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Personal Shopper de Olivier Assayas


Olivier Assayas, autor francês de filmes como As Nuvens de Sils Maria ou Carlos, deu-nos, no ano passado, para quem visitou o MOTELx, este maravilhoso Personal Shopper

Kristen Stewart protagoniza uma jovem mulher a viver em Paris e que, recentemente, perdeu o seu irmão gémeo. Médium por natureza e, por necessidade, personal shopper para uma conhecida actriz, envolve-se num enredo existencialista e sobrenatural. 

Assayas é um realizador único e este seu novo filme, em que volta a trabalhar com a actriz dos EUA, depois do já referido As Nuvens de Sils Maria, continua a cimentar a sua posição como uma das vozes mais singulares da 7.ª Arte. Um filme enquadrado na temática do MOTELx mas que explora uma vertente mais intima da relação com o sobrenatural, numa perspectiva de procura de conforto face a uma perda irreparável. O realizador explora ainda a relação com a tecnologia, em que os SMS's, video-chamadas e smartphones são omnipresentes, em contraponto com a necessidade de procura de intimidade e de respostas que a protagonista busca por meios que são o oposto da ciência. Como ilustração deste ponto, atentem a uma deliciosa e arriscada sequência de troca de mensagens essencial para o enredo e que revela, em profundidade, o abismo em que se encontra a personagem de Kristen. 

Kristen Stewart prova, sem réstia de dúvidas, a sua qualidade e afasta-se de qualquer tipo de rótulo que possa advir de ter participado na saga Twilight. Sublinha que não existem maus actores, apenas maus realizadores e más histórias. Este é, sem sombras de dúvidas, um dos grandes filmes a estrear este ano. Essencial e necessário.

Clouds of Sils Maria de Olivier Assayas (As Nuvens de Sils Maria)


Existem as pessoas que acreditam em mapas e depois aquelas que não acreditam. Que olham para um mapa, que sabem da sua existência, mas insistem em renegar a sua ciência e em seguir (criar?) o próprio caminho. Por vezes, perdem-se. Outras vezes, não. A vida oferece-nos as ferramentas para criarmos a nossa própria cartografia, para nos orientarmos sem guias e, pode acontecer que, a meio do caminho, retira-nos essa capacidade. A geografia modifica-se e o instinto que nos guiava deixa de funcionar. Como se o norte se deslocasse mais para a esquerda ou mais para a direita. Quando isso acontece, se tivermos força suficiente para nos esquecermos de nós mesmos, do nosso orgulho, teremos de nos deixar guiar por outros ou pelas instruções geográficas de uma metafórica folha de papel desenhada por alguém que não nós mesmos.

O personagem de Juliette Binoche neste lindíssimo novo filme de Olivier Assayas é um personagem que odeia mapas, que não acredita na ciência dos seus desenhos e na metódica exploração empírica destas folhas de papel. Por isso, assumidamente balzaquiana, encontra-se em terrenos em que o seu instinto não funciona, em que o que a tornava especial na sua juventude agora requer outros olhos, outro tempo e outra paciência. Binoche é uma actriz que nunca viu a carreira diminuir de importância mas cujo maior papel teve aos 18 anos, a ponto de se identificar de forma visceral não só com o personagem que representou como com o escritor que o desenhou. Na peça de teatro que inaugurou a sua carreira desempenhava o papel de um de dois personagens femininos envolvidos numa história de poder e sedução que culminava num final ambíguo, mas que Binoche interpreta como trágico. Um jovem e inovador encenador persegue-a até o velório do autor da dita peça para a convidar a fazer o outro papel, o da mulher de 40 anos envolvida numa profunda crise de identidade. Aceita, relutante, impelida pelos conselhos da jovem assistente pessoal (interpretada por uma muito interessante Kristen Stewart) que considera o encenador arrojado e moderno, assim como a jovem actriz com que Binoche contracenará (Chloë Grace Moretz, maravilhosa no seu personagem acidente de carro).

Existe um profundo paralelismo entre a peça de teatro e a vida de Binoche, bem como entre a relação com a jovem assistente, com quem não só constrói uma relação que se desenha mais do que apenas de amizade, como com quem tem acesas discussões filosóficas acerca da intenção e interpretação da peça. Estas discussões, de forma muito interessante, estendem-se a uma análise do valor do Cinema nos dias de hoje, do valor de certas narrativas mais “modernas” e “populares”, quando comparadas com, por exemplo, outras mais “antigas” e “eruditas”. A posição de Assayas parece-me óbvia, aquela que qualquer artista de seu nome pode ter e que Oscar Wilde bem explicou no prefácio d’O retrato de Dorian Grey: “There is no such thing as a moral or an immoral book. Books are well written, or badly written. That is all.” Mas, claro, cada um terá a sua interpretação.


Um filme brilhante sobre arte e mulheres. Que bom quando o Cinema ainda é capaz destas coisas.