás, é particularmente
bem retratado na discussão final entre os personagens: quem é que, tendo
namorada, namorado, mulher, marido, amante, nunca passou por uma conversa assim?
Não sabemos o que ocorre a seguir ao escurecer do último
plano. Talvez o realizador e os dois actores escolham regressar para outros
retratos mas, se ficarmos por aqui, estamos mais que satisfeitos. Acompanhei Jesse e Celine mais ou menos com a mesma idade que cada um tem nos filmes
e, portanto, estes acabam por ser um espelho, se não fiel aos eventos, pelo
menos aos sentimentos. E, só por isso (mas não só por isso) foi uma das
melhores trilogias que vi até hoje.
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