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Opinião sobre livros: Os Detectives Selvagens de Roberto Bolaño

(apresento-vos L.P., um amigo que, a partir de hoje, sempre que lhe der na gana, tem aqui, no Acho que Acho, um espaço para as suas deambulações, diatribes e delírios. Bem vindo e vida longa!)

por L.P.

Contém desmancha prazeres – uma tradução livre da palavra spoilers
Este Verão decidi começar uma empreitada literária, e dos calhamaços que tinha lá em casa por ler, a escolha recaiu sobre o meio milhar de páginas d’Os Detectives Selvagens de Roberto Bolaño.


Roberto Bolaño :  2666, O espírito da ficção científica e Os Detectives Selvagens

Ouvi falar de Roberto Bolaño já depois da sua morte, que ocorreu em 2003, quando foi dado grande destaque ao seu romance 2666, que foi publicado, postumamente, no ano seguinte à sua morte e que nunca li, mas que me despertou muita curiosidade tanto pelo título como pelo destaque dado nas livrarias nesses tempos.

O Amuleto de Roberto Bolaño


Enquanto o mundo lá fora afogava-se, fechei-me no cubículo de minha casa onde os livros entornavam-se do chão até ao teto, o barulho ensurdecedor das vagas tremia nas paredes que se rachavam por todas as diagonais e por todos os recortes e, mesmo assim, a casa aguentava-se, como um monólito pré-histórico, um menir.

As ruas da cidade permaneceram submersas durante semanas e, enquanto a pouca comida e a pouca água aguentaram o meu corpo, os livros que retirava, um a um, despacharam as horas dos dias, despejadas para o passado pelas palavras dos que amo e pelas ações daqueles que acharam por bem escrever. Comecei pelo primeiro livro que me deram e percorri cronologicamente (a minha imaginação nunca foi tão boa como a daqueles que admirava) até quando pude, dei graças a cada partícula de pó acumulada nos volumes amontoados e respigados pela minha obsessão. Comecei pelas aves (que começo auspicioso, digo eu, voar com as asas catalogadas) e continuei me entretendo com as já antigas palavras de Homero, de Edith Hamilton, que o seguiu nos mitos e nos heróis e nos deuses, de Tolkien, que me lembro tão bem pelo filme mas, acima de tudo, pelas palavras.

Reli cada teia pendurada nos prédios de Nova Iorque, cada capa vermelha nos céus da cidade imaginada de Metrópolis, cada rua suja da gótica do homem de negro, do deus Byrne que de tantas e tantas páginas preencheu o vazio, do mestre Gaiman que com tantas e tantas palavras preencheu o nada.

No final ainda imaginei como seria bom o mundo literário ter nas suas prateleiras uma outra saga do Sandman escrita pelo Saramago, uma história dos múltiplos universos da DC pelo Pessoa ou 10 anos do Super-Homem escritos por Alan Moore.

O Amuleto de Bolaño é o meu primeiro livro deste autor. Conta a história da mãe de todos os poetas mexicanos, de como viveu fechada numa casa de banho da Faculdade de Filosofia e Letras da Cidade do México em 1968, de como nessa clausura reviveu o passado que aconteceu e o que não aconteceu, de como previu o que ainda iria viver ou do que ainda poderia viver, caso sobrevivesse.