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Com que é que o artista trabalha? - Knight of Cups de Terrence Mallick.

Enquanto via este último filme de Terrence Mallick ocorreu-me a seguinte história. 

A um macaco é oferecido uma máquina de escrever. Ao mesmo tempo, é-lhe dado todo o tempo do mundo o que, para efeitos desta história, quer dizer a Eternidade. Das mãos que dedilham aleatoriamente a máquina saem todas as obras de Literatura escritas pela Humanidade. Shakespeare. Melville, Homero. Saramago. Pessoa. Teclando todas as combinações possíveis de letras e palavras durante a Eternidade o macaco acabaria por "esbarrar" no Hamlet, Moby Dick, Odisseia, Todos os Nomes, O Guardador de Rebanhos. Era inevitável.

Terrence Mallick, na minha cabeça, parece fazer o mesmo com os seus filmes. Mas ao mesmo tempo faz algo diferente. Os actores. As paisagens. O pôr do sol. Não são mais que ocorrências aleatórias que ele cola em volta de uma narrativa fugidia. Ele não conta a história, antes procura agarrá-la com imagens. Uma relação entre dois filhos e um pai. Um filho com problemas de compromisso que salta de mulher em mulher como se quisesse ter todas as pérolas do Oceano. 

Os actores que o ajudam parecem estar ali para dar-lhe uma coleção de cromos de temas completamente diferentes uns dos outros e que ele une depois, procurando a fugaz teia da trama. Os diálogos não são importantes (quase não existem). Antes existe a voz de um narrador omnipresente e omnisciente que debita frases desconexas mas que na realidade (na cabeça do Autor) não o são. As imagens seguem-se umas às outras como fotografias, como momentos, unidos pela beleza, unidos pelo olho existencialista de Mallick. 

Isto não é Cinema apenas. É Cinema de Terrence Mallick. E acredito que, para muitos, não seja nada de especial ou interessante (como não o foi para uma senhora que já dormia ao meu lado na sala de cinema). Para mim foi. Eu adorei. 

To the wonder de Terrence Mallick


O que é que aconteceu a Mallick?

To the wonder tem todas as inquietações e caprichos do realizador. Os planos borboleta, em que a câmara voa, trémula, à volta dos atores e da ação, na procura do suspiro, do gesto infinitesimal, do íntimo universal. O sol a espreitar pela folhagem das árvores. A contemplação da beleza e fúria da natureza. Os diálogos a meio caminho entre a oração e o poema. Mas... falta uma enorme coisa.

Mallick é um fotógrafo capaz de reter o que de mais belo o corriqueiro encerra, capaz de, câmara ao colo, grande angular montada (mesmo que abusando), viajar pelos interstícios dos segundos e raptar o momento de sublime estética. Capaz de acomodar quilómetros de película num todo uniforme, mesmo que esse todo seja revelado pelo recorte, pelo pressentido e não pelo explícito. Mas... falta uma enorme coisa.

Falta história, será isso? Nos filmes anteriores, ela existiu e melhor, sem duvida. Não falo de complexidade, falo de algo que eu próprio não consigo explicar mas que falta em To the wonder, como se estivessemos a ouvir uma canção que sabes ser bem estruturada, certa, mas à qual falta liberdade. Algo similar é dito (em italiano) ao principal personagem deste filme, protagonizado por Olga Kurylenko, que precisa libertar-se, sair da solidão onde está. Será que Mallick fala de si mesmo, ele que tantas vezes cinge-se às monótonas paisagens das pradarias norte-americanas? Não sei se será isso... mas que falta uma enorme coisa, falta.

Os atores, que no passado tantas vezes criticaram Mallick por os ignorar, têm neste filme razões para se sentirem esquecidos ainda que apareçam em todas as cenas. Poucas são as palavras que saem das suas bocas, salvo as em voz off. Ben Affleck é quase inexistente. Tanto faz estar ali ele como um outro qualquer (por exemplo, eu podia lá estar que não fazia diferença nenhuma). Javier Bardem tem mais a dizer mas pouco acrescenta. Kurylenko é a omnipresença do filme, bela, luminosa, divertida como um pássaro livre, mas pouco mais é que isso (acho que Mallick disse-lhe várias vezes: “abre os braços e corre à minha frente que eu sigo-te com a câmara). Rachel McAdams dá um ar da sua graça mas desaparece tão depressa quanto surge (mas sempre diz mais umas coisinhas que Affleck).

Tenho uma relação bastante saudável com os filmes de Mallick e não vou desistir dele assim de repente, mas (e os deuses que me perdoem pela blasfémia) neste eu ia quase adormecendo.