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Panini Portugal - Homem-Aranha Superior # 1

Quando nos EUA, há cerca de um ano e meio, foi revelado o nome de uma nova revista mensal para o Homem-Aranha, o mistério adensou-se e preocupou os vários fãs do já cinquentenário super-herói. Acontece que os fiéis seguidores do aracnídeo têm algumas razões para se preocuparem. Ao longo dos últimas cinco décadas eles têm sido francamente postos à prova. 

O Homem-Aranha é provavelmente o mais famoso personagem da editora Marvel, e com muita razão. Peter Parker, o alter-ego do personagem, não tinha particulares vantagens em ser super-herói, o que, à altura, era uma considerável revolução no modo como se viam estes tipos de conceitos. Ser um "fazedor do bem" trazia consigo não um conjunto de benesses, mas antes dificuldades e tragédias. Peter Parker era um adolescente, órfão de pai e mãe, a viver com uma tia idosa e recorrentemente doente. Além disso, tinha problemas de dinheiro, de namoradas e era mal-tratado pelos colegas de liceu. Portanto, enfrentar o vilão du jour acabava por ser uma benesse para o seu difícil dia-a-dia.

Esta maravilhosa matriz, tão facilmente identificável pelo público alvo desta BD e, veio a revelar-se, pelo mundo inteiro em geral, acabaria por ser a maior vantagem e o maior detrimento do personagem. Mudar, nem que seja um átomo, disrruptava a essência e afastava Peter Parker daquilo que o faz tão famoso no mundo da literatura. Ainda assim, e à revelia de algum bom-senso, a editora mudou várias vezes o personagem, por vezes de tal forma que se viu obrigada a desfazer o que havia feito, tal a reacção extremada de muitos fãs. Peter Parker casou-se e, num acto de Deus (neste caso do Diabo), deixou de ser casado. A sua muito querida Tia May morre e, de repente, afinal não tinha falecido, mas antes sido afastada da vida do sobrinho pelas maquinações de um vilão. No princípio da década de 90, veio a descobrir-se que o Homem-Aranha dos últimos 15 anos era um clone. Mais tarde, após vários anos da infame Saga do Clone, a editora voltou atrás. Isto apenas para mencionar as mais polarizadoras.

Podem perceber o receio dos apreciadores do Aranhiço, quando o seu querido personagem estava no limiar de uma outra (prometia a editora) enorme mudança: a vinda do Homem-Aranha Superior. Nem a competente imaginação do escritor Dan Slott, convicto adorador do personagem e já um provado tecedor de grandes estórias para Peter Parker, sossegou os fãs. Quer antes, quer depois da revelação de quem estava por detrás da máscara.  

Os fãs do nosso Português vão poder apreciar e tirar as suas próprias conclusões  a partir da próxima quarta-feira, dia 19 de Fevereiro. Eu, que acompanho o original, já sei onde isto vai dar e, muito sinceramente, apreciei muito o percurso que Dan Slott desenhou, construindo uma run que, ao contrário do que seria de esperar,  não foi outra Saga do Clone

O casamento é uma chatice - artigo Maxim

Não, isto não é um artigo de revistinha cor-de-rosa. É mesmo sobre a polémica que estourou com o "despedimento" da equipa criativa da Batwoman.

Mas não acreditem em mim, ou melhor, acreditem no "mim" do site da Maxim. Vão ler o artigo aqui.


Marvel vs DC - artigo Maxim

Malta, ora cá está o artigo da semana no site da Maxim. Podem lê-lo aqui.

E não se esqueçam de clicar nas etiquetas deste post e ler mais um pouco do que tenho escrito sobre estas coisinhas de que gosto tanto.



O Amuleto de Roberto Bolaño


Enquanto o mundo lá fora afogava-se, fechei-me no cubículo de minha casa onde os livros entornavam-se do chão até ao teto, o barulho ensurdecedor das vagas tremia nas paredes que se rachavam por todas as diagonais e por todos os recortes e, mesmo assim, a casa aguentava-se, como um monólito pré-histórico, um menir.

As ruas da cidade permaneceram submersas durante semanas e, enquanto a pouca comida e a pouca água aguentaram o meu corpo, os livros que retirava, um a um, despacharam as horas dos dias, despejadas para o passado pelas palavras dos que amo e pelas ações daqueles que acharam por bem escrever. Comecei pelo primeiro livro que me deram e percorri cronologicamente (a minha imaginação nunca foi tão boa como a daqueles que admirava) até quando pude, dei graças a cada partícula de pó acumulada nos volumes amontoados e respigados pela minha obsessão. Comecei pelas aves (que começo auspicioso, digo eu, voar com as asas catalogadas) e continuei me entretendo com as já antigas palavras de Homero, de Edith Hamilton, que o seguiu nos mitos e nos heróis e nos deuses, de Tolkien, que me lembro tão bem pelo filme mas, acima de tudo, pelas palavras.

Reli cada teia pendurada nos prédios de Nova Iorque, cada capa vermelha nos céus da cidade imaginada de Metrópolis, cada rua suja da gótica do homem de negro, do deus Byrne que de tantas e tantas páginas preencheu o vazio, do mestre Gaiman que com tantas e tantas palavras preencheu o nada.

No final ainda imaginei como seria bom o mundo literário ter nas suas prateleiras uma outra saga do Sandman escrita pelo Saramago, uma história dos múltiplos universos da DC pelo Pessoa ou 10 anos do Super-Homem escritos por Alan Moore.

O Amuleto de Bolaño é o meu primeiro livro deste autor. Conta a história da mãe de todos os poetas mexicanos, de como viveu fechada numa casa de banho da Faculdade de Filosofia e Letras da Cidade do México em 1968, de como nessa clausura reviveu o passado que aconteceu e o que não aconteceu, de como previu o que ainda iria viver ou do que ainda poderia viver, caso sobrevivesse. 

O que vou lendo! - Spider-Men e Ultimate Comics Spider-Man vol.3 de Brian Michael Bendis (escritor) e Sara Pichelli e David Marquez (desenhistas)


No início deste século XXI a Marvel (para quem não sabe a maior editora de BD dos EUA), esteve a recuperar de uma catastrófica década de 90 que tinha culminado na insolvência da mesma. Encontrar todos os caminhos para que os leitores voltassem tornou-se urgente e, tal como em todos os momentos de desespero, as ideias começaram a brotar das fontes mais insuspeitas. Uma delas resultou numa nova linha de super-heróis chamada Ultimate Universe. A premissa era que conhecidos personagens da Marvel, Homem-Aranha, Vingadores, X-Men, Quarteto Fantástico, iniciavam a sua carreira apenas neste princípio do século XXI sem, portanto, todo o peso de História que os do seu universo congénere possuíam.

Passados já 13 anos depois desta criação, estes personagens não só ganharam um pouco mais de histórias como os respectivos caminhos divergiram fortemente dos equivalentes no universo regular da Marvel. Uma das maiores modificações (spoiler alert para quem quiser ter o prazer de ler as histórias deste universo Ultimate) foi que Peter Parker, o muito conhecido Homem-Aranha, faleceu em batalha, tendo sido substituído por Miles Morales, um muito jovem descendente de Afro-Americanos e Latino-Americanos.

Brian Michael Bendis foi o único escritor de Ultimate Homem-Aranha nos seus 13 anos de vida e também um dos responsáveis pela morte de Peter Parker e pelo aparecimento de Miles Morales. Os dois volumes de que aqui falamos são os mais recentes contributos do autor para a mitologia do novo Homem-Aranha. Enquanto Bendis se encarrega das palavras, no lado dos desenhos temos a italiana Sara Pichelli (co-criadora de Miles Morales) em Spider-Men e David Marquez em Ultimate Comics Spider-Man vol. 3.

O primeiro (Spider-Men) representa um marco importante nestas coisas da BD: relata o primeiro encontro entre o Homem-Aranha do universo original (aquele que existe desde a década de 60) e Miles Morales. Ainda que a história possua momentos emocionais particularmente tocantes, principalmente para aqueles que acompanham o Homem-Aranha quase desde o seu início, sofre de um problema de excesso de descompressão, uma técnica narrativa adorada por Bendis e que consiste em esticar ao máximo todos os momentos da narrativa. Segundos transformam-se em várias páginas de história. Ainda que seja um modo de contar que eu aprecie até bastante e que Bendis tem explorado eficazmente ao longo destes anos, aqui achei particularmente exagerado. As 116 páginas que compõe o volume vão-se num ápice. Apesar disso, temos uma história de ressonância emocional forte, onde presenciamos o encontro entre dois fortíssimos e carismáticos personagens, que Bendis, com a sua incrível capacidade para escrever diálogos, explora muito bem. Existem momentos particularmente recompensadores e não são aqueles das obrigatórias batalhas contra os super-vilões. Como é apanágio deste autor são os mais pessoais os que emprestam a gravidade necessária à história.

Ultimate Comics Spider-Man é o melhor destes dois volumes. Por um lado completa a primeira grande história de Miles Morales em que tem que se confrontar com o seu tio, num típico problema de todos os que envergam o nome Homem-Aranha, o eterno conflito entre  dever e os laços familiares e de amizade. Por outro, envolve-se num conflito nacional que envolve os Vingadores deste universo Ultimate, enquanto estes tentam salvar a América de um grupo terrorista composto por cidadãos cessionários da união dos Estados Unidos. Ainda que a início entrasse nesta segunda história com receio de a não conseguir acompanhar (já que o relato principal ocorre numa revista que não leio), depressa esses medos esvaíram-se. Bendis consegue nos fornecer toda a informação necessária acerca deste conflito para que acompanhemos sem soluços a pequena odisseia de Morales  pelo palco de guerra. E temos o prazer de ver o amadurecimento de um personagem robusto, bem estruturado, rico e emocionalmente tocante. Miles Morales é um digno herdeiro do nome Homem-Aranha. O escritor consegue transformar uma história que não é sua num novo passo na evolução do personagem, tudo complementado pelos desenhos do excelente David Marquez, cuja amplitude no retrato de emoções e momentos pessoais o tornam na escolha certa para o Ultimate Comics Spider-Man.

Mesmo depois de 13 anos ininterruptos a escrever o Homem-Aranha, Bendis continua com uma inacreditável vitalidade, talvez por neste universo Ultimate poder livremente fazer e desfazer dos seu personagens como bem entende. Ou então porque, pura e simplesmente, é um rapaz com bastante talento.