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The Florida Project de Sean Baker

Existem mundos que aguardam nos subúrbios dos outros. Pessoas que acumulam-se nas fronteiras dos locais bonitos. Que observam de longe os sítios mais visitados. Vivem na espera. Vivem na esperança de um futuro melhor. As crianças preferem não esperar um futuro melhor, porque o presente é produto da imaginação, das brincadeiras que criam nos dias de verões preguiçosos. Sem destino, vivem mais felizes. Mas a tragédia que são os seus tutores, arrasta-as, sem querer, para longe da felicidade.

Sean Baker regressa às cores garridas das ruas escondidas, das traseiras dos edifícios. Regressa aos desalinhados, aos esquecidos, aos que vivem longe da normalização. São mundos a que acedemos apenas por engano ou que vemos apenas de cima, de um alto voo com destino para outras paragens. Somos turistas que não devem ser incomodados. Eles são os que ali vivem e são forçados a ver a utopia de longe. Forçados a observarem e a serem esquecidos. Os que veem de fora, os visitantes, os tais turistas, são mais importantes que os que ali vivem. Esses são incómodos na imagem colorida de uma fantasia infantil.

Enquanto isso, os esquecidos lutam com o que podem. No desespero do último recurso, quando nenhum caminho lhes é oferecido, voltam-se para a venda do próprio corpo (faz-me lembrar o filme São Jorge de Marco Martins). Os que vivem no mundo ideal observam-nos como abutres, prontos a aproveitarem-se do desespero ou da inocência.

Este são os EUA que não aparecem nos filmes coloridos e explosivos. Este é um filme sobre os escombros do crescimento económico. Dos esquecidos desse crescimento. Visto através dos olhos e brincadeiras de crianças, observadas até à exaustão pela câmara de Sean Baker. Ele entra pela vida adentro desses pequenos e procura não esquecê-los. É impossível esquecê-los.

Um filme brilhante e que brilha. Nessa luminosidade existem todas as sombras do mundo. É um filme sobre o subúrbio da fantasia e, por isso, extraordinariamente real.

Visages, Villages (Olhares, Lugares) de Agnés Varda e JR

Agnès Varda já deveria dispensar apresentações. Realizadora e documentalista francesa de 88 anos, exerce há mais de 60, e é contemporânea (e amiga) de nomes tão importantes para a arte de fazer cinema como o são Jean-Luc Godard. O seu olhar vem de uma escola que não se ensina, e mesmo agora que a visão começa a falhar (a física) o seu ponto de vista é mais válido, único e acutilante que 99% dos realizadores em exercício, (todos) mais novos que ela. E o extraordinário Olhares, Lugares é prova disso. Contudo, não pensem que esta senhora deixa-se afundar pelo peso dos anos e pela sobranceria da experiência. Antes pelo contrário. Agnès faz-se acompanhar de JR, jovem fotógrafo e artista plástico, pelas aldeias, paredes e rostos de uma França pouco visitada.

Este filme-documentário acompanha a viagem dos dois artistas, enquanto exploram as vidas de uma multitude de pessoas e experiências na França rural. Um filme humano, sobre pessoas primeiro - sempre pessoas primeiro. Profundamente social e com engajamento como muitos poucos, escolhe a calma e pacífica observação do relato das vidas dos muitos rostos que encontram no percurso. Uma carrinha com uma enorme câmara e impressora percorre as veias do campo francês, encontra comunidades, fotografa-as e expõe as gigantescas impressões a preto e branco em prédios, armazéns, habitações, praias, como testemunho, claro, mas, acima de tudo, como força. A força das vidas que devem ser expostas e sublinhadas antes de qualquer outra coisa. 

Um dos momentos mais fortes ocorre logo no início, quando uma senhora resiste a viver numa rua em que ela é a única habitante. Como contrapeso, quase no final, a impressão colada a uma estrutura abandonada numa praia expõe a brevidade a que estamos sujeitos aos olhos da força do mar. A própria Agnès chora em frente à câmara, expondo a sua humanidade, quando visita um amigo de longa data.

Gosto de pensar no artista como o anti-estatístico, o anti-gestor. A ele as médias não interessam. Na força e dilúvio dos números perdem-se os olhares e os rostos únicos que todos queremos ser. Todos. Sem excepção. Este essencial e obrigatório Olhares, Lugares é um testemunho de todos esses rostos. Que existem e devem ser (sempre) mais perenes que as habitações e os museus. O homem é a única obra de arte da Humanidade que interessa. E este filme relembra-nos isso.

Basicamente e sem esforço um dos melhores filmes de 2018.

Black Panther de Ryan Coogler

(sem spoilers)

O novo filme do universo cinematográfico da Marvel é algo diferente. Não falo do facto de se passar longe das ruas de Nova Iorque ou mesmo do continente americano. Falo de um filme que parece mais preocupado em ser cinema e menos parte de uma oleada máquina que existe desde 2008. Faz parte do Universo da Marvel, mas não é necessário saber nada para seguir a história, divertir-se e gostar deste Black Panther. Falo de um filme que corrige algumas das falhas que têm sido apontadas a estas máquinas fazedoras de dinheiro. Mas estou a adiantar-me.

A história segue de perto a mitologia criada nas páginas da BD. Por um lado, temos a mais avançada nação do mundo em termos tecnológicos que é a Wakanda criada por Stan Lee e Jack Kirby na revista do Quarteto Fantástico. Por outro, temos o vilão, Killmonger, pensado pela mente de Don McGregor numa sequência de histórias criadas por este escritor na década de 70 - e que são consideradas a primeira (e informal) novela gráfica da Marvel (esta história foi compilada recentemente na Epic Collection do Black Panther, que podem encomendar em qualquer loja física ou online que venda BD). Finalmente, temos a politização e engajamento social do trabalho de outro escritor, Christopher Priest, também ele criador das Dora Milage (já falo delas) e dos Lobos Brancos (já escrevi sobre este criador neste link). Portanto, para os fãs desta personagem (que é relativamente desconhecida, mesmo para os mais acérrimos leitores) e de BD, a matéria-prima é respeitada de forma clara. Não quer isto dizer que não existam desvios em relação ao original. Especificamente, o vilão tem matizes mais cinzentos que o puro Mal que representava na BD, o que acaba por funcionar neste filme e transforma o Killmonger de Michael B. Jordan no melhor vilão da Marvel desde o Loki (finalmente).

As mulheres. É discutível se não serão elas as personagens mais interessantes deste filme. A Nakia de Lupita Nyong'o é o impulso motivador de T'Challa, o Pantera Negra, mas não perde com isso um átomo da sua personalidade e força. A mãe, protagonizada pela maravilhosa Angella Basset, não é o papel mais forte, mas prefigura uma presença maternal poderosa. Okoye de Danai Gurira é a melhor guerreira de Wakanda, a líder das Dora Milaje, as soldados desta nação, e talvez a mais mesmerizante personagem de todo o filme.  Só não ganha esse título porque ainda existe Letitia Wright no papel de Shuri, irmã do protagonista e a mente mais brilhante e genial deste universo fictício (sim, mais que Tony Stark). Para quem está atento a estas coisas, já a tínhamos visto no último episódio da quarta temporada de Black Mirror, mas aqui ela atinge um outro nível de encanto. Letitia rouba cada cena em que entra. No filme Thor Ragnarok, a Valquíria de Tessa Thompson era também o melhor do filme, mas nada que se compare a este santíssimo quarteto.

O argumento é outros dos fortes deste filme, quando comparado com esforços anteriores da Marvel. Este é uma história, enredo e personagens com um alcance mais complexo e maduro. A temática da raça e do drama histórico dos africanos é a peça central, abordada de forma convincente dentro dos limites de um filme de entretenimento, que procura agradar o mais possível e desagradar ao menor número de pessoas. Este é o primeiro filme da Marvel que arrisca para além das fronteiras auto-impostas da pura diversão e do escapismo. Só por isso já é um dos melhores (se não mesmo o melhor) deste universo cinematográfico. E, ao contrário de Thor Ragnarok, os argumentistas conseguem um melhor equilíbrio entre drama e humor.

Chadwick Boseman, ainda que outra das forças do filme, é marginalmente eclipsado pelas quatro mulheres e pelo vilão. Por outro lado, o seu T'Challa ainda não é o herói confiante, altamente inteligente e pragmático desenvolvido por Christopher Priest na BD e seguido por outros autores como Jonathan Hickman, Al Ewing, Reginald Hudlin ou Ta-Nehisi Coates. Os efeitos especiais são maravilhosos excepto em algumas cenas, principalmente na climática da batalha final entre os antagonistas, que acaba por ser pouco interessante.

Black Panther é (provavelmente) o melhor filme da Marvel até o momento. Pela força do protagonista, das quatro mulheres que o acompanham, pelo vilão e pela temática mais complexa e madura. 

The Post de Steven Spielberg

No que a mim diz respeito, Steven Spielberg é um dos mais importantes realizadores da História do Cinema mas também dono de uma filmografia desequilibrada. Não falo do ecletismo, da alternância entre filmes de entretenimento pop e outros mais cerebrais. Falo de filmes em que se nota todo um esforço do realizador e outros que (aparentam) ser mais preguiçosos. Por outro lado, os meus favoritos são os três primeiros Indiana Jones, o segundo Jurassic ParkGuerra dos Mundos e Minority Report (A.I., ainda que maravilhoso, é uma parceria entre ele e Stanley Kubrick). Existem outros dos quais reconheço a importância narrativa e histórica mas que ficaram longe desta lista dos meus favoritos: Resgate do Soldado Ryan; Tubarão, Encontros Imediatos; A Lista de Schindler. Nenhum destes filmes é preguiçoso. São marcos que sublinham uma carreira de autor dedicada à 7.ª Arte. Infelizmente, não se pode dizer nada disto em relação a este The Post.

The Post é um filme clara e sofregamente politico. É um filme feito à pressa para os Óscares e para fazer-se notar neste momento da História dos EUA, com a ascensão de um Presidente da República de moralidade ambígua e comportamentos que desafiam a Democracia. A obra segue os trâmites do filme de jornalista, em que um conjunto de pessoas lutam contra as instituições para fazer prevalecer uma verdade. Verdade esta que, no caso de The Post, passa pelo derrube de moralidades falsas do Governo dos EUA. O jornalista, desde muito cedo na história do cinema estado-unidense, funciona como um desafio à imagem de excepcionalismo que este país tem de si mesmo, uma forma de anti-John Wayne. Funcionam, em muitos casos, como forma de mostrar as falhas da Democracia deste país, que se apregoa como "a maior do mundo e da história". Contudo, e ao mesmo tempo, são uma forma do país, catarticamente, analisar-se e autoelogiar estes outros (anti) heróis que fazem funcionar o mesmo sistema que tentam "destruir". No meio desta dança entre patriotismo e anti-patriotismo, a mensagem é sempre agri-doce e não apoteótica. O filme do jornalismo acaba por reconhecer as próprias limitações da profissão, quando confrontada com a complexidade da realidade.

Uma das formas porque falha este The Post passa por não conseguir resistir a uma certa inocência. Spielberg vê necessidade em ver uma vitória clara na missão deste homens e destas mulheres. No Chefe da Redacção de Tom Hanks. Na dona da empresa detentora do jornal Washington Post, protagonizada por Merryl Streep. Nos muitos jornalistas. No whistle blower. Spielberg vê-se obrigado a discursos apoteóticos de vitória contra as instituições governamentais. Essa necessidade é Histórica e patológica mas as audiências não são as mesmas de há uns anos atrás (pelo menos as europeias).  Sabemos o que veio a seguir, sabemos do estado do jornalismo actual, da ingerência do lucro na procura da Verdade incómoda que o Jornalismo deve almejar, sabemos de quem ocupa actualmente a Casa Branca.

Consta que Spielberg despachou este filme entre outras produções para se colar ao momento actual e aos óscares. Isso nota-se. Apesar dos grandes nomes envolvidos, este The Post é um exercício simplista para uma questão complexa. Pedia-se mais do realizador e da história.

The Shape of Water (A Forma da Água) de Guillermo Del Toro

Guillermo del Toro tem tudo para ser um realizador da minha preferência. A sua inclinação para a fantasia gótica deu ao mundo filmes como o Labirinto do Fauno ou a passagem para o cinema de uma das personagens de BD melhor adaptadas à sua sensibilidade, o Hellboy. Ambas as obras revelaram um realizador inventivo e imaginativo, mas também repleto de uma sensibilidade mais - digamos - universal. A sua paleta de cores, os seus décors, os designs de personagens, apesar de maravilhosos, valeriam de pouco se a alma da narrativa não almejasse a algo mais. E estas duas conseguiam esse equilíbrio. 

Posteriormente, o nome do realizador mexicano era envolvido em inúmeros projectos sem concretização, o mais emblemático dos quais sendo a passagem para o grande ecrã de The Hobbit. Por esta e aquela razão não pode prosseguir na equipa de trabalho dessa nova trilogia passada no mundo criado por Tolkien

Os filmes que se seguiram a Hellboy II foram Pacific Rim, uma redundante incursão no mundo dos robôs gigantes que os japoneses já fizeram mais e melhor (vejam o anime Evangelion, por exemplo), e Crimson Peak, um espectáculo visual com uma história pouco desenvolvida. Apesar destas duas falhas, estava com alguma expectativa em relação a este Shape of Water, principalmente por estar associado a vários prémios ou à promessa de vários prémios (sendo um deles os Óscares). Infelizmente, no que a mim diz respeito, as expectativas saíram goradas.

A Forma da Água é a história de amor entre uma mulher muda e uma estranha criatura subaquática que foi capturada por uma organização governamental dos EUA, onde a jovem trabalha como empregada de limpeza. Seguem-se várias peripécias que envolvem um agente vil, a evasão das instalações governamentais e o crescer do amor entre os protagonistas. Se isto  vos parece repetitivo e banal é porque o é. Não existe nada de mau com uma premissa  redundante se a mão do realizador for tão forte que esquecemos-nos da sensação de dejá vu. Aqui não existe. Del Toro é mestre do décor e do design, da beleza do enquadramento e dos cenários, tal como já o disse. E existe isso tudo neste filme. Mas fica-se por aí. A história parece o regurgitar de algo familiar, lembrando não só filmes anteriores do próprio como Hellboy (a criatura subaquática lembra Abe Sapien, até no facto de gostar de comer ovos), como também de outros realizadores como Jean Pierre Jeunet, o de Amelie e Delicatessen (o realizador francês chegou mesmo a acusar Del Toro de o copiar e não é difícil de perceber onde). 

Os actores cumprem as suas funções mas as personagens são lugares comuns. O sempre brilhante Michael Shannon interpreta, infelizmente, uma personagem bidimensional, caricatural e que pouco mais representa que a América Branca, protestante, racista e intolerante da Era Trump. Sally Hawkins vai bem como protagonista mas, no meio deste festival de personagens demasiadamente familiares, destacam-se antes Octavia Spencer e Michael Stuhlbarg (que está, curiosamente, em três dos candidatos a Óscar de Melhor Filme). 

Não é um filme mau, este Shape of Water. Nas mãos de outro realizador esperar-se-ia menos, mas não nas de Del Toro. A sensação é de que já vimos isto em qualquer lado e acho que não estou longe da verdade.

Phantom Thread (A Linha Fantasma) de Paul Thomas Anderson

O Cinema é um animal de muitas caras, como qualquer Arte. Por isso, é sempre complicado falar de qualquer outra coisa que não sejam gostos. Uns preferem entretenimento. Outros Arte pela Arte. Outros algo entre estas duas visões. Por vezes, estamos preparados para acolher uma. Outras vezes a outra. A safra deste ano dos candidatos a Melhor Filme do Ano da mais famosa competição da 7.ª Arte, os Óscares, é uma safra muito interessante e estranhamente "boa" (desculpem o termo mas o que na realidade quero dizer é que gostei). Temos filmes de pendor histórico (A Hora Mais Negra e Dunkirk, que até fazem uma bela parelha). Temos o filme activista (The Post). Temos filmes que dançam entre estas e outras categorias (Get Out, Call Me My Your Name, Shape of Water, Three Billboards Outside Ebbing Missouri, Ladybird). E temos o OVNI, o miúdo que é meio estranho mas desconfias que vai ser alguém grande quando crescer. Temos este maravilhoso Phantom Thread de Paul Thomas Anderson com Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps.

À data que escrevo este artigo ainda falta-me ver Ladybird, mas posso desde já dizer qual o meu filme favorito de entre os concorrentes. É mesmo este Phantom Thread, ainda que não ache que vá vencer qualquer prémio (o meu palpite vai para o também fabuloso Three Billboards Outside Ebbing Missouri). Existem filmes que conseguem ser Cinema Puro, em que a história é importante mas é também no desfilar das imagens, no casamento com a música, com os diálogos, com o décor, com o mise en scéne, etc., é nessa imponderável combinação que temos uma peça de Arte indefinível e única, pessoal. É isso que P.T. Anderson volta a entregar neste filme que é seu, tão seu, mas também suficientemente generoso para deixar os actores entregar personagens que os transformam, eles nas personagens e as personagens neles. Phantom Thread é Cinema sem filtros, é um bailado de imagens que ligam-se entre elas como as linhas que cozem e unem os vestidos da personagem principal. É Cinema de meias palavras e double entendre, de vida e de morte, do que vale a pena sentir e viver. É um épico cujo palco é o de uma casa e de uma loja. O do olhar e do corpo de duas pessoas apaixonadas.

Daniel Day-Lewis entrega uma personagem conturbada, mimada, obcecada, e cujo mundo perfeito e ordeiro é disruptado pela presença de uma mulher, a interpretada por Vicky Krieps. Quase desconhecida, entrega uma prestação que não só rivaliza com o gigante irlandês mas que o chega a superar, tal a força, magnetismo e potência da sua personagem e interpretação - não ser candidata a Óscar de Melhor Actriz é a maior falha deste ano. Nenhum dos intérpretes é menor. Os dois enfrentam-se e complementam-se, como actores e personagens, de forma simbiótica. 

A observá-los está o sempre fabuloso Paul Thomas Anderson que, até o momento, não fez (para mim) um único filme mau ou sequer mediano. Muito à semelhança de The Master e There Will Be Blood, o realizador fala-nos de um homem obsessivo-compulsivo mas genial que é confrontado com a presença de uma outra personagem, confrontacional e antagónica, que perpetuamente questiona a sua existência e objectivos (será que P.T. e Day-Lewis falam sobre si mesmos?). Neste caso, é o Amor encarnado, num dos mais belos elogios a este sentimento que o Cinema já nos deu. Eu sei que estou a exagerar mas este filme enaltece, no que a mim diz respeito, esta Arte. Aplausos de pé!

The Darkest Hour e In The Fade (A Hora Mais Negra e Uma Mulher Não Chora)


O filme de actor. Um lugar-comum na altura em que os Óscares aproximam-se. Prestações tão fortes que condicionam a apreciação de um filme. Tão sublinhadas que podem mesmo eclipsar o trabalho do realizador. É o caso destes dois filmes: A Hora mais Negra de Joe Wright com Gary Oldman no papel de Churchill; Uma Mulher Não Chora de Fatih Akin com Diane Kruger como protagonista. 

São duas obras bastante diferentes. Uma é um drama histórico, de uma época que marcou a História da Humanidade, outro um drama familiar, com uma mulher a perder tudo a que dá importância e a tentar recuperar dessa perda. São, sem dúvida, duas poderosas prestações de ambos os actores, tendo já sido galardoados com vários prémios. A entrega de Oldman é total, alterando-se fisicamente (como a Academia de Hollywood tanto gosta). A sua transformação é de tal forma arrebatadora que o realizador vê-se forçado a ofuscar a presença e deixar toda a força do actor impor-se em cada enquadramento. Da mesma forma, a tragédia da personagem de Kruger e a reacção à mesma não deixam margem para outros intervenientes. Ela controla a narrativa. O olhar da actriz é a força motriz da história.

Como acontece repetidas vezes neste tipo de filmes, a obra fica-se por aí. Um tour de force do actor e pouco mais. São filmes tecnicamente bem executados mas sem chama de inovação e com pouca presença da assinatura do realizador, tirando um ou outro apontamento. Quanto à narrativa, no caso da Hora Mais Negra, é sobejamente conhecida, e este filme funciona como um interessante complemento ao Dunkirk de Christopher Nolan - até poderão vender um pack conjunto para os apreciadores do género e da época. No que diz respeito a Uma Mulher Não Chora, a história é poderosa e socialmente impactante mas desenvolve-se de forma mais ou menos linear e sem rasgos de surpresa. 

Dois filmes interessantes pelo trabalho de ambos os actores mas pouco mais que isso.

Call Me By Your Name (Chama-me pelo Teu Nome) de Luca Guadagnino

No Verão de 1983, um jovem investigador dos EUA desloca-se para o Norte de Itália, para a casa de campo de um professor de Arqueologia de renome. Na família que o recebe vive um jovem de 17 anos, interessado em música, inteligente e dono de uma cultura acima da média. Elio, o adolescente, fala fluentemente as línguas francesa, inglesa, italiana e mesmo um pouco de alemão. Desde o primeiro trocar de olhares que ele e Arnie, o americano, possuem uma atração mútua intensa, uma relação que, contudo, têm de controlar, esconder, mesmo um do outro, com medo das represálias óbvias. Aos poucos, as barreiras pessoais vão esmorecendo sob o peso da paixão e da intensidade física da atração. Uma relação acontece na casa dos pais de Elio, nos arredores bucólicos da aldeia e campo italianos. Este será sempre mais que um amor de Verão. Será um marco nas vidas de ambos, enquanto descobrem a intensidade a que o Amor pode chegar, quando verdadeiro e único.

Verdade. Dificilmente encontrarão uma palavra que melhor descreva este belíssimo mas intenso filme. Quando os dois jovens revelam o amor que nutrem um pelo o outro, quando o levam até às consequências finais, este Call Me By Your Name voa acima da mundanidade e afirma-se como um testamento à intensidade de um amor verdadeiro, único, daqueles que acontecem apenas uma vez na vida. A rendição completa do nosso querer e do nosso ser a outra pessoa, a dor física da separação, a dor física da união, estão presentes em cada enquadramento e em cada cena que os dois partilham. Isto é muito mais que o amor homossexual. É pura e simplesmente Amor. Sem outros rótulos.

O trabalho de todos os envolvidos, desde realizador a actores, passando por director de fotografia, são exemplares e cheios de intenção e emoção. O filme é belo não só pelos cenários, pelo mise en scéne, pela fotografia, mas principalmente pelo coração, pela intensidade e veracidade dos sentimentos. Luca Guadagnino já tinha dado  maravilhoso Eu Sou o Amor, um dos meus filmes favoritos de 2009, e regressa com este fabuloso Call Me By Your Name, já um dos favoritos de 2018. 

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri de Martin McDonagh

O filme Fargo dos Irmãos Coen começava com uma das maiores mentiras da história da 7.ª Arte. Dizia ser baseado numa história verídica. Este Três Cartazes à Beira da Estrada poderia começar da mesma forma - e não porque tem como protagonista a mesma maravilhosa actriz, Frances McDornand. Ainda que o realizador tenha baseado o seu conto em cartazes que viu expostos à beira da estrada enquanto viajava pelos EUA, o enredo deste seu filme sai inteiramente da sua mente narrativa. E que enredo. A força da história carrega um filme que poderia cair facilmente no óbvio. Inflecte sistematicamente por caminhos inesperados, forçando o espectador a questionar-se sobre as intenções das personagens e as suas. Depressa inverte a moralidade do conto, torcendo-o e obrigando o espectador a estar alerta sobre a verdadeira intenção e motivação dos protagonistas.

Mildred Hayes, interpretada por Frances McDormand, é um mulher forjada por um casamento infeliz e pelo assassinato cruel da sua filha adolescente. A polícia local não conseguiu encontrar qualquer pista sobre o assassino e Mildred vê-se na obrigação de alugar os titulares três cartazes à beira da estrada para transmitir uma mensagem clara às forças de segurança e à comunidade local. A morte brutal da sua filha não poderia ser esquecida. Este é um filme, sim, sobre a injustiça de uma morte prematura, mas também sobre a moralidade da vingança, das intenções e verdades de cada um, escondidas muitas vezes deles próprios. É sobre preconceitos, racistas ou homofóbicos ou outros mais subtis, mas não menos destruidores. É impossível a tomada de posição moralmente elevada sobre a história de qualquer uma das personagens. Nenhuma é perfeita, justa e honesta até às últimas consequências de cada uma dessas palavras. Nisso o filme assume-se como uma parábola de vertente realista que entretém e, acima de tudo, questiona.

Como contadores deste maravilhoso conto moral e realista temos um realizador e argumentista que deixa a história respirar e assumir uma identidade completamente individualizada, temos actores no topo da sua arte a fazer mais com silêncios que com milhares de palavras. Todos convergem numa história poderosa e universal. Aqui não existem respostas, apenas questões.

Um filme extraordinário. Um enredo subtil e moralmente ambíguo. Uma Frances McDormand, um Sam Rockwell, um Woody Harrelson, sufocantemente humanos. Obrigatório e já um dos melhores do ano.

Quando Estreia A Ghost Story de David Lowery?

A Ghost Story de David Lowery vem acompanhado de excelentes referências. A minha revista de cinema favorita, a Sight & Sound, consultou 188 críticos internacionais e escolheu este filme como o 11.º melhor de 2017 (vejam a lista completa aqui). Calma! Eu não sou dos que prende-se aos críticos de filmes - eu adoro o Batman V Superman, convenhamos. Por exemplo, o Good Time de Josh e Benny Safdie é um filme interessante mas, para mim, não merece o sétimo lugar (e como é que é possível terem menosprezado o The Handmaiden?). Mas 188 é um número interessante, quase estatisticamente representativo, e a S&S é uma revista que gosto. A minha curiosidade foi acicatada.

David Lowery realizou filmes como o inqualificável Upstream Color, que nunca estreou comercialmente em Portugal) e Pete's Dragon, que nunca vi. Pela amostra poderão perceber tratar-se de um realizador pouco convencional, na narrativa e na escolha ecléctica de modelos de história. O primeiro é uma viagem surrealista na ficção científica. O segundo é entretenimento Disney. Gosto disso. Gosto de realizadores que não se coíbem de dançar entre a arte pela arte e o divertimento pop. A Ghost Story está firmemente no estilo do primeiro mas menos desconexo e fragmentado que Upstream Color. 

O título diz tudo: esta é a história de um fantasma, fantasma esse que veste o "tradicional" lençol branco com dois buracos no lugar dos olhos. Começamos com um casal apaixonado e em início de vida conjugal, protagonizados por Casey Affleck e Rooney Mara. E depois saltamos para a vigília de um fantasma, preso à casa do casal. Vemos o tempo a avançar e somos obrigados a experimentar o silêncio observador do espectro. É um filme reflexivo e filosófico, preocupado em apresentar o mistério e não tanto a descortiná-lo. Parado e lento, a câmara permanece como observadora distante e documental de uma estranha viagem - existe uma cena já "famosa", de quase cinco minutos, de Rooney Mara a comer uma tarte (Manoel de Oliveira ficaria orgulhoso). Parco em palavras, somos obrigados a procurar os hiatos narrativos, a preencher os pensamentos e as falas não ditas. Narrativa exigente para o espectador, não deixa, contudo, de nos prender no enigma tão bem construído pelo realizador.

Filme intrigante e belo, uma surreal viagem pela mortalidade e pela saudade. Para quando a sua estreia? 

Filmes de 2017, os que mais gostei - pódio um

Os critérios que me ajudam a escolher os filmes de um ano são simples: os que gostava de ter na prateleira de minha casa para um dia rever (dos que vi, claro, e faltam ver alguns, portanto isto pode mudar). Dito de outra forma: os que mais gosto. Sem critérios intelectuais (OK, um ou dois, se quero ser totalmente sincero). Muito coração e muita emoção. Parece lamechas mas é assim mesmo. Não sou especialista em Cinema e, portanto, não vou pôr-me a jeito para comparar cromos e conhecimentos.  Se bem que essa de "especialista" em qualquer Arte tem o que se lhe diga (não fui eu quem o disse mas um homem muito melhor que eu, Tolstoy).

Dito isto, dentro dos que gostei mesmo à séria, tive de os dividir em três pódios, ao estilo dos jogos olímpicos.  Um para Bronze, outro para Prata e, claro, Ouro. Hoje vamos ao primeiro, ao de ouro. Cliquem na imagem para ler o que escrevi sobre cada um deles.

Se calhar deveria ir ao Platina. Hoje percebem porquê. Dos quatro filmes abaixo, é quase impossível escolher os que mais aprecio. Os que mais me emocionam. Quase. Não totalmente. Se fosse forçado, mesmo forçado, com ferro a ferver e tortura chinesa, tinha de pender para dois: o absurdamente perfeito e maravilhoso A Criada e, claro, aquele que, finalmente, passou para o grande ecrã a minha personagem favorita de ficção, Diana, a Mulher-Maravilha.

  
 

Filmes de 2017, os que mais gostei - pódio dois

Os critérios que me ajudam a escolher os filmes de um ano são simples: os que gostava de ter na prateleira de minha casa para um dia rever (dos que vi, claro, e faltam ver alguns, portanto isto pode mudar). Dito de outra forma: os que mais gosto. Sem critérios intelectuais (OK, um ou dois, se quero ser totalmente sincero). Muito coração e muita emoção. Parece lamechas mas é assim mesmo. Não sou especialista em Cinema e, portanto, não vou pôr-me a jeito para comparar cromos e conhecimentos.  Se bem que essa de "especialista" em qualquer Arte tem o que se lhe diga (não fui eu quem o disse mas um homem muito melhor que eu, Tolstoy).

Dito isto, dentro dos que gostei mesmo à séria, tive de os dividir em três pódios, ao estilo dos jogos olímpicos.  Um para Bronze, outro para Prata e, claro, Ouro. Se calhar deveria ir ao Platina mas... bem, depois explico.



Hoje vamos ao segundo, ao de prata. Cliquem na imagem para ler o que escrevi sobre cada um deles.

 

Filmes de 2017, os que mais gostei - pódio três

Os critérios que me ajudam a escolher os filmes de um ano são simples: os que gostava de ter na prateleira de minha casa para um dia rever (dos que vi, claro, e faltam ver alguns, portanto isto pode mudar). Dito de outra forma: os que mais gosto. Sem critérios intelectuais (OK, um ou dois, se quero ser totalmente sincero). Muito coração e muita emoção. Parece lamechas mas é assim mesmo. Não sou especialista em Cinema e, portanto, não vou pôr-me a jeito para comparar cromos e conhecimentos.  Se bem que essa de "especialista" em qualquer Arte tem o que se lhe diga (não fui eu quem o disse mas um homem muito melhor que eu, Tolstoy).

Dito isto, dentro dos que gostei mesmo à séria, tive de os dividir em três pódios, ao estilo dos jogos olímpicos.  Um para Bronze, outro para Prata e, claro, Ouro. Se calhar deveria ir ao Platina mas... bem, depois explico.

Hoje vamos ao terceiro, ao de bronze. Cliquem na imagem para ler o que escrevi sobre cada um deles (excepto um, que esqueci-me de escrever. Processem-me! Não sou pago para isto!).

 

  

 

 

  


120 Battements par Minute (120 Batimentos por minuto) de Robin Campillo

Não sei se é de propósito mas o final do ano costuma ter estreias de filmes que acabam nas listas dos melhores do ano por vários "especialistas". É o caso deste 120 Batimentos por Minuto, uma história em tom documental sobre o movimento LGBT em França no início da década de 90, movimento esse especificamente focado na controle da disseminação da epidemia da SIDA. 

Estávamos num momento já avançado da propagação dessa doença e a comunidade civil e política tinha dificuldade em avançar com medidas e comportamentos verdadeiramente mitigantes. Quem sofria literalmente no corpo e na pele as consequências da doença viu-se, então, na necessidade de se organizar em grupos de intervenção que passavam a mensagem de forma veemente e directa, abordando fisicamente (sem violência) os responsáveis pelas políticas, pelos medicamentos, etc. Para isso, informavam-se ao ponto de transformarem-se em especialistas em farmacêutica e biologia, numa tentativa desesperada de se salvarem. Literalmente, tinham a própria vida nas mãos e lutavam contra todos os preconceitos que proliferavam na sociedade civil à época: que este era um problema exclusivo da comunidade LGBT e, portanto, os esforços para a resolução dos problemas era visto como mínimo.

O filme divide-se em dois momentos. O primeiro, filmado e contado de forma semi-documental, aborda este movimento e todas as medidas de intervenção social que usaram para fazer valer a sua perspectiva. O segundo, escolhe um dos casais desse grupo e foca-se na lenta deterioração do corpo de um deles, vitima da doença. Ambos estes "capítulos" são abordados de forma sentida e próxima, a câmara perto dos rostos. Esta tendência de realização foca-se na emoção e na força da intenção dos actores, que fazem todos um excelente trabalho.

Citando o Público "120 Batimentos Por Minuto" foi o filme-sensação da 70.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, onde recebeu o Grande Prémio do Júri. A realização fica a cargo de Robin Campillo ("Les Revenants", "Eastern Boys"), segundo um argumento seu e de Philippe Mangeot, presidente da Act Up francesa nos anos 1990." Act Up é o movimento foco do filme e a história espelha bem o envolvimento próximo de quem produziu este filme. Existe experiência e olhos de quem sofreu de perto. 

Um filme verdadeiramente sentido e pungente sobre a epidemia da SIDA e sobre os esforços da comunidade LGBT para alertar a sociedade civil para este problema.

Kingsman, The Golden Circle de Matthew Vaughn

Querem saber qual o filme baseado em BD mais BD que passou nos cinemas neste ano da graça de 2017? Não precisam de ir mais longe do que este maravilhosamente hedonista Kingsman, the Golden Circle, sequela do também delirante Kingsman: The Secret Service de 2014. Regressam (quase) todos os intervenientes do primeiro, desde realizador a actores, com algumas adições valiosas na pele de Channing Tatum, Halle Berry, Jeff Bridges, Pedro Pascal, Julianne Moore e... Elton John (a fazer dele próprio). Se este último nome não vos convence da loucura que é este novo Kingsman, então não estão preparados para ele.

Tudo é hiperbólico sem deixar de ser ao estilo do primeiro. Cenas de acção que, de tão únicas, ficam para sempre associadas a Kingsman. Câmara "real", a acompanhar os movimentos vertiginosos dos protagonistas como se colada às suas costas. Rodopio, cambalhotas, hiperviolência, sexo, nada aqui é acção destilada e pronta a ser consumida por petizes inocentes. Isto é para adultos com sentido de humor e com cérebro desligado (não estou a ser irónico e é antes um elogio). Existe um lado de não-estamos-a-levar-isto-muito-a-sério-e-estamos-aqui-a-nos-divertir. E isso transpira em cada cena de acção escabrosa, cada enredo descabelado, cada décor tão berrante que poderia ter nascido do cruzamento entre BD de Jack Kirby e o 007. Delirantemente pop e muito, mas mesmo muito, divertido. 

Não pensem daqui tirar grandes lições de vida ou reflexões profundas sobre a razão de ser da Humanidade. A entrega do realizador é toda para um entretenimento sem desculpas, delirante, divertido e, digo-o uma vez mais porque é mesmo preciso reforçá-lo, adulto. Os adolescentes vão gostar mas isto não é para vender bonecos à lá Disney. Não se lava a mensagem nem o enredo com Omo Mais Branco para incluir o maior número de pessoas sensíveis a tudo e mais alguma coisa. Há ofensa. Há politicamente incorrecto. Há diversão (para quem gosta destas coisas).

Sim, é o filme de BD mais BD do ano. E graças a Deus por isso. Parabéns a Matthew Vaughn.

Star Wars VIII, The Last Jedi de Rian Johnson

(aqui há spoilers)

Como escrever sobre algo que se gosta desde o ínicio da década de 80? Desde que se sabe que o favorito é o consensual episódio V e o muito menos consensual III? Sabe-se que existem fãs e fanáticos mais acirrados, que devoram todos os pormenores da mitologia (como os compreendo, sou assim com outras). Que devotam vida, secundam moral e ética. Que constroem imaginações alicerçadas em mundos imaginários de ficção científica. Como escrever sobre este novo episódio VIII, Os Últimos Jedi? Apenas de uma maneira: com verdade.

Rian Johnson foi ambicioso com este novo filme da eterna saga de Star Wars. Desviou-se do caminho já várias vezes trilhado, sem esquecer os toques de nostalgia que sublinhavam o anterior de J.J. Abrams. O realizador/escritor escolheu rechear o enredo e as personagens de metáforas que aludem à passagem de testemunho e ao abandono de alguns paradigmas da saga da família Skywalker. É exactamente com este "abandono" dessa importante família que Johnson sublinha qual a sua intenção e o seu legado para o universo criado por George Lucas. Este oitavo episódio é sobre, entre algumas outras coisas, a democratização da omnipresente Força. É sobre como qualquer ser pode descobrir os seus segredos e transformar-se num guerreiro Jedi. Essa intenção é sublinhada na protagonista Rey, não só pelo facto de descobrirmos que os seus pais não são "ninguém em especial" (leia-se, não são de linhagem nobre, não são parte do clã Skywalker - que também já não eram só nobres - vejam o episódio I) mas também no episódio surreal-soft da jovem numa gruta. Ao tentar descobrir quem são os seus pais, a sua própria imagem é reflectida, numa alusão que mais tarde ficará clara - ela não precisa de ninguém, de sangue ou de mestre para tornar-se numa Jedi e prosseguir esse legado.  Esta mensagem de inclusão, se não era clara por altura da revelação, é martelada de maneira pouco subtil na cena final, quando vimos uns jovens escravos a usarem os poderes telecinéticos dos Jedi.

Este episódio tem ainda outras mensagens poderosas e bastante actuais, como seja o elogio ao Vegetarianismo e Veganismo em alguns momentos curiosos. Chewie é "forçado" a não comer um pássaro já cozinhado quando os congéneres da vítima ainda vivos o confrontam com olhares "fofinhos". Luke ordenha umas "vacas" extra-terrestres numa plácida e bucólica paisagem mas sem disruptar a vida das mesmas (não estão domesticadas nem vivem em quintas). Quem salva a Resistência são umas raposas-diamante - elas são as únicas que sabem a saída de uma gruta que nem a tecnologia avançada consegue descobrir. 

Também existe uma mensagem anti-bélica na figura da personagem de Benicio Del Toro e na cidade-casino povoada por hiper-ricos que vivem em condições paradisíacas. Ou melhor, uma mensagem sobre quem lucra com a guerra e sobre quem contribuiu para que lucrem com a guerra. Sim, são os dois lados dela, quer os maus, quer os bons.

Existe um esforço para incluir mensagens profundas, esforço esse que é feito de forma mais ou menos interessante. Ao mesmo tempo, Rian avança a mitologia dos Jedi, da Força e da Star Wars, preparando-a e a nós para um futuro sem as rixas e contendas da linhagem Skywalker, manchada que está com tantos dos seus membros a sucumbir ao lado negro da Força. Essa conspurcação está bem patente na mais interessante das personagens desta nova trilogia: Kylo Ren, filho de Han Solo e Leia Organa. Adam Driver entrega-nos uma personagem trágica, marcada por traição, pela sede de poder, uma verdadeira força Shakespereana com os dias contados, porque o futuro da Guerra é outro. Adeus à tragédia filial. Venha a aventura inclusiva. 

Contudo, no meio de tanta renovação existe algo que falha. A história é gorda demais. Batalhas a mais. Pirotecnia a mais. Algo a mais para o que parece muito de intenção mas que falha na execução. Como se se ficasse apenas no esboço - o que é estranho sendo que o filme tem duas horas e meia (que, confesso com amargo de coração, já me estavam a cansar). Também posso falar da frenética construção de merchadising, de bonecos para vender, de personagens que têm um aspecto lindo ou fofo ou as duas coisas ao mesmo tempo mas cujo tempo em cena é nulo ou, havendo, é ténue, sem corpo, sem alma, sem diálogos, sem personalidade a não ser a do lugar comum (Phasma, por exemplo, Snoke, outro). Snoke morre sem ser pouco mais (por enquanto?) que um rol de frases feitas em filmes anteriores da saga. Admito que há que focar principalmente em Kylo Ren e, portanto, Snoke é apenas uma forma de percorrer esse caminho mas, ainda assim, não poderiam ultrapassar a tragédia de os vilões serem uni-dimensionais? Mas posso perfeitamente desculpar a construção de brinquedos porque desde cedo que esta saga também se assume como tal, mas sem um alicerce de história robusto, qualquer metáfora ou venda de produtos cai por terra (ou deveria, porque cheira-me que neste filme nada vai cair e tudo ir-se-á vender que nem pãezinhos quentes).

Adoro entretenimento. Adoro filmes pipoca. Adoro Star Wars. Sou fã mas não fanático. Outros há que amam muito mais que eu. Haverá os que se sentiram tocados por este episódio VIII. Força para eles. Eu, infelizmente, não. E gostava de fazer parte desse lado. 

Lucky de John Carroll Lynch

Será que existe uma idade certa para começar a pensar na morte, na mortalidade? Será que existe uma idade certa para começar a  temer a escuridão final, a incerteza do que se passa depois de fechar definitivamente os olhos? Será que existe um momento certo para a sabedoria que vem com a clareza da proximidade da morte?

Lucky de John Carroll Lynch, com Harry Dean Stanton num papel gigantesco, é um filme soberbo, uma peça de arte realista e poética. É algo que apenas o cinema pode ser. É um tratado de silêncios, de humor, de vida e de morte. É a história de um homem no fim dos seus dias, não porque tenha qualquer tipo de trágica doença terminal mas porque o corpo está a chegar ao fim do funcionamento, como uma máquina que já preencheu todos os dias da vida útil. É a crueza da natureza que "apenas" nos dá mais ou menos 80 anos para sermos qualquer coisa - feliz de preferência. Este homem vive numa comunidade rural dos EUA, circunscrevendo a vida a rotinas diárias de que gosta, sem ter perdido a curiosidade para a aprendizagem. Esta não é a história trágica de um velho solitário que encontra redenção nos últimos anos da vida. Antes é de alguém que viveu a vida sem sobressaltos e, aparentemente, sem arrependimentos. Mas, ainda assim, não quer deixar o mundo e sente saudades dele e do que um corpo jovem lhe permitia fazer.

O realizador escolhe uma abordagem quase europeia, cheia de silêncios que permitem ao espectador a absorção serena dos momentos. O código genético não deixa, felizmente, de ser americano e a história é contada de forma calma mas decidida, deixando-nos respirar e, principalmente, à obra. O também actor John Carroll Lynch parece ter aprendido algo dos melhores (David Lynch é actor neste filme) e consegue oferecer-nos uma realização discreta mas poderosa.

Lucky é, no que a mim diz respeito, um dos melhores filmes a estrear nas salas portuguesas em 2017. Verdadeiramente obrigatório!

The Square (O Quadrado) de Ruben Östlund

Ruben Östlund já tinha surpreendido com o maravilhoso Force Majeure, um filme sobre comportamentos primais em situações de perigo.  Três anos depois, volta a fazer o mesmo com este O Quadrado, parte do que poderia ser um díptico sobre a moralidade dos comportamentos humanos. Sobre a imagem que projectamos em condições civilizadas e aquilo que realmente somos quando confrontados com situações, extremas ou não, do nosso dia-a-dia. É também uma critica não muito subtil ao mundo da arte contemporânea, aos que vivem dela e aos que a produzem. Na junção orgânica destes dois mundos, somos forçados a entrar neste filme-instalação-de-arte, onde temos de nos questionar se seríamos ou faríamos diferente das personagens que nos aparecem no grande ecrã. 

O Quadrado é a história de um homem, curador de um dos mais importantes museus de Estocolmo, divorciado e pai de duas raparigas, que vive numa confortável qualidade de vida e possui comportamentos sustentáveis - tem um Tesla. O seu museu irá apresentar uma instalação de arte baseada num Quadrado delineado no chão. Dentro desse quadrado, a artista propõe o seguinte: naquele espaço não existem fronteiras nem diferenças entre seres humanos, e todos os que necessitaram de alguém ou de algo podem pedi-lo a outro e esse outro terá de satisfazer o pedido. Este poderoso pressuposto será alvo de uma campanha de marketing para a qual o museu contrata uma equipe de jovens publicitários, versados neste mundo moderno da net e da atenção fugaz.

Östlund equilibra de forma brilhante o enredo e a mensagem através de casos inusitados que, muitas das vezes, pendem para o hilariante. O realizador socorre-se do humor para sublinhar as diferentes situações, quer sejam desconfortáveis ou não. Por vezes, estica esse desconforto até ao ponto em que a vontade de rir desaparece e dá lugar a uma sensação de vergonha existencial - principalmente no maravilhoso jantar de inauguração da exposição. Sem qualquer tipo de artifícios de câmara ou de efeitos especiais, recorrendo apenas ao simples enquadramento, mise en scéne e edição, o realizador é veemente na apresentação de um conto moral, cheios de conotações que podem mesmo parecer pretensiosas. Os actores vertem para o ecrã toda a intenção da história, destacando-se o trabalho do protagonista, Claes Bang, mas também o aparecimento de dois actores mais conhecidos do público em geral (ou, se calhar, nem tanto), Elisabeth Moss (dos Mad Men e Handmaid's Tale) e Dominic West (do The Wire e 300).

Não tenham dúvidas de que estamos a falar de um dos grandes filmes do ano. Um conto moral cheio de humor e desconforto, como provavelmente todos os contos morais devem ser. Deve ser por isso (também) que venceu a Palma D'Ouro de Cannes em 2017.

Justice League de Zack Snyder (Liga da Justiça)

A que é que nos leva a paixão? 

Esperem!... Acho que já leram esta pergunta algures neste blog de cada vez que se começa a falar de algo sobre o qual será difícil ser objectivo. Ou, pelo menos, o objectivo que se deveria ser quando escreve-se sobre uma peça de arte ou de entretenimento. Nestas coisas da "crítica" todos temos um ponto de vista. O meu é de alguém que ama Banda Desenhada, lê-a há quase 40 anos, sempre foi apaixonado pela mitologia dos super-heróis e, principalmente, é alguém que adora a editora DC Comics. A Mulher-Maravilha é a minha personagem favorita de qualquer arte e a Liga da Justiça é uma das equipas destes personagens de ficção que mais me entusiasma. Portanto, seguem daqui para a frente por vossa conta e risco.

Dizer que os fãs esperavam há décadas por um filme deste grupo é usar a figura do eufemismo de forma eufemística. Se os filmes da Marvel foram um marco importante na passagem da BD à 7.ª Arte, para os que gostam da DC e do universo desta editora este é o Santa Graal (para mim foi antes o filme da Diana, mas adiante). Falamos dos maiores ícones da 9.ª Arte dos EUA. Falamos da reunião do Super-Homem (não pode ser considerado spoiler dizer que ele volta à vida), da Mulher-Maravilha, do Batman, do Flash, do Aquaman - e ainda do Cyborg (vamos ser claros, nada tenho contra a personagem mas não tem a mesma importância dos cinco primeiros). Durante duas horas vão poder ser entretidos pela dinâmica entre as personalidades destas seis figuras que se unem sobre a égide de uma ameaça global. E é esse um dos maiores méritos deste filme: o entretenimento. Se a seriedade e negritude do Batman v Superman vos fez impressão, então a Liga da Justiça é a antítese que precisavam (eu adorei os dois). se gostam de duas horas sentados numa sala de cinema com a cabeça desligada, então preparem-se porque este filme é para vocês. Argumento simples (talvez simples demais), directo, com uma ameaça que os heróis têm que derrotar depois de conciliarem as diferentes personalidades. 

E que personalidades. Essa é maior força do filme. As trocas de picardias e de miminhos entre as personagens são descontraídas, sérias quando necessário e, acima de tudo, ditas por personalidades únicas. Apesar do Batman sorrir mais do que o Batman deveria sorrir, é ele quem tenta motivar os seus companheiros de equipa a se unirem. Flash assume o lado humorístico e deslumbrado mas não deixa de ser um herói na busca da sua coragem. Aquaman é uma torrente (perdoem o trocadilho) de força bárbara e de masculinidade (talvez o mais diferente da versão da BD). Cyborg é um homem conturbado pelo seu aspecto físico e por poderes que desconhece e o perturbam. E a Diana é a cola que os une. Gal Gadot continua a deslumbrar no papel da Mulher-Maravilha, cada vez mais assumindo ser um dos maiores casting (se não o maior) de sempre em filmes de super-heróis. Por causa do sucesso do filme homónimo temos muito de Diana no filme e a Liga só tem a ganhar com isso. Ela é, tal como esta personagem deve ser, força, graça, determinação e, acima de tudo, compaixão e compreensão. É ela a líder que a Liga precisa e tem.

A história é épica, como todas as histórias da Liga devem ser. O vilão deveria ser mais complexo mas parece que a DC decidiu inflectir para o caminho da Marvel e dar mais atenção aos heróis e menos ao vilão. Ainda assim, somos presenteados com o passado do antagonista, que aparece contextualizado numa visão unida do universo dos super-heróis desta versão de cinema. Poderiam ter ido mais longe? Poderiam e muito, mas para quem acha que estas coisas devem ser servidas de forma parcimoniosa, então têm o prato perfeito. 

Os detractores do estilo de Zack Snyder podem ficar descansados - dos quais não faço parte porque adoro Man of Steel e BvS. O factor Joss Whedon teve o efeito desejado. Existe mais humor e descontracção. A palete de cores é luminosa (o que podem confirmar comparando os trailers pré e pós contratação de Whedon). Ainda assim, a assinatura de Snyder não está completamente ausente. Existe, abordada muito ao de leve, uma temática transversal às personagens: os progenitores dos membros da Liga. Todos têm uma relação ou situação conturbada com os pais, o que é sublinhado em mais do que uma circunstância. Nota-se existir um linha narrativa mais profunda relacionada com esta temática mas que, infelizmente, não é explorada o suficiente. É francamente pena.

Sim, adorei o filme mas nem tudo são rosas. O maior problema é o bigode do Super-Homem. Sim, eu não me enganei a escrever. Quando fizeram refilmagens no verão passado, Henry Cavill trabalhava já no Missão Impossível, onde usa um bigode que não podia cortar. Esse bigode é apagado digitalmente e nota-se - muito. Outro problema, também relacionado com os efeitos digitais, é o uso desnecessário dos mesmos. Quando é que os produtores de grandes blockbusters irão aprender que um pôr-do-sol é mais belo quando verdadeiro e não feito por computador? Os directores de fotografia estão ali para isso. Não será difícil encontrar um bom pôr-do-sol ou, faltando, um ambiente realista capaz de veicular o peso emocional da cena. Num filme desta envergadura e com este orçamento estas duas falhas são grandes demais para passarem despercebidas e serem desculpadas. 

Um filme divertido e entretido em que as personalidades são o forte. Um enredo simplista mas que funciona melhor do que estava à espera.

PS - Não se esqueçam de esperar pelas duas cenas pós-crédito que são, ao mesmo tempo, um gigantesco presente para os fãs da DC e uma preparação para o próximo filme da Liga.

Thor Ragnarok de Taika Waititi

O que faz um filme dos estúdios da Marvel? São sempre de entretenimento puro e pop. Diversão a rodos. Complexidade moral no mínimo essencial. Personagens divertidos e com conflito interno q.b., o suficiente para que o enredo avance. Imagens claras e límpidas, bem iluminadas, de cores primais suaves e primaveris. E, claro, carradas de humor. Tudo cozinhado para saírem do forno umas duas horas de puro prazer quase, quase acerebral. Nada de mal com isso e este terceiro filme protagonizado pelo Thor de Chris Hemsworth é exactamente o produto dessa receita. Provavelmente estamos a falar do filme mais divertido e humorístico desta já longa série de longas-metragens dos estúdios da Marvel. Esse é o maior forte de Thor Ragnarok.

Do princípio ao fim, somos bombardeados por sketch de humor atrás de sketch de humor, com Chris Hemsworth a ser ele mesmo, um divertido surfista que veste a pele dos Deus do Trovão. O Loki de Tom Hiddleston é também ele um companheiro de pândega, o conflito entre os dois irmãos, tal como "shakespearianamente" explorado no primeiro desta série, agora um conjunto de oneliners e de momentos de humor dignos dos Three Stooges. Mesmo o aparecimento do Hulk acaba por descambar no buddy-movie, fazendo bom aproveitamento da parceria e conflito iniciados no primeiro filme dos Vingadores.  

Os vilões, a Hela de Cate Blanchett, o Surtur, o Grandmaster de Jeff Goldblum e o Executor de Karl Urban, cortejam ou assumem de forma descarada este lado leve e humorístico que parece ser a assinatura do realizador neozelandês, Taika Waititi, que chega a fazer a voz de uma das mais divertidas personagens do filme. Cate consegue fazer uma Hela tenebrosa mas, uma vez mais, incorre no problema dos vilões da Marvel: pouca complexidade. Goldblum é mais divertido e interessante como Grandmaster. Karl Urban é dos poucos a quem é dado algum (mas pouco) conflito emocional com que trabalhar (à semelhança do que foi feito com a personagem na BD, especificamente a escrita por Walt Simonson). 

Vou vos contar um segredo. Se ao lerem o que está acima não conseguem perceber o que eu acho do filme é porque o fiz de propósito. Até aqui não quis condicionar  a sua leitura ou sujeitar-vos a um lado menos favorável da minha opinião. Tudo o que escrevi pode ser entendido como um elogio ou uma crítica. Um paradoxo que representa o que senti. Foram duas horas divertidas mas este podia ser um filme do Thor como um episódio do Seinfeld (mas com piadas muito menos complexas). Cheguei a falar do primeiro, o de Kenneth Brannagh, e essa alusão não é despropositada. O conflito emocional entre Thor, Loki e Odin é aqui pouco mais que barulho de fundo e preparação para as piadas . O cliffhanger do segundo filme é resolvido em duas penadas, para dar espaço ao enredo de Hela e ao do mundo onde o Thor encontra o Hulk e a Valquíria (esta uma das mais interessantes personagens deste filme). O que parecia ser um plano desde o primeiro filme é descartado para dar lugar ao humor e ao deboche. Uma vez mais, nada de mal com isso, mas este não é o Thor do primeiro filme e muito menos o Thor da BD. Este é Chris Hemsworth a ser aquilo que é no mundo real: um surfista australiano, super porreiraço e pronto para a galhofa. 

Um dos mais interessantes aspectos de Thor Ragnarok é a homenagem, muito mais que merecida, a Jack Kirby, um dos mais importantes criadores do Thor na BD. Foi ele quem criou a escala cósmica e divina ao universo do Deus do Trovão. O seu maravilhoso estilo de desenho, nos décors e nas personagens, está presente, principalmente no mundo onde Thor encontra o Hulk. Nem que seja só por isso já este filme vale a pena ser visto pelos fãs da 9.ª Arte.

Thor Ragnarok é, provavelmente, o mais divertido dos filmes da Marvel. Cheio de humor, do primeiro ao último momento. Resta é saber se isso faz um filme do Thor. Pelo menos um da Marvel é sem duvidas.