O ano de 1992 foi palco de um dos mais mediáticos eventos da história da Banda Desenhada: a morte de uma das suas mais famosas personagens, o Super-Homem. Em Portugal foi capa de jornais como o Público e o número 75 da revista homónima, onde o Homem de Aço dá o último suspiro, foi dos comics mais vendidos de sempre (6 milhões de exemplares). À altura, este evento provocou surpresa e estupefacção, já que a DC Comics tinha decidido pôr termo à vida do super-herói original, aquele que vencia e sobrevivia não importassem as circunstâncias. Claro que todos sabiam que os Deuses da Franquia nunca deixariam morrer uma tão importante máquina de fazer dinheiro, mas este acontecimento, seguido do aparecimento de quatro misteriosos substitutos e da inevitável ressurreição do herói, transportaria revistas relativamente banais para o top de vendas.
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A Ciambra de Jonas Carpignano
O amor da cultura europeia pela tragédia remonta aos tempos de obras como Medeia ou Édipo Rei. Por mais que alguém tente escapar ao seu destino, os deuses conspiram para que caminhemos para ele, quer queiramos, quer não. Estava subjacente que a própria personalidade das personagens as conduzia para esse fim já decidido. Elas eram a sua própria tragédia. Elas não conseguiam escapar ao ambiente, à geografia, à genética, à condição sócio-económica, e eram arrastadas, por elas próprias, pelo percurso que parecia delineado desde a nascença. O fim era óbvio para quem estava atento ao início de cada história.
A Ciambra não é diferente deste quadro.
Ant-Man and the Wasp (Homem-Formiga e a Vespa) de Peyton Reed
Os estúdios cinematográficos da Marvel continuam a afirmar-se, ano após ano e lançamento após lançamento, como a maior força produtiva do Cinema vindo de Hollywood - o que, por definição, a transforma na maior do mundo. O que começou há 10 anos, cresceu ao ponto de transformar-se na bitola segundo a qual todos os aspirantes a Reis de Bilheteira se regem. A sua influência é gigante e omnipresente. Quem diria que um grupo muito pequeno de geeks da BD da década de 60 daria origem a este monstro financeiro que gera receitas raramente vistas? O irónico é que é a imaginação desses geeks ou daqueles que se sentiram inspirados (também) por eles que controlam a indústria cinematográfica dos EUA nesta primeira metade do século XXI. Não se esqueçam do Avatar de James Cameron, ou do Star Wars de George Lucas.
Mission Impossible: Fallout de Christopher McQuarrie
Parece impossível, mas a "saga" da Missão Impossível de Tom Cruise (sim, porque esta é uma franquia dele) começou há 22 anos. É um testemunho da resiliência dele, da nossa e da fórmula cinematográfica que, passadas estas quase duas décadas e meia, continuamos a querer ver numa sala de cinema. Nesse tempo, assistimos ao muito aguardado ascender dos todo-poderosos super-heróis, que passaram de produto da cultura popular de franja para dominadores do Box Office mundial. Assistimos ao que a imagem gerada pelo computador possibilita: espectáculos cada vez mais impossíveis para a física humana e, vamos ser honestos, para a Física tout court. Não deixa de ser irónico que, mesmo com esse epíteto de impossível, Tom Cruise e pandilha façam um filme destes: ultra-divertido e dentro da escala do humano.
Jusqu'à La Garde (Custódia Parilhada) de Xavier Legrand
O título português do primeiro filme de Xavier Legrand é enganador. Ainda que a questão da custódia partilhada seja um dos temos desta obra, está longe de ser o único e nem sequer o mais importante.Verdade que o trailer, que reproduz alguns dos primeiros minutos de Jusqu'à La Garde, reflecte essa questão cada vez mais na ordem do dia, mas este filme é mais complexo e desafiante. Se esta primeira tentativa numa longa-metragem é assim, só podemos estar desejosos dos próximos esforços deste realizador.
First Reformed (No Coração da Escuridão) de Paul Schrader
O que é hoje os EUA? Essa questão ecoa por todos os minutos deste maravilhoso filme do realizador Paul Schrader, também conhecido por ser o escritor das obra-primas da 7.ª Arte que são Taxi Driver e Touro Enraivecido. O silêncio e calmaria que permeia esta obra, esteticamente brilhante, parece ser a capa que disfarça uma tempestade voraz. Uma tormenta que quer consumir o mundo. Uma narrativa contida que esconde conflitos, desejos e ambições que ameaçam a sobrevivência, principalmente a do Homem.
Hikari (Esplendor) de Naomi Kawase
O novo filme de Naomi Kawase, depois de A Pastelaria de Tóquio, volta a envolver os protagonistas num dos sentidos do ser humano, neste caso a visão (A Pastelaria focava-se, obviamente, no paladar).
Han Solo: A Star Wars Story de Ron Howard
A Disney prometeu e entregou. Depois de adquirir um dos universos mais conhecidos de fantasia e de ficção científica, teve a ambição de lançar mais filmes passados numa galáxia muito distante.
Filmes favoritos baseados em BDs (parte 1 de 2)
Podem consultar aqui uma lista de todos os filmes, passados e futuros, baseados em BD. Escusado será dizer que vi apenas uma pequena parcela deles.
300 de Zack Snyder (2006)
Frantz de François Ozon
François Ozon é daqueles realizadores que consegue ser profundamente francês sem perder nenhum do apelo internacional. Os seus filmes são munidos de liberalismo comportamental (Uma Nova Amiga, Jovem e Bela), de sofisticação temática e formal, sem perder a noção de espectáculo e entretenimento. Tem também optado, nos seus últimos esforços, por narrativas onde uma ou mais personagens enveredam por mentiras e engodo (os que já citei e, por exemplo, Dentro de Casa). Não das que tentam enganar pessoas para algum ganho monetário, mas antes na busca de uma verdade pessoal ou de redenção. Este Frantz não é diferente.
No final da 1.ª Guerra Mundial, os pais e mães da Europa choram a morte dos seus filhos no conflito. Numa aldeia da Alemanha, não são só os progenitores, mas também a jovem noiva de Frantz chora e deposita flores no túmulo do noivo. Um dia, nota que um jovem francês da mesma idade sofre junto à campa. Depressa descobre tratar-se do melhor amigo de Frantz, que deslocou-se à Alemanha para dizer um último adeus ao soldado morto. Segue-se momentos cheios de emoção e de confronto. Emoção partilhada por um ente querido e confronto entre dois países que até há pouco antagonizavam-se em lados opostos de uma guerra sangrenta.
Filmado maioritariamente a preto e branco, Ozon vai entre-cortando momentos a cores, cuja saturação controla de acordo com os sentimentos das personagens. Não sendo uma técnica particularmente inovadora ou discreta, o realizador escolhe usá-la de forma parcimoniosa, o que acaba por fornecer alguma candura à narrativa. Também a escolha dos jovens protagonistas contribuiu para esse efeito, principalmente a de Paula Beer, cuja expressividade e controlo foram uma verdadeira revelação. A actriz navega por vários sentimentos, todos eles pesados para a idade, e que controla de forma aprofundada. Este é também um filme fortemente alicerçado no enredo, com voltas e reviravoltas controladas de forma segura pelo realizador e equipa. Nada parece demasiado conturbado e antes parte de uma viagem singular da jovem protagonista. Apesar de ser uma obra cujo nome é o do soldado morto, esse aparece apenas em flashbacks e é a sua morte e a influência da mesma que somos convidados a ver.
Um filme que, através de enganos e mentiras, revela o que queremos na verdade ser.
Um filme que, através de enganos e mentiras, revela o que queremos na verdade ser.
Deadpool 2 de David Leitch
O segundo pode ser sempre o mais difícil. Principalmente depois de um primeiro filme sensação. Deadpool foi uma das surpresas do ano de 2016, maioritariamente para quem não conhecia a personagem. Quem já a lia na BD sabia perfeitamente no que se estava a meter. A Fox estava fora de si quando deixou os autores fazerem o que quisessem num tipo de filme que, até então, era reservado aos jovens adultos e ao entretenimento familiar: o filme de super-heróis. Ou estavam distraídos, desesperados ou as duas coisas, porque o que saiu foi super-divertido, adulto e cheio de piadas para maiores de 18. Em suma, uma lufada de ar fresco. Ryan Reynolds fazia jus à sua pretensão de fazer o Deadpool que sempre quis e que precisava de ser feito (não aquela coisa abominável que apareceu no filme do Wolverine). Deadpool 2 é mais do mesmo, com uma escala maior, mais dinheiro, alguma repetição e muitas surpresas (alguma devastadoras e outras hilariantes).
Obviamente que o que funcionava bem no anterior é repetido neste, o que acaba por desgastar o entretenimento. Contudo, graças ao carisma das personagens e principalmente ao Deadpool de Reynolds, a história segue de forma frenética e divertida, entre momentos de acção e de piadas. O humor é puxado para cima, distribuindo oneliners e zingers a torto e a direito. Ninguém escapa ileso e a DC Comics, a distinta concorrência da Marvel, é alvo de quatro piadas (uma que já conhecem dos trailers e mais umas quantas, todas deliciosas - e eu sou um maior fã da DC que da Marvel). Conseguem-se alguns momentos inusitados que funcionam no contexto da história e do estilo do filme. Um deles envolve a equipa que Deadpool reúne, a X-Force, e que consegue ser um dos mais divertidos.
O enredo é mais sólido e convincente que o do primeiro, com um terceiro acto mais interessante, provando que conseguiram fazer melhor uso do dinheiro disponível. Regressam todos os que participaram na versão anterior: Colossus; a fabulosa Negasonic Teenage Warhead (mas ainda assim, pouco utilizada) Morena Baccarin; etc; e são adicionados novos bonecos como Cable, Domino, Yukio e surpresas que não quero estragar.
Para os fãs da BD, existem easter eggs espalhados amiúde: referências directas a BDs; personagens que já era altura de aparecerem no grande ecrã; uma referência deliciosa ao criador do Deadpool, Cable e Domino, Rob Liefeld; e muito mais. A cena pós-créditos é uma das mais hilariantes de toda a história do cinema de super-heróis (provavelmente a melhor, ainda que seja necessário algum conhecimento para estar dentro da piada).
Contudo, nem tudo são rosas. O efeito novidade desaparece um pouco e, tirando alguns momentos chave, essa sensação de repetição acontece por todo o filme. Cable acaba por ser uni-dimensional, o que é uma pena, isto depois de Josh Brolin nos ter dado um maravilhoso Thanos. A acção, quando apenas isso, é, regra geral, sem virtuosismo, mas quando misturada com o humor de assinatura Deadpool, melhora significativamente. Apesar de tudo isso, é um filme entretido, divertido e que continua a ser uma lufada de ar fresco. Venham a X-Force e um terceiro Deadpool.
Avengers Infinity War (Vingadores: Guerra do Infinito) dos Irmãos Russo
O que começa tem de acabar. O primeiro grande arco de história do universo cinematográfico da Marvel chega ao fim neste Vingadores: Guerra do Infinito. O vilão, que apareceu, pela primeira vez, misterioso, no final do primeiro filme deste grupo de heróis, e depois em mais alguns momentos escolhidos, finalmente é revelado em toda a sua magnífica e terrível presença. Thanos, o titã louco, irá tentar reunir todas as seis jóias do infinito, objectos omnipotentes e omniscientes, e transformar-se em Deus. E, com isso, dizimar metade da vida consciente do universo.
Repararam que não fiz alusão aos personagens titulares? Os Vingadores são, claro, os heróis, mas é Thanos a estrela do filme, é dele a motivação e a tragédia, é ele o motor e o objectivo da narrativa. Depois de Loki, depois de Killmonger, a Marvel apresenta um novo vilão digno desse nome. Thanos é multifacetado e tridimensional. Thanos é compelido por uma missão terrível e de racionalidade abjecta. Thanos não é uma colecção de diálogos generalistas de demonstração de poder e sobranceria, mas antes o reflexo de uma personalidade complicada e capaz, até mesmo, de amar. Thanos é um dos melhores antagonistas da cultura pop, transformado em realidade pela magia da 7.ª Arte. Digo-o aqui já: Darth Vader tem um rival na História do Cinema.
Um filme desta envergadura, complexidade e expectativa poderia ter corrido muito mal. O número de personagens é gigantesco, as interacções múltiplas, a luta por atenção feroz e o enredo pesado. Contudo, depois de passarmos 11 anos a conhecer estas versões cinematográficas dos super-heróis da Marvel, estamos mais do que preparados para os absorver sem grandes explicações e com total familiaridade. A editora/produtora dos EUA fez um extraordinário trabalho de construir um universo coerente, de entretenimento e puro abandono. Entramos nesta geografia cósmica com os olhos de quem quer esquecer-se do real e mergulhar na fantasia.
Obviamente que a realização não é de autor, nem pretende ser. O espaço é todo dado ao enredo, à história e às personagens. É através delas que absorvemos a fantasia escabrosa que é o universo dos super-heróis, maior que a vida e de uma escala quase divina. A assinatura do estilo Marvel está em todo o lado e principalmente na picardia entre as diferentes personalidades (egos?), uma das marcas de água da editora, quando foi criada por Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko na década de 60. Estes heróis não têm de, necessariamente, dar-se bem. Existem confrontos de personalidade a cada virar de esquina espacial. E assim é que tem graça.
O divertimento cinematográfico de super-heróis não está morto, bem pelo contrário, muito para o desapontamento de alguns críticos, realizadores e afins.
Um filme desta envergadura, complexidade e expectativa poderia ter corrido muito mal. O número de personagens é gigantesco, as interacções múltiplas, a luta por atenção feroz e o enredo pesado. Contudo, depois de passarmos 11 anos a conhecer estas versões cinematográficas dos super-heróis da Marvel, estamos mais do que preparados para os absorver sem grandes explicações e com total familiaridade. A editora/produtora dos EUA fez um extraordinário trabalho de construir um universo coerente, de entretenimento e puro abandono. Entramos nesta geografia cósmica com os olhos de quem quer esquecer-se do real e mergulhar na fantasia.
Obviamente que a realização não é de autor, nem pretende ser. O espaço é todo dado ao enredo, à história e às personagens. É através delas que absorvemos a fantasia escabrosa que é o universo dos super-heróis, maior que a vida e de uma escala quase divina. A assinatura do estilo Marvel está em todo o lado e principalmente na picardia entre as diferentes personalidades (egos?), uma das marcas de água da editora, quando foi criada por Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko na década de 60. Estes heróis não têm de, necessariamente, dar-se bem. Existem confrontos de personalidade a cada virar de esquina espacial. E assim é que tem graça.
O divertimento cinematográfico de super-heróis não está morto, bem pelo contrário, muito para o desapontamento de alguns críticos, realizadores e afins.
Isle of Dogs (Ilha dos Cães) de Wes Anderson
É revelador quando a assinatura de um realizador é clara, independentemente do formato em que ela é transmitida. Wes Anderson possui uma cadência de diálogos, um mise en scéne, um movimento de câmara, que são únicos nas salas de cinema - não sei se alguém já inventou o termo wesanderseniano, mas se não reclamo-o já. Os seus filmes são clínicos sem perder candura, cheios de humor seco sem perder a seriedade. Não duvide-se que existe calma e estudo em cada plano (mais ainda em filmes de animação), porque Anderson é um realizador metódico, mas também não deixa de haver alegria no processo, na arte de criar algo verdadeiramente novo e seu. Wes é aquilo que os pedantes de Cinema (às vezes - ou sempre - também o sou) chamam de auteur. Este Isle of Dogs é mais uma prova desse facto e a segunda vez que explora filmes de stop-motion, depois do Fantastic Mr. Fox (inédito nas salas de cinema em Portugal).
Neste novo filme, Anderson acrescenta ao seu repertório de manias a cultura e estética japonesas, ao escolher a geografia de 20 anos no futuro das ilhas nipónicas, mas também referências a realizadores de renome como Akira Kurosawa e Hayao Miyazaki ou pintores como Hokusai e Hiroshige, todos referências clássicas e até de senso-comum quando se fala do Japão. Dentro de duas décadas, uma família de linhagem antiga consegue finalmente levar até às últimas consequências o seu ódio dirigido aos cães. Cria uma doença , infecta todos os canídeos com a mesma e exila-os para uma ilha de lixo. Mas Atari, um jovem de 12 anos e protegido do chefe da família-que-odeia-cães, tem como seu melhor amigo o primeiro cão que é exilado para a dita ilha e não resiste em ir salvá-lo. Uma vez lá, junta-se a uma matilha composta apenas de cães-alfa e inicia a sua viagem nesta terra fantástica, mais ou menos como a Irmandade do Anel iniciou a sua pela Terra Média.
A Ilha de Cães é um filme belíssimo, não só do ponto de vista estético (e acreditem que é e muito) mas de execução e história. Assume-se como um produto de precisão digna de engenheiro, com movimentos bruscos e lineares da câmara, cheio de coração e humor, da velocidade típica do realizador, e de arte de fazer Cinema. Filmes destes ensinam futuras gerações a gostar da 7.ª Arte, não só pelo espectáculo, mas também pela curiosidade da descoberta (este filme deverá ser visto várias vezes para absorver todos os pormenores) e pelo fascínio da idiossincrasia. É só pena que possa passar despercebido na mesma semana em que estreia o gorila que é os Vingadores. Espero bem que não.
Manifesto de Julian Rosefeldt
A linguagem é a mais importante invenção humana. Usando a palavra, a humanidade consegue transmitir muito mais do que a sensação de fome, sede ou dor. Consegue questionar os céus e a natureza. Percebe o mundo ao atribuir-lhe nomes. Não será por acaso que, nas religiões dos tempos antigos, um demónio (imaginado ou não) nunca permitia que o "seu verdadeiro nome" fosse conhecido. Caso isso acontecesse, corria o risco de ser aprisionado para sempre.
Palavras são poderosas. Dependendo da intenção, elas prendem o mundo, entendem-no, ou mistificam-no, aumentam o mistério. A Arte sempre foi uma das melhores formas de entender o mundo, provavelmente mais relevante do que a Religião e a Ciência. A Arte é a província do indivíduo. E todos nós somos únicos e indivisíveis. Como era dito no filme O Clube dos Poetas Mortos, e parafraseio, "Engenharia, medicina, essas são profissões honradas e nobres. Mas Poesia, Beleza, Romance, Amor... são por causa deles que permanecemos vivos".
Mesmo a Arte necessita de palavras, para verter uma visão, uma perspectiva, um testemunho que quer passar. A Arte é tão múltipla quanto múltiplos são os indivíduos, mas mesmo ela origina correntes, grupos, movimentos. Estes são destilados em manifestos onde os artistas de uma escola de pensamento discorrem e vomitam todo o seu pensamento, antagónico, evolutivo ou original, sobre a Arte. Os manifestos são arte feita intenção feita palavra.
Este filme deve ter arrastado muitos ao Cinema para verem a Cate Blanchett a encarnar diversas personagens. Sim, ela faz isso, mas as personagens estão ali para falar, declamar ou vociferar um dos doze manifestos escolhidos: está lá o Dadaísmo (o meu momento favorito do filme); o surrealismo; o minimalismo; a arte pop; Cinema; etc. Este não é tanto um filme mas uma colagem de doze momentos díspares, manifestações da individualidade. Se forem com este aviso, divertem-se tanto quanto eu.
Ready Player One de Steven Spielberg
Steven Spielberg, o inventor do blockbuster, regressa a esse estilo de cinema inventado por si mas agora pertencente aos super-heróis e a outras fantasias adolescentes e pré-adultas. Veio testar a sua capacidade de ser ainda capaz de produzir filmes gigantes, máquinas de fazer dinheiro que Hollywood e os seus produtores perseguem sofregamente. Os filmes cresceram tanto em custo e expectativas de bilheteira que é cada vez mais difícil avaliar o que são êxitos e fracassos. É por isso que não é o trabalho de um crítico ou apreciador de avaliar o percurso financeiro de um filme, mas antes de dizer se acha bom ou mau, relevante ou não, se gosta ou não. No que a mim diz respeito, Spielberg está de volta, e logo no estilo de filmes que criaram a sua fama e que inaugurou com Jaws (considerado o primeiro blockbuster, no sentido moderno do termo).
Ready Player One, baseado nos romances de Ernest Cline, é entretenimento puro com pitada de auteur. Não só é um filme super-divertido, como não deixa de ser da assinatura de Spielberg. Nele pairam as manias do realizador: o geek/sonhador que vence tudo e todos, especialmente a figura paternal autoritária, destruidora/aproveitadora dos sonhos infantis; a família (qualquer que ela seja) como o cerne do relacionamento humano; uma América corporativista que aproveita-se do que os outros construíram, apropriando-se, de forma hipócrita e interesseira, dos gostos que nunca partilharam. Estas mensagens são colocadas de forma mais ou menos subtil e mais ou menos óbvia. Contudo, nem o mais pedante dos intelectuais deixará de ser tocado pela ligeireza, candura e honestidade com que Spielberg desmonta uma máquina que ele próprio alimenta (se ler uma crítica do Público, provavelmente mudo de ideias quanto a isto). Também nesse aspecto temos o regresso do melhor Spielberg Versão Entretém desde há muito tempo. O Professor está de regresso e dá uma lição a todos os alunos.
Este filme é, acima de tudo, o sonho molhado de geeks de cultura pop espalhados pelo mundo inteiro (eu sou um deles). É um elogio à cultura que tem sido a base de muito do que melhor (e pior) produziu-se em Cinema (e merchandise, e desenhos animados, etc.) nas últimas décadas. Um elogio feito por um dos maiores e mais importantes geeks do mundo. É um divertimento infantil descobrir e identificar todas as referências, todas as personagens, todos os easter eggs espalhados e que referenciam inúmeros mundos desta cultura - encontrei duas referências à minha Mulher-Maravilha, por exemplo: uma no casaco de uma personagem e outra, bem mais difícil de encontrar, a ver com George Pérez - encontrem-na, se conseguirem.
Escolham uma boa sala de cinema e deliciem-se com este maravilhoso carnaval da cultura pop. Sejam crianças.
Lady Bird de Greta Gerwig
É tradição de uma cinematografia dita independente que certos autores enveredem por narrativas semi-autobiográficas onde o protagonista atinge algum tipo de crescimento emocional (o chamado coming of age movie). É esse o caso deste Lady Bird da estreante (na realização) Greta Gerwig - conhecida como actriz pelos filmes Francis Ha de Noah Baumbach, onde era uma proto-mulher-ao-estilo-do-seu-agora-já-não-ídolo-Woody-Allen, ou Mulheres do Século XX de Mike Mills, em que fazia parte de um agregado familiar quase só de mulheres a criar um jovem rapaz.
Ao inscrever-se nessa tradição, Lady Bird não oferece qualquer tipo de novidade em relação a outras obras. Neste caso, segue o caminho de uma jovem excêntrica com inclinação artística (Saoirse Ronan) e da sua vida na ilha suburbana que é a cidade de Sacramento na Califórnia e, acima de tudo, da relação com a sua mãe, protagonizada pela excelente Laurie Metcalf (que conhecem como a também mãe de Sheldon do The Big Bang Theory). Excepto por algumas idiossincrasias narrativas e de personalidade, este filme não envereda por caminhos novos, antes consolida-se em lugares comuns já previamente trilhados. Não existe nesse facto nada de negativo e peço desculpa se o fiz parecer. Baseia-se na força do argumento, que é uma lente virada para a vida da realizadora, e acima de tudo, nas prestações das várias actrizes, que se entregam de forma cativante. São elas as verdadeiras estrelas deste simpático filme e os homens são antes (desta vez e finalmente) meros artifícios narrativos para atingir um fim. Aliás, é neles que (intencionalmente ou não) o filme tem uma das falhas, já que pouco são mais que meros arquétipos masculinos de o namorado-fofo, namorado-cool, pai-ternurento. Por outro lado, não parece-me nada mal, já que o sexo feminino tem sido sistematicamente tratado da mesma forma em (demasiadas) narrativas menos ambiciosas.
Espera-se, ainda assim, por mais ambição numa obra que é candidata a Óscar de melhor filme (e sei que estou numa de contradizer-me, mas se calhar não deveríamos esperar assim tanto). Principalmente, quando filmes como The Florida Project ou Blade Runner 2049 são completamente esquecidos numa categoria onde (e eu não gosto de dizer estas coisas mas aqui vai) mereceriam estar muito mais - e até mesmo vencer, mas aí já são outros quinhentos.
Annihilation (Aniquilação) de Alex Garland
(filme disponível na Netflix)
Alex Garland já tinha entrado pelo mundo da ficção científica com o excelente Ex-Machina (leiam neste link o que falamos sobre ele à altura, um dos nossos favoritos de 2015). Com este Aniquilação, que infelizmente não veremos nas salas de cinema, regressa, mas para um projecto ainda mais ambicioso em alcance narrativo e filosófico. Garland explora o mundo desbravado por grandes como Stanley Kubrick, no seu importantíssimo 2001, não no seu sentido literal, obviamente, mas na forma como aborda a temática da ficção científica e do contacto com vida extra-terrestre. Para além do génio de Kubrick, outros já inverteram para este caminho, como Zemeckis no seu Contacto ou, mais recentemente, Villeneuve no Arrival (este último um dos nossos favoritos de 2016). O realizador consegue neste Aniquilação mais um filme que poderá ficar para os anais da ficção científica, como uma viagem, a principio relativamente linear mas depois surrealista, e como um elogio às potencialidades deste tipo de narrativa, que continua a dar provas da sua perenidade pela força das histórias.
Um fenómeno extra-terrestre desconhecido alterou a geografia do mundo. Uma bolha, a que chamam Fulgor, surgiu do nada e insiste em expandir-se. Várias equipas, militares essencialmente, tentaram entrar no Fulgor, para nunca mais regressar. Um desses militares é o marido da personagem de Natalie Portman, Lena, bióloga, que insiste em fazer parte de uma outra equipa, só de mulheres e a maior parte delas cientista, para explorar a bolha. Nessa bolha (pequeno spoiler) o mapa genético de plantas e seres vivos aparenta estar num processo de mutação que implica a ligação entre espécies que nunca deveriam poder juntar-se. É impossível fazer mais qualquer tipo de exploração da narrativa de Aniquilação sem estragar parte do enredo ou sem vos dar uma interpretação do que penso ser a temática do mesmo. Por isso fico-me por aqui.
Aniquilação, à semelhança dos seus progenitores narrativos como o 2001, é um mistério. Garland soma pormenores aparentemente desconexos e permite ao telespectador a procura das respostas nas pistas que apresenta. Nada é claro no caminho explorado pelas protagonistas no interior do Fulgor. Entre momentos de rara beleza e de inacreditável terror (desafio-vos a não ficarem perturbados com o urso), o realizador explora temas como a evolução, o amor e a religião. Este último poderá parecer mais rebuscado, isto depois de verem o filme, mas entendam esta minha alusão no sentido da busca de resposta a algumas das mais importantes perguntas que nos assolam e na nossa relação com o universo à nossa volta (seja ele animal, floral ou mesmo mineral). Uma relação que quer-se mais íntima, menos isolada nos limites do nosso corpo, veículo privilegiado de contacto com o que está fora de nós. O final do filme assume-se como um outro gigantesco ponto de interrogação. Não tanto pelo que os extra-terrestres nos quiseram oferecer mas mais pelo que nós nos propusemos aceitar. Se calhar por causa disso, não será por acaso que as mulheres são as protagonistas deste soberbo filme. Elas que são o sexo original, aquele que a natureza assume por defeito. Elas que originam toda a vida.
Aniquilação é um dos grandes filmes do ano e que não vamos ver nas salas de cinema mas apenas na Netflix, o que é uma gigantesca pena. É uma narrativa desconcertante, surrealista e cativante. O 2001 de Kubrick gerou um filho. Será que a trilogia vai continuar?
The Florida Project de Sean Baker
Existem mundos que aguardam nos subúrbios dos outros. Pessoas que acumulam-se nas fronteiras dos locais bonitos. Que observam de longe os sítios mais visitados. Vivem na espera. Vivem na esperança de um futuro melhor. As crianças preferem não esperar um futuro melhor, porque o presente é produto da imaginação, das brincadeiras que criam nos dias de verões preguiçosos. Sem destino, vivem mais felizes. Mas a tragédia que são os seus tutores, arrasta-as, sem querer, para longe da felicidade.
Sean Baker regressa às cores garridas das ruas escondidas, das traseiras dos edifícios. Regressa aos desalinhados, aos esquecidos, aos que vivem longe da normalização. São mundos a que acedemos apenas por engano ou que vemos apenas de cima, de um alto voo com destino para outras paragens. Somos turistas que não devem ser incomodados. Eles são os que ali vivem e são forçados a ver a utopia de longe. Forçados a observarem e a serem esquecidos. Os que veem de fora, os visitantes, os tais turistas, são mais importantes que os que ali vivem. Esses são incómodos na imagem colorida de uma fantasia infantil.
Enquanto isso, os esquecidos lutam com o que podem. No desespero do último recurso, quando nenhum caminho lhes é oferecido, voltam-se para a venda do próprio corpo (faz-me lembrar o filme São Jorge de Marco Martins). Os que vivem no mundo ideal observam-nos como abutres, prontos a aproveitarem-se do desespero ou da inocência.
Este são os EUA que não aparecem nos filmes coloridos e explosivos. Este é um filme sobre os escombros do crescimento económico. Dos esquecidos desse crescimento. Visto através dos olhos e brincadeiras de crianças, observadas até à exaustão pela câmara de Sean Baker. Ele entra pela vida adentro desses pequenos e procura não esquecê-los. É impossível esquecê-los.
Um filme brilhante e que brilha. Nessa luminosidade existem todas as sombras do mundo. É um filme sobre o subúrbio da fantasia e, por isso, extraordinariamente real.
Visages, Villages (Olhares, Lugares) de Agnés Varda e JR
Agnès Varda já deveria dispensar apresentações. Realizadora e documentalista francesa de 88 anos, exerce há mais de 60, e é contemporânea (e amiga) de nomes tão importantes para a arte de fazer cinema como o são Jean-Luc Godard. O seu olhar vem de uma escola que não se ensina, e mesmo agora que a visão começa a falhar (a física) o seu ponto de vista é mais válido, único e acutilante que 99% dos realizadores em exercício, (todos) mais novos que ela. E o extraordinário Olhares, Lugares é prova disso. Contudo, não pensem que esta senhora deixa-se afundar pelo peso dos anos e pela sobranceria da experiência. Antes pelo contrário. Agnès faz-se acompanhar de JR, jovem fotógrafo e artista plástico, pelas aldeias, paredes e rostos de uma França pouco visitada.
Este filme-documentário acompanha a viagem dos dois artistas, enquanto exploram as vidas de uma multitude de pessoas e experiências na França rural. Um filme humano, sobre pessoas primeiro - sempre pessoas primeiro. Profundamente social e com engajamento como muitos poucos, escolhe a calma e pacífica observação do relato das vidas dos muitos rostos que encontram no percurso. Uma carrinha com uma enorme câmara e impressora percorre as veias do campo francês, encontra comunidades, fotografa-as e expõe as gigantescas impressões a preto e branco em prédios, armazéns, habitações, praias, como testemunho, claro, mas, acima de tudo, como força. A força das vidas que devem ser expostas e sublinhadas antes de qualquer outra coisa.
Um dos momentos mais fortes ocorre logo no início, quando uma senhora resiste a viver numa rua em que ela é a única habitante. Como contrapeso, quase no final, a impressão colada a uma estrutura abandonada numa praia expõe a brevidade a que estamos sujeitos aos olhos da força do mar. A própria Agnès chora em frente à câmara, expondo a sua humanidade, quando visita um amigo de longa data.
Gosto de pensar no artista como o anti-estatístico, o anti-gestor. A ele as médias não interessam. Na força e dilúvio dos números perdem-se os olhares e os rostos únicos que todos queremos ser. Todos. Sem excepção. Este essencial e obrigatório Olhares, Lugares é um testemunho de todos esses rostos. Que existem e devem ser (sempre) mais perenes que as habitações e os museus. O homem é a única obra de arte da Humanidade que interessa. E este filme relembra-nos isso.
Basicamente e sem esforço um dos melhores filmes de 2018.
Black Panther de Ryan Coogler
(sem spoilers)
O novo filme do universo cinematográfico da Marvel é algo diferente. Não falo do facto de se passar longe das ruas de Nova Iorque ou mesmo do continente americano. Falo de um filme que parece mais preocupado em ser cinema e menos parte de uma oleada máquina que existe desde 2008. Faz parte do Universo da Marvel, mas não é necessário saber nada para seguir a história, divertir-se e gostar deste Black Panther. Falo de um filme que corrige algumas das falhas que têm sido apontadas a estas máquinas fazedoras de dinheiro. Mas estou a adiantar-me.
A história segue de perto a mitologia criada nas páginas da BD. Por um lado, temos a mais avançada nação do mundo em termos tecnológicos que é a Wakanda criada por Stan Lee e Jack Kirby na revista do Quarteto Fantástico. Por outro, temos o vilão, Killmonger, pensado pela mente de Don McGregor numa sequência de histórias criadas por este escritor na década de 70 - e que são consideradas a primeira (e informal) novela gráfica da Marvel (esta história foi compilada recentemente na Epic Collection do Black Panther, que podem encomendar em qualquer loja física ou online que venda BD). Finalmente, temos a politização e engajamento social do trabalho de outro escritor, Christopher Priest, também ele criador das Dora Milage (já falo delas) e dos Lobos Brancos (já escrevi sobre este criador neste link). Portanto, para os fãs desta personagem (que é relativamente desconhecida, mesmo para os mais acérrimos leitores) e de BD, a matéria-prima é respeitada de forma clara. Não quer isto dizer que não existam desvios em relação ao original. Especificamente, o vilão tem matizes mais cinzentos que o puro Mal que representava na BD, o que acaba por funcionar neste filme e transforma o Killmonger de Michael B. Jordan no melhor vilão da Marvel desde o Loki (finalmente).
As mulheres. É discutível se não serão elas as personagens mais interessantes deste filme. A Nakia de Lupita Nyong'o é o impulso motivador de T'Challa, o Pantera Negra, mas não perde com isso um átomo da sua personalidade e força. A mãe, protagonizada pela maravilhosa Angella Basset, não é o papel mais forte, mas prefigura uma presença maternal poderosa. Okoye de Danai Gurira é a melhor guerreira de Wakanda, a líder das Dora Milaje, as soldados desta nação, e talvez a mais mesmerizante personagem de todo o filme. Só não ganha esse título porque ainda existe Letitia Wright no papel de Shuri, irmã do protagonista e a mente mais brilhante e genial deste universo fictício (sim, mais que Tony Stark). Para quem está atento a estas coisas, já a tínhamos visto no último episódio da quarta temporada de Black Mirror, mas aqui ela atinge um outro nível de encanto. Letitia rouba cada cena em que entra. No filme Thor Ragnarok, a Valquíria de Tessa Thompson era também o melhor do filme, mas nada que se compare a este santíssimo quarteto.
O argumento é outros dos fortes deste filme, quando comparado com esforços anteriores da Marvel. Este é uma história, enredo e personagens com um alcance mais complexo e maduro. A temática da raça e do drama histórico dos africanos é a peça central, abordada de forma convincente dentro dos limites de um filme de entretenimento, que procura agradar o mais possível e desagradar ao menor número de pessoas. Este é o primeiro filme da Marvel que arrisca para além das fronteiras auto-impostas da pura diversão e do escapismo. Só por isso já é um dos melhores (se não mesmo o melhor) deste universo cinematográfico. E, ao contrário de Thor Ragnarok, os argumentistas conseguem um melhor equilíbrio entre drama e humor.
Chadwick Boseman, ainda que outra das forças do filme, é marginalmente eclipsado pelas quatro mulheres e pelo vilão. Por outro lado, o seu T'Challa ainda não é o herói confiante, altamente inteligente e pragmático desenvolvido por Christopher Priest na BD e seguido por outros autores como Jonathan Hickman, Al Ewing, Reginald Hudlin ou Ta-Nehisi Coates. Os efeitos especiais são maravilhosos excepto em algumas cenas, principalmente na climática da batalha final entre os antagonistas, que acaba por ser pouco interessante.
Black Panther é (provavelmente) o melhor filme da Marvel até o momento. Pela força do protagonista, das quatro mulheres que o acompanham, pelo vilão e pela temática mais complexa e madura.
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